Capa do Capítulo

Olho no Ombro

Extensão: 2.202 palavras | Leitura: 12 min

Faça login para acompanhar.

Jota estaciona o Gol Bolinha na rua lateral do cinema antigo, duas portas rangendo ao fechar. O prédio tem fachada art déco descascada, letreiro apagado há anos, mas hoje tem movimento. Cartazes caseiros colados na porta de vidro: EXPOSIÇÃO DE JOGOS DE TABULEIRO – PEÇAS RARAS – ENTRADA FRANCA.

O pai desce, ajeitando a camisa. Jota pega a mochila laranja do banco traseiro, caderno marrom dentro (anota regras de jogos, mecânicas interessantes, ideias). Ajusta a camiseta regata vinho que gruda no corpo pelo calor de Curitiba. O isqueiro amarelo ele pega do porta-luvas e coloca no bolso, nunca se sabe. Tranca o Gol. O tênis surrado arrasta no chão, cadarço direito solto. Ele nem percebe.

Dentro, o saguão virou galeria. O carpete vermelho gasto range sob os sapatos. Mesas compridas ocupam o espaço onde antes tinha bilheteria e pipoqueira. Caixas de jogos abertas, miniaturas brilhando sob luz negra roxa, dados de cristal refletindo cores. O cheiro é estranho: plástico novo misturado com pipoca velha, mofo das paredes e algo doce que não dá pra identificar.

No canto esquerdo, ocupando três mesas inteiras, Leandro Costa, mais conhecido como o Velho Nerd, está montando um tabuleiro gigante. Barba cheia, camiseta preta com logo desbotado, concentrado. Hexágonos de papelão grosso formam mapa complexo, miniaturas de monstros posicionadas estrategicamente. Ele levanta a mão quando vê Jota, sorri largo.

— Chegaram na hora certa — diz, voltando a encaixar peças. — Faltam só as raras. As que fazem a diferença real.

Jota se aproxima, mochila laranja no ombro.

— Esse é o jogo novo?

— Versão 3.0 — Velho Nerd responde, orgulhoso. — Mecânica completamente reformulada. Cada peça representa arquétipo diferente. Com as certas, você fecha partida em metade do tempo.

O pai olha desconfiado.

— E sem as certas?

Velho Nerd dá de ombros.

— Demora. Ou você perde feio.

Jota e o pai começam a caminhar entre os expositores. Famílias, nerds de camiseta de anime, colecionadores de cabelo grisalho examinando cada caixa. Cada mesa promete algo: disputa mais rápida, mais cruel, mais bonita. Cartas com borda dourada. Dados gravados à mão. Monstros em resina pintados com detalhes microscópicos.

Então Jota escuta.

Sussurros.

Uma mulher magra puxa o marido pelo braço:

— Ouvi que tem maldição. Algo sobre crianças…

O pai de Jota bufa baixo:

— Gente vê o que quer ver.

Mais adiante, dois jovens conversam:

— Meu primo acordou com olhos nos ombros. Vermelhos. Que piscam.

— Ele fez cirurgia pra tirar.

Um vendedor intercepta um casal:

— Isso é marketing viral. Não existe maldição.

O casal já tá saindo, puxando o filho.

Jota olha pro pai.

— Tu acredita nisso?

— Em gente inventando história pra vender jogo? Sempre.

Mais vozes ao redor:

— Vi criança com TRÊS olhos…

— Photoshop. Fake.

— Minha vizinha trabalha no hospital. Chega caso toda semana.

O pai franze a testa, voz mais baixa:

— Se isso tá machucando criança de verdade, então deveria estar mais público.

Jota para numa mesa cheia de cartas holográficas. Pega uma. CRIANÇA AMALDIÇOADA – TRANSFORMAÇÃO NIVEL 3. A ilustração mostra menino com olhos nos ombros, boca aberta, gritando silencioso.

— Pesado — ele murmura.

O pai pega outra carta. TROCA RITUALÍSTICA – SALA 7. A ilustração é mais abstrata: porta vermelha, símbolo estranho, sombras alongadas.

— Que sala 7? — o pai pergunta.

Vendedor ao lado responde sem olhar:

— Salas de projeção. Algumas ainda funcionam. Pra… sessões fotográficas especiais.

