Capa do Capítulo

Gravata ao Vento

Extensão: 1.499 palavras | Leitura: 8 min

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Jota larga na frente do pelotão, terno preto impecável, gravata azul-escura batendo contra o peito como bandeira. O asfalto passa rápido sob os pneus finos, pernas girando com força, pulmões queimando no ritmo da cadência. Ele é o coelho da prova, o que dita o ritmo, o que puxa o grupo até o limite, o que deve tentar quebrar os outros antes que ele quebre.

O vento corta a cara, abre o paletó, faz a camisa branca colar no corpo suado. Debaixo dela, a camiseta regata vinho sufoca, abafada, grudada na pele como segunda camada que ninguém vê. Ele sente o peso dela ali, escondida, apertando. No bolso do paletó, o isqueiro amarelo bate contra o peito a cada pedalada — peso morto, sem função, mas presente.

Ele pedala mais forte. Os ombros sobem e descem, o clip dos sapatos sociais estalando nos pedais emprestados, som metálico e desconfortável que ecoa a cada movimento. Atrás, o grupo segue grudado, rostos vermelhos, bocas abertas sugando ar, rodas cantando no asfalto. Jota sente o peso deles na nuca, como se puxasse uma corrente invisível amarrada nas costas.

Acelera de novo.

Os músculos das coxas gritam. A gravata vira chicote, bate no pescoço, incomoda, sufoca. Ele não para para ajeitar. Não pode. Precisa abrir distância, precisa que doa nos outros mais do que dói nele. Precisa provar que está no comando, que o ritmo é dele, que a liderança não é só posição mas domínio.

Curva fechada à direita.

Inclina o corpo, joelho quase raspando o chão, pneu cantando na borda do asfalto. Quase perde a linha. Recupera. E no meio da curva, vê: um Gol Bolinha cinza estacionado na calçada. Duas portas, lataria fosca, placa dele — tem certeza, conhece cada número de cor. Pelo vidro embaçado, vê o caderno marrom no painel. Parado. Esperando.

Mas não há tempo pra confirmar. A bicicleta já passou, já virou, já segue.

O mundo dele está parado ali, estacionado, esperando.

E ele está aqui, pedalando de terno, sufocando, tentando provar algo que não sabe mais o quê.

A subida começa logo depois da curva. Inclinação suave mas constante, daquelas que queimam as pernas devagar, que não machucam de imediato mas vão acumulando ácido lático até as coxas virarem pedra. Jota levanta do selim, pedala em pé, joga o peso do corpo sobre os pedais. O paletó abre, a gravata bate no rosto, o suor escorre pela testa e entra nos olhos, arde.

Um ciclista amador passa por ele na subida.

Calmo. Tranquilo. Pernas frescas. Bermuda de lycra, camiseta técnica, mochila laranja enorme nas costas — a dele? Idêntica. Mas como? — balançando de leve. Sem terno. Sem gravata. Sem peso social. O cara nem olha pra Jota, só passa, respira fundo, continua subindo.

Jota aperta os dentes.

Tenta acompanhar. Empurra mais força nas pernas. A bicicleta avança, mas devagar, pesada, como se o ar tivesse virado mel. O amador some lá na frente, desaparece na curva seguinte, levando a mochila laranja — a dele, não a dele, impossível saber — pra longe.

Jota continua sozinho. Liderando. Puxando. Mas sem acelerar de verdade.

Olha rápido para trás.

O pelotão ainda está ali. Colado. Grudado. Como sombra que não desgruda, como dívida que não se paga. Rostos vermelhos, músculos tensos, mas ninguém cede. Ninguém quebra. Ninguém desiste.

E no meio do grupo, Rand Oliveira.

Macacão azul. Pedalando calmo, olhos fixos em Jota. Sem esforço aparente. Sem suor. Só ali. Observando. Testemunhando.

Jota pisca. Olha de novo.

Rand continua lá. Silencioso. Presente.

E ele percebe, com clareza gelada que corta mais fundo que o vento:

Não importa o quanto ele pedale, não importa quanto doa, não importa quanto force o ritmo não quebra porque o pelotão não quer quebrar eles seguem porque é seguro seguir porque ele está na frente levando o vento abrindo o arrasto sofrendo sozinho enquanto eles economizam energia grudados na roda dele.

