O céu não tem cor. Cinza sólido, uniforme, sem nuvens, sem sol, sem nada que indique vida lá em cima. Só o rasgo. Enorme. Perfeitamente circular. Negro. Suspenso no horizonte como uma ferida aberta no tecido do mundo. O buraco não reflete luz. Não emite som. Apenas existe. E suga tudo na direção dele.
Milhares caminham em silêncio.
Filas intermináveis de gente se movendo devagar, carregando malas, sacolas, crianças no colo, ou nada. Apenas os corpos. Todos na mesma direção. Ninguém corre. Ninguém grita. Só caminham. Rostos cansados. Olhos vazios. Como se já tivessem aceitado que não há outra opção.
Jota paira acima da multidão.
Corpo leve. Voo fácil. Braços abertos, camiseta regata vinho rasgada na lateral direita, tênis surrados nos pés, cadarço direito solto balançando no vento. Mochila laranja nas costas pesando quase nada. Pendurado numa das alças, amarrado com arame: o retrovisor do Gol Bolinha. Único pedaço que sobrou. Espelho rachado refletindo o céu cinza. O caderno de anotações de capa dura marrom está lá dentro da mochila, ímã de geladeira cinza fosco preso na capa, embrulhado num pano velho. Escreveu nele antes de levantar voo. Três linhas apenas:
“Extinção confirmada. Buraco é a única porta. Frequência 50 aberta.”
No ouvido direito, um rádio pequeno. Transistor antigo, fita isolante segurando a antena. A frequência 50 chia baixo, constante, como respiração.
— Frequência 50, alguém me escuta? — a voz corta o chiado. Feminina. Rouca. Cansada mas firme.
Jota reconhece na hora. Maju Kuzito.
— Escuto — ele responde. Não precisa apertar botão. A voz sai direto, atravessa o ar, chega onde precisa chegar. — Onde você tá?
— Uns três quilômetros atrás. Tô vendo você voando. — Pausa. — Tem quanto tempo ainda?
Jota olha pra frente. O buraco tá a uns cinco quilômetros. Talvez menos. A multidão caminha devagar mas não para nunca.
— Meia hora. Talvez quarenta minutos.
— É seguro?
Jota não responde na hora. Desce um pouco. Paira mais perto das cabeças. Vê rostos. Velhos. Crianças. Gente que já desistiu de entender. Gente que ainda espera alguma coisa do outro lado.
— É a única coisa que tem — ele fala por fim.
Silêncio na linha. Depois:
— Então é pra onde eu vou.
A transmissão corta. Volta o chiado.
E então outra voz explode no rádio. Aguda. Nervosa. Fribilando:
— JOTA! CHÔ! VOCÊ TÁ AÍ?
Rosquinha.
— Tô, Rosquinha. Calma.
— CALMA PORRA NENHUMA! EU TÔ PROCURANDO BOY MAGIA COM NECA ODARA E SÓ TEM HETERO TRISTE AQUI!
Jota ri. Sem querer. O som sai estranho no meio do apocalipse.
— Você tá bem?
— TÔ UMA MERDA, CHÔ! MAS SE EU VOU MORRER, VOU MORRER ACOMPANHADO! TEM QUE TER UM BOFE DECENTE NESSA PORRA!
A voz some. Volta o chiado.
Jota sorri. Cansado. Mas sorri.
Continua voando.
Passa por cima das filas. Passa por cima dos que ainda carregam esperança e dos que já largaram tudo no caminho.
O buraco vai crescendo no horizonte. Cada vez mais próximo. Cada vez mais real.
Jota pousa na borda.
Não exatamente na borda. Uns dez metros antes. Onde a terra ainda existe. Depois disso, só o vazio. O buraco começa ali. Abrupto. Sem transição. Chão sólido de um lado, escuridão absoluta do outro.
O vento que sai de lá é quente. Cheira a terra molhada e eletricidade queimada. Sobe em rajadas irregulares, como se o buraco estivesse respirando.
Tem um homem parado ali.
Sozinho. De pé. Olhando o abismo.
Leandro Costa. Todo mundo chama ele de Liam Neeson desde… ninguém lembra quando começou. Ele parece. Ou não parece. Depende do penteado. Depende do vento. Mas o apelido grudou.
Barba grisalha, densa, mal cuidada. Rugas fundas ao redor dos olhos. Uma rajada muda a forma do cabelo — e por um segundo ele parece ainda mais com Liam Neeson. Mãos grandes, calejadas, uma delas segurando um cigarro apagado. Usa um sobretudo cinza surrado, botas de couro rachadas, e carrega o peso de quem viu o mundo acabar mais de uma vez.
Ele vira a cabeça quando Jota pousa.
— Você voa — não é pergunta. É constatação.
