Jota tinha 44 anos, 1,83 m, 110 kg de quem já nadou sério e depois deixou a vida engordar um pouco. Não fumava, não bebia, só cheirava de vez em quando pra lembrar que ainda existia. Todo mundo o chamava de Jota desde sempre — até a mãe.
Trabalhava de noite no Parque das Luzes fazia duas semanas — desde que o Rand Oliveira sumiu. No parque, Jota era só o ajudante da piscina de bolinhas e do carrossel — mas Rand era seu amigo, e ensinou o que pôde. Agora era o técnico oficial, pelo menos no papel. Na prática, não consertava direito nem torneira — mas as coisas voltavam a funcionar, e ele nunca soube explicar como.
O Rand era o técnico de verdade. Cabelo grisalho que ele jurava que ia cortar segunda-feira, barba de três dias que virou permanente. Magro daquele jeito de quem carrega peso e esquece de comer. Sempre de macacão azul desbotado e caixinha de som tocando techno pulsante no último volume. Ele entendia aquele lugar como ninguém. Dizia que parque de diversões não é máquina, é bicho. Tem hora que precisa de carinho, tem hora que morde.
A polícia veio, perguntou, saiu. A família fez cartaz. Nada. O boato entre os funcionários foi que o parque tinha engolido ele. Jota riu na hora.
Duas semanas depois, parou de rir.
———
Primeira noite sozinho ele levou a caixa de ferramentas do Rand e a mochila laranja nas costas — lanterna, alicate, o caderno marrom que carregava desde sempre sem saber bem por quê. Ferramentas que não iam resolver nada, mas ele ainda não sabia disso.
O parque fechado parecia outro: as luzes apagavam, mas as lâmpadas piscavam sozinhas, como se tivessem vida própria. O vento entrava pelos dutos e fazia um som de respiração funda.
Começou pelos canos do lago artificial. Vazamento filha da puta que ninguém achava há semanas. Abriu a tampa, enfiou a chave, apertou com força de quem quer provar que dá conta. A rosca espanou na hora. O metal gritou. Água jorrou no peito dele, gelada, deixando ele encharcado e puto.
Jota ouviu uma risada baixa atrás dele. Virou rápido. Nada. Só o escuro e um cheiro adocicado, quase podre, que não devia existir.
Sentou no chão molhado, regata vinho grudada no corpo, tênis surrado com o cadarço direito encharcado e solto, e lembrou do Rand ensinando:
— Jota, parafuso não é pra ganhar briga. É pra segurar. Se apertar demais, quebra. Se deixar frouxo demais, cai. O segredo é ouvir o metal falar.
Naquela noite ele não ouviu porra nenhuma. Só apertou mais. Quebrou três roscas, gastou duas horas e saiu de lá com a sensação de que o parque ria dele.
Quando passou pelo carrossel, o vento mudou. Parou de soprar e começou a… circular. Como se algo grande tivesse acabado de respirar. Os cavalinhos balançaram levemente nas correntes, metálicos, mudos.
Jota parou, coração na boca.
Na saída, olhou pra trás. O parque inteiro parecia respirar.
———
Na segunda noite ele já chegou com medo. Trouxe um tereré gelado e a caixinha de som do Rand. Ligou. Techno baixo, batida marcando o tempo no silêncio.
As grades tremiam mais que o normal. O vento parecia trazer vozes — risadas de criança que não existiam mais, gritinhos de quem desce o kamikaze, um “olha o algodão!” distante.
Foi direto pro trem-fantasma. O Rand dizia que ali era o coração do parque. O trilho rangia mesmo sem trem. Entrou pelo corredor de manutenção, lanterna na testa, 110 kg espremidos entre caveiras de isopor e teias falsas. O cheiro de mofo misturado com algo doce, queimado.
Passou a mão no trilho. O metal pulsou. Ou foi o pulso dele? Não tinha certeza mais.
