Capa do Capítulo

Nove Olhos

Extensão: 4.576 palavras | Leitura: 23 min

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O Gol Bolinha ficou dormindo na garagem do sobrado no Capão da Imbuia, tanque cheio, esperando quieto. Jota acordou às sete. A família já tinha saído pra missa na Catedral. Ele não ia. Nunca ia.

Tomou banho sem pressa, vestiu a camiseta vinho, o moletom cinza, o tênis surrado. Pegou a mochila laranja e jogou no ombro. O caderno marrom de capa dura estava dentro, com uma página solta rabiscada de leve: “Serra do Mar – não olhe pra baixo”, uma anotação velha de outra viagem que ele nem lembrava quando fez.

Às sete e meia chamou um Uber. Hoje ele merecia não dirigir.

A excursão era ideia de uma tia: ela organizou tudo, fez o cronograma, conseguiu até um daqueles ônibus verdes de dois andares da Linha Turismo de Curitiba. Missa das sete na Catedral, café da manhã no Mercado Municipal, depois descida pra Morretes, almoço de barreado, volta no fim da tarde. Barato, alegre, família. Jota topou porque fazia tempo que não via a família toda reunida. Mas missa, não. Missa ele pulava.

O Uber deixou ele na Praça Tiradentes um pouco antes das oito. O ônibus verde de dois andares já esperava, motor desligado, porta aberta. A Catedral ainda tinha gente dentro. Dava pra ouvir o coro baixinho.

Jota subiu sozinho pro segundo andar. A lona de cobertura estava esticada por causa da garoa fina. Escolheu a primeira fileira, banco de ferro pintado de verde, aquele que range quando um gordo de 110 kg se acomoda. Jogou a mochila laranja no banco ao lado.

Quinze minutos depois, a família começou a sair da Catedral.

Primos adolescentes bocejavam. Crianças corriam ao redor da fonte. A tia que organizou tudo conferia a lista num caderninho. O pai de Jota ajeitava a bolsa térmica. Tias comentavam a homilia, felizes, abraçadas.

Todo mundo subiu pro ônibus.

O motorista ligou o motor. Um ronco manso, de Scania antigo. A porta pneumática chiou e fechou. O guia de turismo, um cara magro de bigode fino e microfone na mão, começou o blá-blá-blá de sempre: “Bem-vindos à Linha Turismo especial, hoje vamos conhecer…”. Ninguém prestava atenção de verdade. As crianças gritavam. As tias tiravam selfie com a Catedral ao fundo.

O ônibus desceu devagar pela Praça Tiradentes, fez a volta curta e parou em frente ao Mercado Municipal. Porta abriu. Todo mundo desceu.

Café da manhã coletivo. Pão na chapa, café preto, suco de laranja, bolo de fubá que uma tia trouxe de casa. O cheiro bom de manteiga derretendo, farinha torrada, conversa alta. Jota comeu devagar, observando. A família inteira reunida, feliz, rindo. Fazia tempo mesmo.

Meia hora depois, todo mundo de volta pro ônibus. Barriga cheia, ânimo alto. A tia conferia a lista de novo. Todos presentes.

O ônibus saiu do Mercado, passou pelo Viaduto Colorado, contornou o Jardim Botânico. Tudo normal. Tudo feliz. A garoa parou. Alguém recolheu a lona de cobertura do segundo andar. O sol começou a bater forte. Tias passaram protetor solar nos sobrinhos. Jota encostou a cabeça no banco e deixou o vento bater no rosto. Sentia o peso bom do corpo afundando no banco, o coração tranquilo de quem não precisa provar nada pra ninguém hoje.

Na saída da cidade, o trânsito ainda leve. A BR-277 se abriu inteira, reta, limpa, o asfalto brilhando com a garoa. Placas de Morretes e Paranaguá aparecendo de vez em quando. O céu foi clareando. O sol bateu forte no metal do ônibus. O guia anunciou que em quarenta minutos começava a descida da Serra do Mar.

