A primeira martelada ainda ecoa nos ouvidos quando Jota abre os olhos de novo.
Mesma plataforma flutuante.
Mesmo abismo pixelado embaixo.
Mesmo cristal dourado brilhando a dez metros, encravado na fenda.
O chefão tá lá.
Mas agora Jota vê.
O corpo rochoso, os braços de pedra, o martelo colossal… é ele mesmo.
Velho.
Cabelo branco ralo, barba grisalha até o peito, olhos amarelos fundos de quem desistiu há muito tempo.
Rosto enrugado, corpo pesado de quem carregou o peso do “quase” por décadas.
O Jota de 70, 80 anos, que nunca saiu do loop.
O martelo ergue.
Jota corre.
Tentativa 1:
Salta, rola, estende a mão.
Martelada.
Voa.
Morre.
Reset.
Tentativa 2:
Mesmo caminho.
Martelada.
Morre.
Tentativa 3:
Tenta desviar pela esquerda.
Martelada vem mais rápida.
Explode em pixels vermelhos.
Morre.
Tentativa 4:
Rola duas vezes antes de correr.
O velho Jota ergue o martelo mais alto, compensa o tempo.
Martelada.
Morre.
Tentativa 5:
O isqueiro amarelo passa voando pela primeira vez.
Ele reconhece: é o isqueiro que comprou para acender o cigarro de algumas gurias que se apaixonava.
Chama acesa, girando devagar, quente.
Passa perto demais, queima a barba.
Jota desvia por reflexo.
Perde o timing.
Martelada.
Morre.
Tentativa 6:
O caderno de anotações dos sonhos, da vida, páginas abertas, capa dura marrom balançando.
Letra de criança: “quando crescer vou ser nadador”.
Jota para no meio da corrida, olhando.
O velho Jota hesita meio segundo — quase sorri.
Martelada.
Morre.
Tentativa 7:
A chave do Gol Bolinha gira no ar, brilhando.
Molho de chaves, argola enferrujada.
Passa a centímetros do rosto dele.
Jota estende a mão por reflexo, quase pega.
Martelada.
Voa.
Morre.
Tentativas 8 a 42 (trinta e cinco vezes):
Isqueiro amarelo voando, chama acesa.
Caderno marrom abrindo no ar, páginas rasgadas com desenhos de Gol Bolinha.
Molho de chaves girando.
Camiseta regata vinho rasgada flutuando, manchada de terra e suor, manga balançando como se ainda tivesse braço dentro.
Foto polaroid desbotada da casa azul: ele com 10 anos na varanda, família sorrindo.
Ímã cinza fosco do Posto Esso girando devagar, beiradas descascando, logo quase apagado — memória da geladeira, do pai colando ele ali, de quando tudo era normal.
Mochila laranja caindo aberta, zíper estourando, tudo espalhando no ar.
Objetos voando, memórias queimando, marteladas caindo.
Jota morre de todas as formas possíveis: esmagado, jogado no abismo, explodido em pixels vermelhos.
O velho Jota nunca muda de posição.
Só ergue o martelo.
Só espera.
Só martela.
Tentativa 43:
O vaso de cerâmica com o galho seco da árvore morta aparece flutuando.
A terra dentro tá seca, rachada.
O galho morto.
Jota olha pro vaso, depois pro velho.
O velho tem a mesma expressão que ele teve no dia que deixou a árvore morrer: cansada, derrotada, vazia.
Jota fala pela primeira vez desde que entrou no loop:
— Tu deixou ela morrer.
Eu não.
O velho Jota ergue o martelo mais alto que nunca, runas vermelhas piscando forte.
Jota corre.
Não pra pegar o cristal.
Corre pra encarar o velho.
Martelada vem.
Ele não desvia.
Deixa acertar.
O impacto explode o peito, manda ele voando até a borda do abismo.
Mas antes de cair, ele sorri.
O cristal não é pra pegar correndo — é pra encarar o que a gente virou quando desistiu.
Morre.
Tentativa 44:
Jota caminha devagar agora, não corre mais.
O cadarço direito do tênis surrado solta sozinho, arrasta no chão pixelado.