Jota ouviu um som conhecido. Uma batida rítmica, quase eletrônica, que o Rand fazia com a boca enquanto trabalhava — tic-tic-tum, tic-tic-tum. Parou. O isqueiro amarelo, que ele nem lembrava de ter trazido, riscou sozinho no bolso da mochila. Uma chama rápida, amarela, apagou sozinha.
A batida continuou, vindo do fim do túnel. Chamou:
— Rand?
Silêncio. Depois a batida recomeçou, mais perto.
Correu pra fora. O coração batendo tão forte que parecia ecoar nas ferragens.
Passou a noite inteira ouvindo coisas. Um “Jota…” abafado saindo do alto-falante quebrado da roda-gigante. Um rádio chiando “cuidado com o parafuso” na frequência morta. Chiados que viravam quase palavras, quase avisos.
Perto das quatro da manhã sentou no banco em frente ao carrossel, exausto. A lanterna enfraquecendo. Foi aí que viu a sombra. Uma silhueta magra, macacão azul, barba por fazer, parada entre os cavalinhos.
Levantou de um pulo.
— Rand, porra!
A sombra não se mexeu.
Jota piscou.
Quando abriu os olhos, não tinha ninguém. Mas o carrossel estava diferente. Tinha certeza. O cavalinho branco estava mais perto da grade. Ou sempre esteve?
O cheiro de cigarro que o Rand fumava escondido (mesmo dizendo que tinha parado) ficou no ar por minutos.
Naquela noite não consertou nada. Só ouviu.
———
Na terceira noite ele já chegou rendido.
Levou uma garrafa de tereré, a caixinha de som desligada e nenhuma vontade de brigar com parafuso. O parque o recebeu com silêncio — o pior tipo de silêncio, aquele que parece esperar.
Foi direto pro carrossel. Sentou no chão, encostou as costas na grade central. O metal tava quente. Pulsava. Devagar, ritmado.
Abriu o caderno marrom que tava no bolso lateral da mochila. Folheou as páginas sujas. Nomes de mulheres que ele amou e perdeu, anotações tentando entender onde tinha errado, onde tinha apertado demais o amor até espanar.
Fechou o caderno rápido. O parque pulsava mais forte que qualquer ex.
Fechou os olhos. O cheiro doce queimado voltou, mais forte que nunca, envolvendo ele inteiro. Ouviu a batida do Rand bem perto, quase dentro do ouvido — tic-tic-tum, tic-tic-tum.
Colocou a mão no motor. Sentiu o calor subir pelo braço, entrar no peito. As mãos viraram metal quente por um segundo. O motor deu um giro. Um só. Lento, deliberado, pesado como decisão.
Parou.
O cavalinho branco ficou exatamente na frente dele.
No estribo, gravado com canivete, letras tortas de quem escreveu no escuro:
“não aperta demais jota”
Sem vírgula, sem ponto. Com erro de maiúscula que o Rand sempre fazia.
Abriu os olhos marejados. 44 anos, 110 kg, sentado no chão de um parque fechado, chorando por um amigo que talvez nunca tenha saído dali.
Abriu o caderno de novo. Escreveu, letra tremida:
“não aperta demais.”
Levantou devagar. Deixou a caixa de ferramentas no chão. Quando chegou no portão e olhou pra trás, o carrossel continuava parado.
Mas tinha certeza que o cavalinho branco o observava.
O Gol Bolinha cinza esperava lá fora, fiel como sempre. Jota olhou pro painel: 04h17. Horário de quem ainda tem pra onde voltar.
Entrou, mas não ligou o carro. Ficou sentado ali, mãos no volante, olhando o parque respirar no retrovisor.
Sabia que ia voltar.
Não sabia por quê.
Ainda não.
———
Passou o dia seguinte tentando não pensar. Ligou pra mãe, disse que tava tudo bem. Almoçou marmitex de isopor olhando pro nada. Quando anoiteceu, o corpo já sabia: ia voltar. Não era coragem. Era fim de escolha.
Na quarta noite ele não levou nada. Nem tereré, nem lanterna, nem chave inglesa. Só ele, 44 anos, 110 kg de carne cansada e um coração que já não sabia mais onde terminava o dele e começava o do parque.
