Capa do Capítulo

Locação Azul

Extensão: 1.928 palavras | Leitura: 10 min

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O anúncio apareceu entre stories de gente fingindo que estava tudo bem. Jota rolava o feed do Instagram deitado na cama do quarto no Capão da Imbuia, luz azul da tela iluminando o teto rachado, ventilador rangendo como sempre. Nenhum plano, nenhuma mulher, nenhum rolê. Só ele, cueca velha, e o feed infinito.

Jogo Azul. Azulejos girando em câmera lenta, música árabe de fundo, texto em branco: “Locação disponível agora — leve o palácio de Évora pra sua casa. Entrega em 24h. Curitiba.”

Clicou sem pensar.

Perfil da locadora tinha fotos de mesas montadas, caixas lacradas, stories com unboxing, alguém mostrando as fábricas, as cem peças caindo no saco de tecido. Sentiu a vontade de POSSE subir — de TER aquilo ali, agora. Leu tudo em dois minutos: locação de fim de semana, entrega no mesmo dia se pedir antes das três da manhã, devolução na segunda até seis da tarde, cem por cento higienizado. O preço? O mesmo de uma buchinha no Parolito. A droga já tinha em casa. Escolheu o jogo.

Já estava pronto pra pagar quando lembrou: a carteira tava dentro da mochila laranja jogada no canto do quarto. Levantou, abriu o zíper principal, revirou: caderno de capa dura marrom com anotações de sonhos e estratégias de jogos que nunca jogou, isqueiro amarelo “o sobrevivente” que acendia na primeira mesmo depois de cair no vaso sanitário três vezes, a carteira amassada no fundo. Pegou a carteira, tirou o cartão, voltou pra cama, adicionou o Azul no carrinho virtual.

O celular acendeu. Mensagem de Little Boobs: “Acordado ainda? Estava afim de dar uns tirinhos…”. Jota olhou a tela, pensou em responder, em chamar ela pra jogar no sábado. Não respondeu. Voltou pro carrinho.

Na hora de fechar o pedido apareceu a pergunta: “Quer deixar observação?”

Escreveu: “entrega o mais cedo possível, por favor. tô louco pra jogar.”

Pagou. 02h17.

Confirmação no WhatsApp da locadora: “Obrigado, Jota! Seu Azul sai pra entrega às 8h. Chega até 11h. Boa jogatina!”

Abriu o livro em cima do criado-mudo, fez um tirinho. Ficou olhando pro teto, coração batendo no ritmo das peças caindo na propaganda. Passou o resto da madrugada sem dormir.

F5 no rastreio.

02h30 — pedido confirmado. 03h12 — separado no estoque. 05h47 — saiu pra entrega. 08h03 — com o motoboy.

Tomou banho, trocou de cueca, vestiu a camiseta regata vinho rasgada que usava quando queria se sentir no controle de alguma coisa. Fez café coado. Enquanto a água passava, viu o ímã do Posto Esso na geladeira segurando o telefone da mãe. Ignorou. Limpou a mesa do quarto três vezes, arrumou as cadeiras em círculo como se fosse receber visita.

08h15 — motoboy saiu do Batel.

Jota já estava na sala, de short, descalço, os tênis surrados com o cadarço direito solto largados perto da porta. Fez outro tirinho pra aguentar o nervoso. 09h02 — “motoboy a 18 km do seu endereço”. Abriu a porta da frente, ficou olhando a rua vazia do Capão da Imbuia como se fosse ver a moto dobrar a esquina a qualquer segundo.

09h27 — “a 9 km”.

Voltou pra dentro, fez mais um tirinho. Limpou a mesa, arrumou as cadeiras de novo.

10h11 — “a 4 km”.

Já estava suando frio. Passou álcool gel na mesa, no chão, na maçaneta, no controle remoto. Tudo tinha que estar perfeito pra receber o Azul.

10h51 — “a 900 metros”.

Correu pra janela. Rua vazia. O Gol Bolinha estacionado embaixo, sozinho, etanol pingando no asfalto.

10h54 — “chegando”.

Desceu as escadas de dois em dois, abriu o portão, ficou plantado na calçada. A moto apareceu na esquina. Capacete preto, caixa branca com logo azul nas costas. Parou na frente dele.

— Jota?

— Sou eu.

O motoboy entregou a caixa embrulhada em plástico bolha, fita adesiva com o nome Azul estampado. Jota assinou no celular com o dedo suado, quase derrubou o aparelho.

— Boa jogatina, irmão.

O cara foi embora. Jota subiu correndo, trancou a porta, coração na boca. Colocou a caixa na mesa da cozinha como se fosse relíquia sagrada. Cortou a fita com tesoura, devagar, sentindo o cheiro de resina nova vazando. Abriu.

Cem tiles caindo em cascata no saco de tecido. Barulho perfeito. Fábricas. Tabuleiro. Marcadores. Regras dobradas direitinho.

Montou tudo sozinho, mãos tremendo. Expositores de fábrica alinhados. Saco de tecido no centro. Pegou o isqueiro amarelo, acendeu sem motivo. A chama durou dois segundos. Apagou. Guardou no bolso do short.