Ele tropeça, cai de joelhos.
Martelada vem.
Passa raspando nas costas dele.
Ele levanta, olha pra trás.
O martelo cravado no chão onde ele estava.
O cadarço solto salvou.
Sempre salva.
O velho Jota puxa o martelo de volta, runas piscando fracas.
Jota olha pro cadarço solto, depois pro velho.
— Tu desistiu, né?
O velho fala pela primeira vez, voz idêntica à dele, só mais rouca:
— Desisti no dia que deixei a árvore morrer.
Desisti quando a Maju disse não.
Desisti quando o Gol ficou dois dias parado e eu nem liguei mais.
Desisti de tentar.
Martelada.
Morre.
Tentativas 45 a 53 (nove vezes):
Jota tenta encarar o velho de frente, caminhando, não correndo.
Nove vezes o martelo desce.
Nove vezes ele morre tentando entender.
Mas a cada morte, ele chega mais perto.
Na 48ª, toca o cristal com a ponta dos dedos antes da martelada.
Na 50ª, segura o cristal por meio segundo.
Na 53ª, o cristal brilha na mão dele antes de explodir junto com o corpo.
Tentativa 54:
Jota não corre.
Caminha direto, passo pesado, lento, 110 kg de quem já morreu cinquenta e três vezes e entendeu que não precisava correr.
O velho Jota — ele mesmo, com rugas profundas, olhos amarelos fundos, barba branca até o peito, corpo curvado sob o peso de décadas de desistência — ergue o martelo devagar.
As runas vermelhas piscam fracas, quase apagadas.
Jota para a três metros do cristal.
Não olha pro item.
Olha pro velho.
— Tu desistiu.
Eu não.
O velho ri, som seco de pedra rachando.
— Tu vai.
Todo mundo vai.
É só questão de martelada.
Jota dá outro passo, cadarço direito arrastando solto no chão.
— Então me mata de uma vez.
O velho ergue o martelo até o alto.
— Com prazer.
O martelo desce.
Jota não desvia.
Levanta a mão aberta.
O martelo para a um centímetro da palma.
O impacto deveria esmagar o braço, explodir o corpo, apagar tudo.
Mas não.
A luz dourada explode da palma da mão dele — o cristal não tá na fenda, tá dentro dele, sempre esteve.
A luz dourada explode da palma da mão dele, sobe pelo braço, invade o peito, ilumina tudo.
O velho arregala os olhos amarelos.
— Não…
Jota fecha o punho.
A luz vira força.
Ele dá um passo à frente.
O martelo começa a rachar nas mãos do velho.
— Tu desistiu.
Eu não.
Outro passo.
O velho tenta recuar, mas não consegue — as pernas de pedra começam a desmoronar.
O martelo se parte ao meio, runas vermelhas apagando uma a uma.
Jota chega perto.
Olha nos olhos do velho que ele poderia ter sido.
— Acabou.
E soca.
O punho dourado atravessa o peito rochoso do velho.
Não com ódio.
Com pena.
O velho Jota sorri, triste, aliviado.
— Conseguiu.
E explode em pixels dourados.
Chuva quente, lenta, bonita.
O martelo cai em pedaços.
O cristal na fenda apaga.
Porque não precisa mais.
A arena começa a sumir, plataformas dissolvendo em névoa dourada.
Jota fica parado no centro.
A luz dourada some do corpo dele, devagar, deixando só um pontinho no centro da palma.
Ele fecha os olhos.
E é transportado.
Jota abre os olhos.
O teto do quarto no Capão da Imbuia.
Frestas de luz da persiana cortando o escuro, 6h47 da manhã.
O corpo pesado na cama, 110 kg afundando o colchão exatamente como sempre.
Cotovelo dói. Costelas latejam. Braço direito formigando como se tivesse levado martelada de verdade.
Mas ele tá vivo.
E inteiro.
Levanta devagar.
O pé direito tropeça no cadarço solto do tênis surrado que ficou jogado no chão ontem. Dedão aparece pelo buraco, como sempre.
A mochila laranja tá encostada na parede, zíper meio aberto, canto do caderno capa dura marrom aparecendo.