Jota sorriu sozinho.

Gostava daquela parte. Sempre gostou. Jota não conseguia lembrar quantas vezes tinha feito esse trajeto. Acompanhado ou sozinho. As memórias se misturavam, embaçadas como o vidro do Gol.

O ônibus pegou velocidade.

O segundo andar balançava levinho nas curvas. Algumas tias já desciam pro andar de baixo, com medo da altura. Jota ficou. Abriu os braços no encosto do banco, ocupando dois lugares porque podia. Respirou fundo o ar frio que entrava por cima.

Foi aí que ele sentiu.

Primeiro como uma coceira na nuca. Depois como um peso inexplicável no peito.

Algo errado.

Não sabia o quê ainda. Só sabia que tinha.

O motorista trocou de marcha. O ronco do motor mudou de tom.

O ônibus cruzou a faixa amarela contínua por meio segundo.

Um carro buzinou lá atrás.

O ônibus voltou pro lado certo.

Jota franziu a testa.

Olhou pro retrovisor externo.

O motorista estava lá, de boné, mãos firmes no volante, perfil normal.

Mas algo não era normal.

E a Serra ainda nem tinha começado de verdade.

A Serra começou de verdade um pouco mais à frente.

A pista afunilou, o guard-rail virou uma fita prateada colada na beira do abismo, e a mata atlântica engoliu o céu. O sol sumiu atrás da encosta. A temperatura caiu de uma vez. A neblina começou a subir do vale, grudando no vidro.

O ônibus desceu a primeira curva fechada, motor sendo exigido mais do que deveria. O segundo andar balançou forte. Uma criança gritou de empolgação lá embaixo. Outra criança chorou. O guia de turismo ainda tentava manter o roteiro: “…aqui à nossa direita temos o Viaduto dos Padres, um dos pontos mais…” Ninguém ouvia mais.

Jota sentiu o estômago subir até a garganta. Não era medo de altura. Era outra coisa. Aquele peso que aperta atrás dos olhos. Ele se inclinou pra frente, apoiou os antebraços grossos no corrimão gelado e olhou pra baixo, pro asfalto que se desenrolava como uma cobra preta.

O ônibus cruzou a faixa amarela de novo.

Dessa vez não foi meio segundo. Foram três, quatro.

Um Palio Weekend cinza subia devagar na mão correta. O motorista do Palio viu o ônibus verde vindo de frente, pisou fundo no freio, jogou pro acostamento. O ônibus passou raspando, tão perto que Jota viu o cara de olhos arregalados, boca aberta num grito que não saiu.

O ônibus não desviou. Nem diminuiu.

Voltou pro lado errado como se fosse o certo.

Um silêncio estranho caiu no segundo andar.

As tias pararam de falar. Os primos baixaram os celulares. Até as crianças ficaram quietas. Só o barulho do motor e o chiado dos pneus nas curvas.

Jota desceu dois degraus de uma vez, o peso fazendo o metal ranger alto. Chegou no meio do segundo andar e olhou pra trás. O Palio estava parado torto no acostamento, farol piscando, o motorista com a cabeça entre as mãos. Nenhuma batida ainda. Só o susto. Mas já era o primeiro aviso.

— Alguém viu isso? — ele perguntou, voz mais rouca do que queria.

Uma tia levantou a cabeça.

— Viram o quê, Jota?

— O ônibus… ele tá na contramão.

Ela deu risadinha nervosa.

— Tá doido, filho? É só curva, o motorista sabe o que faz.

Jota voltou pro corrimão. Olhou pra frente.

A próxima curva passava por um trecho onde a pista estava simples, mas tinha sinais de deslizamento antigo. O ônibus entrou direto. Na contramão. Velocidade constante. Sem buzinar, sem reduzir.

Um hatch prateado apareceu do nada, subindo.