Primeiro sorteio: cinco tiles azuis.

Riu alto, sozinho na casa.

— Caralho, começou.

Começou às 11h27. Tabuleiro montado na mesa da cozinha, cadeiras vazias dos outros três jogadores, sol de meio-dia batendo na janela, silêncio absoluto da rua lá fora. Não podia sair, não devia sair, então pelo menos isso: jogar Azul contra si mesmo até esquecer que estava preso.

Primeira rodada: cinco azuis no centro. Jota draftava como se a vida dependesse daquilo. Linha 1: azul, azul, azul, azul… faltou uma. Penalidade -7. Riu sozinho, mas com raiva.

— Beleza, ainda tem quatro rodadas.

Segunda rodada: amarelos. Terceira vermelhos. Quarta pretos. Quinta brancos.

Jota jogava contra si mesmo em três lugares diferentes da mesa. Criou personalidades. Batizou mentalmente cada uma.

Cadeira da esquerda: O Jota que conquistou Daslu.

Daslu, a loira de olhos âmbar que sumiu do mapa sem olhar pra trás quando decidiu que tinha acabado. Com ela, tudo era permitido. Experimentavam sem julgamento. Fodiam em lugares impossíveis, faziam coisas que ele nunca faria com outra. Liberdade pura.

Esse Jota era livre, louco, experimental. Fazia voz diferente quando jogava por ele, mais solta, mais rindo.

— Vou de vermelho direto, foda-se estratégia. Daslu não liga pra estratégia.

Esse Jota achava que tinha satisfeito ela sendo exatamente isso: livre, intenso, topando tudo.

Mas ela foi embora do mesmo jeito.

Cadeira da direita: O Jota que conquistou Satogos Cruel.

Satogos Cruel, 1,70 de morena com tatuagens no braço esquerdo, olhar verde que congelava. A que ele ainda quer terminar de conquistar. O beijo roubado no banheiro lotado.

Esse Jota era calculista, dominador quando podia, submisso quando ela mandava. Fazia voz mais grave, mais controlada.

— Pego o set completo de pretos aqui e ganho na moral. Satogos gosta de quem sabe jogar o jogo dela.

Ele achava que tinha satisfeito ela provando que aguentava o jogo, que sabia quando curvar e quando empurrar de volta.

Mas ela sumiu depois da terceira vez.

Cadeira do fundo: O Jota que conquistou Maju Kuzito.

Maju Kuzito, 1,78 de pernas intermináveis, piercing no nariz, aquele jeito filho da puta de ignorar e voltar quando queria. Ela só voltou uma vez. Depois sumiu três dias, voltou como se nada tivesse acontecido. Ignorava mensagem, respondia só quando queria. Gostava de ser desejada.

Esse Jota era bruto, direto, com raiva misturada com tesão. Fazia voz rouca, impaciente.

— Foda-se linha bonita, vou encher de amarelo e acabou. Maju gosta de quem mete com vontade, sem frescura.

Ele achava que tinha satisfeito ela sendo exatamente o que ela pedia sem pedir: intenso, bruto, fodendo do jeito que ela gostava secretamente.

Jota real, sentado na cadeira principal, jogava contra os três.

E perdia.

Sempre perdia.

Fez mais um tirinho, continuou. Perdeu a primeira partida de lavada: -23 pontos. Começou outra. E outra. E outra.

Só existia o barulho das peças caindo no saco de tecido, o clique das tiles no tabuleiro, o rangido da cadeira quando se inclinava pra frente.

Falava sozinho alto:

— Se eu completar a linha horizontal agora eu ganho.

— Se eu fizer o set de cinco cores eu viro o jogo.

— Se eu não pegar penalidade nessa eu empato.

Nunca empatava. Sempre perdia. Perdia bonito. Perdia feio. Perdia de lavada.

O sol foi embora da janela. A luz da cozinha ficou amarela. O ventilador do quarto lá em cima ainda rangendo. Jota continuou jogando. Cem tiles espalhadas, saco vazio, tabuleiro cheio de buraco. Montou de novo. E de novo. E de novo.

Às 03h da manhã continuava jogando. Tabuleiro na frente, três partidas simultâneas, ele contra ele contra ele contra ele.

Perdeu todas.

A última partida fez 9 pontos. Último lugar. O ‘Jota da Maju’ tinha ganho aquela com 16. Na anterior, tinha sido Daslu. Antes dessa, Satogos.

Não importava qual versão fantasma dele ganhasse.

Ele sempre perdia.

Riu. Riso seco, sem graça, olhando pros três tabuleiros como se esperasse que as personalidades falassem alguma coisa.

Nada.

Olhou pro relógio: 04h11.

A caixa de locação tinha que ser devolvida até seis da tarde de segunda. Ainda tinha quase catorze horas.

Montou tudo de novo. Jogou até sete da manhã. Perdeu todas.

Às nove horas arrumou a caixa. Limpou as peças com álcool gel uma por uma, colocou de volta no saco de tecido. Contou: 99.

