A ilha parecia um labirinto de água escura e concreto rachado. Diques altos separavam cada quadrante como muralhas de prisão, e o som constante das ondas batendo contra as paredes ecoava como respiração pesada de alguma coisa gigante e invisível. O céu estava cinza, sem sol, e o ar cheirava a ferrugem, sal e algo podre que vinha do fundo dos canais. No centro da ilha, erguida sobre palafitas grossas de madeira escura, uma casa de telhado verde e janelas pequenas parecia o único lugar seguro. As palafitas já rangiam, inclinadas. Uma das janelas tinha a vidraça quebrada.
No centro da água, Leandro Costa já não era gente.
Antes, ele tinha sido apenas um rapaz magro, de ombros curvados, que ninguém na ilha suportava. Falava demais, ria sozinho, aparecia em festas sem ser convidado. O desprezo foi crescendo devagar, como ferrugem: primeiro os olhares, depois os apelidos, depois o silêncio quando ele chegava. A ilha inteira virou as costas pra ele. E Leandro guardou tudo isso dentro, até o dia em que não coube mais.
A transformação aconteceu num amanhecer cinza. A pele dele rachou como casca de árvore velha, os ossos estalaram num som úmido, e do corpo magro nasceu uma cobra gigante, negra e brilhante, com escamas que refletiam a luz suja da água. Mas o pior não era a cobra. O pior eram os tentáculos: dezenas deles saindo das costas do monstro como chicotes vivos, cada um terminando em ventosas que abriam e fechavam com vontade própria. Cada tentáculo se movia independente, arrancando pedaços de concreto, chicoteando a água até formar ondas que subiam pelos muros.
Leandro Costa virou Octopus.
E Octopus não perdoava mais ninguém.
Jota estava na margem oposta do canal quando viu a transformação. 1,83 de altura, 110 kg de corpo que já tinha visto coisa demais, barba cheia respingada de água suja, cabelo grudado na testa. Ele não sabia o que vinha. Mas sabia que não podia ficar parado.
Correu.
Água batia nos tornozelos. O coração batia rápido demais, o ar queimava nos pulmões, e a camiseta regata vinho grudava no peito encharcada de suor e água suja. Os tênis surrados chapinhavam na lama, e o cadarço direito — aquele maldito cadarço que nunca ficava amarrado — batia solto contra o tornozelo a cada passo.
Octopus apareceu na curva do canal.
A cabeça de cobra emergiu devagar da água escura. Grande. Maior do que deveria ser. Olhos amarelos brilhavam como faróis, língua bifurcada grossa provando o ar. Os tentáculos subiram atrás, deslizando pelas paredes dos diques como dedos procurando algo pra esmagar. Um deles veio rápido demais, cortando o ar. Outro chicoteou a lateral do dique gritando um nome — grave, arrastado, cheio de rancor. Jota não conseguiu entender, mas reconheceu o tom: era nome de alguém da ilha, alguém que tinha virado as costas.
Jota levantou a mão por instinto.
O poder veio gelado, azul, subindo pelos dedos como choque elétrico ao contrário. Jota sentiu o frio queimando as veias do braço, subindo até o ombro, pesado e vivo como algo que não era dele mas obedecia mesmo assim. A água onde o tentáculo passava congelou na hora, virou bloco sólido e transparente. O tentáculo ficou preso no gelo até a metade, e Octopus gritou com voz de serpente, um som que parecia rasgar o céu cinza em pedaços.
Jota nem esperou pra ver o resto. Subiu na margem de concreto do dique, tênis escorregando na pedra molhada. Correu.
Atrás dele, lá embaixo, o canal inteiro estava congelando, gelo se espalhando como teia de aranha azul sobre a água preta. Jota pulou uma pilha de destroços, passou por baixo de um cano enferrujado, e foi nesse momento que o cadarço direito enroscou em algo.
Ele tropeçou.
Caiu de joelhos na lama, ar saindo dos pulmões num grunhido. E foi exatamente nesse segundo que um tentáculo passou chiando por cima da cabeça dele, tão perto que Jota sentiu o vento frio e o cheiro de podridão. Se não tivesse tropeçado, o tentáculo teria arrancado a cabeça dele do pescoço.
O tênis surrado tinha salvado a vida dele.
Jota se levantou rápido, coração batendo na garganta, e correu mais forte. Atrás dele, Octopus rugia, quebrando o gelo com golpes furiosos dos tentáculos. O som ecoava pelos canais como trovão molhado.
Foi aí que Rand Oliveira apareceu.
Ele surgiu do nada, saindo de trás de um dique quebrado, correndo na direção oposta com os olhos arregalados, sangue escorrendo de um corte na testa, bigode grisalho pingando, e o macacão azul encharcado até os joelhos. Quando viu Jota, Rand parou por um segundo, ofegante. Viu o gelo espalhado no canal. Viu as mãos de Jota ainda fumegando frio.
