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O Bloquinho que Nunca Aconteceu

Extensão: 2.225 palavras | Leitura: 12 min

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Sexta-feira de fevereiro de um ano qualquer, quatro da manhã.

O celular de Jota vibra. Para. Vibra de novo. Rosquinha. De novo e de novo. Jota sabia que quando Rosquinha insistia na ligação logo depois de ter deixado ele algo tinha acontecido e agora era mais um problema para resolver. Aguardou uma mensagem, às vezes, era somente pedido de dinheiro.

“Meu pai me botou pra fora de casa. Tô com a mala na calçada.”

Rosquinha era gay: boca-dura, só bebia cachaça barata, adorador de necas e que vivia em guerra declarada com os pais. Dessa vez a briga tinha passado do ponto. Sexualidade, horários, desemprego, religião, conservadorismo, futuro, “vergonha pra família”, o pacote completo. Porta na cara. Mala na rua.

Jota (o que não bebe, só cheira pra aguentar o tranco, dirige sempre, resolve tudo, nunca desliga) levantou da cama, tinha deixado Rosquinha algumas horas antes. A camiseta regata vinho já estava amassada, tinha acabado de conseguir desligar um pouco. Depois de ler a mensagem e responder pegou a chave e voou.

Encontrou Rosquinha sentado na guia, bigode grosso com pontas viradas pra cima tremendo, mochila preta tombada no chão. Cara inchada de choro e raiva. As mãos abriam e fechavam como se quisessem socar algo que não estava mais lá.

Rosquinha entrou no Gol Bolinha Cinza Urban e desabou. Jota ouviu tudo em silêncio, rodando a cidade. Ligaram pra geral. Ninguém atendia às cinco da manhã. Continuaram a volta pela cidade até Yohan, um dos picotinhos de Rosquinha falar que podia ficar com ele, mas só liberava às nove e meia, aguardaram. Deixou Rosquinha lá e prometeu: “Volto antes do fim do mundo.”

Resolveu o dia no automático: irmão na fisio, banco para a mãe, desculpa pro trabalho. Pensava no Rosquinha sozinho e o que faria agora.

Quase final da tarde, depois de conseguir resolver tudo entrou em contato e ouviu que o Rosquinha estava na praça do Athletico, jogando vôlei. Incrível o que as pessoas fazem depois de serem expulsas de casa. Chegou lá e Rosquinha no seu avatar de foda-se o mundo. Pegou o amigo e foram em direção do Cidade Honestidade, local de trabalho de umas amigas. Passaram na Nissei antes: Rosquinha tinha saído de casa sem nem prestobarba, mas pires e xícara ele não esqueceu, óbvio.

No Cidade Honestidade encontraram Rabetão e Monica Souza. Rabetão era o apelido carinhoso que Cambu recebeu, companhia foda pra caralho ganhou. Monica Souza era uma pessoa de coração enorme, mas com filhos muito novos ainda. Rosquinha em pé começou contar sua história e Jota sentou numa cadeira qualquer, que por obra do destino era o lugar da Rabetinha a amiga que ainda não tinha chegado.

Rabetinha chegou instantes depois, a Maju Kuzito, cabelo molhado, sorriso tranquilo, glitter já na bolsa. Jota estava afim dela. Rabetinha chegou dizendo que ali era seu lugar e Jota levantou e foi procurar outro. Rabetinha sentou com o ar mais natural do mundo.

Rosquinha contou tudo de novo. O grupo abraçou, xingaram, planejaram.

Saíram. Parolin (Góes, pularam o carrinho rapidinho, ninguém pergunta detalhes). Itupava, Tingui, Barigui, Tork, 29 de Março. Carro lotado, música alta no celular de alguém, Rabetão cantando tudo errado. Jota dirigindo. Monica gravando as coreografias. Rosquinha animando. Rabetinha com o um vê e fazendo a egípcia. Chuva caindo grossa, limpador lutando pra dar conta. Monica foi deixada em casa, tinha que cuidar das crias. Então decidiram ir para a casa de Rabetão pois o clima não ajudava.

Na casa da Rabetão discutiram sério: Rosquinha precisava de teto.

— Ele pode dormir aqui — Rabetão disse. — Se você ficar também.

Jota entendeu o jogo na hora.

