O micro-ônibus ocupava o último canto do terminal como se fosse o único veículo disposto a enfrentar o que esperava lá fora. Jota estava sentado no banco do corredor, mochila laranja aos pés, três garrafas de Sprite espalhadas ao redor — uma grande de dois litros meio vazia, uma média ainda lacrada, e uma pequena de 600ml gelada, suando condensação no plástico. Tamanhos diferentes da mesma bebida, como se ele tivesse comprado versões alternativas dela em realidades paralelas.
O motor do ônibus ronronava baixo, quase um ronrom de gato grande, e o aquecedor soprava ar quente contra as pernas dele. Por isso a camiseta regata vinho não incomodava, mesmo com a camisa fina de botão por cima meio aberta. Lá dentro, o calor era quase acolhedor. Lá fora, o mundo congelava.
Curitiba nunca congelou assim. Mas hoje congelou.
Do outro lado do vidro embaçado, o rio se partia.
Não era rio exatamente. Ou talvez fosse, mas agora era outra coisa: um campo de gelo rachado, placas grossas flutuando lentas, separando-se umas das outras com estalos que ecoavam no ar gelado. Água escura aparecia entre os blocos, quase preta, como se houvesse profundidade infinita ali embaixo. Geleiras em miniatura, rachando, gemendo, se desfazendo devagar sob um céu branco que não era céu, era só mais gelo refletindo luz de lugar nenhum.
O ônibus precisava atravessar aquilo.
Jota sabia disso.
Mas não era por isso que estava ali.
Ele deu um gole longo na Sprite grande. O gás subiu queimando a garganta, fazendo os olhos arderem. Colocou a garrafa de volta no chão, olhou para as outras duas. Pegou a média, abriu. O psiu foi mais baixo, quase sussurro. Bebeu. O sabor era mais doce, ou parecia — temperatura ambiente amolecia o gás, deixava o líquido pastoso na língua. Guardou todas de volta na mochila laranja. As garrafas se acomodaram lá dentro.
A motorista era uma mulher de cabelo curto grisalho, jaqueta de couro surrada, mãos firmes no volante mesmo com o motor desligado. Ela não olhava para Jota. Olhava para o painel, para os controles, às vezes para o rio congelado lá fora. Não parecia ter pressa. Nem medo. Só esperava.
— O ônibus tem direção automática — ela disse de repente, sem virar o rosto. — Eu só vou até a curva. Depois ele segue sozinho.
Jota assentiu, mesmo sem ela ver.
— Até onde?
— Até onde precisar.
A resposta não esclareceu nada, mas pareceu suficiente.
Ele voltou a olhar pela janela. Do outro lado do rio, luzes fracas piscavam. Um lugar que ele nunca tinha visto de perto. Um lugar que ele não sabia se existia antes desse momento, mas que agora o chamava com força gravitacional silenciosa.
Fascínio.
Era isso. Fascínio puro, irracional, inevitável.
Jota queria ver o que havia lá. Queria pisar do outro lado antes de qualquer coisa. Antes de ajudar quem precisava ser ajudado, antes de cumprir o que quer que fosse que ele deveria cumprir. Só queria saber. Ver com os próprios olhos. Sentir com os próprios pés.
Primeira vez. Última vez.
A sensação bateu no peito como revelação: se ele não fosse agora, nunca mais teria a chance. Não era questão de oportunidade. Era questão de existência. Aquele lugar do outro lado do rio só existia naquele momento, naquela configuração específica de gelo e luz e ar gelado. Amanhã seria outra coisa. Daqui a uma hora, talvez nem existisse mais.
Jota desceu do ônibus e encontrou um ar frio como lâmina, cortando a garganta, queimando os pulmões. Deu dois passos, pisou no chão coberto de neve fina. O frio subiu pelas solas dos tênis surrados, entrou pelo buraco no dedão esquerdo, congelou os ossos dos pés.
O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava na oficina logo ali, sozinho, coberto de gelo nas janelas, como lembrança de outro mundo. Duas portas, sem ar-condicionado, sem direção hidráulica. O carro que tinha deixado ali para conserto, mas que não podia cruzar o rio — muito leve, rodas pequenas, afundaria no primeiro bloco de gelo.
Só o ônibus podia.
Jota caminhou até a beira.
