O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava parado na frente do galpão abandonado da Pedreira do Orleans, coberto de poeira vermelha da pedreira, porta do motorista entreaberta. Jota olhou pro carro e franziu a testa. Não lembrava de ter dirigido até ali. Lembrava de estar indo pro aeroporto, passaporte na mão, mochila laranja nas costas, aquele aperto bom de quem vai sumir do mapa por uns dias. Mas isso era… quando? Fazia cinco minutos? Cinco horas?
O galpão era enorme, paredes de concreto rachado, teto de zinco enferrujado com buracos deixando entrar luz branca de tarde. Portas abertas, rangendo no vento que não existia. Cheiro de mofo, óleo velho e algo que Jota não conseguiu identificar de imediato: cola quente.
Ele entrou.
E parou.
O hangar estava VIVO.
Dezenas de crianças corriam feito loucas entre pilhas de maquetes — cidades inteiras feitas de papelão, isopor, palito de fósforo, caixa de sapato, cola quente ainda fumegando. Tinha torre de dois metros, ponte suspensa feita com barbante e tampinhas de garrafa, aeroporto em miniatura com pista de pouso de papelão ondulado, até um estádio com arquibancada de caixa de ovo pintada de verde.
As crianças pareciam saídas direto de South Park: bocas grandes, olhos maliciosos, vozes que xingavam em desenho animado, energia caótica pura. Corriam, gritavam, destruíam e reconstruíam tudo em segundos, como se o mundo inteiro fosse massa de modelar nas mãos delas.
Jota reconheceu algumas.
Rosquinha — o garotinho de cabelo castanho, bigode de guidão desenhado a caneta preta nas bochechas, camiseta rosa pink brilhante, já rebolando e gritando — TIO, EU SOU A RAINHA DO CASTELO DE PURPURINA! — enquanto jogava glitter em cima de uma maquete de fortaleza medieval. O glitter caiu feito chuva dourada e três crianças ao redor começaram a tossir, rindo ao mesmo tempo.
Jota piscou. Não era possível.
Popó — baixinho, magro, cara fechada de quem já nasceu puto com o mundo, chutou uma torre de Pisa de isopor com tanta raiva que a torre voou pelos ares e acertou uma maquete de casa colonial. As duas desabaram juntas. Popó comemorou como se tivesse feito gol de bicicleta.
O mesmo Popó. Só que… criança de novo.
Deco — sentado no canto, longe do caos, montando com cuidado uma maquete de casa simples com palitos de picolé, colando cada pedaço devagar, língua pra fora de concentração. Ele sorriu quando viu Jota, acenou com a mão cheia de cola, e voltou pro trabalho.
Jota sentiu o chão sumir embaixo dos pés por um segundo.
Não eram parecidos. ERAM eles.
Seus irmãos. Anos mais novos. Muito mais novos.
Beagá — sério até de criança, óculos redondos de armação de arame, camiseta branca sem graça, anotando algo num caderninho. Ele observava o caos, anotava, observava de novo. Jota jurava que o moleque tinha cara de contador mirim.
Capitão Cueca — Leandro Costa, cueca vermelha por cima da calça jeans rasgada, capa de lençol azul amarrada no pescoço. Ele apareceu correndo do nada, gritou — EU SOU O CAPITÃO CUECA E VOU SALVAR A CIDADE! — jogou-se de peito numa maquete de prefeitura, destruiu tudo, levantou vitorioso com braços abertos. Três segundos depois sumiu atrás de uma pilha de caixas. Quando reapareceu, estava sem a capa, de óculos escuros feitos de papelão, e alguém o chamou de “Professor Sapato”. Ele respondeu como se sempre tivesse sido o Professor Sapato.
E então Jota viu ele.
O gordinho.
Parado sozinho perto de uma maquete de prédio comercial de cinco andares, olhando tudo com aquela mistura de fascínio e medo de entrar na brincadeira. Cabelo bagunçado, camiseta larga demais, tênis surrado com cadarço solto. Barriguinha saliente, bochecha vermelha, olhos grandes e atentos.
Jota sentiu um aperto no peito.
Aquele era ele.
Mini-Geraldo.
Versão criança de si mesmo, parada ali, esperando alguém chamar pra brincar.