Chegou às duas da manhã. O portão de serviço estava aberto — nunca ficava. Alguém (ou algo) já esperava.
O cheiro de algodão-doce queimado o acertou assim que pisou no concreto rachado. Doce demais, podre nas bordas, igual memória antiga que a gente sabe que vai doer mas cheira mesmo assim.
Andou devagar. Os brinquedos o saudaram um a um.
A roda-gigante acendeu uma luz vermelha solitária, piscou três vezes e apagou. O kamikaze baixou os braços como quem cumprimenta. O trem-fantasma soltou batidas ritmadas — tic-tic-tum, tic-tic-tum — o techno que o Rand repetia, perfeito, hipnótico.
Jota sorria sem querer. Porque agora entendia a língua deles.
Parou no centro do parque, bem onde as quatro alamedas se encontram. Olhou pro céu de Curitiba, roxo de nuvem baixa, e falou alto, pra quem quisesse ouvir:
— Rand, eu vim. Pode parar de bater, seu filho da puta.
Silêncio absoluto por três segundos.
Depois o carrossel ligou.
Não foi giro lento de fantasma. Foi ligação REAL — clac-clac-clac do motor engrenando, luzes coloridas acendendo uma a uma, a música mecânica começando baixa e subindo de volume. Como se o parque inteiro tivesse acordado pra recebê-lo.
Um cavalinho branco parou na frente dele. Imóvel, mas de algum modo… atento.
Jota não tinha mais medo.
Sentou no chão de concreto frio, de pernas cruzadas, palma da mão aberta sobre a grade do carrossel. Deixou acontecer.
O cheiro mudou. Não era mais algodão queimado — era cigarro barato, o Camel sem filtro que o Rand fumava às escondidas atrás do trem-fantasma. Específico demais pra ser memória.
O Rand apareceu de verdade dessa vez. Não era sombra. Era ele: cabelo grisalho que ia cortar segunda-feira, barba de três dias, olhos cansados mas com aquele sorriso torto de quem sabe o segredo do universo e não conta pra ninguém. Macacão azul desbotado, manga esquerda dobrada no cotovelo — a cicatriz da queimadura visível no antebraço.
Ele se agachou do lado de Jota.
— Demorou.
A voz saiu do ar, não da boca dele. Mas era a voz dele.
— Eu tava tentando consertar, Rand. Apertei demais, quebrei tudo.
— Eu sei. Eu vi. Todo mundo que chega aqui faz isso.
Jota olhou pros próprios pés. O tênis surrado com o cadarço direito desfiado parecia afundar no concreto.
— Tenho 44 anos, Rand. Ainda tenho conta pra pagar, mãe pra visitar… ainda tenho vida lá fora.
— Você teve. Agora tem aqui.
— Eu tô com medo.
Rand pôs a mão no ombro dele. A mão atravessou. Mas Jota sentiu o peso.
— Então solta, Jota.
— E se quebrar tudo?
Rand sorriu torto.
— Já quebrou. Agora só respira.
Jota fechou os olhos. Soltou.
Um formigamento percorreu os braços e as pernas. O corpo inteiro vibrava na mesma frequência do motor. As mãos viraram metal quente. Os pés afundaram no concreto até não serem mais pés. O coração bateu uma última vez sozinho, depois fundiu no compasso geral.
Sentiu o motor pulsar dentro dele. Sentiu os trilhos correrem nas veias. Sentiu cada lâmpada acender como se fosse batimento cardíaco — não dele, de todos que já tinham parado de apertar.
Quando abriu os olhos, já não estava sentado no chão.
Ele era o cavalinho branco subindo e descendo.
Ele era o motor girando debaixo da terra.
Ele era a luz acesa no topo da roda-gigante.
O parque pulsava dentro dele e ele pulsava dentro do parque.
Ouviu passos leves. Alguém novo chegando com caixa de ferramentas, cara de quem ainda acredita que dá pra consertar tudo.
O motor continuou girando.
Porque daqui ninguém some.
Aqui só para de forçar.
