Capa do Capítulo

Onda que Não Acreditaram

Extensão: 2.058 palavras | Leitura: 11 min

Faça login para acompanhar.

O céu está cinza de fumaça e sirenes. Helicópteros pairam sobre as praças de Guaratuba, rotores cortando o ar pesado que cheira a querosene e pânico. As ruas estão lotadas. Gente correndo. Gente parada. Gente olhando pro céu esperando algo que não sabe nomear.

Geraldo, ou Jota, flutua trinta metros acima da avenida principal, mochila laranja presa nas costas, camiseta regata vinho colada de suor, tênis surrado guardado dentro da mochila desde que descobriu que voar é melhor descalço. Olhos fixos no horizonte onde o mar late escuro. Ele sente a pressão no peito. A onda vem. Ele sabe. Todo mundo deveria saber.

Lá embaixo, ao lado de um Jeep militar abandonado, três pessoas levantam voo. Devagar. Incerto. Como quem aprendeu ontem. Uma mulher de vestido florido sobe cinco metros e para, suspensa, olhando as próprias mãos como se fossem asas invisíveis. Um homem de bermuda e camiseta do Vasco tenta descer mas sobe mais, gritando de susto. Uma criança ri, sobe dez metros de uma vez, a mãe grita de baixo.

Os poderes chegaram pra todo mundo ao mesmo tempo. Três dias atrás. Alguns voam. Outros atravessam paredes. Outros levantam carros. O apocalipse trouxe presentes. Mas ninguém sabe usar direito. E a descrença é maior que o medo.

Jota desce em voo rasante. Utiliza um megafone:

— Saiam de Guaratuba! Subam pra serra! A onda tá vindo!

A mulher de vestido florido olha pra ele. Ri.

— Você tá maluco. Que onda?

Jota aponta pro mar. Ela olha. Não vê nada. Desiste. Continua voando em círculos, testando o próprio corpo.

Feriado e praia cheia.

Jota sobe de novo. Respira fundo. O peito aperta. Se a Daslu, o amor que mais o machucou, estivesse aqui, acreditaria? Ou riria também?

Ele não vai conseguir salvar todo mundo.

Do outro lado da cidade, próximo ao aeroporto improvisado no estacionamento do supermercado, um monomotor pequeno liga o motor. Jota reconhece o piloto de longe. Rand Oliveira. O técnico. O cara que aparece quando precisa e some quando não espera.

O avião acelera. Levanta voo. Baixo. Instável.

Jota agarra a asa, apenas acompanhando. Rand olha pela janela. Vê Jota pendurado lá fora. Não parece surpreso. Apenas acena com a cabeça. Liga o rádio.

A voz chiada atravessa o vento:

“…confirmado tsunami em Florianópolis… Santos submersa… Rio de Janeiro evacuando zona sul… helicópteros direcionados para áreas altas… repito: dirijam-se às serras… Pico do Paraná, Marumbi, qualquer altitude acima de mil metros…”

Rand desliga o rádio. Olha pra frente. Decide sobrevoar a orla pra “confirmar com os próprios olhos”.

Jota grita de fora:

— Não vai lá! Volta!

Rand ignora. Vira o manche. O avião desce em direção à praia.

Então o motor engasga.

Uma vez.

Duas.

Morre.

Rand xinga alto. Puxa a manete. Nada. O avião perde altitude rápido. Jota solta a asa, voa paralelo enquanto as rodas tocam o asfalto rachado da avenida Beira-Mar.

O impacto chacoalha tudo. Mas o avião aguenta. Continua deslizando. Rápido. As asas viram algo entre asa e roda. O monomotor agora é veículo terrestre. Como drone que perdeu altura mas ainda funciona no chão.

Rand freia. Desvia de um carro abandonado. Depois de uma barricada. Depois de três corpos no meio da rua.

Jota acompanha pelo ar, gritando:

— Vira à esquerda! Tem corredor!