Jota não pensou duas vezes.
Tirou a mochila laranja das costas, largou no chão do galpão com um baque surdo, e virou tio Geraldo versão full time. A camiseta regata vinho grudava nas costas de suor mesmo com o vento frio que entrava pelos buracos do teto.
Três segundos depois de largar a mochila, duas crianças — uma menina de trança e um garoto de boné — já tinham transformado a mochila laranja na montanha do dragão.
— ESSA É A MONTANHA! — berrou a menina.
— E O DRAGÃO MORA LÁ DENTRO! — completou o garoto, apontando pra mochila como se fosse caverna ancestral.
Rosquinha apareceu do nada, jogou mais glitter, e a montanha virou montanha mágica. Óbvio.
Jota se aproximou do Mini-Geraldo devagar. O gordinho olhou pra cima, olhos arregalados.
— Quer brincar? — Jota perguntou, voz saindo mais baixa que o normal.
Mini-Geraldo mordeu o lábio, olhou pros lados, e assentiu.
Jota estendeu a mão.
O gordinho pegou.
E o caos começou de verdade.
Popó berrou do outro lado do galpão:
— TIO, O DRAGÃO TÁ ATACANDO A TORRE!
E meteu o pé numa maquete de três andares feita de caixas de pizza empilhadas. A torre balançou, desabou em câmera lenta, caixas se abrindo no ar como asas de papelão. Poeira de farinha velha subiu feito explosão nuclear de mentira.
Todo mundo riu.
Jota riu junto.
Mini-Geraldo riu também, segurando a mão dele com força.
Porque ali não era destruição.
Era guerra épica.
Outro garoto — magrelo de óculos quebrados com fita adesiva — pegou um aviãozinho de plástico velho e usou como míssil. BUM. Prédio comercial inteiro voou pelos ares, isopor e papelão se espalhando. Do meio do destroço ele já pegou uma caixa de sapato velha, virou de cabeça pra baixo, e urrou:
— ISSO AQUI AGORA É O CASTELO DO REI DOS DRAGÕES! QUEM VEM?
Jota foi.
Mini-Geraldo também.
Correram juntos, pisadas pesadas de Jota sacudindo o chão de concreto do galpão, Mini-Geraldo rindo alto, tentando acompanhar. Jota tentava proteger as maquetes que ainda estavam de pé e, ao mesmo tempo, ajudava a derrubar as que já tinham virado alvo legítimo. Era impossível acompanhar tudo. O caos era total, lindo, perfeito.
Uma menina de cabelo cacheado pegou três rolos de papel higiênico de algum lugar misterioso (Jota nem quis saber de onde), desenrolou tudo correndo pelo galpão, e anunciou aos berros:
— NEVE NO INVERNO NUCLEAR!
E cobriu sete maquetes diferentes em papel branco que flutuava no ar antes de cair. Parecia neve de verdade. Mini-Geraldo apontou, boca aberta de admiração. Jota concordou. Aquilo era arte.
O cheiro do galpão agora era mistura insana: cola quente, chiclete grudado no chão, suor de criança, poeira de papelão, farinha velha, e criatividade pura destilada. Jota respirava fundo e sentia os pulmões encherem de infância recuperada.
Beagá apareceu do lado deles com o caderninho, anotando algo, e perguntou sério:
— Tio, quantas maquetes já caíram?
Jota olhou ao redor. Pelo menos quinze no chão.
— Quinze — respondeu.
Beagá anotou. Assentiu. Saiu.
Deco continuava no canto, montando a casinha de palito de picolé, alheio ao apocalipse ao redor. Jota passou perto, deu um tapinha carinhoso na cabeça dele. Deco sorriu sem tirar os olhos da cola.
Capitão Cueca reapareceu — agora sem óculos de papelão, mas com capacete feito de bacia de plástico verde — e urrou:
— EU SOU O GENERAL BACIA VERDE E VOU EXPLODIR A PONTE!
Explodiu.
A ponte suspensa de barbante e tampinhas desabou com estrondo desproporcional ao tamanho. Capitão Cueca comemorou, girou três vezes, e sumiu de novo atrás de uma pilha de pneus velhos.
