Apartamento de cobertura. Vista pro mar. Jurerê.
Sexta-feira. Dez da manhã. Sol entrando pelas janelas de vidro.
Daslu, Little Boobs e Cavala sentadas no sofá branco.
Jota em pé, de costas pra janela. Camiseta regata vinho rasgada no ombro, mochila laranja aberta no chão, caderno de capa dura marrom na mão.
— Simples — ele diz. — Vocês descem dos carros ao mesmo tempo. Caminham até ele. Param a um metro.
Daslu acende cigarro com isqueiro prateado.
— E aí?
— Você olha pra ele. Só olha. Não pisca.
— Quanto tempo?
— Até ele piscar primeiro.
Daslu solta fumaça devagar.
— E se não piscar?
— Ele vai piscar.
Little se levanta, vai até a janela.
— Jota, por que a gente tá fazendo isso? — Ela olha pra ele. — De verdade.
Silêncio.
Jota fecha o caderno. Guarda na mochila laranja. O zíper abre sozinho. Ele fecha com força.
— Ele barrou alguém. Seis meses atrás.
— Quem?
— Marina.
Cavala congela. Olha pra Daslu.
Daslu apaga o cigarro. Devagar. A mão treme um pouco.
— A Marina? — Little pergunta, voz quebrando.
— Ela queria entrar. Ele barrou. Fez aquele teatrinho dele na frente de todo mundo. Olhou pra ela quarenta segundos sem piscar. Ela desviou. Ele riu. Mandou ela voltar quando estivesse “limpa espiritual”.
Ninguém fala.
— Ela voltou pra casa naquela noite. Tomou dois vidros de rivotril.
Silêncio.
Little volta pro sofá. Senta. Não fala nada. Mas a mandíbula trava.
— Caralho — Cavala sussurra.
Jota tira o isqueiro amarelo do bolso. Acende. Apaga.
— Mas não foi só isso — ele continua. — Três semanas antes, o Pastor tinha deixado ela subir. VIP. Mezanino de cima. Apresentou ela pros caras de terno. Ela ficou lá em cima duas horas. Desceu diferente. Nunca mais foi a mesma.
Little fecha os olhos.
— E quando tentou entrar de novo…
— …ele barrou. — Jota guarda o isqueiro. — Porque ela já não servia mais. Usada.
Daslu levanta. Caminha até Jota. Para na frente dele. A voz sai baixa, controlada.
— Eu também conhecia a Marina.
Jota olha pra ela.
— Eu sei.
Daslu engole seco. Depois endurece o rosto de novo.
— Você quer que a gente destrua esse filho da puta.
— Quero. — Jota olha pras três. — Mas ele é só o primeiro.
Cavala levanta também. Sorri. Não é sorriso bonito. É fome.
— Primeiro de quantos?
— Todos os que estavam lá em cima naquela noite. Todos os que o Pastor apresentou pra ela. Todos.
Little abre os olhos. Olha pra Jota.
— Então vamos começar.
Daslu já tá indo pro quarto.
— Vou escolher o vestido mais filho da puta que eu tenho.
Cavala vai atrás.
— E eu vou escolher o salto que machuca de propósito.
Sexta-feira. Onze da noite. CLEAR.
A fila dobra o quarteirão. Duzentas pessoas esperando.
Pastor Tom Cruzado na porta. Terno preto Zegna. Sapatos italianos. Olhos azuis que não piscam. Sorriso de 38 facetas. Maxilar mexendo constantemente.
Acabou de barrar o filho de um deputado. A fila aplaude.
— VOCÊS VIRAM? — Ele grita. — Eu sou a porta. Sem mim, ninguém sobe.
E então ouve.
Dois motores. Ronco grave.
Duas Lamborghini pretas param na frente da boate. Aventador. Huracán.
Silêncio.
A fila prende a respiração.
De repente, portas tesoura sobem.
Daslu desceu como se o asfalto tivesse sido feito pra ela.
Little sorriu como quem já matou antes.
Cavala caminhou como se cada passo fosse um aviso.
E no centro das três, saindo do Aventador:
Jota.
Camisa polo preta. Calça de alfaiataria. Tênis branco.
Mas no bolso: o isqueiro amarelo.
Instantes depois, ronco de mais três motores.
Três Mercedes-AMG pretas param atrás das Lamborghinis. Vidros fumê.
Descem seis homens de terno. Os homens de Jota. Parados. Só observando.
Os seguranças da CLEAR olham. Reconhecem dois deles. Depois o terceiro. Um deles engole seco. Outro dá meio passo pra trás.
Não mexem um músculo.