Rand não ouve. Segue reto. Direto pra um beco estreito entre dois prédios altos. As asas não vão passar. Vão quebrar. Vão prender o avião ali.

Jota sabe que gritar é inútil, nem usar o megafone adiantaria agora.

No último segundo, Rand aperta um botão vermelho no painel. As asas se dobram. Como lâminas de canivete suíço. Recolhem pro corpo do avião. Perfeitas. Aerodinâmicas.

O avião entra no beco raspando as laterais. Faíscas. Metal rangendo. Mas passa.

Jota perde a paciência.

Ele sobe. Atravessa o teto de telhas de um galpão como se fosse papel. Os estilhaços voam. Cacos vermelhos chovem na rua. Desce dentro do corredor coberto onde o avião entrou.

Escuro. Apertado. Cheiro de mofo e gasolina.

No fim do corredor, Cabrito aparece. Camiseta preta rasgada. Ele também voa. Baixo. Uns dois metros do chão. Braço erguido. Apontando pra frente.

— Reto! Vai reto, porra! — Cabrito grita pro piloto.

O avião acelera. Obedece. Segue reto.

Jota agarra a fuselagem com as duas mãos. O metal frio. Vibrando. Ele sente o peso. Uns 400 kg. Talvez 500 com Rand dentro.

Ele puxa.

Levanta.

O avião sai do chão.

Jota atravessa o teto de novo carregando ele. Mais telhas explodindo. Mais cacos. O sol bate no rosto dele. O vento quente.

Ele pousa o avião do lado de fora. No meio da rua. São e salvo.

Rand abre a porta. Sai cambaleando. Olha pra Jota. Mudo. Boca aberta.

— Acredita agora? — Jota pergunta.

Rand não responde. Apenas olha pro horizonte. Pro mar que já começa a recuar.

Sinal.

Cabrito pousa ao lado de Jota. Olha pro céu. Pro mar.

— Quanto tempo? — ele pergunta.

— Poucos minutos — Jota responde.

Olham para o mar e ele já não está mais tão perto. O tsunami está vindo.

— Então vamos — Cabrito diz. E sobe. Voando em direção às ruas cheias.

Jota olha pra Rand uma última vez.

— Sobe pra serra. Agora.

Rand acena. Mas não se mexe. Jota voa atrás de Cabrito.

Quando olha pra trás, Rand já sumiu.

Como sempre.

Do alto, Jota vê o horizonte mudar.

O mar incha.

Uma parede de água preta avança. Silenciosa. Rápida. Maior que os prédios. Maior que tudo.

Jota desce em voo rasante. Passa sobre as ruas. Sobre as praças. Usando o megafone pras pessoas, fala:

— SAIAM! VOEM! SUBAM! SAIAM DE GUARATUBA!

Ele vê rostos. Centenas deles.

Alguns param. Olham. Veem a onda no horizonte.

E riem.

Outros pegam o celular. Filmam. Postam nos stories. “Olha o maluco falando de onda hahaha”

Uma mulher grita de volta:

— Sai fora, gordo! Tá querendo aparecer!

Um homem de boné joga uma pedra nele.

Jota desvia. Tenta pegar uma criança no colo. A mãe puxa de volta.

— Não encosta no meu filho, tarado!

Ele tenta grupos. Cinco pessoas de uma vez. Elas se debatem. Gritam. Caem. Ele não consegue segurar. Um por vez funciona melhor. Mas leva tempo. Tempo que não tem.

Tenta carregar uma senhora de bengala. Ela bate nele com a bengala.

— Me larga! Não te conheço! Me deixa!

Jota para no ar. Flutua. Respira fundo.

Donaro, seu primeiro amor, acreditaria? O pai entenderia?

Ele não sabe.

Só sabe que precisa tentar.

Mais uma vez.

Então vê um homem. Sozinho. Parado na calçada. Olhando pro horizonte. Pro mar. Pra onda que agora já é visível até pra quem não quer ver.

O homem olha pra Jota.