Quando reapareceu, estava de touca de lã rosa (onde ele achou uma touca?) e alguém o chamou de “Ninja Fofinho”. Ele respondeu na hora.
E então Rand apareceu.
Jota piscou.
O garoto estava ali, parado no meio do galpão, macacão azul de criança, ferramentas de brinquedo na mão — chave de fenda de plástico, martelo de borracha — olhando uma maquete quebrada de ponte como se estivesse calculando como consertar.
Jota virou a cabeça um segundo pra ver Mini-Geraldo.
Quando olhou de volta, Rand tinha sumido.
Piscou de novo.
Rand estava no outro canto do galpão, agora consertando uma torre com fita adesiva.
Jota ia perguntar como ele tinha se movido tão rápido, mas uma guria de vestido florido chamou alto:
— TIO, VEM LUTAR CONTRA O DRAGÃO!
E ele esqueceu.
O dragão.
Uma hora — Jota não saberia dizer quando exatamente — uma das maquetes maiores começou a se mexer. Era uma construção estranha, meio avião, meio criatura, feita de papelão grosso, asas de caixa de pizza abertas, cauda de cano de PVC enrolado em papel alumínio. Tinta vermelha escorrida formava chamas na boca desenhada.
As crianças pararam.
Olharam.
O dragão balançou.
As asas bateram.
Jota jurava — JURAVA — que viu as asas de papelão baterem de verdade, com força, levantando vento que fez o cabelo de Mini-Geraldo voar pra trás.
Mas quando piscou, o dragão era só papelão de novo. Parado. Inofensivo.
Ou não?
Rosquinha anunciou aos berros:
— É O DRAGÃO DE FOGO DA MONTANHA MÁGICA!
Popó chutou uma pedra (de isopor) no dragão. A pedra bateu, ricocheteou, acertou Beagá de raspão. Beagá anotou no caderninho: “Popó hostil com dragão”.
Capitão Cueca — agora vestido de cowboy com chapéu de jornal — montou numa vassoura e avançou contra o dragão gritando:
— IIIIRRÁÁÁÁ!
Jota entrou na brincadeira sem pensar. Olhou ao redor, procurando arma. Viu uma tampa de panela velha encostada na parede. Perfeita. Pegou, levantou como escudo, e bradou:
— EU SOU O CAVALEIRO! QUEM VEM COMIGO?
Mini-Geraldo levantou a mão, tímido.
Jota deu uma régua de madeira quebrada pra ele.
— Essa é tua espada.
Mini-Geraldo segurou a régua com as duas mãos, olhos brilhando.
E foram pra guerra.
As crianças atacaram o dragão de todos os lados. Jota bloqueava “chamas” (jatos imaginários de fogo que as crianças faziam com a boca) com a tampa de panela. Mini-Geraldo batia na cauda do dragão com a régua, rindo alto. Rosquinha jogou mais glitter (sempre tem mais glitter) e proclamou que estava “cegando o dragão com poeira de fada”.
Deco continuou montando a casinha no canto, imperturbável.
Rand apareceu com uma corda, amarrou a pata do dragão numa coluna de concreto do galpão.
Jota virou pra agradecer.
Rand tinha sumido.
Olhou ao redor. Nada. Como se nunca tivesse estado ali.
Mas a corda estava firme. Real. Nó perfeito que só Rand sabia fazer.
Desde criança, ele já era fantasma.
Popó escalou o dragão e começou a socar a cabeça de papelão com raiva.
Beagá anotou: “Dragão neutralizado.”
Capitão Cueca — agora sem chapéu, mas com óculos de mergulho de plástico rosa — declarou vitória.
Uma menina de trança olhou pra Jota, confusa:
— Tio, aquele menino troca de roupa a cada cinco minutos?
Jota riu.
— Sempre fez isso.
O dragão desabou.
Papelão, cola, alumínio, tudo espalhado pelo chão.
Silêncio por três segundos.
Então todos gritaram:
— VENCEMOOOOS!
E a festa recomeçou.
Jota largou a tampa de panela, respirando fundo. A camiseta regata vinho estava encharcada. Mini-Geraldo ainda segurava a régua-espada, sorrindo de orelha a orelha, bochecha vermelha de esforço.