O motorista do hatch jogou pro lado, tentou escapar pela esquerda. Não tinha esquerda. Só mato e abismo.

O choque foi seco.

Metal contra metal. O para-choque do hatch dobrou como papel, o capô subiu, o vidro dianteiro explodiu em mil pedaços. O ônibus tremeu um segundo, como quem toma um tapa leve, e seguiu. Sem arranhão. A lataria verde brilhando intacta. O hatch rodou duas vezes, bateu no guard-rail e parou de frente pro abismo, capô fumegando.

Gritos explodiram lá embaixo.

— PARA! PARA ESSA PORRA!

— ELE BATEU EM ALGUÉM!

— MOTORISTA, PELO AMOR DE DEUS!

O guia largou o microfone. O microfone caiu, rolou pelo corredor, ficou chiando sozinho.

Jota já estava descendo a escada em espiral quando o segundo choque aconteceu.

Uma van branca descia na pista correta. Tentou frear, tentou desviar. O ônibus pegou ela de lado, arrancou o retrovisor com espelho e tudo, amassou a porta de correr como se fosse lata de sardinha. A van derrapou, rodou, bateu de traseira na mureta e ficou atravessada na pista. Portas abriram. Gente saiu correndo, gritando, alguns com celular na mão filmando o ônibus verde que já sumia na próxima curva.

O cheiro de borracha queimada entrou pelas janelas abertas.

O pai de Jota estava de pé no corredor, rosto vermelho, segurando no encosto dos bancos.

— A gente precisa fazer alguma coisa!

Ninguém respondeu.

Porque ninguém sabia o quê.

Jota olhou pra cabine. A porta estava fechada. O ônibus era adaptado, cabine isolada com vidro fumê que refletia o caos lá dentro: tias chorando, crianças agarradas nas mães, primos adolescentes com o celular apontado pras janelas como se aquilo fosse conteúdo pro TikTok.

O terceiro choque veio mais forte.

Um Gol branco, modelo antigo, tentou subir pelo acostamento. O ônibus pegou de cheio na lateral. O Gol voou, literalmente voou uns dois metros, capotou uma vez e caiu de rodas pro alto no meio fio.

Jota sentiu o coração bater tão forte que doía o peito.

O suor frio escorreu pela nuca, grudou na camiseta vinho.

Ele olhou pros lados. A maioria ainda em pânico. Mas algo estava mudando.

Duas sobrinhas, lá no fundo, pararam de chorar. Olharam pra janela. Começaram a rir.

Riam alto. Apontavam.

— Olha o carro voando, tia! Que legal!

Uma prima que gritava há dois minutos agora mexia no celular, ajeitando o cabelo, procurando ângulo pra selfie.

Jota sentiu um arrepio que não era do frio da Serra.

O ônibus não tinha um arranhão.

Nem um risco na pintura.

Como se o mundo é que estivesse quebrando ao redor dele.

E a neblina ficava mais densa.

A descida, mais rápida.

E a próxima curva já vinha.

A neblina agora era parede.

Branca, grossa, engolindo faróis, guard-rail, até o barulho dos motores. Só existia o asfalto preto na frente e o ônibus verde cortando ele como faca quente em manteiga. O velocímetro marcava 80 numa descida que qualquer caminhoneiro faz de segunda. O motor rugia satisfeito.

Os próximos minutos foram metal retorcido, vidro explodindo, faíscas azuis. Uma Saveiro vermelha jogada na mureta. Um caminhão tombando em câmera lenta, bloqueando a pista inteira lá atrás. Uma moto arrastada debaixo do ônibus como osso de frango, cuspida pra trás soltando faísca. Jota parou de contar.

O andar de baixo agora era meio manicômio, meio passeio escolar.

