A Pedreira do Orleans era labirinto verde onde a luz do sol se filtrava pelas folhas em feixes quebrados, quase líquidos. Jota caminhava devagar pela trilha estreita, mochila laranja pesando nas costas, tênis surrado afundando na terra úmida a cada passo. O cadarço direito já estava solto. Sempre ficava. O ar cheirava a resina e musgo, e cada som — o bater distante de asas, o estalo de galhos — parecia amplificado pelo silêncio profundo que engolia tudo.
A camiseta regata vinho grudava no peito suado. O calor de Curitiba era diferente ali dentro da mata fechada. Não queimava como no asfalto, mas sufocava, úmido, pesado. Jota parou pra respirar. Tirou a mochila das costas. Abriu o zíper. Lá dentro, o caderno marrom de capa dura estava aberto na última página onde tinha anotado algo antes de entrar na floresta:
“Pedreira — buscar a coisa que brilha”
Embaixo, um desenho mal feito de um cristal. Linhas tortas representando facetas. Jota não sabia desenhar, mas sabia o que procurava. Alguém tinha falado. Não lembrava quem. Só lembrava da urgência na voz: “Tem um cristal lá. Informações importantes. Segredos. Vai lá.”
E lembrava de outra coisa. Algo que a voz tinha dito antes de desligar:
“Não toca em nada. Só observa.”
Fechou o caderno. Guardou na mochila. Continuou andando.
A clareira apareceu de repente, como se a floresta tivesse aberto espaço de propósito. Luz dourada batia no chão coberto de folhas secas. No centro, algumas pessoas estavam sentadas em troncos caídos. Jota reconheceu Rosquinha logo de cara, cabelo bagunçado, camisa colorida chamativa. Rosquinha sorriu quando viu Jota, acenou.
— E aí, Chô! — gritou. — Demorou!
— Peguei o caderno — Jota respondeu, batendo na mochila. — Tava na mesa, onde eu tinha deixado. Acharam alguma coisa?
Mama estava sentada em um tronco, braços cruzados, olhando ao redor com expressão séria.
— Nada — ela disse. — Tá fazendo meia hora que procuramos.
— Que lugar esquisito — Popó resmungou, chutando pedrinhas. — Pra que viemos aqui mesmo?
— Pro Babu parar de encher o saco — Rosquinha respondeu, rindo. — Ele disse que tinha algo importante aqui. Por isso mandou você buscar o caderno e deixou a gente procurando.
— Cadê ele? — Jota perguntou.
Mama apontou pra trilha oposta.
— O Babu entrou ali faz uns cinco minutos. Tava… estranho.
— Estranho como?
— Não sei. Andando torto. Falando sozinho. Disse que sentiu algo, que precisava checar sozinho. Mandou a gente esperar aqui.
Jota sentiu algo apertar no estômago. Mas antes que pudesse perguntar mais, viu.
No outro lado da clareira. Parada. Imóvel. Observando.
A pata.
Branca. Plumagem impecável, cada pena no lugar certo, reluzindo na luz filtrada como se fosse feita de porcelana. O bico era laranja vibrante, polido como metal recém-pintado. Mas o que realmente chamava atenção, o que fazia o estômago de Jota revirar, era o sorriso.
Não era bico de ave. Não era expressão animal.
Era sorriso humano. Largo. Malicioso. Como se guardasse segredos que ninguém deveria conhecer.
Enrolada no pescoço da pata, como cachecol pulsante, vivo, uma cobra fina e escura. A serpente sibilava baixo, língua bifurcada cortando o ar em movimentos rápidos, provando o cheiro de cada pessoa na clareira. Os olhos da cobra eram amarelos, frios, atentos.
— Que porra é aquela? — Popó sussurrou, dando um passo pra trás.
Jota não conseguiu responder.
Ninguém se mexeu. O som da floresta tinha sumido. Nem vento. Nem passarinho. Só o sibilo da cobra, fino como agulha atravessando tecido.