— Voo.
Liam Neeson assente. Olha de novo pro buraco.
— Já foi lá dentro?
— Ainda não.
— Vai?
— Vou.
Silêncio. O vento sobe mais forte. Jota sente o calor batendo no rosto. Liam Neeson volta a olhar o cigarro apagado na mão.
— Tem fogo?
Jota enfia a mão no bolso da calça. Tira o isqueiro amarelo. O sobrevivente. Acende na primeira tentativa. A chama dança no vento mas não apaga.
Liam Neeson se inclina. Acende o cigarro. Puxa fundo. Solta a fumaça devagar.
— Obrigado.
Jota guarda o isqueiro. Fica ali parado. Os dois olhando o buraco.
— Você acha que tem alguma coisa do outro lado? — Liam Neeson pergunta.
Jota demora pra responder.
— Não sei. Mas é pra onde todo mundo tá indo.
— E se não tiver nada?
— Então a gente morreu tentando. — Pausa. — Ou a gente já morreu faz tempo e só tá percebendo agora.
Liam Neeson ri. Seco. Sem humor.
— Você é otimista.
— Sou realista.
O rádio no ouvido de Jota chia de novo. A voz da Maju volta.
— Jota. Tô chegando perto. Dá pra ver o buraco daqui.
— Vê a borda?
— Vejo. — Pausa. — Tem um cara de sobretudo ali do seu lado?
Jota olha pro Liam Neeson. Ele continua fumando, olhando o vazio.
— Tem.
— Ele vai entrar?
Jota não sabe. Olha pra ele de novo.
— Você vai entrar? — pergunta direto.
Liam Neeson joga o cigarro no chão. Pisa. Olha pra Jota. Os olhos fundos, cansados, mas ainda vivos.
— Vou. Mas não agora. — Aponta com o queixo pra multidão que ainda se aproxima. — Deixa eles irem primeiro. Quero ver se alguém grita do outro lado.
Jota entende.
A multidão continua chegando. Agora mais perto. Os primeiros já estão a poucos metros da borda. Olham o abismo. Param. Hesitam. Depois entram.
Não pulam. Só caminham pra frente e desaparecem. Sem som. Sem grito. Apenas somem na escuridão.
Um atrás do outro.
E então Jota vê.
Rand Oliveira.
Caminhando no meio da multidão. Macacão azul. Ferramentas no cinto. Cabelo bagunçado. Olhar distante como sempre.
Ele chega na borda. Para. Olha pra baixo. Não hesita. Não olha pra trás.
Só dá um passo.
E cai.
Desaparece na escuridão.
Sem som.
Sem drama.
Como se estivesse entrando numa sala.
Jota fica parado. Observando a escuridão onde Rand sumiu.
Liam Neeson também viu.
— Ele conhecia o caminho — Liam Neeson fala baixo.
— Rand sempre conhece — Jota responde.
— Frequência 50 — Jota fala no rádio. — Eu vou na frente. Se tiver algo lá, eu aviso.
Três segundos de silêncio.
Depois a voz da Maju, mais baixa:
— Boa sorte, comandante.
Jota sorri sem humor.
Liam Neeson estende a mão.
— Boa sorte.
Jota aperta. Mão firme. Calejada. De quem já segurou muita coisa e soltou mais ainda.
— Valeu, Liam.
Jota se afasta da borda. Dá três passos pra trás. Respira fundo.
Tira a mochila laranja das costas. Abre. Pega o caderno. O ímã frio na palma quando segura a capa. Escreve rápido:
“Entrando agora. Se alguém ler isso, não foi covardia. Foi necessidade. Rand entrou antes. Ele sabia.”
Fecha o caderno. Guarda. Fecha a mochila. Coloca nas costas de novo. O retrovisor do Gol balança na alça. Reflete o céu cinza. Reflete o buraco. Reflete Jota.
Olha pra frente.
O buraco respira.
Jota corre.
Três passos. Quatro. Cinco.
Levanta voo.
Dispara.
Mais rápido que qualquer avião. Mais rápido que pensamento. Corpo cortando o ar, braços colados no corpo, mochila apertada nas costas, retrovisor tilintando contra a alça, vento uivando nos ouvidos.
A borda passa.
O chão some.
Só escuridão.
Jota entra no buraco como flecha. Como bala. Como último suspiro.
O vento fica mais quente. Depois gelado. Depois some.
A luz desaparece por completo.
O rádio no ouvido chia. Chia. Chia.
Depois:
— Jota? — a voz da Maju, distante, distorcida. — Você tá aí?
Ele tenta responder. Abre a boca.
Nada sai.
Só o vazio.
Só a queda.
Só a frequência 50 chiando no infinito.
E então, do nada, no meio da escuridão absoluta:
Luz.