— Não vai rolar, Cambu.

— Então ele também não fica — ela devolveu, fria.

— Porra, o cara foi expulso de casa!

— E eu tô oferecendo minha casa. Vocês dois ou nenhum.

Silêncio. Rosquinha olhava pro chão como se quisesse sumir ali mesmo. Rabetão já tinha bebido várias e Jota sabia que se passasse a noite ali, teria que ficar evitando Rabetão, mas não estava afim.

— Uma noite — Jota soltou entre os dentes. — Amanhã terei uma outra solução.

— Uma noite, mas tu volta o mais rápido possível pra cá — ela repetiu. Jota aceitou.

Deixou Rosquinha em segurança, voltou dirigindo no automático, madrugada vazia. Caiu na cama de roupa. Apagou.

Sábado 13h30.

Quando chegou na casa da Rabetão, a galera inteira já estava de camiseta nova cinza, estampada em letras brancas:

“O que acontece no Bloquinho fica no Bloquinho. AÍ PORRA”

Deram uma pra ele. Vestiu. Sorriso bobo de quem já sabia que ia ser épico.

Condor pra comprar bebida. Um cobertor tigre apareceu no porta-malas do Gol Bolinha já lotado. Jota não sabia de onde tinha surgido, mas deixou para lá. Ninguém parava de falar. Desceram a Graciosa com música alta, o carro todo animado, chuva desabando como se o céu tivesse rasgado mas ninguém ligava. Pararam no portal, tiraram fotos. No mirante, o vento e a chuva estavam pesados demais, ninguém quis descer. Direto Antonina, carnaval esperando.

Chegaram às cinco da tarde. Pier molhado, madeira inchada rangendo. Cheiro de maresia misturado com fritura de pastel. Distribuíram glitter, passaram na cara de todo mundo. Foto em grupo pra registrar: Rabetão, Rabetinha, Jota e Rosquinha prontos pra guerra.

Procuraram bloco. Nada. A chuva tinha espantado o pessoal — a cidade queria carnaval, mas as ruas estavam vazias, bares vazios, som desligado. Perguntavam onde estava a porra desse carnaval em Antonina. Só eles quatro estavam firmes, animados, os únicos loucos o suficiente pra fazer o carnaval acontecer na chuva. Portinho vazio, som de água batendo nas pedras. Ponta da Pita deserto, cheiro de maresia. Silêncio pesado, só chuva.

Jota saiu do carro, tênis surrado com cadarço direito solto afundando na lama. Abriu a mochila laranja no banco de trás, procurou uma buchinha, viu o caderno marrom e isqueiro amarelo ali dentro, o sobrevivente. Encontrou o que procurava, jogou a mochila na parte de cima do porta-malas.

Rabetinha viu o cadarço solto dele arrastando na lama.

— Você vai tropeçar.

Jota olhou pra baixo.

— Valeu! Mas é costume, pra dar sorte.

Ela riu.

— Então você sempre quase cai?

Ele não respondeu.

Mas a verdade é que Jota não caía. Nunca caiu. O cadarço vivia solto, todo mundo achava que ele ia desabar, mas era ele quem segurava os outros quando desabavam. Rosquinha na guia, mochila no chão, cara inchada de chorar? Jota aparecia. Quatro da manhã, fim do mundo, fodido de cansaço? Jota aparecia. Era isso que ele fazia — e não só pra Rosquinha. Tinha sido outro amigo antes. Sempre tinha alguém. Jota era o cara que ficava em pé quando todo mundo caía.

Rabetinha não sabia disso. Talvez nem fosse descobrir.

A música oficial surgiu em algum momento dali pra frente, gritada na avenida quase vazia.

Jota começou a gritar:

— É o Rabetão…

Jota emendou levantando o braço da Rabetinha, rindo alto:

— …a Rabetinha!

Rabetinha girou.

Jota olhou pro Rosquinha. Faltava alguém. Gritou:

— …o Rabeteco!

Apontou pra si mesmo. Rosquinha entendeu na hora, bateu na própria bunda e Jota terminou com o:

— …e o Rabico!

Todo mundo explodiu de rir. Fizeram de novo, mais alto, até grudar:

“É o Rabetão, a Rabetinha, o Rabeteco e o Rabico desfilando em Antonina! Nesse carnaval!!!”