Jota sentiu o estômago gelar. As pernas travaram. A boca secou.
A pata piscou. Uma vez. Devagar.
E naquele exato momento, algo se mexeu nas raízes de uma árvore ao lado dela.
Um bichinho pequeno. Peludo. Do tamanho de um esquilo, mas com formato errado. Pernas curtas demais, cabeça grande demais. Ele saiu correndo do buraco entre as raízes, carregando algo nas patinhas.
Um cristal.
Brilhante. Pulsante. Cheio de luz própria que mudava de cor a cada segundo: azul, verde, dourado, vermelho. Dentro do cristal, Jota podia ver coisas. Não eram imagens. Eram informações. Memórias. Segredos condensados em luz, como se fossem arquivos vivos esperando pra serem abertos.
O bichinho correu. A pata virou a cabeça.
Abriu o bico.
O bichinho voou pra dentro da boca da pata. Não foi sugado. Foi puxado. Como se a pata tivesse gravidade própria, campo magnético que atraía tudo ao redor. O cristal desapareceu junto. A pata fechou o bico.
O cristal apareceu de novo.
Dentro do peito dela.
Brilhando. Pulsando. Visível através da plumagem branca, como se o corpo da ave fosse transparente só naquele ponto. O cristal latejava em ritmo constante, como coração artificial.
Era aquele. O mesmo que ele tinha vindo buscar. As informações importantes. Os segredos. Agora presos dentro dela.
A pata piscou. Uma vez. Devagar.
Olhou diretamente pra Jota.
O sorriso se alargou.
— Caralho — Rosquinha murmurou, voz tremendo. — Ela guardou aquilo pra depois…
Jota sentiu algo diferente no peito. Uma pressão. Não era medo. Era… poder.
Levantou a mão direita. Pensou: “Ar, obedece.”
Nada.
A pressão aumentou. Subiu pelo peito, esquentou a garganta, latejou nas têmporas. Jota fechou os olhos. Sentiu o poder ali, preso, esperando.
Pensou de novo, mais firme: “Ar. Obedece.”
O ar obedeceu.
Uma brisa quente começou a girar ao redor dele. Folhas secas levantaram do chão, rodopiaram em espiral lenta. Jota abriu os olhos. O poder fluía agora, natural como respirar, mas instável. A brisa oscilava, crescia, diminuía.
Pensou: “Balão.”
Tentou criar.
Algo apareceu no ar. Uma bolha de plástico transparente, pequena, tremendo. Cresceu um pouco. Murchou. Cresceu de novo.
— Que diabos… — Mama sussurrou.
Jota concentrou. Empurrou o poder com mais força.
O balão explodiu em tamanho.
Vermelho brilhante. Três metros de diâmetro, maior que o Gol Bolinha. Flutuando ao lado de Jota como planeta particular. A superfície do balão refletia a luz verde da floresta, o rosto espantado de Rosquinha, o sorriso da pata.
O cristal no peito dela pulsou diferente. Mais rápido. Como se reconhecesse algo. Como se tivesse encontrado o que procurava.
— Chô… — Rosquinha murmurou, olhos arregalados. — Você tem poder agora?
— Como você fez isso? — Mama perguntou, levantando.
Jota sorriu. Levantou as duas mãos agora. Fez o balão girar. O plástico vermelho dançava no ar, obediente, girando devagar ao redor da clareira. Rosquinha deu risada nervosa.
— Isso é insano!
Jota empurrou o balão suavemente na direção de Rosquinha. O balão tocou o peito dele, empurrou pra trás com leveza. Rosquinha caiu sentado no chão, rindo feito louco.
— De novo! Faz de novo!
Jota fez. O balão girava, empurrava Mama (que gritou), empurrava Popó (que xingou), voltava flutuando até Jota. Era leve. Era perfeito. Era brincadeira pura.