— Fotográficas?

— Ângulo certo, luz específica. — O vendedor não levanta os olhos da mesa. — Dizem que tira o olho. Por um tempo.

Não explica mais.

Jota guarda a carta, continua andando. A mochila laranja pesa no ombro. Ele ajusta a alça, sente o caderno marrom se mexendo lá dentro.

E então ela aparece.

Bloqueia o caminho. Cabelo escuro caindo nos ombros, olhos grandes e expressivos, sorriso nervoso mas confiante. Rosto alongado, traços marcantes que chamam atenção de um jeito diferente. Camiseta oversized, mas mesmo assim dá pra perceber: corpo atlético, presença forte. Uma cavala. Do tipo que intimida e atrai ao mesmo tempo.

— Eu te conheço — ela diz, voz baixa.

Jota para.

— Conhece?

— Sempre te vi nos vídeos do Velho Nerd. Acho você… interessante.

O pai se afasta discreto, examinando outras mesas, mas continua de olho.

— Sou a Cavala — ela continua, se aproximando mais. — Cavala Fernandez.

Jota já viu ela antes — em fotos de uma amiga em comum, sempre nos eventos do Velho Nerd. Mas ao vivo é outra história.

Ela continua:

— A gente nunca conversou, mas eu sempre quis.

Jota não sabe o que dizer.

— Eu… oi?

Ela ri baixo, nervosa.

— Desculpa, tô sendo estranha. É que… — pausa. — Preciso te mostrar uma coisa. Antes que fique tarde demais.

— Mostrar o quê?

Ela verifica se ninguém tá prestando atenção. Depois puxa a gola da camiseta pro lado, expondo o ombro esquerdo.

E lá está.

Um olho.

Vermelho. Vivo. Piscando devagar.

Não é tatuagem. Não é prótese. Não é maquiagem de evento. É real. Parte da pele dela. A pupila é vertical, como de réptil. A íris brilha fraco, luz própria. A pele ao redor está levemente inchada, veias escuras ramificando como raízes. O olho se move, independente, vira e de repente encara Jota diretamente.

Jota segura a respiração. Mas não desvia o olhar.

O pai, alguns metros atrás, vê. Sussurra baixo:

— Caralho.

— Que porra… — Jota começa.

— Calma — ela cobre de novo, rápido. — Não é contagioso. Acho.

— Como… como isso aconteceu?

Cavala suspira.

— Não sei exatamente, mas foi depois que comprei umas peças raras. Três semanas atrás. Eu e uma amiga jogamos uma partida… — pausa. — Logo depois que terminamos, a gente começou a coçar o ombro. No dia seguinte, o olho já tava lá. Pequeno no começo. Agora tá quase… assim.

Silêncio.

— Mas relaxa — ela continua, sorriso forçado. — Já peguei senha pra sala 7. Só falta me chamarem.

— Senha?

— Pra tirar foto. — Ela baixa a voz. — A minha amiga, a que jogou comigo, ela veio aqui semana passada e fez. Mas não me contou na hora. Só me falou anteontem, quando viu que o olho dela não voltou. — Pausa. — Foi por isso que eu vim correndo hoje. Peguei senha assim que abriu.

O pai, fingindo interesse em outras peças mas ouvindo tudo, murmura:

— Tem gente que paga pra qualquer merda hoje em dia.

Cavala ignora. Continua:

— Mas eventualmente… — ela não completa.

O olho no ombro dela pisca de novo. Mais devagar. Como se estivesse cansado. Ou esperando.

— Por que tá me contando isso? — Jota pergunta.

Cavala dá de ombros. O olho se mexe com o movimento.

— Porque você parece gente boa. E porque… — hesita. — Vi oportunidade de conversar contigo. Queria que você soubesse. Antes de tirar. — Ela toca o ombro por cima da roupa. — Eu não aguento mais carregar isso. Preciso me livrar. Aí a gente conversa de verdade. Gostaria de saber mais sobre você. Quando eu for… eu de novo.

Jota abre a boca pra responder, mas um alto-falante range. Voz metálica, distorcida:

— Senha 47. Sala 7.

Cavala olha pro corredor. Depois pra Jota.