Cantaram isso até ficar rouco. Pulando em poça, água gelada entrando no tênis, asfalto escorregadio. Glitter escorrendo com a chuva, grudando na boca, gosto de plástico e sal. Pó no nariz pra aguentar mais uma hora, mais uma volta, mais uma ideia idiota que virava épica. Era a droga fazendo o trabalho dela: dissolvia o cansaço, dissolvia a chuva, dissolvia qualquer coisa que não fosse aquela rua e aquelas quatro pessoas completamente fora do eixo num carnaval que não existia.

A chuva deu uma aliviada, e começou a aparecer gente — curiosos nas janelas, galera saindo de botecos, carros buzinando junto. A cidade acordou pra ver quem eram os loucos cantando na chuva.

A expulsão tinha ficado para trás. Ninguém mais lembrava o motivo de terem se reunido e parado num carnaval chuvoso.

Rabeteco encontrava a Rabetinha do lado em todo canto: no banheiro improvisado, no carro, na rua. Ela rindo alto, cabelo grudado na testa, olhando pra ele de um jeito que fazia o peito apertar. Ele queria. Mas o rolê era maior que isso. E Rabetinha e Rabetão também não ajudavam, só ficavam lembrando de exs.

Rabico, para variar, sumiu uma hora. Pessoal ficou preocupado. E quando voltou, outra história surgiu. Estava com uma nova amiga aleatória que ninguém conhecia. Falou que encontrou uma neca odara e caiu de boca. O grupo só ficou aliviado em encontrar a ovelha.

Três da manhã. A festa “oficial” morreu. Rua novamente vazia, cheiro de churrasquinho frio, lixo molhado espalhado no asfalto. Alguém gritou “Ponta da Pita agora!”. Voltaram pro carro. Som de teclado barato ecoando de longe.

Um novo bar, e como já eram, continuaram sendo a alma do carnaval em Antonina. Rabetinha girava num cobertor tigre. Eram quatro no lugar ao som de um cara que cantava com um teclado, mas pareciam mil. Continuavam os únicos que pareciam animar a cidade toda. Pessoal foi minguando novamente. Dançaram no meio da rua como se fosse o último dia da Terra. E assim, o fogo foi apagando, tiraram umas fotos do dia amanhecendo, voltaram para o carro.

No carro, Rabetinha e Rabetão desabaram. Rabico e Rabeteco não paravam de conversar — pó sumindo, vida passando no para-brisa embaçado. Pararam em Morretes, mas não tinha nada ali àquela hora. Continuaram. Curitiba amanhecendo, McDonald’s com cheiro de fritura misturado à chuva fina. As duas acordaram. Comeram algo rápido.

Destino, casa da Rabetão. Rabico e Rabetão desabaram. Rabeteco ficou mais uns minutos, ainda firme.

Rabetinha estava enrolada no cobertor de tigre no sofá, glitter ainda grudado no rosto. Olhos fechados.

— Rabetinha?

Ela abriu um olho.

— Eu vou indo — ele disse baixo.

— Hm.

Só isso. “Hm.”

Ele esperou mais um segundo. Achando que ela ia falar algo. Talvez um “valeu”, talvez um “foi massa”, talvez qualquer coisa.

Nada veio.

— Qualquer coisa, tu sabe onde me achar.

Ela já tinha voltado a dormir.

Ele saiu devagar. Fechou a porta sem fazer barulho.

Ela nem percebeu que ele tinha ido embora.

Rabeteco foi pra casa prometendo que voltava logo.

Domingo, 13h15.

Rabeteco voltou para a casa de Rabetão. Alguém mencionou uma Zumbi Walk. Rabeteco falou: vamos. Rabico, que tinha parado de beber por três horas, piscou o cu e quis voltar a beber. Rabetinha tentava segurar a onda — “Calma, Rabico, pelo amor de Deus”.

Mesmo assim, Rabico e Rabeteco saíram pela porta tentando animar as outras. Um deles gritou “Bora, Rabetas!” tentando convencer. Não colou. Rabetão não quis ir. Rabetinha falava em voltar para casa. Rabico só queria beber. Rabeteco reparou que não adiantava mais, o pessoal não estava tão animado, e desistiu.

