Capa do Capítulo

Fusca Azul Sumido

Extensão: 1.802 palavras | Leitura: 10 min

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Jota dirige pelas ruas estreitas do Centro, mão no volante grande e redondo, rádio chiando uma música antiga que ele não consegue identificar. O banco de tecido gasto range embaixo dele a cada curva. Janela entreaberta deixando o vento frio de Curitiba bater no rosto. O dia está claro, céu sem nuvem, aquele azul lavado de fim de tarde que parece mais distante do que deveria. Ele segura o volante com as duas mãos, olhos na rua, procurando vaga.

Um fusca azul claro passa na contramão.

O reflexo é automático.

— Fusca azul!

A voz sai sozinha, metade grito, metade risada. Ele levanta o punho direito no ar, como se fosse socar alguém no banco do carona. Mas o banco está vazio. Como sempre. O sorriso aparece mesmo assim, nostálgico, aquecido por dentro.

Quantas vezes ele gritou isso quando criança? Quantos socos divertidos deu no ombro do irmão, da prima, dos amigos da escola? “Fusca azul!” era troféu instantâneo, caça ao tesouro urbana, olho treinado pra lataria redonda azulada. Em Curitiba, todo mundo jogava. Todo mundo sabia.

Jota balança a cabeça, ancora de volta no presente. Estaciona numa vaga perto do ponto de ônibus, três quarteirões da Praça Osório, desliga o motor. O fusca fica parado ali, encaixado no meio-fio como se observasse tudo por conta própria. Ele fica esperando. Larissa disse que saía às seis. São cinco e cinquenta e oito.

Ele observa o movimento. Gente descendo de vans, atravessando a faixa, celulares na mão, mochilas nas costas. Procura o rosto dela entre os rostos. Cabelo castanho com franjinha reta, corpo alongado, tatuagens no braço. Nada ainda.

O rádio continua chiando baixo. Jota olha o relógio no painel. Cinco e cinquenta e nove. Tambor dos dedos no volante. Respira fundo. Ela vai aparecer. Só mais um minuto.

Um policial surge do lado da janela.

Jota leva um susto, vira rápido. O homem é alto, uniforme impecável, quepe baixo cobrindo metade do rosto. Não parece velho, não parece novo. Só parece policial.

— Boa tarde. Documentos do veículo, por favor.

A voz é firme, educada, mas sem espaço pra negociação.

Jota aponta com o queixo.

— Tá no carro, ali adiante. Posso pegar?

O policial faz um gesto curto com a mão.

— Vou com o senhor.

Jota desce. O ar frio bate mais forte agora, camiseta regata vinho colada no corpo por baixo da camisa fina de botão. Ele fecha a porta, tranca com a chave, enfia no bolso. Começa a andar. O policial segue dois passos atrás, presença silenciosa mas pesada.

A rua está cheia. Carros estacionados dos dois lados, buzinas ao longe, gente atravessando. Jota dobra a esquina onde tem certeza absoluta que deixou o fusca. Lembra perfeitamente: vaga entre um Corsa branco e uma Saveiro prata, lado direito, sombra de árvore caindo no capô.

Só que não tem fusca.

Tem uma moto vermelha. Tem um espaço vazio. Tem a Saveiro prata. Mas entre eles, nada.

O coração de Jota dá um salto seco.

Ele para. Olha de novo. Pisca. Talvez tenha se confundido. Talvez seja uma rua adiante. Caminha mais dez metros, olhos varrendo cada vaga. Nada. Volta. Confere de novo o mesmo trecho.

O fusca azul simplesmente evaporou.

Nem sombra da lataria redonda, nem reflexo do para-brisa curvo. O carro que ele dirigiu até aqui, que estacionou com as próprias mãos, que trancou com a chave que está no bolso agora, desapareceu.

O policial cruza os braços.

— O veículo, senhor?

Jota sente o suor frio descer pelas costas.

— Estava aqui. Eu juro. Azul claro, fusca 1600, placa… placa…

A placa não vem. Nunca teve placa. A imagem vem clara — lataria redonda, azul perfeito, volante grande nas mãos — mas quando tenta puxar a placa, só vazio. Como se o fusca nunca tivesse precisado de uma.

— Pode ter sido guinchado — o policial sugere, tom neutro.

— Não dá tempo! Eu acabei de estacionar!

Jota dá meia-volta, anda rápido, quase corre. Verifica a rua paralela. Nada. Volta pra rua de baixo. Nada. Os olhos varrem cada carro, cada viela, cada canto onde um fusca azul poderia estar escondido. Mas fusca não é carro pequeno. Fusca não se esconde.

O ponto de ônibus agora parece distante demais.

Larissa provavelmente já passou.

E Jota está aqui, suando frio, com um policial no encalço, procurando um carro que sumiu do mapa.

Dez minutos se passam. Talvez quinze. A busca se expande. Jota caminha quarteirões inteiros, mente acelerada, coração batendo torto. Como assim um carro desaparece? Como assim a realidade engole uma coisa física, sólida, palpável?

