Capa do Capítulo

Máscara no Nações

Extensão: 1.971 palavras | Leitura: 10 min

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O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 subia devagar pela Marechal Deodoro. O motor a etanol roncava baixo, forçando nas marchas, Jota segurando o volante com as duas mãos. Sem direção hidráulica, cada curva exigia esforço. A camiseta regata vinho grudava no corpo, suor escorrendo pelas costas mesmo com as janelas abertas. A noite estava pesada. O ar tinha peso.

O pai estava no banco do carona, braços cruzados, olhando pela janela sem falar muito. Silêncio confortável entre eles. No painel, o ímã do Posto Esso brilhava fraco, azul pálido, zumbindo baixinho. Conexão. Sangue. Pai e filho no mesmo carro, na mesma noite.

No banco de trás, jogada de lado, a mochila laranja. Zíper meio aberto, deixando aparecer a borda do caderno de capa dura marrom. No bolso da calça jeans de Jota, o isqueiro amarelo batia de leve a cada solavanco. Sobrevivente de todas as noites. Os tênis surrados nos pés, cadarço direito solto como sempre, dedão esquerdo aparecendo pelo buraco.

— Hospital das Nações, né? — o pai perguntou, voz rouca.

— É. Mãe pediu pra buscar uns exames.

— Tá fechado a essa hora.

— Pronto-socorro tá aberto. Eles entregam.

O pai não respondeu. Apenas acenou com a cabeça.

Jota virou à esquerda na altura do Viaduto do Alto da XV, logo Victor Ferreira do Amaral e a entrada do hospital. A Victor estava vazia, postes acesos, luzes amarelas tremendo como se não conseguissem sustentar o peso da escuridão.

Foi quando viram o carro preto.

Estava do outro lado, no acesso a Nossa Senhora da Luz pela Victor. Motor ligado, faróis acesos, em ângulo estranho. Como se tivesse tentado subir e desistido no meio do caminho.

Jota já estava no estacionamento do hospital e parecia que não tinha ninguém dentro. Pelo menos não dava pra ver.

— Que estranho ele não conseguir subir — o pai comentou.

O ar estava ainda mais pesado ali fora, como se algo já tivesse acontecido e ainda estivesse prestes a acontecer de novo.

Havia uma presença. Jota sentia. Alguém próximo, mas que ele não conseguia enxergar direito. Virou a cabeça. Nada. Só sombras se movendo entre os postes. Mas a sensação permanecia. Presença técnica. Fantasma sempre por perto.

— Vou entrar buscar — Jota disse, pegando a mochila laranja no banco de trás.

— Eu espero aqui — o pai respondeu, encostando no capô do Gol.

Jota deu três passos em direção à entrada do hospital.

Foi quando o som começou.

O carro preto ligou. Motor acelerando forte. Pneus cantando no asfalto. Ele arrancou ladeira acima, ganhando velocidade, subindo, subindo…

E derrapou.

Perdeu tração. Rodou pro lado. Bateu no meio-fio com estrondo seco de metal contra pedra. Parou. Silêncio por dois segundos.

E então, voltou.

O carro estava de novo na base da ladeira. Motor ligado. Faróis acesos. Como se nada tivesse acontecido.

Jota parou, olhou pro pai.

— Você viu isso?

O pai estava tenso, olhos fixos no carro preto.

— Vi.

O carro acelerou de novo. Subiu. Derrapou. Bateu. Voltou.

Subiu. Derrapou. Bateu. Voltou.

Loop. Infinito. O mesmo carro. A mesma derrapada. O mesmo estalo de metal. Repetindo, repetindo, repetindo.

Jota deu um passo pra trás, instintivamente. A mochila laranja escorregou do ombro, caiu no chão. O caderno marrom escapou pela abertura, páginas se espalhando no asfalto.

— Que porra é essa? — Jota sussurrou.

O pai não respondeu. Apenas olhava. Hipnotizado. Preso.

Eles tentaram se mover. Jota deu dois passos em direção ao Gol. Mas era como se a ladeira os puxasse de volta. Como se o tempo estivesse preso no loop junto com o carro. Cada vez que o veículo derrapava, eles voltavam pro mesmo ponto. Sem sair do lugar.

O carro subiu de novo. Derrapou. Bateu.

E dessa vez, quando voltou pra base, havia alguém ao lado.

Um homem. Parado. Macacão azul escuro. Olhando pro motor do carro preto como se estivesse consertando algo. Ele mexeu em algo embaixo do capô. Algo clicou. O ar mudou. O tempo se soltou.

Fechou o capô, limpou as mãos no macacão.

Jota piscou.

O homem sumiu.

O carro não acelerou mais.

— Era o Rand — o pai disse, voz baixa, quase inaudível.

— Rand?

— Ele tava ali. Consertando.

Jota olhou de novo. Nada. Só o carro. Parado. Inerte.

Mas ele tinha visto também. Por uma fração de segundo. Rand Oliveira. Macacão azul. Ferramentas invisíveis. Fantasma técnico que aparece, resolve, evapora.

A presença que Jota sentia antes — Rand, sempre Rand — tinha materializado, consertado o impossível, e sumido de novo.