— Jota! Esse poder… — Rand respirou fundo, apontou pro outro lado da ilha. — Tem uma gruta! Do outro lado, perto das casas! Tu consegue fechar a entrada com isso!
E desapareceu virando a esquina de outro canal, como se nunca tivesse estado lá.
Jota continuou correndo. Chegou no muro alto que separava os setores da ilha, um paredão de concreto cinza com escada de ferro enferrujada subindo até o topo. Podia ter subido. Podia ter pulado pro outro lado e seguido em frente, deixado a ilha pra trás, deixado Octopus pra trás, deixado tudo pra trás.
Mas parou no primeiro degrau.
Olhou pra trás.
Lá longe, do outro lado do canal congelado, a casa elevada estava iluminada. Janela aberta, luz amarela fraca vazando pra fora, cortina balançando com o vento.
Correu para lá.
Jota chegou na casa ofegante, subiu a escada de madeira das palafitas dois degraus de cada vez. Entrou pela janela. A família estava junta na sala, olhando pela janela da frente, rostos pálidos. Tinham visto. Tinham ouvido. Sabiam que algo terrível estava acontecendo lá fora.
— Jota! — a mãe virou, alívio e pânico misturados no rosto.
— Tenho um lugar seguro! — Jota foi direto pra mochila laranja jogada no canto. Abriu, começou a jogar coisas dentro. — Vamos sair agora!
Jogou dentro: pacote de biscoito da mesa, duas garrafas d’água, isqueiro amarelo. No fundo da mochila, o caderno de capa dura marrom já estava lá. O ímã de geladeira do Posto Esso preso na capa com fita adesiva velha brilhava azul pálido, fraco mas vivo. Jota não tirou o caderno. Só notou o brilho, fechou a mochila, jogou nas costas.
— Onde? — o pai perguntou, voz tensa.
— Gruta do outro lado. Vamos! Agora!
Desceram a escada correndo, todos juntos.
Saíram pra rua. O caos estava em todo lugar.
Octopus destruía tudo. E crescia. Cada segundo parecia maior, escamas se expandindo, tentáculos se alongando. Já passava da altura dos telhados. Casas desabavam com um golpe só. Madeira voava. Concreto rachava. E os tentáculos pegavam gente.
Um grito cortado na rua ao lado. Som úmido de ventosa grudando. Depois silêncio.
Jota corria, mochila laranja batendo nas costas, família tropeçando atrás.
— Gruta! — berrou, voz rachada. — Todo mundo pra gruta do outro lado!
Portas se abriram. Pessoas saíram correndo em todas as direções. Algumas seguiram a voz de Jota, virando pra mesma rua, correndo junto. Outras fugiram pro lado oposto, desaparecendo entre as vielas. Um homem tropeçou. Tentáculo veio rápido demais. Jota virou o rosto.
Não podia parar. Não podia salvar todo mundo.
Continuou correndo.
Lá longe, Octopus era monstruosidade que bloqueava o céu cinza. Maior que as casas. Maior que os diques. Crescendo ainda. Os tentáculos fustigavam estruturas inteiras, arrancando pedaços, esmagando tudo no caminho.
A gruta ficava do outro lado da ilha, fenda larga na rocha, entrada escura como boca aberta. Jota chegou ofegante, família atrás, mais gente chegando de todos os lados. Crianças chorando. Velhos cambaleando. Todo mundo entrando tropeçando, empurrando, procurando espaço no fundo.
Jota ficou do lado de fora. Virado pra ilha. Lá longe, conseguia ver Octopus destruindo as últimas casas, cada golpe arrancando pedaços da ilha. O monstro vinha na direção deles.
Levantou as duas mãos.
O poder veio mais forte dessa vez, queimando os braços inteiros, subindo até os ombros como gelo derretido ao contrário. Gelo brotou da pedra molhada, subiu das poças, camada sobre camada, bloqueando a entrada da gruta. Azul translúcido, grosso, denso. Jota forçou mais. A parede subiu até quase fechar tudo. Deixou um canto aberto no lado direito, fenda estreita suficiente pra alguém passar de lado. Ar frio entrava por ali. Não era prisão. Era defesa.
A visão começou a escurecer nas bordas. Os braços tremiam. O frio tinha virado dor pulsante.
Jota se virou, passou pela fenda estreita, entrou na gruta. As pernas falharam. Caiu de joelhos no chão de pedra úmida.
Lá fora, o rugido de Octopus ecoava cada vez mais perto.
E então ouviu.
Uma pancada surda e pesada contra o gelo. O impacto fez a parede inteira tremer.
Os olhos de Jota fecharam sozinhos.
A escuridão veio antes da segunda batida.
