O condomínio era um labirinto organizado de casas. Você entrava e se encontrava, apesar da aparente desorganização. Muros brancos alinhados em fileiras perfeitas, portões copiando portões, garagens espelhando garagens. Nada ali gritava. Tudo sussurrava a mesma melodia morna de rotina e esquecimento.
Nele, Jota tinha uma casa inacabada.
Pela frente, dava para ver os cômodos ainda abertos, como se a privacidade dele estivesse exposta pro mundo inteiro. Paredes pela metade, vigas à mostra, espaços vazios que pareciam esperar por algo que nunca chegava. Gente passava na calçada, olhava de canto, fazia cara de pena ou julgamento. Jota fingia não ver.
De diferente, o condomínio também abrigava Leandro Costa, um ator de novela que todo mundo reconhece ou ele pensa que deveriam conhecer. Que morava numa casa no fundo, lote triplo com piscina de borda infinita e deck de madeira. Nos bastidores, chamavam ele de Globalzinho — não pela Globo em si, mas pelo jeito que ele carregava a fama: pequena, ensaiada, grudada no corpo como tatuagem de aeroporto.
O que ninguém esperava mas estava acontecendo era que Jota, discretamente, também estava se tornando conhecido.
Com uma fama que ainda não havia gritado seu nome, mas que latejava, baixinho, nas notificações do celular. Podcast viralizado. Entrevista compartilhada. Direct de gente que ele nunca viu na vida pedindo conselho, elogio, atenção.
A fama estava chegando.
Mas Jota continuava ali.
Foi no estacionamento que a coisa desandou.
Jota voltava de um compromisso, dirigindo o Gol Bolinha Cinza Urban distraído, pensando em outra coisa. A mochila laranja estava jogada no banco do carona, aberta, vomitando cabos, caderno de capa dura marrom e roupas velhas. A camiseta regata vinho — aquela mesma, rasgada no ombro, suada, sempre essa — estava amassada no fundo.
Quando passou pela portaria, viu os sobrinhos esperando na frente da casa dele.
Pistolinha encostado no muro, braços cruzados, olhar impaciente. Enaldinho sentado no meio-fio, fone no ouvido. Sheldon em pé ao lado, mochila no ombro, observando em silêncio.
Tinham vindo buscar umas caixas que Jota prometeu passar — livros, documentos, as coisas da mudança que ficaram empilhadas no canto da sala há seis meses. Talvez sete. Talvez mais.
Jota acenou pela janela, constrangido.
Perdeu um pouco de atenção e bateu de leve contra os arbustos da entrada. Galhos quebrando. Cheiro de folha esmagada misturado com etanol velho.
Jota parou o carro, respirou fundo.
Quando foi sair pra olhar o estrago, o cadarço direito do tênis surrado estava desamarrado.
Jota parou.
Olhou pro cadarço solto.
Amarrou de novo, devagar, sentindo o buraco do dedão deixar o ar frio entrar.
Pistolinha veio até ele, olhou pro para-choque arranhado.
— Sério, tio?
Enaldinho desceu do meio-fio, olhou pra batida, olhou pro tio.
Não disse nada.
Sheldon continuou parado no mesmo lugar, observando tudo em silêncio.
Foi quando Rand Oliveira apareceu.
Macacão azul impecável, ferramentas penduradas no cinto, olhar técnico que avaliava tudo em dois segundos. Ele era o porteiro do condomínio, mas passava mais tempo consertando torneiras, chuveiros e fechaduras nas casas dos outros do que na portaria propriamente dita.
Aparecendo ao lado do Gol, olhou pro para-choque arranhado, pros galhos quebrados.
— Precisa de ajuda?
A voz era calma, eficiente.
— Tô bem. Foi nada.
Rand olhou pra casa de Jota, portão aberto, cômodos inacabados à mostra.
Ficou em silêncio por um segundo.
— Tem coisa que ferramenta não arruma, né Jota?
Não esperou resposta.
Deu meia-volta e voltou pra portaria, silencioso como chegou, deixando apenas o cheiro leve de óleo de máquina no ar.
Pistolinha franziu a testa.
— Quem era aquele cara?
— Rand. O porteiro.
— Porteiro?
— É. Mas ele conserta coisas também.
Jota estacionou corretamente o Gol Bolinha, pegou a mochila laranja do banco do carona, o caderno marrom quase caindo pela abertura.
Ligou o alarme e seguiu para a porta da casa.
Pistolinha e Enaldinho vieram atrás.
Sheldon veio por último, ajeitando a própria mochila no ombro.
O caminho passava pela área da piscina comunitária.
Leandro Costa estava lá, recostado numa espreguiçadeira, óculos escuros, drink na mão, rodeado de gente. Ria alto, gesticulava, contava alguma história.
Viu a batida e, quando Jota passou, acenou sorridente.
Jota acenou de volta acelerando o passo.
Sheldon olhou pra trás.
— Quem é aquele cara?
— Leandro Costa. Ator de novela.
— Nunca ouvi falar. — Sheldon deu de ombros. — Se fosse influencer o Enaldinho já tava em cima.
Enaldinho revirou os olhos e continuou andando.
Na entrada da casa, Pistolinha olhava pros cômodos inacabados.