Acena com a cabeça.

— Me tira daqui.

Jota desce. Agarra ele contra o peito. Segura firme. Sobe.

A onda finalmente chega.

Não faz barulho até o último segundo.

Então é um rugido. Surdo. Profundo. Como se a terra estivesse gritando.

A parede de água engole a orla. Os quiosques. Os carros. As pessoas que ainda filmavam. Os que riam. Os que corriam tarde demais.

O homem nos braços de Jota vira o rosto. Não consegue olhar.

Mas Jota olha.

Vê os prédios desabando. As árvores arrancadas. Os corpos flutuando. A água preta, suja, cheia de destroços levando tudo.

Vê três pessoas tentando voar. A mulher de vestido florido. O homem de bermuda. A criança. Eles sobem. Mas não rápido o suficiente.

A onda os alcança.

Puxa.

Engole.

Somem.

Jota fecha os olhos.

Voa mais rápido.

Ele leva o homem até um morro seco. Longe da água. Pousa. Solta ele.

O homem cai de joelhos. Vomita. Chora. Não fala.

Jota não fala também.

Apenas sobe de novo.

Procura sobreviventes.

Passa uma hora voando sobre destroços. Carrega sete pessoas. Dois agarrados num telhado. Um pendurado numa árvore. Três dentro de um carro virado. Uma mulher flutuando agarrada numa porta. Um menino em cima de uma caixa d’água.

Depois disso, não encontra mais ninguém.

Só lama.

Só silêncio.

Jota voa alto. Mais alto que antes.

Vê Guaratuba de cima.

Não existe mais.

Na verdade, a costa é só água suja. Destroços flutuando. Alguns telhados. Nada mais.

Ele vira pra oeste. Em direção à serra. À Serra do Mar. Onde o rádio disse que os helicópteros estavam indo.

Voa por vinte minutos.

O verde da mata aparece. Denso. Fechado. A altitude sobe. 500 metros. 800. 1.000. 1.200.

De longe vê a cadeia de picos. Qual é o Pico Paraná?

1.877 metros acima do nível do mar.

Acima da onda.

Acima de tudo.

Mas não dá para saber ao certo para um leigo como ele qual é o mais alto.

Os helicópteros estão pousados na região. Dezenas deles. Espalhados pelos pontos planos, mas muito na cadeia de montanhas. Civis. Do governo. De empresas.

As pessoas estão sentadas ao redor. Cobertas com mantas térmicas prateadas. Olhando pro nada. Algumas choram. Outras apenas respiram.

Jota pousa devagar.

Os pés tocam a pedra fria do cume.

Ele caminha entre os helicópteros. Verifica rotor por rotor. Conta. Um. Dois. Dez. Vinte. Trinta. Quarenta e três.

Quarenta e três helicópteros.

Perto de um deles, Rand Oliveira aparece. Macacão azul. Ferramentas na mão. Consertando algo no rotor. Sorri cansado.

— Você tinha razão — ele diz baixo.

Jota acena. Continua caminhando.

Ao lado de uma pedra grande, Cabrito está sentado. Cabeça baixa. Mãos nos joelhos. Ele levantou a cabeça quando Jota chegou. Os dois se olharam. Não precisaram falar. Ambos tentaram. Ambos não conseguiram salvar quantos queriam.

Mais adiante, encostado num helicóptero militar, Leandro Costa, mas mais conhecido como Topgun, fuma um cigarro. Óculos de aviador pendurados na camiseta. Capacete de piloto ao lado. Ele olha pra Jota. Sorri sem humor.

— E aí, Topgun? — Jota pergunta.

Leandro solta fumaça.

— Salvei dezesseis. Você?

— Oito.

Leandro acena. Olha pro horizonte.

— Tem ideia de quantos estava lá?

Jota não responde.

Tira a mochila laranja das costas. Abre. Procura algo lá dentro.

Encontra o caderno de capa dura marrom. Abre numa página nova. Pega a caneta.