Mas algo incomodava Jota. Um peso no peito. Um aviso que não conseguia identificar.
A pata observava tudo. O sorriso ainda lá. A cobra sibilando baixo, como se aplaudisse. O cristal no peito dela pulsava mais rápido agora, brilhando em sincronia com os movimentos do balão, como se estivesse gravando cada segundo.
Jota sentiu algo esquentar no bolso da calça. Enfiou a mão. Tirou o isqueiro amarelo, o sobrevivente. Olhou pra ele. Girou a rodinha. Chama pequena e firme apareceu.
Jota olhou pra pata. O sorriso dela parecia maior agora. Expectante.
— Quer ver outro truque?
A pata não respondeu. Só inclinou a cabeça pro lado. A cobra sibilou mais alto.
Jota pensou: “Fogo, cresce.”
A chama do isqueiro explodiu. Ficou enorme, do tamanho de tocha medieval, labareda laranja e amarela subindo meio metro no ar. Rosquinha gritou. Mama deu três passos pra trás.
A pata soprou.
Não foi sopro de ave. Foi vento. Rajada forte que atravessou a clareira inteira, apagando a chama do isqueiro num instante. Jota sentiu o vento bater no rosto, frio, cortante.
O isqueiro apagou. Fumacinha subiu da ponta.
Jota olhou fixo pra pata. O sorriso dela não tinha mudado.
Algo estava errado. Muito errado.
— Então é assim? — ele murmurou.
Das sombras profundas da floresta atrás da pata, ele apareceu.
O urso.
Enorme. Pelo marrom desgrenhado, focinho largo, olhos pequenos e sérios. Cada passo fazia o chão tremer levemente. O som da respiração era grave, pesado, como motor diesel funcionando devagar.
Mas tinha algo errado.
O jeito de andar. A postura. A cabeça inclinada de um lado específico, como se estivesse avaliando a situação antes de agir.
Jota conhecia aquele jeito.
— Babu? — murmurou.
O urso parou. Virou a cabeça. Olhou diretamente pra Jota.
Falou.
A voz saiu rouca, um rosnado arranhando palavras humanas:
— Jota… para.
Jota piscou. Processou. Olhou pro urso. Pro focinho. Pros olhos que pareciam familiares mas não podiam ser.
— Babu?! — gritou. — É você?!
O urso — ou o que tinha sido Babu — deu mais um passo pra frente. O corpo era de fera. Garras enormas. Músculos tensos. Mas o jeito de falar, mesmo rouco, mesmo difícil…
— Para… com isso — a voz saía forçada, como se cada palavra custasse.
— Eu só tô brincando! — Jota respondeu, levantando as mãos. — Olha, é só um balão!
— Não… — o urso rugiu baixo. — Ela… tá…
O urso sacudiu a cabeça, como se lutasse contra algo. Os olhos piscaram. Por um segundo, Jota viu algo humano ali. Medo. Desespero.
— Ela tá vendo tudo — Mama disse, voz tensa. — Jota, olha o jeito que ela tá olhando. Tá gravando você.
Jota virou. O cristal no peito da pata pulsava freneticamente agora. As cores mudando rápido demais pra acompanhar.
— Para! — o urso rugiu.
Literalmente rugiu. O som ecoou pela floresta inteira. Pássaros voaram assustados. Rosquinha se encolheu atrás de um tronco.
O urso avançou.
Rápido. Muito mais rápido do que qualquer urso deveria ser.
— Jota, sai! — Mama gritou, correndo pra frente.
Ela agarrou o braço dele, tentou puxar. Muito devagar. Muito fraca. Popó jogou uma pedra. Bateu no ombro do urso. Nem arranhão deixou.
A pata pesada veio de cima, garras abertas, prontas pra esmagar.
Jota nem teve tempo de pensar.
O balão apareceu na frente.
