O prédio é um esqueleto. Concreto nu, vergalhões expostos como costelas de criatura morta há muito tempo. As escadas descem em espiral apertada, metal enferrujado sem corrimão, degraus que rangem sob o peso de dezenas de pessoas correndo.
Ninguém esperava. Ninguém estava preparado.
Jota desce no meio da massa. Ombros batendo em ombros desconhecidos. Respiração pesada ecoando nas paredes de concreto. A mochila laranja nas costas pesa mais do que deveria, batendo contra a lombar a cada passo apressado. A camiseta regata vinho gruda no peito de suor frio.
O ar cheira a ferrugem e medo.
Ninguém grita. Ninguém fala. Só o barulho dos pés batendo no metal, descendo, sempre descendo.
Jota sente o poder dormindo nas pernas.
Ele sempre esteve ali. Desde que consegue lembrar. Latejando baixo nos músculos da panturrilha, subindo até a coxa, esperando. Nunca ativou. Nunca precisou. Guardou. Para emergência. Para o dia em que não tivesse outra escolha.
Hoje pode ser esse dia.
Jota olha pra trás.
Lá em cima, vários andares acima, alguém para.
Jota sente antes de ver. A massa de corpos desacelerando por um segundo, o fluxo tropeçando. Ele olha pra cima por cima do ombro de uma mulher de cabelo curto.
Um homem de terno preto está parado no patamar.
Alto. Magro demais. Ombros quadrados que não se mexem quando ele respira. O terno é impecável, preto fosco, gravata vermelha fina como lâmina. Mas os olhos…
Os olhos brilham vermelho.
Não refletem luz. Emitem.
Dois pontos laser fixos, varrendo a escadaria de cima a baixo, procurando.
Jota vira a cabeça rápido, continua descendo.
O homem de terno persegue os diferentes.
Caçada antiga. Sistemática. Jota não sabe de onde vem, não sabe o porquê, mas sabe que é real. Sabe que o homem caça. Verifica. Procura. Sabe que quem resiste morre. Quem cede é levado. Sabe que se o homem identificar quem ele é, o que ele é, vai arrancar Jota do meio da multidão e fazer algo pior que matar.
E hoje ele apareceu aqui.
Mas ele não tem certeza. Ainda não.
Há muitas pessoas correndo. Rostos borrados. Corpos indistintos. A “raça” não aparece na pele, no cabelo, nos olhos. É algo no ritmo. Pulsação. Frequência do corpo. Não é algo que se vê. É algo que se detecta. E o homem de terno ainda não conseguiu.
Jota enfia a mão no bolso da calça. Os dedos encontram o isqueiro amarelo. Polegar no gatilho. Acende. Apaga. Acende. Apaga. Chama pequena dançando no escuro. Tic nervoso que ele nem percebe mais.
A mulher de cabelo curto o ultrapassa e tropeça. Jota segura o braço dela antes que caia. Ela olha pra trás, olhos arregalados, agradece sem som. Continua descendo.
Quantos andares já desceram? Dez? Vinte? As escadas não terminam. Continuam girando, círculos infinitos cortando o centro do prédio vazio.
E então alguém grita:
— O VÃO!
A palavra atravessa a escadaria como choque elétrico. Corpos param. Hesitam. O fluxo emperra.
Jota olha pra baixo.
Três andares abaixo, a escada simplesmente… para.
Um metro de escuridão. Pura. Absoluta. Como se alguém tivesse apagado a realidade naquele ponto. A luz não chega ali. É sugada.
Do outro lado, a escada recomeça. Perfeita. Intacta.
O vão.
Jota sente o estômago gelar.
Ele sabe o que acontece no vão.
Todo mundo sabe.
O homem de terno criou o vão. Ali. Agora. Um metro de escuridão que suga luz. Checkpoint. Ao atravessar, algo acontece. Se você não for da raça, passa. A escuridão continua. Se for, brilha. Marca azul queimando no ar por três segundos. Resistindo. Impossível esconder.
Mesmo quem não sabe. Mesmo quem nunca soube.
Qualquer um da raça que passar pelo vão será identificado.
E o homem de terno não pode identificar sem isso.
Ele precisa que cruzem. Precisa que a marca queime no ar. Senão são só corpos indistintos correndo no escuro.
É por isso que ele desce devagar.
Pastoreando.
A massa de pessoas emperra no patamar antes do vão. Ninguém quer ser o primeiro.
Ninguém quer atravessar aquela escuridão.