Faltava uma tile azul.

Parou. Olhou pra mesa. Procurou embaixo das cadeiras, atrás da geladeira, dentro da mochila laranja que ainda estava aberta no chão. Nada.

Pegou o caderno marrom, folheou como se a peça pudesse estar entre as páginas. Nada.

Pegou o isqueiro amarelo, acendeu, iluminou embaixo da cama com cuidado. Nada.

Olhou pros tênis surrados perto da porta, o cadarço direito ainda solto. Pensou em calçar, sair andando pela casa inteira até encontrar.

Não encontrou.

Porque sabia.

Passou a língua no céu da boca. Gosto de resina e plástico misturado com o amargo químico. A garganta arranhou.

Tinha engolido.

Fechou a caixa com a mesma fita. Abriu o WhatsApp da locadora, escreveu: “Devolvo hoje 17h30. Jogo perfeito, sem peça faltando.”

Faltava uma tile azul.

Ficou olhando pra caixa lacrada na mesa. O tabuleiro ainda montado do lado, mosaico pela metade. Podia ter completado o mural do Rei Manuel I. Podia ter ganhado de si mesmo.

Não ganhou nada.

Pensou em ligar pra Little Boobs.

Ela toparia vir jogar Azul. Com certeza toparia. Inventaria regrinhas pra tirar roupa a cada rodada perdida, riria da situação absurda, transformaria o jogo em putaria gostosa enquanto ele tentava se concentrar nas tiles. Ela ficaria até o sol nascer, jogando de calcinha, rindo daquele jeito dela, chamando ele de “Geraldo” entre uma jogada e outra.

Pegou o celular. Abriu o contato dela. Little Boobs de biquíni na praia, cabelo ruivo, sorriso enorme, peitos enormes desafiando a física. A baixinha dos peitos enormes.

Não ligou.

Porque sabia que se ligasse agora, às nove da manhã de um sábado, ela ia rir, ia achar engraçado, mas ia falar “amanhã, Geraldo” e desligar.

E ele ia continuar sozinho.

Com os três Jotas que conquistaram as três mulheres que foram embora.

Todos perdendo.

Todos se vangloriando de um passado que talvez nunca aconteceu direito.

Guardou o celular. Olhou pro Gol Bolinha lá embaixo pela janela. Etanol pingando. Sozinho também.

Sentou na cadeira principal. A tile azul alojada dentro dele, descendo devagar, completando o mosaico que nunca ia aparecer em tabuleiro nenhum.

Foi até a cozinha. No ímã fosco do Posto Esso, um papel amarelado. Telefone da mãe. Não brilhou, não zumbiu. Nunca brilhava pra ele mesmo.

Fechou os olhos. O isqueiro não acendeu sozinho. O cadarço continuou solto. A camiseta continuou manchada de sangue do nariz.

E o jogo continuou na caixa.

Pronto pra ser devolvido.

Perfeito.

Menos uma peça.

Azul.

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Sinopse Narrativa:

Jota aluga jogo de tabuleiro "Azul" (Azulejos de Évora) online às 2h17 da manhã. Entrega às 11h. Joga sozinho por 20+ horas criando três "personalidades" nas cadeiras vazias baseadas em mulheres que conquistou: Jota da Daslu (livre/louco), Jota da Satogos (calculista), Jota da Maju (bruto/direto). Perde todas as partidas contra si mesmo. Descobre falta uma tile - engoliu sem perceber. Mente para locadora dizendo que está perfeito. Pensa em chamar Little Boobs mas não chama.

Gênero Psicológico, Realismo, Slice of Life
Tom Introspectivo, Melancólico, Solitário
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Autoengano, Isolamento, Vício
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Autoengano sobre conquistas passadas, Solidão e isolamento, Vício
Locais Capão da Imbuia, casa, Cozinha, Quarto, Rua do Professor
Palavras-Chave autoengano, Azul jogo tabuleiro, Daslu, joga sozinho, locação, Maju Kuzito, Satogos Cruel, solidão, tile engolida, três personalidades
Jogo: "Azul" (Azulejos de Évora, palácio Rei Manuel I) - 100 tiles. Jota cria 3 versões de si nas cadeiras vazias: (1) Jota da Daslu - livre, louco, experimental, voz solta, (2) Jota da Satogos - calculista, dominador/submisso, voz grave, (3) Jota da Maju - bruto, direto, com raiva, voz rouca. Joga 20+ horas (11h27 sábado até 7h domingo). PERDE TODAS as partidas. Engole tile azul sem perceber (gosto resina e plástico, garganta arranhou). Conta 99 tiles de 100. Mente pra locadora: "sem peça faltando". Menção a drogas: "buchinha no Parolito", "livro", faz vários "tirinhos". Little Boobs manda: "tava afim de dar uns tirinhos" - Jota não responde, pensa em ligar mas não liga. Ímã nunca brilha pra ele mesmo (só família). Camiseta tem sangue do nariz. Short (não calça). Descalço. Rastreio detalhado da entrega.
 

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