O golpe bateu no plástico vermelho com força brutal. O impacto fez um som surdo, oco. O balão absorveu tudo. A energia do golpe voltou como onda, jogando o urso três metros pra trás. O urso caiu no chão, rolou, levantou bufando.
Mas Jota sentiu.
O plástico cedeu um pouco. Não muito. Só um centímetro. Só o suficiente pra ele perceber que não ia durar para sempre.
— Babu, para! — Jota gritou. — Você não tá se controlando!
O urso não respondeu. Só rosnados. Só fúria cega nos olhos.
Avançou de novo. Mais rápido. Dentes à mostra.
Bem no meio da tensão, alguém apareceu.
Rand Oliveira.
Do nada. Literalmente do nada. Um segundo o espaço entre Jota e o urso estava vazio. No outro, Rand estava lá, macacão azul, chave de fenda na mão, cara de quem acabou de chegar de outro lugar.
— Calma aí, galera — Rand disse, levantando as mãos. — Vamos todo mundo respirar, né?
O urso parou. Olhou pra Rand. Um rosnado baixo saiu da garganta.
— Rand, cuidado! — Jota gritou. — Ele não tá se controlando!
— Eu sei — Rand respondeu, sorrindo daquele jeito calmo dele. Mas havia tensão nos ombros. — Por isso vou tirar ele daqui.
Rand estendeu a mão na direção do urso. Os dedos se mexeram de forma estranha, como se estivesse manipulando algo invisível no ar.
O espaço ao redor do urso começou a tremer.
— Babu, meu parceiro, você vai dar um tempo agora, tá?
O urso sentiu. Sacudiu a cabeça. Deu um passo pra trás.
E avançou.
Direto pra Rand.
Rand não teve tempo de terminar.
O ar ESTALOU.
O espaço entre Rand e o urso rasgou. Não foi o urso que fez. Foi outra coisa.
O cristal no peito da pata BRILHOU. Luz cegante. Todas as cores ao mesmo tempo.
E Rand foi PUXADO.
Não pra trás. Não pro lado.
Pra dentro.
Como se o ar tivesse aberto uma boca invisível e engolido ele inteiro. Rand desapareceu com um som de estática seca, elétrica.
O espaço onde ele tinha estado ficou errado.
Vibrava. Tremia. Pedaços do ar pareciam fora de sincronia, como vídeo travado. Uma distorção pulsante, do tamanho de uma pessoa, flutuava ali como ferida aberta na realidade.
O urso atravessou o espaço vazio.
Passou direto pela distorção. As patas dianteiras entraram no ar distorcido e saíram do outro lado. Por um segundo, o corpo do urso OSCILOU, ficou translúcido, quase sumiu. Mas voltou. Sólido de novo.
O urso tropeçou. Chacoalhou a cabeça, confuso. As patas falharam no chão.
— Rand! — Jota gritou, olhando pra distorção. — Rand, você tá aí?!
Nada. Só o ar tremendo. Só a estática visual.
— O que… o que aconteceu com ele? — Rosquinha sussurrou.
Jota olhou pra pata.
O sorriso dela tinha se alargado.
— Ela tirou ele daqui — Mama disse, voz tremendo. — Mandou ele pra algum lugar.
O urso se recuperou. Balançou a cabeça. Focou de novo em Jota.
Avançou.
O balão bloqueou. De novo.
O impacto bateu. Voltou. Jogou o urso pra trás.
Mas dessa vez o balão tremeu. O plástico ondulou, perdeu forma por meio segundo. Um rasgo pequeno apareceu na lateral, fino como fio de cabelo.
O urso não parava. Só rosnados agora. Nada de palavras. Só instinto.
— Para!
Não era pedido. Era comando animal.
O urso pulou. Alto. Veio de cima, as duas patas dianteiras abertas, peso inteiro do corpo descendo pra esmagar.
Jota deu um passo pra trás.
O pé direito enroscou.
O cadarço.
O cadarço solto do tênis surrado tinha se enrolado numa raiz grossa que saía do chão. Jota puxou o pé. O cadarço não soltou. Puxou de novo. Travado.
