O lugar é um labirinto de túneis abandonados. Trilhos enferrujados cortam o chão de terra batida. Pilares de concreto rachado sustentam tetos baixos que parecem querer desabar a qualquer momento. O ar é pesado. Enxofre. Terra úmida. Algo podre que não deveria estar ali.
Jota conhece esse cheiro.
A primeira vez que esteve aqui, trouxe fogo.
Seis meses atrás, talvez sete. Curiosidade estúpida. Exploração. Sozinho. Encontrou gente. Infectados. Doentes. Possuídos por algo que os fazia andar torto, falar errado, olhar com olhos brancos que não piscavam. Movimentos descoordenados. Perigosos. Atacam qualquer pessoa que encontram. Matam. Sem motivo, sem aviso quando ativos. Queimou todos. Foi embora.
Acabou virando trabalho. Encontrar esses locais.
Esses pontos existem por todo o mundo agora. Ninhos. Lugares abandonados que atraem infectados como ímã. Eles saem, vagam, atacam quem cruza o caminho, mas sempre voltam pra dormir. Ficam dormentes. Vulneráveis. É quando alguém tem que ir lá e queimar antes que saiam de novo. Jota é esse alguém nessa região.
A regra era simples. Eliminação. Chegar, identificar, queimar, ir embora. Ele tirava fotos antes de atear fogo. Catalogar. Gente que desapareceu e nunca mais foi vista. As fotos davam resposta. Família que procurava alguém pelo menos sabia: infectado, eliminado. Melhor que o nada.
A última vez tinha sido há uma semana. Poucos. Cinco, seis. Queimou rápido. Fotografou. Saiu mais cedo que deveria.
O Gol Bolinha ronronava baixo enquanto ele dirigia em direção à mina. Carro reforçado para esse tempo. Chapas de metal soldadas nas laterais. Grades nos vidros. Mas o motor continuava o mesmo 1.0 16v de sempre, gritando nas subidas. Sem ar-condicionado. Janela aberta. O cheiro de fumaça da última vez ainda no nariz.
Mas pelo menos tinha acabado, pensava.
O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 range até parar na entrada das minas. Viu na televisão. Infectados com queimaduras numa região que reconheceu. Parecidos com os dos registros. Mesmos corpos, mas com bolhas. O alerta acendeu. Era o local que saiu mais cedo. Trabalho mal feito. Jota teve que voltar. Motor apaga. Jota gira a chave. Nada. Tenta de novo. O motor tosse, morre. Silêncio. Apenas o tique-taque do metal esfriando.
Merda.
Ele sai do carro. Pega a mochila laranja do banco. Joga nas costas. Fecha a porta sem trancar. A coronha da espingarda aparece debaixo do banco do passageiro. Ainda não. A regata vinho está grudada no corpo. Suor. Cinza velha que nunca saiu direito do tecido. Os tênis surrados nos pés. Dedão aparecendo pelo buraco do esquerdo.
Os túneis estão quietos demais.
Jota anda devagar. Olha ao redor. Pilares queimados. Paredes enegrecidas. Mas nenhum corpo. Nenhum resto. Como se alguém tivesse limpado tudo.
Então ouve.
Sussurro.
Baixo. Vindo de dentro dos túneis.
“Ela vai querer ver isso.”
Jota para. Coração acelera. Vira a cabeça.
Passos ecoam atrás dele.
Ele se vira.
Eles estão vivos.
Saem das sombras como fantasmas. Quinze deles. Talvez vinte. Pele queimada. Feridas que deveriam ter matado qualquer um. Bolhas estouradas. Carne viva exposta. Mas estão andando. Olhando para Jota. Reconhecendo.
Um deles sorri. Dentes podres. Gengivas sangrando. Parecido com um dos registros. Mesmo rosto, só que coberto de bolhas.
Jota recua. A mão vai para a mochila. Procura o isqueiro. Os dedos encontram o caderno de anotações. Capa dura marrom. O ímã de geladeira cinza fosco está preso na capa. Logo do Posto Esso quase apagado. Não ajuda. Procura mais fundo.
Eles se movem rápido.
Mãos queimadas seguram seus braços. Suas pernas. Jota tenta se debater mas eles são muitos. Cordas aparecem. Correntes enferrujadas. Alguém puxa a mochila dele. Joga longe.
Prendem Jota contra um pilar frio.