O gelo começava logo ali. Blocos imensos, rachados, flutuando devagar. Alguns se chocavam com barulho surdo que ecoava nos ossos, outros deslizavam em silêncio. A água escura entre eles parecia viva, respirando, esperando.
Do outro lado, as luzes piscavam mais fortes agora. Ou talvez fosse só impressão. Talvez fosse ele que estava vendo melhor, mais perto, mais real.
— Nunca é como a gente imagina.
Jota virou. Um homem estava ao lado dele, macacão azul surrado, cabelo desgrenhado, cigarro apagado pendurado no canto da boca. Rand Oliveira. O técnico. O fantasma. O amigo que aparecia e sumia como se existisse em frequência diferente do resto do mundo.
— Rand?
— É sempre diferente — Rand continuou, ignorando a surpresa na voz de Jota. — O outro lado. Nunca é como você pensa que vai ser.
Jota enfiou a mão no bolso, pegou o isqueiro amarelo, ofereceu. Rand pegou, acendeu o cigarro com gesto lento, deu uma tragada longa. A chama do isqueiro iluminou o rosto dele por um segundo, e Jota teve a impressão estranha de que Rand estava mais velho. Ou mais novo. Difícil dizer.
A fumaça subiu, misturada com o ar gelado, cheiro forte de tabaco cortando o frio.
— Você já atravessou?
Rand devolveu o isqueiro, soprou a fumaça pro lado.
— Eu atravesso. Você observa.
— Como assim?
— Alguns atravessam. Outros só observam. — Rand deu mais uma tragada, olhou para o rio. — Não é questão de coragem. É questão de função.
Jota franziu a testa.
— Que função?
Rand sorriu de canto, jogou o cigarro no chão, pisou.
— Você vai entender.
E deu um passo. A neve subiu. Jota piscou e ele desapareceu.
Não saiu andando. Não virou as costas. Desapareceu. Como sempre fazia. Como se tivesse apagado um interruptor da própria existência.
Jota ficou ali parado, olhando para o lugar onde Rand estava um segundo antes. O cigarro ainda fumegava no chão, marca física de algo que talvez nem fosse físico.
Atrás dele, a motorista falou:
— Ele sempre faz isso.
Jota virou. Ela estava na porta do ônibus, encostada no batente, braços cruzados.
— Você viu?
— Todo mundo vê. Nem todo mundo percebe.
Ela voltou pro ônibus. Jota ficou mais um minuto olhando o cigarro fumegante, depois seguiu.
O gelo estalou alto. Um bloco imenso se partiu ao meio, as duas metades se afastando devagar, abrindo fenda larga de água preta. O som ecoou nas paredes do terminal, grave, vibrou no peito de Jota como segundo coração.
Ele voltou para o ônibus.
A motorista continuava no mesmo lugar, mãos no volante, olhos no painel. Ela não perguntou onde ele tinha ido. Não precisava.
Jota sentou no banco do corredor de novo. O ar gelado ainda entrava pelo buraco no dedão esquerdo, mas agora era suportável, quase reconfortante — lembrete de que ainda havia frio lá fora. Pegou a Sprite pequena da mochila — a gelada, a que suava condensação —, abriu com estalo seco. O gás explodiu na boca, agulhas geladas furando o céu da boca, frio cortante misturado com doçura artificial. Ele segurou a garrafa contra a testa, sentindo o frio queimar a pele quente. Os dedos congelaram no plástico gelado.
O motor aumentou o ronco.
Não foi a motorista que ligou. O ônibus ligou sozinho. Vibração subiu pelo chão, pelas paredes, pelos bancos. O aquecedor soprou mais forte. O painel acendeu com luzes verdes e azuis, e uma voz mecânica, quase feminina, anunciou:
— Direção automática ativada. Destino: cruzamento.
A motorista tirou as mãos do volante.
O ônibus começou a se mover.
Devagar. Muito devagar. Deslizando sobre a neve do terminal, aproximando-se da beira, das placas de gelo flutuantes. Jota sentiu o momento exato em que as rodas tocaram o gelo: um balanço suave, quase imperceptível, como entrar em elevador que desce sem aviso.
O ônibus atravessava.