O urso desceu.
O balão subiu pra bloquear.
Mas Jota caiu.
O cadarço segurou o pé com força, puxou ele pra trás. Jota perdeu o equilíbrio, corpo indo pro chão.
O urso errou.
As patas passaram dez centímetros acima da cabeça de Jota. O vento do golpe bagunçou o cabelo dele. O urso bateu no chão do lado, rolou, levantou confuso.
Jota ficou deitado. Cadarço ainda enroscado. Coração disparado.
Olhou pro tênis. Depois pro espaço vazio onde o urso quase o tinha esmagado.
Desenroscou devagar. Levantou. O balão girou de volta, ficou flutuando ao lado dele. O rasgo na lateral tinha crescido. Não muito. Mas crescido.
O urso estava parado agora. Respirando pesado. Olhando fixo.
A respiração saía difícil. Rosnados baixos intercalados com algo que parecia quase… choro?
Jota olhou nos olhos do urso.
E viu.
Babu estava lá. Preso. Lutando. Perdendo.
— Babu… — Jota sussurrou. — Eu vou parar. Prometo.
O urso deu um passo à frente.
E então aconteceu.
Mama gritou.
Não foi grito de susto. Foi grito de dor.
Jota virou.
Mama estava de joelhos. As mãos no chão. Os dedos… os dedos estavam mudando.
Alongando. Ficando pontiagudos. As unhas cresciam, escureciam, curvavam como garras. Pelos finos começaram a brotar dos braços, subindo pelos ombros.
— Mama! — Rosquinha correu, agarrou ela pelos ombros. — Aguenta! Aguenta aí!
Mama olhou pras próprias mãos. O rosto contorceu de medo.
— Jota… — a voz saiu fraca. — Jota, que tá acontecendo comigo?
Popó urrou.
Não foi grito humano.
Jota virou pro outro lado.
Popó estava curvado, as costas arqueando de forma impossível. O corpo dele crescia. Músculos expandiam sob a roupa. O pescoço engrossava. A respiração saía pesada, animalesca.
— Não — Popó conseguiu dizer, voz distorcida. — Não, eu não quero—
A frase virou rosnado no meio.
O urso também sentiu.
O corpo dele tremeu. Um gemido baixo, quase humano, saiu da garganta. Como se a dor de Mama e Popó ecoasse nele.
— Jota! — Rosquinha gritou, largando Mama, correndo até ele. Agarrou a camisa de Jota, chacoalhou. — Faz alguma coisa! A pata! Faz ela parar!
Jota olhou pra pata.
O cristal no peito dela pulsava violentamente agora. Todas as cores ao mesmo tempo. A cobra sibilava alto, língua cortando o ar freneticamente.
A pata piscou.
O sorriso se alargou.
Jota tentou pensar. Tentou comandar. Mas não sabia como. Como parar aquilo? Como fazer a pata ir embora? Como reverter?
O urso bufou. Virou a cabeça. Olhou pra pata.
Um rosnado saiu da garganta dele. Não era pra Jota. Era pra ela.
A pata levantou voo.
As asas brancas se abriram. Ela subiu. Rápido. Direto pro balão.
— Não! — Jota gritou.
Mas era tarde.
E ele sabia.
Tinha brincado demais. Tinha chamado atenção. Tinha ignorado tudo. A pata só estava esperando o momento certo.
A pata agarrou o balão com as patas. As garras entraram exatamente onde o rasgo já tinha começado. O ponto fraco que os golpes de Babu tinham criado.
POP.
O balão não explodiu. Murchou rápido, mas o ar que saiu não era normal. Brilhava levemente, dourado, dissipando como fumaça. O que sobrou nas garras da pata não era mais só plástico vermelho. Era poder solidificado, forma dada ao impossível. Mesmo murcho, ainda pulsava em sincronia perfeita com o cristal no peito dela. Uma amostra. Evidência. Prova de que Jota tinha criado algo do nada — e agora esse segredo pertencia a outra pessoa.