— Senhor, preciso ver os documentos.

A voz do policial corta o desespero silencioso.

— Eu sei! Eu sei, só… só me dá mais um minuto…

Jota vira outra esquina. E para.

Larissa está parada na calçada, corpo alongado encostado no poste, tatuagens visíveis no braço, olhando o celular. Ela levanta os olhos, vê Jota, franze a testa.

— Opa! — Ela guarda o celular. — Pensei que tinha desistido. Você tá suando. Aconteceu algo?

Jota caminha até ela, respiração ainda acelerada.

— Eu tava aqui. Só… não achei onde estacionei.

— Cadê seu carro?

A pergunta é simples, natural. Mas bate como soco.

— O fusca azul. Eu… não consigo achar.

Larissa franze a testa, quase rindo.

— Que fusca?

Jota para.

— O fusca. Azul claro. Vim de fusca.

— Geraldo… — Ela ri de leve, carinhosa. — Você tem um Gol cinza.

O mundo para.

Jota olha pra ela. Depois pro policial, que continua dois metros atrás, braços cruzados. Depois pra rua.

— Não. Eu vim de fusca. Azul. Tenho certeza.

Larissa encosta a mão no ombro dele.

— A gente tava falando disso ontem, né? Todo mundo jogava “Fusca Azul” quando pequeno. — O sorriso dela é doce, sem zombaria. — Meu primo também ficava obcecado. Via fusca em todo canto.

Jota não responde.

A mente dele roda. Fusca azul. Gol cinza. Fusca azul. Gol cinza.

Ele fecha os olhos, respira fundo. Tenta lembrar do carro que dirigiu até aqui. A imagem vem: lataria redonda, azul claro, volante grande, banco de tecido gasto rangendo a cada curva. Fusca. Com certeza fusca.

Mas Larissa diz que é Gol.

E Larissa não mente.

Ele abre os olhos, vira, caminha de volta. Devagar agora. Pés pesados. Cabeça zunindo.

Dobra a esquina de novo. Olha a mesma vaga onde tinha certeza que estacionou.

E lá está.

Gol Bolinha Cinza Urban 2003.

Duas portas. Lataria fosca. Calotas originais VW. Placa dele. A placa que ele nunca conseguiu lembrar quando o policial perguntou, mas que agora reconhece na hora: a placa que sempre foi dele.

Jota para na calçada, olhando o carro.

O policial aparece ao lado.

— Esse é o veículo, senhor?

Jota não consegue falar. Só assente. O policial estende a mão. Jota enfia a mão no bolso, pega a chave, entrega. O policial abre a porta, confere o porta-luvas. Manual do veículo. Documentos em ordem. Devolve tudo.

Olha pra Jota. E antes de ir embora, diz:

— Acontece. A gente às vezes dirige o carro que queria ter, não o que tem.

Vira e vai embora.

Simples assim.

Jota fica ali, parado na calçada, olhando o Gol Bolinha cinza. Abre a porta do carona. A mochila laranja está no banco, aberta. Ele olha dentro, mecânico, quase automático.

Caderno marrom de capa dura.

Isqueiro amarelo.

Camiseta regata vinho dobrada.

Tênis surrado com o dedão aparecendo pelo buraco, cadarço direito solto.

Tudo ali. Tudo no lugar.

As provas físicas de que esse é o carro dele. O carro que sempre foi dele.

Jota fecha a mochila. Fecha a porta. Dá a volta, entra no banco do motorista. O estofado afunda com os 110 quilos de sempre. O volante é duro, sem direção hidráulica. O painel tem o rádio velho chiando baixo.

Ele enfia a chave na ignição. Vira. O motor 1.0 16v ronca, fraco mas fiel.

Toc toc toc.

Alguém bate na janela.

Jota vira, coração disparado.

O policial está ali. Do lado de fora. Quepe baixo, uniforme impecável. O mesmo rosto. A mesma postura.

— Boa tarde. Documentos do veículo, por favor.

O mundo congela.

Jota olha pro banco do carona. Mochila fechada. Ninguém ali. Larissa não está ali.

Olha pro relógio do painel.

Cinco e cinquenta e nove.

O policial bate de novo, paciente.

— Senhor?

Jota respira fundo. Mãos tremendo. Abre o porta-luvas. Pega os documentos. Manual. CRLV. Passa pela janela entreaberta.

O policial confere. Olha a placa. Olha Jota. Devolve.

— Está tudo em ordem. Tenha um bom dia.

E vai embora.

Simples assim.

Jota fica parado, mãos agarradas no volante do Gol Bolinha. Gol. Não fusca. Nunca fusca.

Respira fundo. Olha a rua. Olha o relógio. Seis horas.

Larissa aparece na calçada, corpo alongado, tatuagens visíveis, sorriso no rosto. Vê o Gol, vê Jota, acena. Caminha até a janela.

— Opa! Pensei que ia me deixar esperando.

Jota não sabe o que dizer. Só abaixa o vidro elétrico dianteiro.

— Tá tudo bem? — ela pergunta, franzindo a testa. — Você tá suando.