Ninguém quer descobrir se vai brilhar.
Mas recusar é pior. Quem não passar por vontade própria vai ser levado. E a prova vai ser criada de qualquer jeito.
Jota acende o isqueiro de novo. Segura a chama acesa. Olha a luz amarela tremer.
Pensa rápido.
Não é a primeira vez que alguém se oferece.
Oito pulsos familiares vibram no meio da multidão. Oito da raça. Ele reconhece a frequência.
Alguns sabem. Outros talvez ainda não.
Se todos passarem ao mesmo tempo, as marcas vão se sobrepor. Borrão. O scanner não consegue isolar. Mas o homem vai estar esperando do outro lado. Vai pegar todos os que ficarem presos no patamar hesitando.
Mas se alguém se mostrar primeiro…
Se alguém chamar atenção…
Os outros ganham segundos. Talvez minutos. Tempo pra dispersar. Pra correr em direções diferentes. Pra sumir.
Jota fecha o isqueiro. Guarda no bolso.
Empurra os corpos na frente dele. Abre caminho até a beira do vão.
O vão é pior de perto. Escuridão que suga tudo. Do outro lado, a escada recomeça.
Um metro. Só isso.
Mas é o suficiente.
Jota olha pra cima.
O homem de terno está cinco andares acima. Cabeça inclinada. Observando. Os olhos vermelhos piscam uma vez. Vermelho mais intenso. Vermelho cirúrgico.
Jota respira fundo.
Sabe que não vai funcionar.
Sabe que o homem vai pegar todos de qualquer jeito.
Mas se não tentar, vai carregar os oito pro resto da vida.
Grita:
— SOU EU! AQUI!
Sua voz explode na escadaria. Ecos batem nas paredes de concreto, multiplicam, voltam distorcidos.
O homem de terno vira a cabeça devagar. Foco total. Os olhos travam em Jota.
E ele sorri.
Não é sorriso humano. É desenho de sorriso. Lábios finos se abrindo em ângulo errado, dentes brancos demais, maxilar que se alarga um centímetro além do natural.
Ele desce dois degraus de uma vez.
Jota salta.
E ativa o poder.
A sensação é de rasgamento.
Os músculos da panturrilha explodem. Não em dor. Em força. Fibras se multiplicam em milissegundos, se reorganizam, se comprimem. Os ossos da tíbia rangem, engrossam, viram mola biológica. A articulação do joelho trava, destrava, trava de novo em ângulo impossível.
Jota cruza o vão.
Um metro de escuridão absoluta.
O corpo voa.
A mochila laranja chicoteia nas costas. O vento bate no rosto. O estômago fica suspenso no ar.
Ele aterrissa do outro lado.
Os pés batem na plataforma de metal com impacto que sacode o corpo inteiro. A marca não queima. O poder suprime. Anula a frequência. Esconde. Poucos conseguem. Menos ainda sobrevivem depois. As pernas absorvem, dobram, estendem de novo. O poder late nas coxas, pedindo mais.
Jota não para.
Desce.
Passa por corpos que já cruzaram. Gente fugindo, dispersando, querendo distância do checkpoint.
A cada passo, as pernas impulsionam.
Salto. Salto. Salto.
Três degraus. Cinco. Dez por vez.
A escadaria vira borrão.
Acima dele, o homem de terno cruza o vão.
Não pula.
Simplesmente caminha.
Os pés pisam no ar — cabos invisíveis? gravidade alterada? — como se houvesse chão que não está lá. Três passos no vácuo, postura ereta, mãos ainda nos bolsos. Do outro lado, ele pousa sem som.
E começa a descer.
Rápido.
Rápido demais.
Os joelhos dobram pra trás. Os cotovelos articulam no sentido errado. O corpo desce a escada como aranha gigante, membros batendo no metal em ritmo sincopado, orgânico, errado.
Jota olha pra trás e quase tropeça.
Lá em cima, muitos andares acima agora, na beira do vão, a multidão aproveita. Começam a atravessar. Um. Dois. Cinco. Dez.
Alguns são da raça. A marca aparece — Jota vê de relance, brilho azul cortando a escuridão, queimando no ar por três segundos antes de apagar. Marcas se sobrepõem. Borrão azul. O scanner registra quantidade, mas não identifica indivíduos.
O homem de terno vê também.
Ele para.
No meio da descida. Vira a cabeça cento e oitenta graus sem mover o corpo. Olha pra cima. Conta. Registra cada marca que consegue isolar.