Ele olhou pela janela. O gelo passava por baixo, rachado, branco-azulado, cheio de fendas escuras. Água aparecia entre os blocos, salpicava nas laterais do ônibus, congelava de novo no vidro. O som era constante: estalo, gemido, rangido, como se o rio inteiro estivesse reclamando da invasão.
As luzes do outro lado ficavam mais próximas.
Jota abriu a mochila laranja, pegou o caderno marrom, abriu numa página em branco. Pegou a caneta. Hesitou. O que escrever? O que dizer sobre um lugar que só existe enquanto você atravessa?
Memorizou as palavras para escrever depois, pois importava o momento agora:
“Alguns atravessam. Outros só observam.”
Fechou o caderno.
Uma página solta caiu.
Jota pegou.
Leu.
A mesma frase que tinha memorizado. Mesma página amarelada nas bordas.
Mas a letra era… dele?
Parecia. Mas diferente. Mais trêmula. Ou mais firme. Letra de quando tinha quinze? De quando tiver sessenta? Impossível dizer.
Ele já esteve aqui antes.
Ou vai estar de novo.
Guardou a página de volta no caderno. Fechou. Guardou na mochila.
A motorista olhou para ele pelo retrovisor. Não disse nada. Só olhou. E naquele olhar, Jota entendeu que ela também sabia. Sabia sobre Rand. Sabia sobre a diferença. Sabia que o mundo tinha atravessadores e observadores, e que ele, Jota, estava em algum lugar entre os dois, no limbo de quem testemunha mas não interfere, de quem vê mas não toca.
O ônibus parou.
Não chegou do outro lado. Parou no meio. Entre as placas de gelo. Entre as duas margens. Entre o terminal e as luzes. Suspenso. Flutuando. Como se houvesse um ponto intermediário que não era nem lá nem cá, mas era tudo ao mesmo tempo.
A voz mecânica anunciou:
— Passagem concluída.
Mas não tinha terminado. Jota sabia disso. Olhou pela janela e viu que o gelo continuava se movendo, as placas deslizando, a água aparecendo e sumindo, tudo em fluxo constante. O rio não parava. A passagem não parava. Talvez nunca parasse.
A motorista acendeu um cigarro. A chama do fósforo iluminou o rosto dela. Tragada longa. Fumaça subindo.
— Sempre para aqui — disse, voz baixa.
O mesmo cheiro. O cigarro de Rand.
Talvez a passagem fosse o destino.
Ele pegou a Sprite gelada de novo, bebeu o último gole. O gás subiu queimando. Tirou as outras duas garrafas da mochila, colocou as três no chão, lado a lado. Três tamanhos. Três versões. Três realidades da mesma coisa.
Rand apareceu de novo.
Dessa vez dentro do ônibus, sentado no banco da frente, de costas para Jota. Não virou. Não falou. Só ficou ali, existindo, como prova de que algumas presenças não precisam de explicação.
E continuou ali. Passageiro eterno da travessia que nunca termina.
Jota olhou pra Rand, sentado ali na frente, imóvel.
Alguns atravessam. Outros observam.
Não era fraqueza. Não era escolha.
Era só o lugar de cada um.
E o dele era ali — testemunha do rio que nunca para de rachar.
E então lembrou.
Tinha alguém esperando do outro lado. Rosto que ele quase via, nome que quase ouvia. Mãos que ele deveria segurar, palavras que deveria dizer. Algo urgente, essencial, que o trouxe até ali.
Mas a urgência derreteu como o gelo no vidro.
Não lembrava mais quem.
Não lembrava mais o quê.
Só lembrava que esqueceu.
E estava em paz com isso.
O motor do ônibus diminuiu o ronco, vibração descendo até sincronizar com o peito de Jota. Coração e máquina no mesmo compasso. O aquecedor soprou mais suave. A motorista segurou o volante de novo, mas não o girou. Só segurou. Como quem segura algo que não precisa ser guiado, só acompanhado.
Jota encostou a cabeça no vidro frio. Do outro lado, as luzes piscavam. Perto. Longe. Sempre na mesma distância impossível.
Ele fechou os olhos.
Sentiu o frio do vidro na testa. O motor vibrando embaixo dos pés. O cheiro de Sprite e cigarro misturados no ar quente do ônibus. Tudo real. Tudo acontecendo.
E o ônibus continuou atravessando.
Sempre.