Pastor Tom vê as três mulheres.
O maxilar para de mexer.
Três segundos.
E então o sorriso volta. Dentes brancos demais.
— Bem-vindos! — Ele abre os braços, teatral. — Vocês têm uma ENERGIA incrível!
Jota não responde.
Pastor Tom continua, voz alta, performática:
— Alugou Lamborghinis? Inteligente. Mas eu reconheço quem TEM e quem ALUGA de longe.
Nada.
Jota continua olhando. Sem expressão.
O maxilar volta a mastigar. Mais rápido.
Pastor Tom olha pros seis homens parados atrás. Olha pros próprios seguranças. Nenhum se move.
Algo tá errado.
— Ok. Dez mil. E mais cinco pra cada… — Aponta as mulheres. — …acompanhante.
Little ri. Alto. Cruel.
— Acompanhante? — Ela dá um passo à frente. — Sério? Oi, querido. Eu decido quem eu fodo. Não o contrário.
Pastor Tom pisca. Confuso.
Cavala dá um passo também. Devagar. Quadril balançando. Salto cravando asfalto.
— Você é bonitinho — ela diz, voz lenta, venenosa. — Deve ser engraçado quando tá nervoso.
E sorri. Mostra os dentes. Como predador.
— Eu não… eu controlo o flow aqui… a energia…
Daslu caminha. Devagar. Salto batendo no asfalto.
Para a um metro dele.
Olha nos olhos.
Âmbar gelado contra azul radioativo.
Pastor Tom sustenta.
Cinco segundos.
Dez.
Quinze.
O maxilar dele trava.
Suor começa na testa.
Vinte.
Vinte e cinco.
Trinta.
Ele vai piscar. Vai.
Mas força. Segura. Os olhos ardem.
Quarenta.
Quarenta e cinco.
Ele pisca.
Involuntário.
Perdeu.
Daslu não pisca. Continua olhando.
Pastor Tom ri. Forçado. Agudo. Tentando recuperar.
— Ah, boa! — Ele abre os braços, teatral. — Vocês são bons mesmo! Gosto disso! Energia forte! Vocês podem…
E então Jota fala. Primeira vez. Uma palavra.
— Marina.
Pastor Tom congela.
O sorriso morre no rosto.
— O quê? — A voz sai diferente agora. Fina. — Quem?
— Marina — Jota repete, dando um passo. — Você barrou ela seis meses atrás. Na frente de todo mundo. Fez ela se sentir suja.
Pastor Tom recua.
Meio passo.
Não queria. O corpo entregou.
— Eu… eu não lembro de…
— Mente. — Jota dá outro passo. — Você lembra. Você lembra de ter deixado ela subir três semanas antes. Lembra de ter apresentado ela pros seus amigos de terno lá em cima. Lembra dela descendo duas horas depois.
A voz de Jota sai baixa. Calma. Mortal.
— E você lembra de ter barrado ela quando ela voltou. Porque ela já não servia mais.
Pastor Tom treme.
— Eu não… isso não é… eu só cuido da porta…
— Você era a porta — Jota diz. — Agora é só um buraco que eu passo por cima.
Silêncio absoluto.
A fila inteira congelada.
Pastor Tom olha ao redor. Busca apoio. Os seguranças não se movem. Olham pros seis homens de terno. Não sabem o que fazer.
Ele tenta sorrir de novo. O sorriso de 38 facetas. Mas sai torto. Quebrado. Desesperado.
— Olha… olha, amigo… senhor… eu não sabia que ela era… que vocês… por favor…
Jota tira o isqueiro amarelo do bolso.
Devagar.
Acende.
A chama dança no vento quente.
Pastor Tom olha pra chama. Olha pro isqueiro.
Amarelo desbotado. Arranhado. Sobrevivente.
Os olhos dele se arregalam.
— Esse isqueiro…
Ele conhece.
— Senhor Jota… eu não sabia do seu nível… eu juro… por favor…
Jota dá mais um passo. A chama do isqueiro entre eles.
— Ajoelha.
Pastor Tom Cruzado dá um passo pra trás.
Joelhos tremem.
Ele olha pros seguranças. Pros seis homens. Pra fila. Ninguém vai ajudar.
Tira o paletó. Mãos tremendo. Três tentativas. Consegue. Coloca no chão.
Ajoelha em cima.
Olha pra cima.
— Por favor… a casa é sua… tudo é seu…
— Deita.
Ele hesita. Último lampejo de orgulho.
Cavala dá um passo à frente. Inclina a cabeça. Sorri.
Pastor Tom deita de bruços. Braços abertos. Rosto no asfalto quente.