O motor do carro preto desligou. Os faróis apagaram. Silêncio absoluto.

Jota respirou fundo. Finalmente. Acabou.

Nenhum carro passava. Nenhuma janela acesa. Só eles e a rua vazia.

Foi quando ouviu os passos.

Lentos. Pesados. Metódicos.

Viraram a cabeça ao mesmo tempo.

E ele estava lá.

Passos lentos na calçada. Macacão azul escuro — não, não era azul. Era outro macacão. Mais largo. Mais sujo. Máscara branca cobrindo o rosto inteiro. Sem expressão. Sem olhos. Sem boca. Só vazio.

Na mão direita, um facão. Longo. Refletindo a luz fraca dos postes.

Michael Myers.

Ele andava exatamente na direção deles. Sem pressa. Como se soubesse que não havia escapatória. O terror não vinha da velocidade. Vinha da certeza.

— Merda — Jota sussurrou.

— Abaixa — o pai disse, voz firme.

Jota se agachou atrás do muro baixo do hospital. Corpo inteiro tremendo. O pai ficou de pé um segundo a mais, olhando fixo pra figura que se aproximava. Depois se abaixou também, rápido.

A presença técnica que protegia — Rand — tinha sumido quando o verdadeiro terror apareceu. Só restava Jota, o pai, e o medo.

O homem da máscara continuou andando. Dez metros. Nove. Oito.

Parou.

Inclinou a cabeça devagar. Como quem ouve algo que ninguém mais ouve. A máscara branca refletia a luz amarela dos postes, criando sombras que pareciam se mover sozinhas.

Jota levantou só os olhos por cima do muro. Coração batendo tão alto que parecia capaz de denunciar a posição. O cadarço direito do tênis estava solto, arrastando no chão. Ele segurou a respiração.

O homem ainda olhava fixo pro lugar onde estavam.

Atrás dele, o carro preto permanecia morto. Sem loop. Sem movimento. O tempo fluía normal de novo.

Mas agora havia trilha sonora.

Respiração pesada. Vinda de dentro da máscara. Cada puxada de ar era abafada, forçada, como se o próprio tempo respirasse junto com o homem.

Jota não subia. Não descia. Não gritava. Só ficava agachado, mão tremendo, suor escorrendo pela testa. O isqueiro amarelo no bolso pesava como âncora. Ele apertou os dedos ao redor dele, sentindo o plástico derretido, a textura familiar.

O pai ao lado respirava rápido, mas não falava. Silêncio era pacto. Nenhum deles ousava quebrar o momento.

O homem deu mais um passo. Sete metros.

O isqueiro no bolso de Jota esquentou. De repente. Como se tivesse acendido sozinho. Jota sentiu o calor através do tecido da calça, queimando de leve.

Olhou pro pai. O ímã no painel do Gol, visível através do vidro, brilhava mais forte. Azul pálido virando azul elétrico. Zumbido agudo.

O homem deu mais um passo.

Jota tirou o isqueiro do bolso. Mão tremendo. O metal estava quente. Quente demais. Mas a chama não estava acesa.

Ele apertou.

A chama subiu. Dourada. Firme. Iluminando o espaço ao redor num raio de dois metros.

O homem parou.

Inclinou a cabeça de novo. Olhando diretamente pra luz.

Jota ergueu o isqueiro devagar, tremendo, iluminando a figura à distância. A luz dourada cortou a escuridão, revelou detalhes que antes estavam ocultos.

A máscara não era lisa.

Tinha algo pintado. Algo customizado. Linhas vermelhas nas laterais. Símbolo estranho na testa. Não era a máscara do filme. Era outra coisa. Era…

Familiar.

Jota estreitou os olhos. A luz do isqueiro tremeu, mas ele manteve firme.

O homem deu mais um passo. Cinco metros.

E então, parou de novo.

Levantou a mão esquerda. Devagar. Tocou a borda da máscara.

E puxou pra cima.

O rosto apareceu aos poucos. Cabelo suado grudado na testa. Olhos escuros. Sorriso torto.

Leandro Costa.

Jota sentiu o ar sair dos pulmões de uma vez.

— Leandro? — a voz saiu rouca, quase inaudível.

Leandro segurou a máscara na mão, olhando pra ela como se fosse troféu. O facão na outra mão refletia a luz do isqueiro. Ele inclinou a cabeça — o mesmo gesto de antes, mas agora sem a máscara, tinha outro significado.

Leandro disse, voz calma:

— Assustei?

O pai de Jota se levantou devagar, olhos arregalados.

— Leandro, que porra é essa?

Leandro riu. Baixo. Gutural.

Ele girou o facão na mão. Plástico. Brinquedo de loja de fantasia. O macacão estava sujo de tinta, não de sangue. A máscara customizada tinha o símbolo que Jota reconheceu: a marca do Leandro. Ele sempre customizava tudo.

— Tu tá louco — Jota disse, ainda agachado, isqueiro tremendo na mão.

— Festa à fantasia — Leandro respondeu, colocando a máscara de volta. — Tava voltando. Vi vocês aqui. Não resisti.