Ele está puxando o grupo inteiro com as próprias costas.

E o grupo não agradece. Só espera o momento certo pra ultrapassar.

Jota engole seco. O ar quente queima a garganta. A gravata aperta o pescoço como mão de carrasco. O terno gruda na pele, cada fibra do tecido lembrando que aquela roupa não foi feita pra isso. Não foi feita pra esforço. Não foi feita pra liderar. Foi feita pra reuniões, pra cumprimentos formais, pra fingir controle enquanto o mundo desmorona por dentro.

Mas ele continua pedalando.

Porque parar agora seria admitir. Seria aceitar que não basta. Seria olhar pra trás e ver todos passando, um por um, enquanto ele fica ali, parado, de terno amassado e gravata torta, assistindo a liderança evaporar.

A estrada segue reta agora. Longa demais. Horizonte que não chega nunca. O asfalto estica como provocação, como zombaria silenciosa. Jota respira fundo, engole o ar quente, aperta o guidão até os dedos ficarem brancos, unhas cravando nas palmas das mãos mesmo através da fita de guidão.

Pedala.

Pedala mais.

As pernas não respondem como antes. Os músculos tremem, ameaçam ceder. O coração explode no peito, batidas irregulares, descompassadas, como se também estivesse cansado de tentar. O suor escorre pelas costas, encharca a camisa branca, mancha o paletó preto. A camiseta regata vinho debaixo cola na pele como mortalha.

E a gravata continua batendo.

Chicote. Bandeira. Peso morto. Símbolo de algo que ele não consegue mais nomear.

A visão escurece nas bordas.

Pontos pretos dançando nos cantos dos olhos. As mãos afrouxam no guidão. Por um segundo — um segundo eterno — ele vai cair. Vai quebrar. Vai acabar.

O guidão oscila.

A bicicleta balança.

Jota prende a respiração.

E aperta de novo.

Aperta até os dedos doerem. Até as unhas furarem a pele. Até o sangue voltar aos músculos dormentes.

Não cai.

Escolhe não cair.

Pedala de novo.

Jota olha pra frente. Só asfalto. Só vento. Só esforço que não se traduz em resultado.

Olha pra trás de novo.

O pelotão continua lá.

Não mais perto. Não mais longe. Exatamente na mesma distância. Como se houvesse uma corda elástica invisível conectando ele ao grupo, esticando mas nunca rompendo. Ele acelera, a corda estica. Ele desacelera, a corda encurta. Mas nunca rompe.

Nunca liberta.

Rand continua lá. E agora outros rostos conhecidos aparecem no pelotão — pessoas que passaram por sua vida. Pedalando. Observando. Sabendo.

A percepção bate como soco:

Ele está liderando, sim.

Mas sendo usado ao mesmo tempo.

Puxado pra frente não por mérito, mas por função. O sacrifício necessário. O que vai na frente pra levar o vento, pra abrir caminho, pra quebrar primeiro enquanto os outros se preparam pra atacar.

Jota sente a garganta fechar.

Não de cansaço. De raiva. De frustração. De aceitação amarga de que não importa quanto ele force, quanto ele tente, quanto ele doe — o papel dele já está definido.

Liderar até quebrar.

E quando quebrar, ser ultrapassado.

Ele continua pedalando.

Porque não sabe fazer outra coisa. Porque parar é pior. Porque desistir seria confirmar que nunca foi líder de verdade, só um coelho mecânico que corria na frente enquanto os outros economizavam energia pra glória final.

A gravata bate de novo. Mais forte. Como se tivesse vida própria. Como se quisesse sufocar.

Jota puxa com a mão direita, afrouxa o nó, mas não tira. Não pode tirar. Tirar seria admitir que a roupa estava errada desde o início. Que ele estava errado desde o início.

Então deixa a gravata onde está.

Batendo. Chicoteando. Sufocando.

E pedala.

A estrada não acaba. O pelotão não quebra. Aumenta a quantidade de pessoas. O esforço não basta.