Jota ajoelhou na frente dele.
Os dois ficaram ali, olho no olho, Jota vendo a si mesmo criança, Mini-Geraldo vendo quem ele ia ser muitos anos depois.
— Tio — Mini-Geraldo perguntou baixinho, sério. — Quando eu crescer, eu posso continuar destruindo maquetes assim?
Jota parou.
Olhou pro gordinho. Pra si mesmo criança. Pra versão dele de quando tudo ainda era possível.
Engoliu seco.
— Pode — respondeu, voz firme. — E vai ser o melhor emprego do mundo. Nunca deixa ninguém te convencer do contrário. Nem quando crescer. Nem quando doer. Nunca.
Mini-Geraldo sorriu. Dente da frente faltando.
— Promete?
Jota estava fazendo promessa pra si mesmo no passado.
E sabia que ia cumprir.
— Prometo.
Jota passou a mão no cabelo bagunçado do gordinho, levantou, e olhou ao redor.
O galpão era campo de batalha pós-apocalíptico: cidades em ruínas, fortes de caixa de sapato tombados, aviões de brinquedo quebrados servindo de ponte improvisada entre maquetes sobreviventes, papel higiênico cobrindo tudo feito neve de mentira, glitter brilhando no chão de concreto, e o dragão morto no centro, cercado de crianças suadas, felizes, invencíveis.
A mochila laranja — agora oficialmente Montanha Mágica — tinha sido escalada, destruída e reconstruída pelo menos quatro vezes.
Jota lembrou do caderno.
Foi até a mochila, abriu.
E sentiu.
Calor.
O ímã do Posto Esso, preso na capa do caderno marrom, brilhava azul pálido. Fraco, mas constante. Quente ao toque.
Jota olhou ao redor do galpão.
Popó destruindo maquetes com raiva de criança. Deco montando casinha no canto com língua pra fora. Beagá anotando tudo no caderninho.
Família.
O ímã não mentia. Nunca mentiu.
De alguma forma — portal, falha temporal, magia que ele não entendia — Jota tinha encontrado o caminho de volta.
Pra quando ainda eram crianças.
Pra quando tudo ainda era possível.
Jota fechou a mochila devagar. O ímã continuou brilhando lá dentro, batida azul constante. Pegou o caderno, e na hora três crianças vieram correndo.
— TIO, DÁ UMA FOLHA!
Jota arrancou cinco páginas. As crianças pegaram, saíram correndo, e trinta segundos depois cinco aviõezinhos de papel voavam pelo galpão, planando, caindo, sendo reconstruídos e lançados de novo.
Uma das crianças perguntou aos berros:
— TEM FOGO?
Jota meteu a mão na mochila de novo, achou o isqueiro amarelo no fundo, mostrou. A criança olhou, olhos arregalados, mas Jota guardou de volta.
— Não vamos queimar nada hoje — disse, sorrindo.
A criança deu de ombros e saiu correndo.
Jota fechou a mochila. Guardou o caderno.
Rosquinha apareceu na frente dele, ofegante, glitter no cabelo, bigodinho de guidão já meio borrado de suor, e perguntou:
— Tio, tu vai embora?
Jota olhou ao redor.
O galpão. As crianças. O caos lindo.
Mini-Geraldo observando ele de longe, régua ainda na mão.
Rand apareceu por dois segundos consertando uma torre ao fundo, e sumiu.
Capitão Cueca reapareceu vestido de astronauta (capacete de balde), declarou aos berros “EU SOU O COMANDANTE BALDE ESPACIAL”, e desapareceu atrás de uma pilha de pneus.
Deco terminou a casinha de palito de picolé e levantou pra mostrar. Perfeita. Intacta. A única coisa no galpão inteiro que não tinha sido destruída.
Beagá anotou: “Deco, arquiteto. Única estrutura sobrevivente.”
Popó derrubou uma última torre só porque sim.
Jota respirou fundo.
— Não — respondeu pra Rosquinha. — Não vou embora ainda não.
Rosquinha sorriu, rebolou, e voltou pro glitter.
Mas o tempo passou.
Não tinha como não passar.
A luz que entrava pelos buracos do teto mudou de branca pra alaranjada. Depois pra vermelha. Depois sumiu.