Rabico então tomou uma decisão e pediu para Rabeteco uma carona pra casa. Rabeteco perguntou se ele estava certo disso, ele confirmou e então foram. Rabetinha aproveitou a viagem também.

Deixaram Rabetinha na casa dela. E Rabeteco levou o amigo pra casa vazia. No caminho passaram pelo pai dele na esquina. Pelo menos Rabico disse que passaram, Rabeteco nem sabia quem ele era naquele momento. Rabeteco desovou Rabico e voltou para casa.

15h30.

Rabeteco chegou em casa. Mandou mensagem para todos.

“Cheguei em casa mas feliz pra caralho.”

Responderam com emoji de coração. Rabico e Rabetão agradeceram. Rabetinha só olhou e não falou nada.

Desabou na cama ainda de glitter na cara.

Em algum momento enquanto Jota dormia chegou uma mensagem do Rosquinha.

“Estou em casa ainda. Tá tudo… resolvido, acho.”

Jota ficou aliviado.

Não insistiu. Em nenhum momento perguntou o que exatamente tinha acontecido. Se Rosquinha quisesse contar, contaria. O bigode de guidão do pai dele, o grito, a porta batendo, a reconciliação — tudo isso era território do Rosquinha.

Jota só tinha feito o que sabia fazer: estar lá.

Respondeu: “Qualquer coisa, tu sabe onde me achar, irmão.”

Rosquinha: “❤️”

E no meio daquele caos todo — um fim de semana inteiro sem parar, quilômetros rodados no Gol Bolinha Cinza Urban que nunca reclamou, um amigo salvo, um bloco que nunca existiu de verdade — Jota só queria que a Rabetinha tivesse olhado pra ele do jeito que ele olhava pra ela o fim de semana inteiro.

Mas ela olhou. Ou não olhou. Ou olhou mas ele perdeu. E agora nunca vai saber.

O bloco que nunca aconteceu.

O beijo que nunca veio.

A chance que foi perdida.

Porque às vezes a vida não resolve.

E foi o melhor carnaval que qualquer um deles viveu até aquele momento.

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Sinopse Narrativa:

Rosquinha é expulso de casa pelo pai na madrugada de sexta. Jota o busca de imediato e passa o dia inteiro resolvendo a situação. À tarde, o grupo — Jota, Rosquinha, Rabetão e Rabetinha — vai de carro até Antonina para o carnaval, mas a chuva esvaziou a cidade. Os quatro fazem o próprio bloco nas ruas molhadas, batizado na hora: Rabetão, Rabetinha, Rabeteco e Rabico. Jota está interessado em Rabetinha o fim de semana inteiro, mas o beijo nunca vem. No domingo à tarde, todos voltam. Rosquinha se resolve com a família. Jota chega em casa de glitter, feliz e sem o beijo.

Gênero Slice of Life
Tom Agridoce, Caloroso, Melancólico, Nostálgico
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Amizade, Carnaval, Romance não correspondido
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Amizade incondicional, Carnaval improvisado, pertencimento, Romance não correspondido
Locais 29 de Março, Antonina, Barigui, casa, casa de Rabetão, casa de Rabetinha, Cidade Honestidade, Condor, Góes, Graciosa, Itupava, McDonald's, Mercado, Morretes, Parolin, Pier, Ponta da Pita, Portinho, Praça do Athletico, sobrado, Tingui, Tork
Palavras-Chave amizade, Antonina, beijo perdido, bloco inventado, cadarço, carnaval na chuva, glitter, Rabeteco, Rabico
Jota é chamado de "Rabeteco" durante o fim de semana. O cobertor tigre aparece no porta-malas do Gol sem que ninguém saiba de onde veio. O narrador explicita a função social de Jota: "era o cara que ficava em pé quando todo mundo caía." Rabetinha é identificada como Maju Kuzito, cabelo molhado, glitter na bolsa. Uso de pó mencionado explicitamente como parte do rolê ("pó no nariz pra aguentar mais uma hora"). Rosquinha é gay, estava em conflito com os pais por sexualidade, horários, desemprego e religião. A última mensagem de Rabetinha para Jota ("Cheguei em casa") fica sem resposta dela ao grupo.
 

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