Mas ele continua na frente.

Sozinho na liderança.

Correndo contra si mesmo.

O Gol está lá atrás. Quilômetros atrás. Estacionado. Caderno marrom no painel. Camiseta regata vinho escondida debaixo da camisa social. Isqueiro amarelo sem função no bolso do paletó. E agora passa por outros carros — todos que já teve, todas as versões de si mesmo estacionadas na beira da estrada.

Tudo parado. Esperando. Tudo passando.

E ele pedalando pra longe. Vestido de terno e gravata. Afastando-se da própria identidade a cada pedalada.

A gravata se solta.

Cai.

Fica pra trás, no asfalto, como bandeira abandonada.

Jota nem olha.

Continua pedalando.

Pedalando até o corpo ceder ou a mente aceitar que liderar, às vezes, é só uma forma mais digna de se sacrificar.

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Sinopse Narrativa:

Jota pedala de TERNO PRETO E GRAVATA AZUL-ESCURA como "coelho da prova" - lidera pelotão, dita ritmo, puxa grupo até limite, tenta quebrar outros antes de quebrar. Camiseta regata vinho escondida embaixo (sufoca). Isqueiro amarelo no bolso paletó (peso morto). Vê Gol Bolinha cinza estacionado (caderno marrom no painel). Ciclista amador passa ele com mochila laranja enorme. Rand no pelotão (macacão azul, calmo, sem esforço, observando). Percepção amarga: pelotão não quer quebrar, seguem porque ele "leva o vento, abre arrasto, sofre sozinho enquanto economizam energia". "Liderar até quebrar. E quando quebrar, ser ultrapassado". Gravata bate como chicote, sufoca. Afrouxa mas não tira. Gravata SE SOLTA sozinha, CAI no asfalto. Jota continua. "Liderar, às vezes, é só uma forma mais digna de se sacrificar".

Gênero Alegoria, Metáfora Psicológica
Tom Intenso, Metafórico, Opressivo
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Metáfora sobre liderança, Metáfora sobre sacrifício
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Exaustão profissional, Liderança como sacrifício, Ser usado versus liderar
Locais Estrada
Palavras-Chave coelho da prova, gravata cai, levar o vento, liderar até quebrar, pelotão colado, Rand observando, sacrifício, terno e gravata
CRÍTICO: Alegoria sobre liderança e sacrifício. Jota é "COELHO DA PROVA" - dita ritmo, puxa grupo até limite, deve quebrar outros antes de quebrar. TERNO PRETO, GRAVATA AZUL-ESCURA (bate como bandeira/chicote, aperta pescoço como mão carrasco, depois SE SOLTA SOZINHA e cai no asfalto "como bandeira abandonada"), camisa branca, SAPATOS SOCIAIS com clip nos pedais (estalando, som metálico desconfortável). Bicicleta de corrida pneus finos. Ciclista amador: bermuda lycra, camiseta técnica, MOCHILA LARANJA ENORME (a dele? idêntica, mas como?), passa Jota na subida calmo sem esforço. Rand no pelotão: macacão azul, pedala calmo, sem esforço, sem suor, observando/testemunhando. PERCEPÇÃO AMARGA: "não importa quanto pedale, pelotão não quebra porque não quer quebrar - seguem porque é seguro seguir - ele leva vento, abre arrasto, sofre sozinho enquanto economizam energia grudados na roda dele". "Puxado pra frente não por mérito, mas por função. Sacrifício necessário. O que vai na frente pra levar vento, abrir caminho, pra quebrar primeiro enquanto outros se preparam pra atacar". "Liderar até quebrar. E quando quebrar, ser ultrapassado". Passa por "todos os carros que já teve, todas versões de si mesmo estacionadas na beira da estrada". Afrouxa gravata mas NÃO TIRA: "Tirar seria admitir que a roupa estava errada desde o início. Que ele estava errado desde o início". Gravata se solta sozinha, cai. Jota nem olha, continua. Final: "pedalando até corpo ceder ou mente aceitar que liderar, às vezes, é só uma forma mais digna de se sacrificar".
 

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