Metade das tias ainda rezava alto, o terço batendo no peito. A outra metade comentava da paisagem, tirava foto da neblina. Primos adolescentes filmavam tudo em vertical, mas agora metade narrava como terror (“a gente vai morrer!”) e metade como diversão (“que louco, olha só!”). Crianças chorando. Outras rindo. O pai de Jota ainda tentava arrombar a porta da cabine com o ombro, mas a voz já saía mais fraca, menos convicta:

— A gente precisa… precisa fazer alguma coisa…

A porta não abria.

O vidro fumê não deixava ver nada lá dentro.

Jota estava no meio do corredor, pernas abertas pra aguentar as curvas, 110 kg balançando como navio em tempestade. O suor escorria pela testa, pingava na barba. A camiseta vinho colada nas costas. Ele sentia o cheiro: medo, urina de criança que se mijou, borracha queimada entrando pelas janelas.

E o pior:

cada vez menos gente via o que ele via.

Um tio que rezava há cinco minutos guardou o terço no bolso e apontou pro vale:

— Que vista incrível, olha isso, amor!

Uma prima parou de gritar, abriu o Instagram, começou a escolher filtro.

Jota olhou ao redor, desesperado.

A realidade estava se dividindo. E ele estava do lado errado.

Jota gritou, a voz rasgando:

— VOCÊS NÃO TÃO VENDO? A GENTE VAI MORRER!

Alguns olharam pra ele como se estivesse louco.

Outros nem olharam.

A divisão estava quase completa.

Um carro azul pequeno, um Up ou algo assim, apareceu subindo devagar. O ônibus pegou de frente. O capô do Up dobrou pra dentro, o carro girou como pião e desapareceu na neblina, direto pro abismo. Jota ouviu o barulho distante de metal batendo em árvore, depois silêncio.

O guia turístico estava sentado no chão do corredor, microfone esquecido, olhos vidrados. Repetia baixinho:

— Não é possível… não é possível…

Jota passou por cima dele, chegou na porta da cabine.

O pai já estava ali, esmurrando a porta com os dois punhos.

— ABRE! ABRE AGORA!

Nada.

O ônibus seguia firme na contramão, como se tivesse trilho.

Jota tentou olhar pelo vidro fumê.

Conseguiu ver só um pedaço do perfil do motorista: boné, mãos no volante, postura calma. Normal demais. Errado demais.

— A gente precisa entrar aí — Jota disse, mais pra si mesmo do que pro pai.

— Não abre, porra! Já tentei!

Jota encostou a testa no vidro frio. Respirou fundo.

— Eu faço o que for preciso — disse baixo, quase num sussurro.

A porta se abriu sozinha.

Um clique seco. Dois centímetros.

O pai recuou, assustado.

Jota empurrou a porta devagar.

O suficiente pra ver.

Um ônibus de linha comum, daqueles vermelhos da Viação Castelo Branco, subindo lotado. O motorista do vermelho viu o verde vindo, tentou frear, tentou jogar pro lado. Não tinha lado. Os dois ônibus se olharam de frente por um segundo eterno.

Impacto.

O mundo inteiro tremeu.

Vidros estouraram. Bancos se soltaram dos parafusos. Pessoas voaram pelos corredores. Jota foi jogado contra a parede, sentiu o ombro bater forte, o ar sumir dos pulmões. O ônibus verde deslizou de lado, pneus cantando, mas não tombou. Não parou. Continuou descendo.

O outro ônibus ficou lá atrás, atravessado, portas abertas, gente saindo cambaleando, alguns no chão, outros correndo pra mata.

O cheiro agora era de diesel queimado, plástico derretido, medo puro.

Jota se levantou, sangue na boca (mordeu a língua), cambaleando até a cabine de novo.

Dessa vez a porta estava entreaberta.

Um dedo. Dois centímetros.

O suficiente pra ele ver.

Nove olhos.

Três fileiras perfeitas de três.