Jota olha pra baixo.
Três segundos.
Rand Oliveira aparece do nada ao lado dele. Cigarro na boca. Ninguém viu chegar.
Jota acende com o isqueiro amarelo. Rand puxa. Solta fumaça sobre o corpo deitado.
— Ele tá esperando absolvição — Rand diz baixo. — Não dá.
— Eu sei.
Jota guarda o isqueiro.
— Levanta.
Pastor Tom levanta o rosto. Confuso. Desesperado.
— Mas…
— Levanta.
Pastor Tom levanta. Devagar. Joelhos fracos. Paletó sujo no chão.
Jota chega perto. Bem perto. Fala baixo, só pra ele ouvir:
— Você não vai ser pisado. Você não vai ter alívio. Você vai ficar aqui na porta, todo dia, lembrando que eu te deixei de joelhos e não te dei nem a dignidade de pisar. E toda vez que olhar pro mezanino VIP lá em cima, vai lembrar que eu vou subir. E que eles sabem que você caiu.
Pastor Tom treme.
Jota fala alto agora. Pra fila ouvir:
— Abre a porra da porta. Pra todo mundo.
Silêncio.
— Abre.
Pastor Tom olha pros seguranças. Pros VIPs na janela lá em cima. Pra fila.
Engole seco.
Vira pro segurança da porta. Voz rouca:
— A casa… a casa abre pra todo mundo hoje. Entrada liberada.
A fila explode.
Gritaria. Correria. Duzentas pessoas empurrando pra entrar.
Pastor Tom fica parado no meio do caos. Terno sujo. Sorriso morto.
Olhando Jota entrar com as três mulheres e os seis homens.
Rand aparece ao lado do Pastor. Sopra fumaça na cara dele.
— Você nunca foi Clear. E agora todo mundo sabe.
Some.
Dentro da CLEAR, mezanino VIP.
Beagá levanta da mesa.
— Caralho, Jota! O que aconteceu lá fora?!
— O Pastor liberou a porta pra todo mundo — Jota responde, calmo.
Rosquinha chega logo depois, sem fôlego.
— Nunca vi isso! A fila INTEIRA entrou!
Leandro Costa, o Rei do Camarote, oferece champanhe. Jota aceita. Não bebe.
— Ao fluxo — Leandro diz.
— Ao fluxo.
Daslu senta no sofá VIP. Little e Cavala dos dois lados.
Leandro coloca uma taça de champanhe na frente de cada uma.
Ninguém bebe.
A taça da Daslu fica ali. Intocada.
Porque não tem celebração quando a vingança é assim.
Jota fica de pé. Vai até a janela de vidro que domina a boate inteira.
Olha pra baixo.
Dois andares abaixo, na porta, Pastor Tom Cruzado ainda está parado. Perdido. Destruído.
Jota baixa o olhar um andar.
Pro mezanino do meio. Logo abaixo do dele. Onde homens de terno conversam, achando que estão no topo.
Um deles olha pra cima.
O homem desvia rápido. Nervoso.
Rand aparece ao lado de Jota. Cigarro aceso.
— Conseguiu a atenção deles.
— Era o plano.
— E agora?
— Agora eles sabem que eu sei. E que eu vim cobrar.
Cavala se levanta. Vem até a janela. Olha pra baixo também. Vê o homem de terno cinza saindo da mesa no andar de baixo, rápido demais.
— Ele também estava lá naquela noite? — Ela pergunta baixo.
Jota não responde. Só observa o homem desaparecer no corredor.
Rand sorri. Discreto.
— Quanto tempo até o próximo?
Jota não tira os olhos do mezanino abaixo.
— Agora.
Rand levanta a sobrancelha.
— Aqui dentro?
— Dr. Silveira. Mezanino VIP. — Jota aponta com o queixo pro andar de baixo. — Vai ser mais difícil. Mas só depende de mim agora.
Little vem também. Olha pra baixo. Voz baixa, fria:
— Ele vai cair mais fácil ou mais difícil que o Pastor?
Jota sorri. Não tem alegria no sorriso.
— Muito mais difícil.
Rand apaga o cigarro.
— Vou preparar o terreno.
Some.
Jota tira o caderno de capa dura marrom da mochila laranja. Abre. Escreve:
“Pastor Tom Cruzado — concluído.”
Fecha o caderno.
Guarda.
Olha pra baixo uma última vez.
Bem lá embaixo, na porta, Pastor Tom ainda está parado. Sozinho. Destruído.
O sorriso de 38 facetas apagado.
O maxilar parado pela primeira vez em anos.
Sem redenção.
Sem paz.
Só ruína.
