Jota larga na frente do pelotão, terno preto impecável, gravata azul-escura batendo contra o peito como bandeira. O asfalto passa rápido sob os pneus finos, pernas girando com força, pulmões queimando no ritmo da cadência. Ele é o coelho da prova, o que dita o ritmo, o que puxa o grupo até o limite, o que deve tentar quebrar os outros antes que ele quebre.
O vento corta a cara, abre o paletó, faz a camisa branca colar no corpo suado. Debaixo dela, a camiseta regata vinho sufoca, abafada, grudada na pele como segunda camada que ninguém vê. Ele sente o peso dela ali, escondida, apertando. No bolso do paletó, o isqueiro amarelo bate contra o peito a cada pedalada — peso morto, sem função, mas presente.
Ele pedala mais forte. Os ombros sobem e descem, o clip dos sapatos sociais estalando nos pedais emprestados, som metálico e desconfortável que ecoa a cada movimento. Atrás, o grupo segue grudado, rostos vermelhos, bocas abertas sugando ar, rodas cantando no asfalto. Jota sente o peso deles na nuca, como se puxasse uma corrente invisível amarrada nas costas.
Acelera de novo.
Os músculos das coxas gritam. A gravata vira chicote, bate no pescoço, incomoda, sufoca. Ele não para para ajeitar. Não pode. Precisa abrir distância, precisa que doa nos outros mais do que dói nele. Precisa provar que está no comando, que o ritmo é dele, que a liderança não é só posição mas domínio.
Curva fechada à direita.
Inclina o corpo, joelho quase raspando o chão, pneu cantando na borda do asfalto. Quase perde a linha. Recupera. E no meio da curva, vê: um Gol Bolinha cinza estacionado na calçada. Duas portas, lataria fosca, placa dele — tem certeza, conhece cada número de cor. Pelo vidro embaçado, vê o caderno marrom no painel. Parado. Esperando.
Mas não há tempo pra confirmar. A bicicleta já passou, já virou, já segue.
O mundo dele está parado ali, estacionado, esperando.
E ele está aqui, pedalando de terno, sufocando, tentando provar algo que não sabe mais o quê.
A subida começa logo depois da curva. Inclinação suave mas constante, daquelas que queimam as pernas devagar, que não machucam de imediato mas vão acumulando ácido lático até as coxas virarem pedra. Jota levanta do selim, pedala em pé, joga o peso do corpo sobre os pedais. O paletó abre, a gravata bate no rosto, o suor escorre pela testa e entra nos olhos, arde.
Um ciclista amador passa por ele na subida.
Calmo. Tranquilo. Pernas frescas. Bermuda de lycra, camiseta técnica, mochila laranja enorme nas costas — a dele? Idêntica. Mas como? — balançando de leve. Sem terno. Sem gravata. Sem peso social. O cara nem olha pra Jota, só passa, respira fundo, continua subindo.
Jota aperta os dentes.
Tenta acompanhar. Empurra mais força nas pernas. A bicicleta avança, mas devagar, pesada, como se o ar tivesse virado mel. O amador some lá na frente, desaparece na curva seguinte, levando a mochila laranja — a dele, não a dele, impossível saber — pra longe.
Jota continua sozinho. Liderando. Puxando. Mas sem acelerar de verdade.
Olha rápido para trás.
O pelotão ainda está ali. Colado. Grudado. Como sombra que não desgruda, como dívida que não se paga. Rostos vermelhos, músculos tensos, mas ninguém cede. Ninguém quebra. Ninguém desiste.
E no meio do grupo, Rand Oliveira.
Macacão azul. Pedalando calmo, olhos fixos em Jota. Sem esforço aparente. Sem suor. Só ali. Observando. Testemunhando.
Jota pisca. Olha de novo.
Rand continua lá. Silencioso. Presente.
E ele percebe, com clareza gelada que corta mais fundo que o vento:
Não importa o quanto ele pedale, não importa quanto doa, não importa quanto force o ritmo não quebra porque o pelotão não quer quebrar eles seguem porque é seguro seguir porque ele está na frente levando o vento abrindo o arrasto sofrendo sozinho enquanto eles economizam energia grudados na roda dele.
Ele está puxando o grupo inteiro com as próprias costas.
E o grupo não agradece. Só espera o momento certo pra ultrapassar.