— É minha senha. — Ela anota rápido num pedaço de papel, entrega. — Aguardo sua ligação viu! — Sorri, mas o sorriso não chega nos olhos. — Se der tudo certo.

— Ok, se cuida. — Jota guarda o papel. — Vou mandar mensagem sim.

Ela sorri de verdade agora. Um pouco de alegria finalmente chegando nos olhos.

— Tomara.

Passa por ele, roçando o braço de leve. Jota sente — mesmo sem ver — que o olho no ombro dela continua virado pra ele. Acompanhando. Até ela entrar na sala 7.

Jota fica parado. Mão ainda segurando a alça da mochila laranja. Coração batendo mais rápido que deveria.

O pai volta, preocupado.

— A gente devia ir embora. Agora.

— Pai…

— Esse lugar tá errado. — Varre o ambiente com o olhar, nervoso. — Tem criança aqui comprando essas coisas. A gente tem que sair.

— Eu sei.

— Então vamos.

— Espera. Vamos falar com o Velho Nerd antes.

Voltam até onde Velho Nerd estava montando o tabuleiro, agora quase completo. Ele olha pra cima, percebe a expressão de Jota.

— Viu alguém com o olho, né?

Jota confirma.

Velho Nerd suspira. Para de montar. Não olha pra Jota, só pro tabuleiro.

— Tá rolando uns boatos. — Mexe numa peça do jogo novo. — Dizem que algumas peças dessa nova linha tão… sei lá. Marcando quem joga. Principalmente criança.

— E os olhos? — o pai pergunta direto. — Crianças acordando amaldiçoadas. Tu sabe disso?

Velho Nerd puxa a própria camiseta, mostra os ombros limpos.

— Eu jogo todo dia. Olha pra mim. Nenhum olho. — Solta a roupa, balança a cabeça. — São peças de tabuleiro. Plástico. Tinta. Nada mais. Mas… sei lá. Criança é diferente. Mais impressionável. Ou talvez seja coincidência. Pânico coletivo.

— Tu tá vendendo isso pra criança — o pai insiste. — Mesmo com os boatos.

Velho Nerd ri, sem humor.

— Você acha que eu vou parar de vender porque tem gente inventando história? Metade do pessoal aqui já jogou. Quantos tu viu com olho? Um. Uma. — Aponta pro tabuleiro. — E eu tô aqui montando isso há meses. Nada. — Gesticula pro movimento. — Olha isso aqui. Nunca tive tanto cliente. Medo vende mais que qualidade.

Silêncio tenso.

— E a sala 7? — Jota pergunta.

Velho Nerd dá de ombros.

— Tiram foto. Luz vermelha, ângulo certo. Dizem que funciona. — Volta a montar peças. — Eu não pergunto mais que isso.

Silêncio desconfortável.

Ele oferece três peças pequenas, pintadas à mão. Da nova linha.

— Essas aqui. — Pausa. — Se os boatos forem verdade, tu já tá marcado só de pegar nelas. Se não forem… — dá de ombros. — É só plástico e tinta.

Quando Jota pega, Velho Nerd quase sorri.

— Se acontecer alguma coisa, volta aqui. Vira propaganda grátis.

Não diz mais nada. Sorri estranho. Volta pro tabuleiro.

O pai já tá puxando Jota pelo braço.

— Vamos logo. Já deu.

Eles caminham de volta pelo saguão. As conversas continuam ao redor:

— Minha filha acordou com coceira no ombro…

— É psicológico. Histeria coletiva.

Jota olha pro corredor das salas de projeção. Escuro. Silencioso. Mas no fundo, bem no fundo, uma porta entreaberta. Sala 7. Luz vermelha pulsando. Uma sombra.

Flash branco — tão forte que Jota fecha os olhos por reflexo.

Quando abre, a porta já fechou. Escuridão total. Nem a luz vermelha voltou.

Jota para de andar.

— Viu? — o pai pergunta.

— Vi.

— Então vamos.

Eles saem. O ar lá fora parece mais limpo, mesmo com poluição de Curitiba. Caminham até o Gol Bolinha.

Jota enfia a mão no bolso, puxa a chave. O isqueiro amarelo escapa junto e ele chuta sem querer. O isqueiro vai parar embaixo do Gol.

— Merda.

