O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 duas portas estacionou torto na rua, metade em cima da calçada, metade fora. Jota desligou o motor, puxou o freio de mão com força e ficou parado ali por uns segundos, ouvindo o barulho da festa lá dentro: som alto, gente gritando, risada explodindo pela janela aberta.
Saiu do carro, trancou a porta do motorista, jogou a mochila laranja nas costas e seguiu pro portão. Camiseta regata vinho grudada no corpo pelo calor, barba cheia, cabelo bagunçado, 110 quilos de apaixonado chegando com o celular na mão e um sorriso de otário que não cabia na cara.
Entrou na festa e foi direto pro corredor. Encostou na parede, tirou o celular do bolso e digitou pra Satogos Cruel:
“Tô louco pra te ver.”
Mandou e ficou olhando os três pontinhos aparecerem e sumirem como adolescente apaixonado. A festa tava no auge: som alto, gente gritando, cheiro de churrasco misturado com cerveja derramada, aquele calor que faz todo mundo suar e ninguém ligar.
Foi quando o Rand Oliveira apareceu do nada.
Literalmente do nada. Um segundo o corredor tava vazio, no outro ele tava ali, macacão azul de técnico, cara de quem acabou de consertar alguma coisa importante e decidiu aparecer só pra causar. Ele foi direto numa morena baixinha que tava do lado e soltou em voz alta, querendo impressionar:
— Essa banda cover é ridícula, parece karaokê de buteco.
A morena nem respondeu. Mas Satogos Cruel apareceu na porta da cozinha, cerveja na mão, olhos verdes gelados fixos no Rand.
— Para, Rand. Respeita quem tá tocando ao vivo. Eles são fodas pra caralho.
Rand ficou vermelho que nem pimentão. Abriu a boca, fechou, abriu de novo, não saiu nada. A morena riu, Satogos virou as costas e voltou pra cozinha como se nada tivesse acontecido. Jota guardou o celular e riu baixo.
Ponto pra Satogos.
Sempre foi assim. Ela não deixava passar nada. Não aceitava merda de ninguém. E ainda por cima ficava mais gostosa cada vez que abria a boca pra destruir alguém.
Jota olhou pro Rand, que ainda tava parado no corredor, cara de quem tinha levado um soco invisível.
— Relaxa, Rand, mas tu deu a brecha. Ela é assim mesmo.
Rand balançou a cabeça, deu um sorriso torto e desapareceu. Virou pro lado, entrou na sala cheia de gente e sumiu como névoa entre os corpos. Jota piscou, olhou em volta, mas o Rand já não tava mais ali.
Típico.
Jota achou Satogos no corredor que levava pros quartos. Ela tava encostada na parede, cigarro entre os dedos, olhando pro celular com aquela cara de quem tá entediada mas linda demais pra ninguém ligar.
Cabelo castanho-escuro caindo nos ombros, blusinha preta decotada, calça jeans que parecia pintada nela. Olhos verdes claros que gelavam qualquer um.
Ela levantou o olhar quando ele se aproximou. Sorriu de canto. Aquele sorriso que derrubava prédio.
— Demorou.
— Tava te procurando.
— Mentira. Tu tava no banheiro com o Rosquinha dando um tirinho.
Ela viu. Óbvio que ela viu. Satogos via tudo.
Jota encostou do lado dela, ombro quase tocando o ombro dela.
— Quer que eu peça desculpa?
— Quero que tu acenda meu cigarro. Isqueiro morreu.
Ela mostrou o isqueiro dela. Preto, vagabundo, desses de posto. Jota tirou a mochila laranja das costas, abriu o zíper, procurou no meio das coisas. Viu o caderno de capa dura marrom, afastou ele de lado, e achou o isqueiro amarelo no fundo. O sobrevivente.
Acendeu na primeira. Chama firme, quente. Satogos se inclinou, olhos fixos nos dele, e puxou a fumaça devagar. Soltou de lado, soprou longe do rosto dele, mas perto o suficiente pra ele sentir o cheiro doce misturado com tabaco.
— Valeu, Jota.
— De nada, pequena.
Ela jogou o cigarro no chão, pisou em cima com a bota de salto, pegou a mão dele sem perguntar e caminhou pro banheiro feminino no fim do corredor. Quadril balançando, tatuagens no braço esquerdo brilhando na luz fraca, conduzindo ele como se a decisão já tivesse sido tomada fazia tempo.
O banheiro feminino tava cheio. Duas minas retocando batom no espelho, outra lavando a mão, uma quarta sentada no chão mexendo no celular. Satogos entrou, Jota entrou atrás. As minas olharam, riram, uma delas gritou “aeee” e saíram todas de uma vez, deixando só eles dois.