Ele grita.
Não adianta.
Então vê ela.
Daslu.
Caminha entre os infectados como se fosse uma deles. Talvez seja. Cabelo loiro platinado sujo de cinza. Olhos âmbar vazios. O corpo magro, alto, se move devagar. A pele clara manchada de fuligem. Ela veste um vestido branco rasgado que já foi bonito. Agora é trapo.
Uma mão no ombro dela. Guiando. Apertando. Daslu se move na direção que a mão empurra.
Não olha para Jota. Não olha para ninguém.
— Daslu!
Os infectados riem.
Não é riso humano. É algo úmido. Gutural. Como se estivessem engasgando com o próprio ar.
Daslu para. Levanta o rosto. Os olhos encontram Jota por um segundo. Vazios. Mas algo tremula lá no fundo. Medo? Reconhecimento? Pena?
A mão no ombro aperta. Puxa.
Ela olha para baixo de novo.
Continua andando.
Desaparece em um dos túneis laterais. Levada.
— Ela não precisa ser salva — uma voz diz.
Jota olha para a fonte.
A mulher que Daslu chamava de irmã.
Jota entende agora por que Daslu sumiu. Foi atrás dela. Da irmã. E a irmã deve ter enganado ela. Puxado pra dentro. Presa ali.
Não irmã de sangue. Apenas alguém que Daslu escolheu. Que Daslu chamava de irmã. Jota nunca soube o nome dela. Só sabia que de repente Daslu amava aquela mulher mais que tudo. Mais que ele. Sempre mais. E isso queimava nele tanto quanto o fogo queimou nela.
A irmã é alta. Magra demais. A pele queimada é pior que nos outros. Bolhas abertas. Carne viva. Pus escorrendo. Mas os olhos não são brancos. São escuros. Vivos. Conscientes. Ela não é como eles. Ela se move com autoridade. Os corpos queimados se afastam quando ela passa. Abrem caminho. Como se fosse rainha. A dona de Daslu.
Mas Jota não lembra dela naquela mina antes.
Talvez estivesse em um local desconhecido, talvez chegaram depois que saiu.
Muitas perguntas e poucas respostas.
Podem ter sobrevivido por causa dela. Jota tentava conectar os pontos mesmo preso.
Ela para na frente de Jota.
— Você queimou muitos de nós — ela diz. Voz calma. Quase doce. Escolhendo cada palavra. — Achou que ia dar certo. Mas eu não deixei a gente morrer.
Jota só olha para o rosto dela.
A irmã de Daslu sorri.
— Agora vai pagar por isso.
Ela olha para os infectados. Depois para Jota.
— Mas primeiro preciso de uma coisa sua.
Ela se ajoelha.
As mãos vão para o cinto de Jota. Abrem. Puxam. Baixam o zíper.
Jota tenta se debater mas as cordas cortam a pele. Os infectados seguram firme. Alguns assistem. Outros olham para o nada. Como se aquilo fosse rotina.
A boca dela encontra Jota.
Começa.
O calor é errado.
A textura é errada.
Jota fecha os olhos. Tenta pensar em outra coisa. Qualquer coisa. O motor do Gol morrendo. O caderno no chão. O ímã apagado.
Não funciona.
Ele abre os olhos. Olha para baixo.
Verrugas.
Nos ombros dela. Parece no peito também. Espalhadas como mofo vivo. Crescendo enquanto ela se move. Algumas são pequenas. Outras do tamanho de uma moeda. A pele ao redor está vermelha. Inchada. Pus escorre de uma delas. Cai no chão. Sibilando.
O estômago de Jota revira.
Mas ele não consegue desviar o olhar.
A boca dela continua. Quente. Úmida. Errada. O cheiro de podre sobe e enche o nariz dele. É pior que a fumaça. Pior que a carne queimada. É algo vivo. Algo que está apodrecendo enquanto respira. Enquanto o toca.
Lágrimas escorrem pelo rosto de Jota.
Não de prazer.
De nojo.
De derrota.
De algo quebrado dentro dele que não vai se consertar.
Daslu aparece de novo. Fica parada na entrada do túnel. Assistindo. Os olhos dela ainda vazios. Mas agora há algo lá. Talvez pena. Talvez ciúme. Um tremor nos lábios. Como se fosse chorar mas não conseguisse.
Jota olha para ela.