Sem pálpebras marcadas, sem rugas, só nove bolas brancas com íris pretas, cada uma olhando pra um canto diferente. Um olhava pra estrada. Dois vigiavam o retrovisor externo. Um acompanhava o painel. Outro parecia fixo no guard-rail. Três observavam pontos mortos que Jota não conseguia identificar.

E um — só um — se moveu na cabeça do motorista e fixou direto em Jota.

O motorista não virou o rosto inteiro. Só aquele olho. Cravado nele.

E continuou dirigindo.

O pai ao lado de Jota ofegava, mas não entrava. Ficou parado no batente, olhos arregalados, boca aberta.

Jota ficou ali, mão na maçaneta, o corpo inteiro tremendo.

Atrás dele, o caos.

Na frente dele, o silêncio absoluto da cabine.

E a próxima curva já vinha.

Jota empurrou a porta com o ombro inteiro.

O metal rangeu como se doesse, mas abriu.

O ar dentro da cabine era outro: mais frio, mais pesado, sem cheiro de nada. Nem diesel, nem borracha, nem medo. Só silêncio absoluto, como se o som tivesse morrido ali dentro.

A mochila laranja estava no chão, encostada no banco do carona.

Jota reconheceu na hora. Era dele.

Mas não lembrava de ter trazido pra cabine.

Não lembrava de ter deixado ali.

O motorista não virou o rosto.

Continuava com as mãos às dez e duas no volante, boné simples, camisa cinza padrão de motorista de ônibus de Curitiba, postura de quem cumpre o trajeto como qualquer outro dia.

Mas o rosto…

Nove olhos.

Três fileiras perfeitas, alinhadas como teclas de calculadora antiga.

Nenhum piscava junto. Alguns nem piscavam.

Um olhava fixo pra estrada.

Dois vigiavam o retrovisor externo.

Três se cravaram em Jota assim que ele entrou.

Um parecia olhar pra trás, pra dentro do próprio crânio.

Os dois últimos… olhavam pra lugares que não existiam.

Jota sentiu o estômago virar do avesso.

Não era nojo. Era algo pior.

Era reconhecer que aquilo não era humano, mas também não era monstro. Era outra coisa. Algo que dirige ônibus, usa uniforme, cumpre horário. Algo que está aqui pra fazer exatamente o que está fazendo.

— Para esse ônibus agora — a voz saiu baixa, rouca, quase um rosnado.

Os nove olhos não reagiram.

A boca (uma boca normal, pequena, sem lábios marcados) não se moveu.

Um barulho seco lá fora. Metal sendo esmagado.

Jota nem olhou pra trás. Sabia o que era. Mais um carro virando sucata na Serra.

— Você tá ouvindo? — Jota deu um passo à frente. O chão da cabine era limpo demais. Nem poeira. — Tem família minha aí atrás. Criança. Minha mãe. Para essa porra.

Silêncio.

O ônibus pegou outra curva fechada, inclinou, os pneus cantaram, mas o motorista nem corrigiu o volante. O veículo se equilibrou sozinho, como se a estrada obedecesse a ele.

Jota sentiu o sangue pulsar nas têmporas.

A raiva subiu quente, misturada com medo.

— Para essa porra — disse entre dentes.

Ele esticou o braço devagar, a mão se aproximando do volante.

Hesitou.

Depois tocou.

As mãos do motorista eram frias.

Não geladas. Frias como metal que ficou a noite inteira na garoa.

No segundo em que Jota encostou os dedos no volante, todos os nove olhos viraram pra ele ao mesmo tempo.

Todos.

Um movimento perfeitamente sincronizado, como se fossem um só.

Jota sentiu um peso cair em cima dele.

Não físico.

Era como se alguém tivesse aberto a tampa do cérebro e despejado cimento frio lá dentro.

Imagens que não eram dele começaram a passar:

Ele mesmo no banco. Boné verde da Linha Turismo. Nove olhos olhando pra trás.

O ciclo repetindo.