Satogos trancou a porta. Virou pra ele.
Silêncio.
Jota deu um passo à frente. Ela não recuou. Ficou ali, encostada na pia, olhando pra cima (porque ela era alta, mas ele era mais), mordendo o lábio inferior.
— Tu vai ficar parado ou vai fazer alguma coisa?
Jota segurou o rosto dela com as duas mãos. Pele quente, suave, perfume doce que grudava em tudo. Satogos sorriu. Aquele sorriso que desmonta qualquer um.
Eles foram se aproximar.
E o banheiro virou praia de feriado.
A porta se abriu de uma vez. Um mar de gente invadiu: cinco, seis, sete minas gritando, rindo, copo de cerveja na mão, flash de celular estourando na cara, cheiro de perfume barato misturando com cerveja derramada. Cotovelo de alguém acertou as costelas do Jota, outra mina tropeçou e derrubou a bolsa no pé dele, alguém gritou “banheiro ocupado, caralho”, mas ninguém saiu.
Jota olhou em volta, sentiu o aperto, o calor, o sufoco, e soltou sem filtro:
— Puta que pariu, mar de gente do caralho aqui dentro!
Satogos explodiu de rir. Risada alta, verdadeira, aquela que ele quase nunca via. Ele também riu.
E na confusão toda, no meio do grito, do flash, do copo caindo, ele puxou ela pra trás da porta, apertou ela contra a parede e roubou o beijo.
Beijo urgente. Bagunçado. Molhado. Dente batendo, língua atrapalhada, mordida no lábio inferior, mão dele na cintura dela apertando forte, sentindo o calor da pele, a tatuagem no braço dela roçando no peito dele. Mão dela puxando ele pela camiseta regata vinho suada. Beijo de quem esperou mês demais. Beijo de quem sabia que podia não ter outro.
O barulho sumiu. O mundo sumiu. Só existia ela. O gosto de cerveja e cigarro, o cheiro de perfume doce, a pele quente grudada na dele.
Quando separaram, Satogos ainda ria, batom borrado, olhos brilhando.
— Tu é louco.
— Tu que pediu.
Ela passou a mão no rosto dele, limpou o batom da boca dele com o polegar.
— Valeu a pena?
— Melhor beijo da porra da minha vida.
Ela sorriu. Beijou ele de novo. Rápido, leve, quase carinhoso.
— Agora some antes que alguém tire foto.
Jota saiu do banheiro com o batom dela ainda na boca, a camiseta regata amassada, a mochila laranja nas costas e o coração na garganta.
No corredor, encostado na parede como se nunca tivesse saído dali, tava o Rand Oliveira. Macacão azul, sorriso de canto, cara de quem sabia de tudo.
Ele olhou pra Jota. Olhou pro batom vermelho ainda marcado no canto da boca. Sorriu mais largo. Deu um tapinha no ombro.
— Valeu a pena esperar?
Jota sorriu.
— Muito.
Rand assentiu, satisfeito. Virou e entrou na sala cheia de gente. E sumiu.
Jota ficou parado no corredor, processando. Balançou a cabeça, riu sozinho.
Deu dois passos em direção ao quintal e sentiu o cadarço direito do tênis surrado soltar. O tênis velho, dedão aparecendo pelo buraco, sola quase solta, fiel companheiro de todas as horas. O cadarço arrastou no chão.
Ele parou. Encostou o ombro na parede, levantou o pé direito e começou a amarrar. Foi quando viu, refletido no vidro embaçado da janela do corredor, o batom vermelho de Satogos ainda marcado no canto da boca.
Sorriu.
Não limpou.
Amarrou o cadarço devagar, com calma, como quem tá amarrando uma lembrança no lugar. Quando terminou, abaixou o pé, ajeitou a mochila laranja nas costas e seguiu pro quintal.
Pegou outro refri, encostou no muro e ficou quieto, sorrindo sozinho, batom de Satogos ainda marcado no canto da boca.
Feliz pra caralho.
Porque alguns beijos não precisam de silêncio, de luz baixa, de trilha sonora romântica. Precisam só de um banheiro lotado, uma mulher que te destrói com um sorriso, e coragem de soltar um “puta que pariu, mar de gente do caralho aqui dentro” no meio do caos.
Jota ficou ali, refrigerante na mão, batom na boca, tênis surrado com cadarço direito recém-amarrado.
Feliz.
Completo.
Vivo pra caralho.