Mas Daslu desvia o olhar.
A irmã de Daslu termina.
Levanta. Limpa a boca com as costas da mão. Sorri de novo. Dentes podres brilhando na penumbra.
— Gostou?
Jota não responde.
Não consegue.
A garganta está fechada. O peito aperta. O mundo gira. Ele quer vomitar. Quer gritar. Quer morrer.
Mas não faz nada.
Só fica ali. Preso. Sujo. Quebrado.
A raiva vem depois.
Devagar.
Como brasa que acende no fundo do peito.
Mais quente que qualquer fogo que ele ateou.
Ele olha ao redor.
Os infectados relaxam. Alguns se afastam. Outros conversam entre si. Baixo. Como se já tivessem esquecido de Jota.
Então a irmã de Daslu volta.
Caminha entre eles. Fala algo que Jota não entende. Os infectados viram a cabeça. Prestam atenção nela. Todos. Como cachorros ouvindo a dona. Ela aponta pra um dos túneis. Dá ordens. Eles obedecem. Se movem. Se afastam de Jota.
Ninguém segurando as cordas.
Ninguém olhando.
Jota puxa. Os 110kg inteiros contra as cordas. O pilar range. A corda morde a pele do pulso. Sangue escorre quente. Ele puxa de novo. Mais forte. O nó cede. Não muito. O suficiente. A mão direita passa.
Alguém grita.
Tarde demais.
Jota está livre.
Puxa a calça. Fecha o zíper.
Empurra os que chegam perto.
Corre.
Primeiro para a mochila. Pega. Não para. Agora direto para o Gol.
Atrás dele, grunhidos. Passos. Sente os seres se aproximarem. Ele sente os dedos roçando.
Mais rápido.
Algo caído bloqueia o caminho. Jota pula. Quase tropeça do outro lado. Recupera. Continua correndo.
O Gol tá ali. Dez metros. Cinco.
Abre a porta. Entra. Fecha. Tranca.
Mãos batem no vidro. Rostos queimados grudados na janela. Dentes rangendo.
Jota enfia a chave. Gira.
O motor tosse.
— Vai, porra — Jota sussurra.
Gira de novo.
Tosse. Morre.
Os infectados cercam o carro. Batem no capô. No teto. No vidro traseiro. Rachaduras aparecem.
Jota gira a terceira vez.
Nada.
— VAI!
Quarta tentativa.
O motor pega.
Jota joga em marcha ré. Acelera. O Gol atropela dois infectados. Eles caem. Rolam. Não levantam.
Ele vira o volante. Joga em primeira. Acelera. A estrada de terra chacoalha o carro. O motor range. Mas aguenta.
Jota dirige por vinte minutos.
Para na beira da estrada.
Olha pro Gol. A etanol. Tanque cheio de etanol não ajudaria mesmo. Precisa da gasolina especial, aquela sem cheiro. O que tinha não foi suficiente antes, não seria agora.
Pega o celular com a mão tremendo.
Disca.
Atendem no primeiro toque.
— Preciso de gasolina especial — Jota diz. A voz sai rouca. Rachada. — Muita gasolina. Traz tudo que você tiver.
Pausa.
— Não pergunta. Só me diz onde pegar.
Jota pega os detalhes e desliga.
Olha pelo retrovisor.
A regata vinho está ensopada. Suor. Sangue do pulso. Algo mais que ele não quer pensar. O pulso direito sangra. O tênis surrado parece mais surrado ainda.
Jota pega a mochila do banco do passageiro. Abre. Procura o caderno.
Encontra.
O ímã ainda preso na capa. Cinza fosco. Apagado. Beiradas descascando. Antes ele brilhava. Azul pálido. Sempre que família estava perto. Agora não acende mais. Não tem pra quem acender.
Ele abre o caderno. Folheia. Lê e escreve algumas coisas enquanto espera.
Fecha. Guarda na mochila.
Sorri.
Pela primeira vez em meses.
Três horas depois, volta.
Porta-malas cheio de galões. Caixa de fósforos no bolso. O isqueiro amarelo no outro.
Estaciona num local estratégico. Carrega um galão em cada mão. Pesado. O pulso ferido grita. Ele ignora.
Entra nos túneis.
Idiotas. Fotografados, queimados, e ainda voltam pro mesmo lugar. Dessa vez Jota não vai sair com pressa.