As crianças começaram a sair, uma por uma, acenando, sorrindo, sujas de cola e poeira e felicidade.
Rosquinha saiu rebolando, jogando beijo.
Popó saiu chutando uma lata.
Beagá saiu com o caderninho embaixo do braço, ainda anotando algo mesmo andando, esbarrando na porta sem tirar os olhos da página.
Capitão Cueca saiu vestido de pirata (tapa-olho de papelão), acenou, e sumiu na noite.
Deco levou a casinha de palito de picolé com cuidado, protegendo como tesouro.
Rand nunca saiu. Jota olhou, procurou, mas o garoto tinha desaparecido antes mesmo das outras crianças irem embora.
Mini-Geraldo foi o último.
Parou na porta, virou, olhou pra Jota.
Acenou devagar.
Jota acenou de volta.
Quis gritar. Quis dizer “vai dar certo”. Quis avisar sobre Daslu, sobre dor, sobre noites sozinho.
Mas não disse nada.
Porque sabia: se mudasse alguma coisa, talvez não chegasse ali. Naquele galpão. Naquele momento.
E não queria arriscar.
Mini-Geraldo saiu, régua-espada ainda na mão, sumindo na escuridão da Pedreira do Orleans.
Jota ficou sozinho.
O galpão estava em silêncio.
Maquetes destruídas espalhadas por todo lado, papel higiênico cobrindo o chão, glitter brilhando na pouca luz que sobrava, dragão de papelão morto no centro como monumento ao caos.
Jota pegou a mochila laranja do chão — amassada, suja, cheia de cola seca — e colocou nas costas. Pegou um pedaço pequeno de papelão. Parte da asa do dragão. Guardou no bolso.
Caminhou até a porta.
Saiu.
O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava parado onde tinha deixado — ou será que sempre esteve? — coberto de poeira vermelha da pedreira, porta do motorista ainda entreaberta.
Quando voltou pro carro, a mochila nas costas pesava diferente.
Abriu.
O ímã tinha apagado. Frio de novo. Cinza fosco. Sem brilho.
A família tinha voltado. Pro tempo certo. Pra idade certa.
O portal — ou o que quer que fosse — tinha fechado.
Jota olhou pro galpão.
Vazio. Concreto rachado. Maquetes velhas. Poeira.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas o pedaço de papelão no bolso estava quente.
Jota passou a mão no capô do Gol. Frio. O carro estava ali fazia horas.
Ou dias?
Ele não sabia.
Não importava.
Sentou no chão de terra ao lado do carro, encostou as costas na roda dianteira, tirou o pedaço de papelão do bolso. Asa de dragão. Tinta vermelha descascando.
Sorriu.
O avião — se é que algum dia existiu avião — tinha decolado sem ele. Ou nunca ia decolar. Ou nunca existiu. Jota não lembrava mais de passaporte, de voo marcado, de destino.
Só lembrava do galpão.
Das crianças.
Do Mini-Geraldo segurando a régua-espada com as duas mãos.
Da pergunta: “Quando eu crescer, eu posso continuar destruindo maquetes?”
E da resposta: “Pode. E vai ser o melhor emprego do mundo.”
Jota ficou ali sentado na poeira vermelha da Pedreira do Orleans, tênis surrado com cadarço solto, camiseta regata vinho grudada nas costas, pedaço de dragão de papelão na mão.
Sorrindo sozinho na escuridão.
Viagem no tempo? Sonho compartilhado? Realidade que dobrou sobre si mesma?
Não importava.
Porque tinha encontrado o lugar onde destruir o mundo era a mesma coisa que construir ele de novo. Do jeito que a gente quiser.
E tinha dado permissão pra si mesmo continuar brincando.
Anos depois. Muitos anos depois.
Ainda valia.
E se um dia ele esquecer os detalhes — os nomes, os rostos, as maquetes — ia ficar só isso:
Um tio gordo correndo atrás de dragão de mentira com tampa de panela na mão.
E um gordinho, dente faltando, segurando régua-espada, perguntando se ainda podia brincar quando crescesse.
A resposta sempre ia ser sim.
O melhor voo da vida de Jota nunca saiu do chão.
E ele não queria de outro jeito.