— Tô. — A voz sai rouca. — Tô bem.

Larissa dá a volta, entra no banco do carona. Joga a mochila dela no colo. A mochila laranja dele ainda está no banco de trás, fechada.

— Vamos? — Ela sorri.

Jota engata a primeira. O Gol Bolinha sai devagar, motor roncando baixo, rodas sobre o asfalto frio de Curitiba.

Larissa mexe no rádio, muda a estação. Uma música antiga toca, chiando. Ela canta junto, desafinada, feliz.

Jota dirige, olhos na rua, mãos no volante duro.

Duas quadras depois, ele freia de repente.

Larissa olha pra ele.

— O que foi?

Jota olha pro retrovisor. Um fusca azul claro sumindo na curva. Ou não. Talvez fosse cinza. Talvez fosse só sombra.

— Fusca azul — ele murmura, e dá um tapinha leve no ombro dela.

Larissa ri.

— Seu bobo!

Ele volta a dirigir.

Mas enquanto dirige, olhos na rua, mãos no volante duro, Jota ainda procura.

Procura entre os carros estacionados.

Procura nas ruas paralelas.

Procura nos reflexos dos vidros.

O fusca azul.

Aquele que ele dirigiu até aqui.

Aquele que ele tinha certeza absoluta que era dele.

Aquele que nunca existiu.

Ou que existiu por quinze minutos dentro da própria cabeça, enquanto o relógio não se movia e o policial esperava do lado de fora.

E no fundo, bem no fundo, ainda procura o fusca.

O azul.

Aquele que nunca teve.

Aquele que sempre quis.

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Sinopse Narrativa:

Jota tem certeza que dirige fusca azul claro pelo Centro esperando Larissa às 6h. Grita "Fusca azul!" ao ver outro (jogo da infância). Estaciona 5h58. Policial pede documentos. Jota vai buscar no carro, fusca DESAPARECEU da vaga. Procura desesperado 10-15min. Larissa aparece: "Você tem Gol cinza". Jota olha vaga: Gol Bolinha Cinza está lá (sempre esteve). Policial: "A gente às vezes dirige o carro que queria ter, não o que tem". LOOP REINICIA: Jota entra no Gol, relógio 5h59, MESMO policial bate janela de novo pedindo documentos. Larissa chega às 6h. Dirigindo Gol, Jota vê fusca azul sumindo (ou não). "Ainda procura o fusca que nunca teve. Aquele que sempre quis."

Gênero Realismo Mágico, Suspense Psicológico
Tom Confuso, Nostálgico, Onírico
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Distorção de realidade, Loop temporal
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Distorção temporal, Memória falsa, Nostalgia e desejo versus realidade
Locais centro, Curitiba, ponto de ônibus, Praça Osório, ruas estreitas, vaga
Palavras-Chave 5h59, carro que queria ter não que tem, desaparece reaparece, fusca azul, Gol cinza, Larissa, loop temporal, policial repetido
CRÍTICO: Jota TEM CERTEZA ABSOLUTA que dirige FUSCA AZUL CLARO 1600: "volante grande e redondo", "banco de tecido gasto range", "lataria redonda", "volante grande nas mãos". Jogo infância "Fusca Azul": ao ver fusca azul, grita e soca ombro da pessoa (irmão, prima, amigos escola). "Em Curitiba, todo mundo jogava". Jota grita "Fusca azul!" e levanta punho (banco carona vazio). Estaciona 5h58, espera Larissa sair às 6h. Policial pede documentos. Fusca SOME da vaga (entre Corsa branco e Saveiro prata, sombra árvore no capô). Jota não consegue lembrar PLACA do fusca: "nunca teve placa". Procura desesperado 10-15min. Larissa aparece, pergunta cadê carro. Jota: "O fusca azul". Larissa: "Que fusca? Você tem um GOL CINZA". "A gente tava falando disso ontem. Todo mundo jogava Fusca Azul quando pequeno". Jota olha vaga: GOL BOLINHA CINZA URBAN 2003 está lá. Placa que "sempre foi dele" (mas não conseguia lembrar quando era fusca). Policial confere documentos: "Está tudo em ordem". Fala: "A gente às vezes dirige o carro que queria ter, não o que tem". LOOP TEMPORAL: policial vai embora, Jota entra no Gol, confere mochila (tudo lá), enfia chave ignição, vira motor. POLICIAL BATE JANELA DE NOVO: "Boa tarde. Documentos do veículo, por favor". MESMO policial, MESMO uniforme, MESMA voz. Relógio: 5h59. Jota passa documentos, policial confere, devolve: "Está tudo em ordem. Tenha um bom dia". Larissa chega às 6h, entra no GOL (não fusca). Dirigindo, Jota freia: vê fusca azul sumindo curva (ou cinza, ou sombra). Murmura "Fusca azul", dá tapinha ombro Larissa. Ela ri. Dirigindo, "ainda procura o fusca. O azul. Aquele que nunca teve. Aquele que sempre quis." 110kg. Camisa fina de botão por cima da regata vinho.
 

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