Ele soltou o volante como se tivesse levado choque.

Os olhos voltaram cada um pro seu canto.

O ônibus continuou na contramão.

Jota respirou fundo, o peito subindo e descendo pesado.

— O que você quer?

Silêncio.

— Fala comigo, porra!

Nada.

Ele olhou pro painel.

O velocímetro marcava 92.

A temperatura externa: 8 °C.

O rádio estava desligado.

No canto do para-brisa, um adesivo pequeno: “Deus é fiel”.

Jota riu.

Uma risada seca, sem graça, que morreu na garganta.

— Você quer que eu dirija, é isso?

Os nove olhos piscaram.

Três de cada vez.

Lento.

Como quem diz sim.

Jota olhou pra trás pela fresta da porta.

A família ainda gritava, chorava, filmava, rezava, ria.

Alguns já estavam quietos demais. Olhos vidrados. Como se estivessem desistindo.

Ele voltou a encarar o motorista.

— Se eu sentar aí… posso fazer o que quiser?

Os olhos não responderam.

Mas o ônibus diminuiu um tiquinho.

Quase nada.

Quase um sim.

Jota sentiu o coração bater tão forte que doía o peito.

Pensou na mãe lá atrás.

No pai tentando arrombar a porta.

Nas sobrinhas que ainda riam.

Engoliu seco.

— Tá bom.

Ele deu um passo pro lado.

O motorista soltou o volante.

Devagar.

As mãos subiram, se juntaram no colo.

O corpo inteiro virou pra Jota, lento, como boneco de posto.

O lugar estava vazio agora.

O banco do motorista esperando.

Os nove olhos continuavam olhando.

Todos pra ele.

Jota deu o primeiro passo.

Pegou a mochila laranja do chão.

O caderno marrom estava lá dentro, quieto, esperando.

Sentou.

O banco do motorista era mais quente do que deveria.

Não quente de sol, quente de corpo. Como se alguém tivesse acabado de levantar dali depois de horas. O vinil rangeu sob os 110 kg, mas não afundou como afundava no segundo andar. Aqui o banco parecia feito pra ele. Moldado pra ele.

Ele segurou o volante às dez e duas.

As mãos se encaixaram perfeitas, como se já conhecessem cada curva do plástico gasto.

Nesse momento, lá atrás, o último grito se calou.

O silêncio caiu como chuva.

A realidade piscou.

E quando voltou, já era outra.

O motorista (o que já não era mais motorista) ficou de pé ao lado, imóvel.

Nove olhos fixos nele.

Silencioso.

O ônibus ainda descia a 90 km/h, na contramão, neblina grossa lambendo os vidros.

Jota pisou no freio.

Nada aconteceu.

O pedal desceu até o fundo, macio, como se estivesse pisando em algodão.

O motor nem tossiu. A velocidade nem tremeu.

Ele engatou a ré por instinto.

A alavanca mexeu, mas o ônibus continuou descendo.

O pânico subiu quente pela espinha.

— Para essa porra! — gritou pra ninguém.

Os nove olhos do ex-motorista não reagiram.

Apenas observavam.

Então veio o peso.

Primeiro na nuca.

Depois atrás dos olhos.

Um formigamento que desceu pela testa, pelas têmporas, como se pequenos dedos frios estivessem abrindo caminho dentro do crânio.

Jota levou a mão ao rosto.

Sentiu a pele esticando.

Não doía.

Mas também não era confortável.

Ele olhou pro retrovisor interno.

Seus olhos ainda eram dois.

Por enquanto.

Mas ele via… diferente.

Via o carro que vinha subindo a próxima curva (um Corsa prata, placa de São José dos Pinhais, mulher no volante, dois filhos no banco de trás).

Via a trajetória que o ônibus faria.

Via o ponto onde o guard-rail estava podre.

Via.

Ou estava enlouquecendo?

Não sabia mais.

Ele tirou o pé do freio.