Anota:

“Guaratuba: número impossível contar ou saber.
Salvos: ~300 (segundo as informações que obteve)
Helicópteros: 43
Muitos não acreditaram até ser tarde demais.”

Fecha o caderno. Guarda.

Pega o isqueiro amarelo.

O sobrevivente.

Ele acende.

A chama pequena treme no vento frio da altitude.

Apaga.

Acende de novo.

Apaga.

Dez vezes.

Vinte.

Jota olha ao redor. Pras pessoas. Pros helicópteros. Pro céu limpo que veio depois do fim.

Cabrito levanta. Caminha até ele. Fica ao lado. Não fala. Apenas fica ali.

Leandro também se aproxima. Oferece o cigarro. Jota recusa. Topgun guarda.

Rand passa carregando uma caixa de ferramentas. Acena de novo. Continua andando. Desaparece atrás de um helicóptero.

Jota guarda o isqueiro.

Fecha a mochila.

Joga nas costas de novo.

Olha pro horizonte. Pro leste. Onde Guaratuba estava.

Onde agora só tem água.

E lama.

Cabrito coloca a mão no ombro dele. Aperta. Solta.

— A gente tentou — ele diz baixo.

Jota acena.

— Não foi suficiente.

— Nunca é.

Leandro olha pro céu.

— Mas a gente tá vivo.

Jota respira fundo. Olha pra baixo. Vê as trezentas pessoas que sobreviveram porque alguém acreditou. Ou porque tiveram sorte. Ou porque o destino decidiu poupar.

Ele não sabe.

Cabrito acena.

Jota acena de volta.

E fica ali.

Em silêncio.

Os três olhando pro horizonte onde a cidade sumiu.

Onde a onda provou que eles estavam certos.

Mas de que adianta estar certo quando quase todo mundo está morto?

Jota não sabe.

Só sabe que Cabrito está ali.

E Topgun.

E Rand aparecendo e desaparecendo.

E trezentas pessoas respirando.

E isso vai ter que ser suficiente.

Faça login para acompanhar.

Sinopse Narrativa:

Três dias após um evento que distribuiu poderes à população, Jota voa sobre Guaratuba tentando evacuar civis antes de um tsunami. A maioria não acredita, ri, filma ou o agride. A onda engole a cidade. Jota salva oito pessoas, ao todo cerca de 300 sobrevivem. Ele pousa no Pico Paraná onde helicópteros e sobreviventes se concentram, reencontra Cabrito, Topgun (Leandro Costa) e Rand Oliveira, e anota o evento no caderno. O conto termina com a resignação coletiva de quem tentou e não foi suficiente.

Gênero Apocalíptico, Ficção Científica
Tom Resignado, Tenso, Trágico
Timeline Apocalipse, Paralelo, Poderes
Versão Jota Normal, Poderes
Categoria Herói sem reconhecimento, Sobrevivência
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas culpa e resignação, Descrença diante da catástrofe, impotência do herói
Locais Aeroporto, avenida Beira-Mar, Guaratuba, orla, Pico Paraná, Serra do Mar
Palavras-Chave descrença, evacuação, Guaratuba, poderes, resignação, sobreviventes, tsunami, voo
Neste timeline, os poderes foram distribuídos a toda a população três dias antes dos eventos. Jota voa e usa megafone. Tênis guardado na mochila — única ocorrência até agora. Rand Oliveira aparece como piloto de monomotor e depois como técnico consertando helicóptero no cume. Topgun (Leandro Costa) é um personagem distinto de GlubGlub/Bitman/Cheiloso — também chamado Leandro Costa, piloto, fuma, salvou 16 pessoas. Cabrito voa baixo e auxilia Jota. As anotações do caderno são as únicas com conteúdo explicitamente transcrito no conto.
 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PRIVACIDADE E COOKIES

Para que sua jornada por estes contos seja completa, usamos cookies para entender como você navega por aqui. Podemos seguir com a leitura?

Saiba mais.