— Tio, que projeto mal feito. Olha esse recuo. Sobrou terreno na frente e faltou casa no fundo. Você deveria ter feito um sobrado pra aproveitar o lote. Isso aqui é amadorismo.
Jota ainda sentia o olhar do Enaldinho queimando nas costas, a frase do Rand ecoando baixinho na cabeça.
— A porta não tá certa — soltou, sem pensar.
Pistolinha franziu a testa.
— Que porta, tio?
— Do estacionamento. A entrada. Sei lá.
Silêncio.
Enaldinho trocou olhar com Sheldon.
Sheldon olhou pro chão.
Os três sabiam que não era sobre a porta.
Ao abrir a porta da casa, Jota reparou — como se fosse a primeira vez — que as casas ao lado da dele também estavam inacabadas.
Portões abertos. Cômodos vazios. Paredes pela metade. Vigas expostas.
Pistolinha parou atrás dele, olhando pros espaços sem parede.
— Tio, essas aqui são suas também?
— Não. Acho que não. Sei lá.
— Como assim “sei lá”? Tu não sabe quantas casas tu tem?
Jota ainda parado na porta da própria casa.
Olhou pros espaços sem parede, pro vazio que parecia gritar em silêncio.
Sheldon, que tinha ficado quieto até então, finalmente falou — voz baixa, mas firme:
— Faz quanto tempo que tu mora assim, tio?
Jota enfiou a mão no bolso, sentiu o isqueiro amarelo — o sobrevivente —, frio, pesado, intacto.
— Não sei. Uns anos.
— E por que nunca termina?
Pistolinha insistiu, voz mais baixa agora:
— Sério, tio. Por que tu nunca termina isso aqui?
Enaldinho, que vinha segurando até então, soltou:
— A gente fica buscando caixas faz seis meses, tio.
Pistolinha olhou pro irmão, constrangido.
— Enaldinho…
— É verdade. — Enaldinho encostou na parede sem parede, braços cruzados. — Seis meses com caixas novas aparecem e nada acaba. Hoje a gente tava esperando ali na frente faz uma hora. Tu nem lembrou.
Sheldon continuou observando o tio em silêncio.
Jota não tinha defesa.
Olhou de relance pra cozinha. O ímã do Posto Esso — aquele que o pai tinha modificado, que sempre brilhava fraco quando família estava por perto — continuava cinza. Fosco. Apagado.
Mesmo com os três sobrinhos ali, o ímã não reconhecia mais nada.
Pistolinha suspirou, tentando aliviar o clima:
— Deixa, tá corrido, né tio?
Ainda parado na porta de casa, duas mulheres se aproximaram.
— Você não é aquele cara do podcast?
— Talvez, possa ser! — Jota respondeu.
Uma delas arregalou os olhos, já tirando o celular e pediu:
— Posso tirar uma foto?
Jota sorriu. Posou. Elas saíram empolgadas, cochichando: é ele mesmo, tenho certeza.
Pistolinha olhou pro chão.
Sheldon olhou pro tio.
Enaldinho não olhou pra nada.
Entraram na casa.
A sala era ampla, mas vazia. Móveis velhos espalhados sem critério. Sofá afundado. Mesa de centro rachada. E as caixas — aquelas malditas caixas — empilhadas no canto, empoeiradas, esquecidas.
Enaldinho olhou pra elas.
Olhou pro tio.
Não disse nada.
Pistolinha deu um tapinha no ombro de Jota:
— A gente entende, tio. Tá corrido, né?
Enaldinho pegou a própria mochila, ajeitou a alça no ombro.
— Deixa, tio. A gente pega outro dia, de novo.
Sheldon passou por Jota, parou por um segundo na porta.
— Cuida de você, tio.
E saíram.
Os três.
Sem as caixas.
Sem forçar.
Apenas deixando o tio sozinho em casa.
Jota ficou parado na sala por um tempo.
Olhou pros cômodos sem parede.
Pras caixas que prometeu entregar.
Pro ímã na geladeira.
Caminhou até a mesa, pegou o caderno de capa dura marrom que tinha caído da mochila laranja.
Abriu.
Páginas em branco olhando de volta.
Pegou a caneta.
Tentou escrever.
Não saiu nada.
Fechou o caderno.
Colocou de volta na mesa.
O celular vibrou.
Notificação.
Mais uma.
E outra.
Ele olhou pra tela iluminada, nome de gente que nunca viu, mensagem de gente que nunca abraçou, elogio de gente que nunca chorou na frente.
Olhou pro isqueiro amarelo em cima da mesa — o sobrevivente, intacto, frio, testemunha silenciosa de tudo que ele já foi e tudo que deixou de ser.
Olhou pro ímã na geladeira. Cinza. Frio. Nem a presença dos meninos fez ele acender.
Olhou pro caderno fechado — páginas em branco que ele não conseguia preencher, histórias que morriam antes de nascer.
Olhou pras caixas empoeiradas no canto — promessas que viraram peso, entregas que viraram vergonha.
E finalmente olhou pro próprio reflexo no vidro da janela: corpo cansado que não reconhecia mais, barba que deixou crescer sem querer, camiseta rasgada que usava fazia dias, tênis furado que nunca trocava.
Um homem inacabado.
Numa casa inacabada.
Numa vida que virou fama antes de virar paz.
A fama estava chegando.
Jota continuava inacabado.