Jota engole seco. O ar quente queima a garganta. A gravata aperta o pescoço como mão de carrasco. O terno gruda na pele, cada fibra do tecido lembrando que aquela roupa não foi feita pra isso. Não foi feita pra esforço. Não foi feita pra liderar. Foi feita pra reuniões, pra cumprimentos formais, pra fingir controle enquanto o mundo desmorona por dentro.
Mas ele continua pedalando.
Porque parar agora seria admitir. Seria aceitar que não basta. Seria olhar pra trás e ver todos passando, um por um, enquanto ele fica ali, parado, de terno amassado e gravata torta, assistindo a liderança evaporar.
A estrada segue reta agora. Longa demais. Horizonte que não chega nunca. O asfalto estica como provocação, como zombaria silenciosa. Jota respira fundo, engole o ar quente, aperta o guidão até os dedos ficarem brancos, unhas cravando nas palmas das mãos mesmo através da fita de guidão.
Pedala.
Pedala mais.
As pernas não respondem como antes. Os músculos tremem, ameaçam ceder. O coração explode no peito, batidas irregulares, descompassadas, como se também estivesse cansado de tentar. O suor escorre pelas costas, encharca a camisa branca, mancha o paletó preto. A camiseta regata vinho debaixo cola na pele como mortalha.
E a gravata continua batendo.
Chicote. Bandeira. Peso morto. Símbolo de algo que ele não consegue mais nomear.
A visão escurece nas bordas.
Pontos pretos dançando nos cantos dos olhos. As mãos afrouxam no guidão. Por um segundo — um segundo eterno — ele vai cair. Vai quebrar. Vai acabar.
O guidão oscila.
A bicicleta balança.
Jota prende a respiração.
E aperta de novo.
Aperta até os dedos doerem. Até as unhas furarem a pele. Até o sangue voltar aos músculos dormentes.
Não cai.
Escolhe não cair.
Pedala de novo.
Jota olha pra frente. Só asfalto. Só vento. Só esforço que não se traduz em resultado.
Olha pra trás de novo.
O pelotão continua lá.
Não mais perto. Não mais longe. Exatamente na mesma distância. Como se houvesse uma corda elástica invisível conectando ele ao grupo, esticando mas nunca rompendo. Ele acelera, a corda estica. Ele desacelera, a corda encurta. Mas nunca rompe.
Nunca liberta.
Rand continua lá. E agora outros rostos conhecidos aparecem no pelotão — pessoas que passaram por sua vida. Pedalando. Observando. Sabendo.
A percepção bate como soco:
Ele está liderando, sim.
Mas sendo usado ao mesmo tempo.
Puxado pra frente não por mérito, mas por função. O sacrifício necessário. O que vai na frente pra levar o vento, pra abrir caminho, pra quebrar primeiro enquanto os outros se preparam pra atacar.
Jota sente a garganta fechar.
Não de cansaço. De raiva. De frustração. De aceitação amarga de que não importa quanto ele force, quanto ele tente, quanto ele doe — o papel dele já está definido.
Liderar até quebrar.
E quando quebrar, ser ultrapassado.
Ele continua pedalando.
Porque não sabe fazer outra coisa. Porque parar é pior. Porque desistir seria confirmar que nunca foi líder de verdade, só um coelho mecânico que corria na frente enquanto os outros economizavam energia pra glória final.
A gravata bate de novo. Mais forte. Como se tivesse vida própria. Como se quisesse sufocar.
Jota puxa com a mão direita, afrouxa o nó, mas não tira. Não pode tirar. Tirar seria admitir que a roupa estava errada desde o início. Que ele estava errado desde o início.
Então deixa a gravata onde está.
Batendo. Chicoteando. Sufocando.
E pedala.
A estrada não acaba. O pelotão não quebra. Aumenta a quantidade de pessoas. O esforço não basta.
Mas ele continua na frente.
Sozinho na liderança.
Correndo contra si mesmo.
O Gol está lá atrás. Quilômetros atrás. Estacionado. Caderno marrom no painel. Camiseta regata vinho escondida debaixo da camisa social. Isqueiro amarelo sem função no bolso do paletó. E agora passa por outros carros — todos que já teve, todas as versões de si mesmo estacionadas na beira da estrada.
Tudo parado. Esperando. Tudo passando.
E ele pedalando pra longe. Vestido de terno e gravata. Afastando-se da própria identidade a cada pedalada.
A gravata se solta.
Cai.
Fica pra trás, no asfalto, como bandeira abandonada.
Jota nem olha.
Continua pedalando.
Pedalando até o corpo ceder ou a mente aceitar que liderar, às vezes, é só uma forma mais digna de se sacrificar.