O ônibus acelerou sozinho.

Algo começou a mudar no canto da boca dele.

Pequeno.

Discreto.

Talvez um sorriso.

Talvez não.

No retrovisor, viu a família lá atrás.

Alguns ainda gritavam.

Outros já estavam quietos, olhando pro vazio.

Uma sobrinha levantou o celular, filmou a cabine, sorriu e fez joinha.

Jota sentiu o formigamento descer pro peito.

Pro abdômen.

Pros braços.

Olhou pras próprias mãos no volante.

Por um segundo, achou que eram mais mãos do que deveriam ser.

Mas quando piscou, eram só duas.

O ex-motorista deu um passo pra trás.

Devagar.

E começou a se desfazer.

Não derreter.

Desfazer.

Como fumaça verde que a neblina engoliu.

Sumiu.

Restou só o boné verde, caído no chão da cabine.

Jota pegou o boné.

Colocou na cabeça.

Serviu perfeito.

O ônibus pegou a próxima curva.

O Corsa prata tentou desviar.

Não deu tempo.

O impacto foi limpo.

O Corsa rodou, capotou, caiu no abismo sem nem tocar no ônibus.

O ônibus verde continuou impecável.

Sem um arranhão.

Jota olhou pro retrovisor de novo.

Seus olhos ainda eram dois.

Mas já não piscavam juntos.

E a descida ainda não tinha terminado.

A neblina afrouxou de repente, como se alguém tivesse aberto uma cortina.

O sol da baixada bateu forte no para-brisa, refletiu no verde impecável do ônibus.

A estrada alargou, o asfalto ficou liso, as curvas sumiram.

Placa: Morretes – 2 km.

O velocímetro marcava 50 agora, tranquilo, velocidade normal de descida.

Jota (ou o que sentava no lugar dele) tirou o pé do acelerador.

O ônibus desacelerou sozinho, suave, profissional.

Entrou na cidadezinha devagarinho, como qualquer excursão que se preze.

Rua de paralelepípedo, casario antigo, cheiro de barreado no ar.

As barraquinhas de artesanato já montadas pra receber turista.

Cachorro latindo preguiçoso no meio da rua.

Crianças correndo atrás de pipa.

O ônibus parou exatamente em frente ao ponto oficial, ao lado da igreja matriz.

Freio de mão puxado com um clique seco.

Motor desligado.

Silêncio.

Porta pneumática abriu com um suspiro longo.

Do lado de fora, o pessoal das barraquinhas acenou.

O guia de turismo desceu também, recuperado, microfone na mão de novo como se nada tivesse acontecido.

— Pessoal, temos várias opções pra almoço! Tem um local com ótimo barreado, outro com frutos do mar frescos. E ali vocês podem comprar a famosa bala de banana de Morretes!

Lá dentro, os passageiros começaram a descer.

Primeiro as tias, pernas trêmulas, mas sorrindo como se tivessem acabado de sair de um passeio normal.

— Que descida rápida, nem senti!

— O motorista é bom mesmo, viu?

Os primos adolescentes postando stories: “Serra do Mar raiz, 10/10”.

Crianças correndo, pulando os degraus, rindo alto.

O pai de Jota desceu por último, cara fechada, mas calado.

Olhou pra cabine uma vez.

Não olhou de novo.

Alguém perguntou baixo:

— E aqueles barulhos todos?

O pai franziu a testa.

— Que barulhos? Dormi a viagem toda. Não aconteceu nada de estranho.

Jota sentiu um arrepio percorrer a espinha.

Ninguém falou dos carros destruídos.

Ninguém falou dos gritos.

Ninguém falou do cheiro de borracha queimada que ainda grudava nas roupas.

Era como se nada tivesse acontecido.

Jota foi o último a descer.

Boné verde da Linha Turismo na cabeça.

Camiseta vinho suada, mas seca agora.