E Jota entende tarde demais:
O monstro não vai se contentar só com ele.
Vai pegar todos que conseguir rastrear.
Ele percebeu a estratégia. Entendeu o sacrifício. E não se importa.
Vai caçar Jota primeiro. Depois volta. Pega os que ficaram nítidos no borrão. Um por um. Metódico. Sistemático.
A estratégia só comprou segundos.
Jota acelera.
O poder queima agora. Músculos rasgando, tendões esticando além do limite. As pernas pulam cinco degraus. Dez. Quinze por salto.
A mochila laranja bate nas costas com força que vai deixar hematoma. Dentro, o caderno de capa dura marrom sacode, páginas se amassando.
O isqueiro escapa do bolso.
Jota vê de relance. Luz amarela girando no ar, caindo, batendo nos degraus abaixo, acendendo sozinho com o impacto. Chama pequena dançando no escuro antes de apagar.
Ele não para pra pegar.
Continua.
O homem de terno vem atrás. Mais perto agora. Jota ouve a respiração — não é respiração, é som sintetizado, ar comprimido saindo de algo mecânico dentro do peito.
— Boa tentativa — a voz diz.
Não sai da boca. Sai do corpo inteiro. Vibração grave que atravessa o ar como baixo de subwoofer.
O último lance de escadas surge abaixo.
Térreo.
Porta de metal no fim. Luz fria vazando por baixo.
Jota salta o lance inteiro.
Dez metros de queda vertical.
O poder falha no último segundo.
As pernas tremem. Os músculos não respondem. A mola biológica desliga. Fibras se rompem. Tendões estouram. O joelho direito cede pra dentro num ângulo errado.
Ele aterrissa de pé.
Mas o impacto sobe pela coluna como explosão.
Tudo apaga.
Quando a visão volta — dois segundos? três? — Jota tá de joelhos. Não lembra de cair. Se levanta devagar, cambaleando. Gosto de ferro na boca. A visão ainda tá borrada nas bordas. Dor aguda na panturrilha direita — algo rompeu de verdade agora.
Jota segura a parede. Respira fundo.
O homem de terno pousa atrás dele.
Sem som.
Sem impacto.
Como se pesasse nada.
Jota se vira devagar.
A escadaria inteira acima está vazia.
Silêncio absoluto.
Os outros fugiram. Dispersaram. Ganharam os segundos que Jota comprou com o corpo.
Ele fica ali.
De pé.
Sozinho.
A mochila laranja pesada nas costas. A camiseta regata vinho encharcada de suor. As pernas instáveis, poder esgotado, músculos rasgados latejando.
O homem de terno avança um passo.
Dois.
Os olhos vermelhos brilham mais forte. Ele inclina a cabeça, estudando Jota como se fosse inseto pregado em quadro.
— Você salvou… — a voz sintetizada faz pausa, processando — …oito indivíduos da sua raça.
Não é pergunta. É afirmação. Relatório.
O sorriso se alarga um milímetro.
— Estratégia: sacrifício individual para dispersão coletiva.
Outro passo.
— Eficácia: temporária.
Pausa.
— Previsível.
Os dedos do homem saem do bolso. Longos demais. Articulados demais. Cinco falanges em cada dedo.
— Todos serão processados em no máximo quarenta e oito horas.
Jota não responde. Não adianta.
Ele ajusta a mochila no ombro. Sente o peso do caderno lá dentro. A mão procura o isqueiro e só encontra tecido.
O poder ainda late fraco nas pernas. Músculo se contorcendo, tentando se regenerar. Mas não tem mais escada pra descer.
Não tem mais pra onde correr.
O homem de terno para a um metro de distância.
— Você será o primeiro.
Ele inclina a cabeça. Observando. Como se quisesse ver o que vem agora.
Jota respira fundo.
Tira a mochila laranja das costas. Abre o zíper devagar. As mãos ainda instáveis.
Pega o caderno de capa dura marrom. Abre numa página em branco. Encontra a caneta no bolso lateral da mochila.
Escreve. A letra sai tremida, irregular.
Começa uma frase. A mão trava. A caneta fica suspensa sobre o papel. Não tem o que dizer que o corpo já não tenha dito.
Fecha o caderno. Guarda na mochila. Fecha o zíper.
Coloca a mochila nas costas de novo.
Ajusta as alças.
Fica de pé.
Encara os olhos vermelhos.
O joelho direito cede. Ele não cai.
Os dedos do homem tocam o ombro de Jota.
E o resto é queda.
