Jota freia o Gol Bolinha na frente de casa, duas portas rangendo. Nove e quinze da noite. Atrasado. De novo. O trânsito da BR-277 tinha virado pesadelo, caminhão tombado, desvio, caos.
Pega a mochila laranja do banco traseiro, corre pra porta. O caderno marrom escapa pela lateral aberta, cai no chão. Ele volta, pega, enfia de volta na mochila meio sem paciência.
Dentro de casa, TV ligada na sala. Dona Tude assistindo alguma coisa. Deco no quarto dele, porta fechada. Jota atravessa direto pro quarto, fecha a porta atrás de si. Privacidade.
Joga a mochila no canto. Tira a camisa de botão, fica só na camiseta regata vinho. Calor de Curitiba não perdoa nem à noite. Chuta os tênis surrados pra debaixo da mesa do PC — cadarço direito solto como sempre, que quase faz ele tropeçar. Volta para cozinha e pega o refrigerante que deixou na geladeira de manhã, abre, bebe um gole longo.
Volta para o quarto. Liga o PC. A tela acende, ventoinhas roncam. Steam carregando. Discord já tá aberto, ícone piscando no canto. Quatro nomes verdes: online.
Coloca a mão no bolso e sente o isqueiro amarelo. Deveria ter deixado no carro. Coloca na mesa, depois devolve lá no carro.
Coloca o fone de ouvido, ajusta o microfone.
— Atrasado de novo, Chô? — Voz do Rosquinha, irritada mas rindo.
— Desculpa, trânsito tava foda. Caminhão tombado na BR.
— Trânsito às nove da noite? — Popó zomba do outro lado. — Inventa outra.
— A gente tá esperando há vinte minutos — Cabrito reclama. — Pizza já esfriou aqui.
Rand não fala nada. Só o ícone verde mostrando que tá lá. Como sempre. Silencioso. Presente mas invisível.
Jota abre o jogo novo que deixou baixando ontem. Versão que Rand achou num fórum obscuro. Mod estranho que ninguém conhecia. O lobby já tá montado. Quatro personagens esperando no hangar virtual, armas erguidas, prontos. Ele escolhe o quinto personagem. Sempre o que parece mais fodido.
— Bora detonar? — ele pergunta, ajustando o mouse.
— Finalmente — Rosquinha responde.
A tela carrega. Luzes vermelhas piscando. Som grave de metal batendo. Texto aparece:
HORDE MODE – WAVE 10 – LOCUST UNDERGROUND SPECIAL EDITION – UNDERGROUND DEMONS
— Onda dez já? Vocês começaram sem mim?
— Óbvio — Popó ri. — Tu demorou demais.
— E que porra é Special Edition? — Jota pergunta.
— Rand achou esse mod — Cabrito explica. — Underground Demons. Bizarro mas viciante.
— Achou onde? — Popó pergunta.
— Não sei — Rand responde, voz baixa. — Só sei que foi assim.
O jogo carrega.
E então…
A tela pisca. Uma vez. Duas.
A câmara subterrânea se materializa ao redor deles. Cheiro de enxofre queimado e concreto pulverizado invade. Paredes rachadas, teto baixo de metal retorcido, vigas pingando algo negro e viscoso. Luzes vermelhas piscam em sequência irregular, sombras dançando.
Jota — não, o personagem dele — se agacha atrás de escombros. Mochila tática laranja nas costas (sempre escolhe skins parecidas), colete reforçado, capacete com visor rachado.
— Posições! — ele comanda no microfone.
Os cinco se espalham.
Popó controla o soldado com Lancer — rifle de assalto com motosserra no cano. Ele sempre escolhe corpo-a-corpo.
Rosquinha usa Longshot, sniper de longo alcance. Preciso. Calculado.
Cabrito carrega cinto cheio de granadas. Sempre demolição.
Rand… ninguém sabe direito o que Rand usa. Ele some, reaparece, mata, some de novo.
O chão treme.
— Movimento — Jota avisa.
E o demônio aparece.
Três metros de altura, pele cinzenta pulsando veias vermelhas, chifres raspando o teto, garras crateras no chão metálico. Olhos amarelos fixos. Ruge.
Na casa de Jota: O som explode nos fones de ouvido. Ele recua na cadeira, instintivo. O isqueiro amarelo cai da mesa, bate no chão.
— CARALHO QUE PORRA É ESSA — Popó grita.
— Boss da onda dez — Cabrito responde, tenso. — É o grandão.
— Fogo coordenado! — Jota comanda. — Esquerda agora!
Os tiros explodem em uníssono.
Balas traçantes cortam o ar, perfuram o flanco do demônio. Sangue negro jorra, derrete o chão.
— Acertei! — Rosquinha grita. — Joelho esquerdo!
— Continua! — Jota responde, disparando rajada. — Popó, vai de serra!
— Deixa comigo!
O personagem de Popó corre direto pro demônio, Lancer ronroneando, serra girando. Enfia no braço da criatura. Metal contra carne. Faíscas. Sangue negro respingando.
Na casa do Popó: Ele aperta botões freneticamente, suando, rindo. — VAI CARALHO!
O demônio urra, sacode o braço. O personagem de Popó é arremessado, bate em escombros.
— Tomei hit! — Popó avisa. — Vida baixa!
— Rand, flanqueia! — Jota ordena.
Silêncio no Discord.
— RAND?!