Ele deu mais um passo, mas dessa vez era só Leandro. Não era Myers. Não era terror. Era só o amigo filho da puta que sempre foi.

O carro preto continuava parado na base da ladeira. Sem movimento. O loop tinha acabado antes de Leandro aparecer. Rand tinha consertado. Coisas diferentes. Terrores diferentes.

Jota olhou pra trás. O Gol Bolinha estava parado, ímã no painel voltando a brilhar fraco, azul pálido. Normal. O caderno marrom ainda estava no chão, páginas espalhadas. A mochila laranja caída de lado.

Quando virou de novo, Leandro já estava andando pra trás, acenando com a mão.

— Boa noite. Boa noite, seu Geraldo.

Ele virou a esquina. Desapareceu na escuridão.

Jota e o pai ficaram ali. Parados. Sozinhos. Processando.

O carro preto continuava inerte na base da ladeira. Vazio. Sem Rand. Sem motorista. Sem loop.

— Que porra foi essa? — o pai perguntou, voz baixa.

Jota guardou o isqueiro no bolso. Ainda estava quente. Sobrevivente de mais uma noite impossível.

— Não sei — Jota respondeu, pegando a mochila laranja do chão. — Mas foi real.

O pai olhou pra ele, depois pro carro preto, depois pro lugar onde Leandro tinha desaparecido.

— Foi.

Eles entraram no hospital. Buscaram os exames. Voltaram pro Gol. Ligaram o motor. O ímã no painel zumbia baixinho, reconfortante. Conexão. Sangue. Pai e filho ainda vivos.

Jota deu ré, saiu da vaga. Ele e o pai olharam uma última vez para o carro preto.

Rand estava lá. Parado ao lado do veículo. Macacão azul. Olhando pro motor como se nunca tivesse saído. Ele ergueu os olhos, encontrou o olhar de Jota pelo retrovisor.

Acenou com a mão.

Jota piscou.

Rand sumiu.

O Gol seguiu a Victor sem derrapar. Sem loop. Sem repetição. O cadarço direito do tênis de Jota estava solto, arrastando no pedal. Ele não amarrou. Não precisava. A noite já tinha passado.

O carro desapareceu na curva. As luzes do Hospital das Nações ficaram pra trás. A máscara tinha nome. Leandro. Sempre o Leandro.

Mas o medo que ele deixou não tinha fantasia.

Esse era real.

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Sinopse Narrativa:

Noite pesada. Jota e pai sobem Marechal Deodoro no Gol pro Hospital das Nações buscar exames da mãe. Veem carro preto tentando subir ladeira (Victor/acesso Nossa Senhora da Luz) - ele sobe, derrapa, bate, volta. Loop infinito. Jota e pai presos no loop também. Rand aparece de macacão azul, conserta algo no carro, loop acaba. Figura de máscara branca aparece com facão - Michael Myers. Passos lentos se aproximando. Isqueiro esquenta, Jota acende, homem tira máscara: Leandro Costa voltando de festa à fantasia. Facão era plástico, máscara customizada. Rand some e reaparece perto do carro preto. Vão embora.

Gênero Realismo Mágico, Terror Psicológico
Tom Assustador, Sobrenatural, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Eventos Místicos, Terror Urbano
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Loop temporal, Presença fantasma (Rand), Terror que vira piada
Locais estacionamento, Hospital das Nações, ladeira, Marechal Deodoro, Nossa Senhora da Luz, pronto-socorro, Viaduto do Alto da XV, Victor Ferreira do Amaral
Palavras-Chave Hospital das Nações, Leandro Costa, loop temporal, máscara customizada, Michael Myers, Rand conserta, Victor Ferreira
Noite pesada, ar tinha peso, pai no carona braços cruzados, silêncio confortável, iam buscar exames da mãe, carro preto no acesso a Nossa Senhora da Luz pela Victor, motor ligado, faróis acesos, ângulo estranho, parecia não ter ninguém dentro, presença técnica - Rand sempre por perto mas invisível, carro preto loop: subiu, derrapou, bateu meio-fio (estrondo metal contra pedra), voltou - repetiu infinitamente, Jota e pai presos no loop também - tentaram se mover mas ladeira puxava de volta, Rand apareceu de macacão azul escuro ao lado do carro, mexeu no motor, algo clicou, ar mudou, tempo se soltou, fechou capó, limpou mãos, sumiu, figura: passos lentos/pesados/metódicos, macacão mais largo/sujo, máscara branca sem expressão/olhos/boca - só vazio, facão longo refletindo luz, Michael Myers, andava sem pressa, respiração pesada/abafada/forçada de dentro da máscara, homem parou 7 metros, depois 5 metros, máscara customizada com linhas vermelhas nas laterais, símbolo estranho na testa, marca do Leandro, Leandro Costa tirou máscara - cabelo suado, olhos escuros, sorriso torto, perguntou "Assustei?", facão era plástico de loja de fantasia, macacão sujo de tinta não sangue, voltava de festa à fantasia, Rand reapareceu ao lado do carro preto no final, acenou, sumiu quando Jota piscou
 

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