Mochila laranja no ombro. O caderno marrom lá dentro.

Passo firme, 110 kg pisando o paralelepípedo como se fosse dono da cidade.

Parou na calçada.

Olhou pro retrovisor externo do ônibus.

Nove olhos o encararam de volta.

Três fileiras perfeitas de três.

Um olhou pra rua.

Dois olharam pras barraquinhas.

Três olharam direto pra ele.

Um olhou pra dentro do próprio crânio.

E sorriu.

Com a boca dele.

Uma das tias gritou lá de longe:

— Jota, vem tirar foto com a gente!

Ele virou o rosto devagar.

Todos os nove olhos acompanharam o movimento.

— Já vou — respondeu, voz calma, quase carinhosa.

Entrou no restaurante. A família ria, pedia barreado, brindava com guaraná. Jota sentou na cabeceira. Comeu devagar, mastigando cada garfada como se estivesse aprendendo. O pai evitava seu olhar. A mãe perguntou se ele estava bem.

— Ótimo — respondeu.

Mas quando ela olhou nos olhos dele pra conferir, desviou rápido.

Como se tivesse visto algo que não devia.

Quando saiu, o sol já estava baixo.

O ônibus verde esperava, motor ligado, pronto pra volta.

Os passageiros subiram rindo, falando alto, cheios de sacola de bala de banana e cachaça de gengibre.

Jota sentou no banco do motorista.

Fechou a porta.

O ponto ainda estava vazio.

O próximo grupo só chegaria amanhã cedo.

Ele engatou a marcha.

O ônibus saiu suave da praça, pegou a estrada de volta.

Subindo a Serra agora.

A neblina já começava a descer de novo.

Jota ajustou o boné verde.

No retrovisor, seus olhos — ainda dois, mas não por muito tempo — refletiram a neblina descendo de novo sobre a Serra.

A estrada inteira era dele.

E amanhã tem excursão nova.

Curitiba → Morretes.

Saída às 8h00 da manhã.

Ônibus verde da Linha Turismo.

Lugar garantido.

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Sinopse Narrativa:

Jota acompanha a família numa excursão de Curitiba a Morretes no ônibus verde da Linha Turismo. Durante a descida da Serra do Mar, o motorista segue em contramão causando múltiplos acidentes enquanto os passageiros alternam entre pânico e indiferença sobrenatural. Jota invade a cabine, descobre que o motorista possui nove olhos, e aceita tomar seu lugar. Ao assumir o volante, começa a ser absorvido pela entidade — seus olhos passam a não piscar juntos, enxerga trajetórias dos carros, e ao final conduz o grupo de volta a Curitiba sozinho, já transformado.

Gênero Body Horror, Terror Sobrenatural
Tom Crescente, Onírico, Perturbador
Timeline Curitiba, Onírico
Versão Jota Entidade, Normal
Categoria Possessão, Transformação
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Inevitabilidade do destino, Possessão, Realidade dissociativa coletiva, transformação identitária
Locais BR-277, Capão da Imbuia, Catedral de Curitiba, Garagem, Mercado Municipal de Curitiba, Morretes, Praça Tiradentes, Serra do Mar, sobrado, Viaduto dos Padres
Palavras-Chave contramão, entidade, excursão familiar, nove olhos, ônibus verde, possessão, Serra do Mar, transformação
Único conto em que Jota não usa o Gol Bolinha (vai de Uber). A mochila laranja aparece na cabine do motorista sem explicação — elemento sobrenatural explícito. Os passageiros alternam entre perceber os acidentes e esquecê-los completamente (divisão da realidade). O motorista-entidade se desfaz como fumaça verde ao final. Jota coloca o boné verde da Linha Turismo, que serve perfeito. Ao final, seus olhos "já não piscavam juntos" e ele retorna sozinho a Curitiba para conduzir a excursão do dia seguinte — indicando assimilação completa pela entidade.
 

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