E então a voz rouca:
— Já tô atrás dele.
O personagem de Rand materializa atrás do demônio, dispara rajada nas costas. A criatura gira, confusa. Rand já sumiu de novo.
— Como tu faz isso? — Cabrito pergunta, impressionado.
— Não sei — Rand responde. — Só sei que foi assim.
— Cabrito, granadas na barriga!
— Saindo!
Três explosões em sequência. Fogo e estilhaços rasgam o abdômen do demônio. Entranhas fumegantes aparecem, órgãos pulsando vermelho.
Nas cinco casas: Cinco caras se inclinam pra frente, tensos, concentrados. Bebida esquecida. Pizza esfriando. Só o jogo existe.
O demônio cambaleia.
— Rosquinha, joelho de novo!
— Tô sem ângulo!
— Arruma um!
O sniper rola, deita, mira. Dispara.
A bala atravessa o joelho já rachado. Osso explode. A perna cede.
O demônio cai.
Não morre. Apoia no outro joelho, mãos no chão, corpo inclinado. Ainda respira.
— Aproximar! — Jota comanda. — Armas erguidas!
Os cinco personagens avançam devagar. Silêncio. Só respirações pesadas nos microfones.
Jota guia o personagem até a cara bestial. O demônio respira em golfadas, olhos semicerrados. As feridas abertas pulsam luz vermelha, sincronizadas.
E algo acontece.
A câmera aproxima. Os cinco personagens param. Olham.
— Olha isso — Rosquinha sussurra.
— O que é? — Cabrito pergunta.
Jota franze a testa, inclinando pra frente na cadeira.
— Ele… parece com a gente.
E é verdade. A forma do demônio — braços, pernas, torso — lembra demais os personagens deles. Ombros largos. Mãos grandes. Cicatrizes nos mesmos lugares. Distorcida. Grotesca. Mas familiar.
— Cara… — Cabrito sussurra. — Ele É a gente. Versão errada.
— Ou a gente é a versão errada dele — Rand responde.
Silêncio.
O personagem de Jota estende a mão. Toca a ferida aberta no peito do demônio.
Na casa de Jota: seus próprios dedos se fecham no ar, como se tocassem algo.
Tudo fica branco.
Nas cinco casas:
Jota sente calor subir pelo braço real. Olha pros próprios dedos: normais. Mas no reflexo da tela, jura que viu garras piscarem.
Popó sua frio, coração acelerado.
Rosquinha pisca, tela borrando na visão.
Cabrito aperta os punhos, músculos tensos.
Rand… Rand sente mas não reage. Como sempre.
Na tela: Os cinco personagens brilham. Veias vermelhas aparecem nos braços. Olhos ganham brilho dourado. Unhas viram garras. Pele endurece.
Nenhuma conquista aparece. Nenhum texto explica.
Só a transformação.
Silenciosa.
Visceral.
Real.
No Discord:
Silêncio absoluto.
Depois:
— Vocês… vocês sentiram isso? — Cabrito pergunta, voz estranha.
— Senti — Jota responde, olhando pros próprios dedos reais. Normais. Mas jura que viu garras por um segundo.
— Que porra foi essa? — Popó pergunta.
— Modo demônio — Rand responde, voz baixa. — Desbloqueamos.
— Como tu sabe? — Rosquinha pergunta.
— Não sei. Só sei que foi assim.
Na tela: O demônio derrotado fecha os olhos. Corpo relaxa. Algo no rosto dele… quase parece paz.
— Ele… ele sorriu — Rosquinha diz, confuso.
— Vi — Jota responde.
— Por que um boss sorriria?
— Porque não era boss — Rand responde. — Era professor.
Silêncio.
— Professor de quê? — Cabrito pergunta.
— Não sei…
Os outros falam juntos:
— … Só sei que foi assim.
Ninguém questiona mais. Com Rand, nunca adianta.
— Próxima onda? — Rosquinha pergunta, quebrando o silêncio.
— Tem mais? — Popó pergunta.
— Onda onze — Cabrito confirma. — Diz aqui que é boss duplo.
— Dois demônios? — Jota pergunta.
— Maiores que esse.
Silêncio.
Depois:
— Bora — Jota decide.
— Bora — todos respondem.
Os cinco personagens transformados avançam pra passagem do fundo. Garras brilhando. Olhos dourados. Armas erguidas.
Rugidos ecoam das profundezas.
Maiores. Mais fortes.
Mas agora eles também são.
— Chô? — Rosquinha chama.
— Fala.
— A gente é foda, né?
Jota ri. Popó ri. Cabrito ri. Até Rand solta um som que quase é risada.
— A gente é — Jota confirma.
E é verdade.
Não por causa do jogo. Por causa deles. Cinco caras. Trabalho fodido, contas pra pagar, vida que cansa. Mas às sextas à noite, conectam. Jogam. Riem. Detonam demônios virtuais.
E por algumas horas, são mais que isso.
São squad.
São invencíveis.
São irmãos.
A próxima onda carrega.
Cinco caras se ajeitam nas cadeiras, pegam bebidas, ajustam fones.
Prontos.
Dois demônios emergem da escuridão. Maiores. Mais fortes.
— Fogo coordenado! — Jota comanda.
E cinco vozes respondem em uníssono:
— BORA!
E lá fora, em cinco janelas iluminadas por telas, cinco sombras com olhos dourados piscam.
Ou foi ilusão?