A camiseta regata vinho tá lá, dobrada na cadeira.
O short de moletom cinza pendurado no armário.
Tudo no lugar.
Vai até o banheiro, liga a luz por reflexo.
Olha no espelho.
Barba cheia, cabelo bagunçado, olhos fundos.
Mas os olhos têm algo novo: brilham um pouco.
Não de ouro.
De quem acabou de matar o próprio futuro ruim.
A mão direita ainda formiga.
Ele abre a palma.
No centro, um pontinho dourado.
Pequeno.
Do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Quente.
O resto do cristal.
Não sumiu tudo.
Ele fecha a mão em volta, sorri — primeiro sorriso de verdade em muito tempo.
Desce pra cozinha.
Abre a geladeira, pega o guaraná, bebe metade de uma vez.
O ímã cinza fosco do Posto Esso tá ali no centro da porta, segurando um papel velho com telefone de pizzaria. Beiradas descascando, logo quase apagado. Sempre ali, desde que o pai colou.
Olha pela janela: o meio-fio rachado, o Gol Bolinha parado na garagem.
O vaso com o galho seco tá na pia, esperando terra nova.
Jota pega o vaso.
Calça o tênis surrado sem amarrar o cadarço direito — o cadarço roça o chão, quase tropeça, mas ele sorri.
O cadarço sempre salva.
Enche de terra fresca do quintal.
Enterra o pontinho dourado junto com o galho.
Coloca na janela onde bate sol.
Senta na mesa.
Bebe o resto do guaraná.
Olha pro vazio por um tempo.
E fala sozinho, voz baixa, rouca, feliz:
— Hoje eu venci, caralho.
O dia começa.
O loop acabou.
O velho morreu.
E o Jota de 44 anos, pela primeira vez na vida, tá inteiro.
08h12.
Sol entrando pela janela, batendo no vaso — o pontinho dourado pulsa devagar, quase invisível.
Jota toma leite, olhando o broto que ainda não nasceu.
Levanta, vai pro quintal.
O Gol Bolinha Cinza Urban tá na garagem, capô frio.
Com o molho de chaves, pega a correta, gira.
O 1.0 16v pega na primeira.
Jota dá ré, sai de casa.
Vai dar uma volta, sentir o vento pela janela, sentir a vida.
Vai no Gol, cantando sozinho:
— Hoje eu venci, caralho…
Engata a primeira.
Sai rua abaixo.
Rua do Professor nunca pareceu tão bonita.
17h47.
O Gol Bolinha entra na rua de volta — o dia foi simples, dirigiu sem rumo, um parque ali, outro lá, uma caminhada ali, vento passando.
Ele estaciona, desce, tira o tênis surrado na porta (cadarço direito ainda solto).
Jota entra, vai direto pra cozinha, para na janela.
Olha pro vaso de cerâmica.
O galho seco tá lá.
Mas não tá mais seco.
Um broto verde, pequeno, quase tímido, saiu da ponta mais fina.
Folha nova.
Viva.
O pontinho dourado não tá mais visível — virou seiva.
Jota sorri.
Um sorriso grande, inteiro, que faz a barba cheia abrir.
Toca o broto com a ponta do dedo.
Fala baixo, só pra ele e pra planta:
— Tu também venceu, né?
A folha treme de leve com o toque.
Jota deixa a janela aberta, o vento da noite entra fresco.
Ele senta no sofá, liga a TV, mas não assiste — só fica ali, olhando o broto.
Porque às vezes o jogo é impossível.
Às vezes o martelo desce cinquenta e três vezes.
Mas na quinquagésima quarta, você para um milésimo antes.
E o mundo inteiro muda.
Jota fecha os olhos.
Dorme no sofá.
Sem loop.
Sem martelada.
Sem velho.
Só o som do vento nas folhas novas.
E o Gol Bolinha na garagem, pronto pro próximo dia.
Porque o Jota de 44 anos, 110 kg de quem enfrentou o próprio futuro e ganhou, agora sabe:
o cristal sempre esteve dentro.
E hoje, ele brilhou.