Jota se abaixa ao lado da porta do motorista, estica o braço por baixo do chassi. Os dedos não alcançam. Força mais, empurrando o corpo pra frente, ombro esquerdo pressionado contra o metal da porta aberta. Sente um leve incômodo no ombro.

— Porra!

Consegue pegar o isqueiro. Levanta, massageando o ombro.

O pai já tá dentro.

— Tá bem?

— Quase tirei o ombro do lugar. — Jota guarda o isqueiro de volta no bolso, ainda massageando.

Jogam as peças no banco de trás. Entram. Motor liga. Ronco familiar.

O pai olha pra ele, sério.

— Se aparecer olho em você, a gente vai no hospital. No mesmo dia. Não espera.

Jota assente.

— Tô falando sério. — o pai reforça.

— Eu sei, pai.

Silêncio.

Jota olha pelo retrovisor. O cinema atrás. O letreiro apagado. A fila de gente ainda entrando.

E pela janela do segundo andar, por um segundo, ele jura que vê: na janela que deveria ser a sala 7, luz vermelha pulsando e uma sombra entrando.

Pisca.

Desaparece.

Esfrega os olhos. A janela está apagada.

Engata a marcha. Sai devagar.

A mochila laranja no banco do passageiro. O caderno marrom dentro. A camiseta regata vinho grudada nas costas. O tênis surrado no pedal, cadarço solto. O isqueiro amarelo no bolso.

Tudo normal.

Mas lá atrás, no cinema transformado em galeria, o tabuleiro do Velho Nerd parece maior.

Muito maior.

Como se tivesse crescido enquanto ninguém olhava.

Jota dirige em silêncio. Avenida vazia, sol descendo, Curitiba laranja no fim de tarde.

Para num sinal.

Coça o ombro esquerdo.

A coceira desce até o osso. Como se tivesse unha do lado de dentro.

Ou talvez seja só da batida.

Ele puxa a camiseta regata vinho pro lado, olha no retrovisor. Torce o pescoço. Tenta ver o próprio ombro refletido.

Um roxo leve. Inchaço discreto.

Normal.

Nada.

Ainda.

O sinal abre.

Jota engata a marcha. Continua dirigindo. Mas a coceira não para. Como se algo pequeno estivesse se mexendo bem no fundo. Querendo sair.

Como se alguém tivesse plantado uma semente.

E agora ela estivesse germinando.

Faça login para acompanhar.

Sinopse Narrativa:

Jota e o pai visitam exposição de jogos de tabuleiro em cinema antigo. Encontram Velho Nerd (Leandro Costa) e ouvem rumores sobre peças raras que causam olhos extras em crianças. Cavala Fernandez mostra olho real no ombro, resultado de jogar com peças amaldiçoadas. Ela vai para sala 7 fazer sessão fotográfica para remover. Jota recebe três peças raras. Ao sair, isqueiro cai, ele bate ombro recuperando. Começa a coçar. Roxo e inchaço aparecem.

Gênero Terror Psicológico
Tom Inquietante, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Maldição, Sobrenatural
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Maldição através de objetos, Paranoia coletiva, Perigo invisível
Locais Avenida, Cinema antigo, Curitiba, Gol, Rua lateral, saguão, sala 7, Sinal
Palavras-Chave Cavala Fernandez, cinema antigo, flash branco, maldição, olho no ombro, peças raras, sala 7, tabuleiro, Velho Nerd
Velho Nerd = Leandro Costa. Boatos: peças raras da nova linha 3.0 causam olhos nos ombros, principalmente em crianças. Cavala: olho vermelho com pupila vertical no ombro esquerdo há 3 semanas, foi para sala 7 (senha 47) fazer sessão fotográfica com luz vermelha para remover. Amiga dela já fez mas olho não voltou. Jota recebe três peças raras pintadas à mão. Bate ombro esquerdo ao recuperar isqueiro. Começa coceira, roxo e inchaço discretos. Carta: CRIANÇA AMALDIÇOADA, TROCA RITUALÍSTICA - SALA 7. Flash branco na sala 7.
 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PRIVACIDADE E COOKIES

Para que sua jornada por estes contos seja completa, usamos cookies para entender como você navega por aqui. Podemos seguir com a leitura?

Saiba mais.