Eles estão dormindo.
Ou algo parecido com dormir. Corpos amontoados em cantos. Respiração lenta. Irregular. Alguns gemem baixo. Outros ficam mudos.
Jota trabalha devagar.
Derrama a gasolina especial sem cheiro pelos túneis. Pelos corpos. Pelos pilares. Pelas estruturas de metal.
Ninguém acorda.
Ou eles não se importam.
Continua derramando.
Encontra Daslu.
Ela está acordada. Sentada contra um pilar. Olha para Jota. Os olhos ainda vazios. Mas há algo lá no fundo agora.
Reconhecimento.
Talvez perdão.
Ou desistência.
— Desculpa — Jota sussurra.
Ela não responde.
Mas os lábios se movem. Como se fosse dizer algo. Nenhum som sai.
Jota derrama gasolina ao redor dela.
Daslu não se move.
Fecha os olhos.
Espera.
Jota termina de esvaziar os galões. Volta para a entrada. Vai até o Gol. Pega a espingarda debaixo do banco.
Volta para a entrada.
O isqueiro amarelo já no bolso. O sobrevivente.
Acende na primeira.
Sempre acende.
Joga.
As chamas correm pelos túneis como água. Sobem pelas paredes. Engolem os corpos. Os gritos começam. Desesperados. Animais. Alguns tentam correr. Tropeçam. Caem. As chamas os alcançam.
Jota fica parado. Assistindo.
A irmã de Daslu aparece na entrada de um túnel. Em chamas. Tenta correr. Grita. Tropeça. Cai.
Jota atira. Nela primeiro. Ela é o motivo de terem sobrevivido. Sem ela, são só infectados. Com ela, voltam sempre.
O corpo queima até virar cinza.
Mas Daslu — Daslu não grita.
Jota a vê por um segundo. Sentada contra o pilar. O fogo subindo pelas pernas. Pelos braços. Pelo vestido branco rasgado. Pelo cabelo loiro platinado.
Ela olha para Jota.
Não desvia.
Os olhos brilham na luz do fogo.
Depois apagam.
Mesmo quando as chamas engolem tudo.
Jota fica até o fim.
Atirou em um ou outro que tentava fugir.
Até o último grito.
Até o último movimento.
Até tudo virar cinza e silêncio.
Dessa vez, não vai embora sem checar.
Jota caminha pelos túneis. Devagar. A espingarda na mão. Fumaça ainda subindo dos corpos. Chuta as cinzas. Procura movimento. Procura respiração. Procura qualquer coisa que ainda se mova.
Nada.
Confere cada túnel. Cada canto. Cada corpo que ainda tem forma suficiente pra reconhecer. Tira fotos dos que ainda dá pra tentar identificar o rosto. Catalogar. Alguém pode estar procurando. Compara com os registros antigos no celular. Todos parados. Todos quietos. Mas coloca gasolina nesses corpos novamente, precisa queimar tudo.
Ninguém sabe por que voltam pra esses lugares. Ninguém nunca soube. Mas por enquanto, esse aqui está limpo.
Acende novamente.
E espera queimar mais uma vez.
O cheiro de carne queimada volta.
Vai ficar semanas no nariz de novo.
Talvez para sempre.
Jota não se importa.
Ele volta para o Gol.
Entra.
Fecha a porta.
Liga o motor.
Ele dirige de volta para a cidade.
Janela aberta.
Vento no rosto.
Mas o vento não tira o cheiro.
Não tira o gosto.
Não tira a sensação da boca dela.
Não tira o olhar vazio de Daslu assistindo.
Não tira nada.
Jota aperta o volante com força.
O pulso ferido sangra de novo.
Ele não sente.
Só dirige.
O Gol Bolinha seguindo pela estrada.
Motor ronronando baixo.
Os tênis surrados no pé.
Mas por hoje, acabou.
Dessa vez não sobrou ninguém.
Nem Daslu.
Nem a irmã dela.
Nem os infectados.
Nem a versão de Jota que entrou naquele lugar pela primeira vez.
Só cinzas.
E o Gol Bolinha seguindo pela estrada vazia.
Levando Jota para longe das minas mortas.
Levando o que sobrou dele.
O que ainda consegue dirigir.
O que ainda consegue acender isqueiro.
O que ainda consegue queimar.
Mas não consegue esquecer.
Nunca mais.