A pata voou embora.
Subiu acima das árvores. A cobra ainda enrolada no pescoço. O cristal brilhando no peito com todas as cores ao mesmo tempo. O balão murcho pendurado nas garras como troféu pulsante.
Desapareceu entre as copas.
Silêncio.
Jota ficou parado. Braços caídos. Olhando pra cima. Sem balão. Sem proteção. Sem nada.
E então sentiu.
A mudança.
Mama parou de gritar. A respiração dela normalizou. Jota virou.
Os pelos nos braços dela estavam recuando. As garras voltando a ser unhas. Os dedos recuperando a forma humana. Mama olhou pras próprias mãos, piscando, confusa. Esfregou os braços, onde a pele ainda formigava.
— Parou — ela sussurrou. — Parou…
Popó caiu de joelhos. O corpo dele diminuiu. Voltou ao tamanho normal. A respiração ainda pesada, mas humana agora. Ele colocou as mãos no chão, tremendo. Tocou o próprio pescoço, sentindo o tamanho normal dele, tentando se convencer de que tinha voltado.
— Que merda… que merda foi essa…
Rosquinha soltou o ar que estava segurando. Correu até Mama, ajudou ela a levantar. Depois foi até Popó, colocou a mão no ombro dele.
— Vocês tão bem? Tão bem?
Mama assentiu, muda. Popó não respondeu, só respirou fundo, tentando se recompor.
Jota virou devagar.
O urso estava mudando.
O corpo encolhia, tremendo. O pelo recuando. Os ombros ficando menores, mais humanos. As patas se transformando em braços, em mãos. A transformação era rápida, mas parecia doer.
Em segundos, não era mais urso.
Era um homem.
Alto. Macacão rasgado. Rosto sujo de terra. Cabelo bagunçado. Joelhos tremendo tanto que ele teve que se apoiar num tronco pra não cair.
Jota conhecia aquele rosto.
— Babu? — sussurrou.
O homem levantou a cabeça. Olhou direto pra Jota.
Não era só Babu.
Era Leandro Costa.
Leandro Costa, o melhor amigo desde a escola. Leandro Costa, que sempre avisava quando Jota ia fazer merda. Leandro Costa, que tinha entrado na floresta primeiro.
E tinha virado aquilo.
— Babu! — Rosquinha correu até ele, segurou pelos ombros. — Você voltou!
Leandro não respondeu logo. Só ficou ali, apoiado no tronco, respirando pesado. Suor escorria pelo rosto. As mãos tremiam.
A voz saiu rouca quando finalmente falou:
— Tentei… tentei te avisar.
Jota sentiu o peito apertar.
— Babu, eu não sabia que—
— Não era pra ser assim — Leandro cortou, ainda sem levantar a voz. Cansado demais pra irritação. — Quando vi aquela coisa… o cristal… algo começou. Não conseguia pensar direito. Só… só sabia que você tinha que parar.
Respirou fundo, dolorido.
— Tentei falar. Mas as palavras não saíam. Só vontade de atacar. De parar você de qualquer jeito. Ela me dominou, Jota. Me usou.
PUFF.
Rand apareceu.
Do nada. De novo. Mas dessa vez foi diferente.
Ele se materializou devagar. Como imagem carregando pixel por pixel. O espaço ao redor dele tremeu, resistiu, cedeu.
Rand cambaleou quando finalmente ficou sólido. Apoiou a mão no ombro de Leandro, buscando equilíbrio.
— Caralho — Rand murmurou, olhando ao redor. — Quanto tempo passou?
— Cinco minutos — Rosquinha respondeu, voz ainda tremendo.
— Sério? — Rand piscou, confuso. — Parecia muito mais. Tipo… horas. Dias, talvez.
Ele olhou pra Jota. A expressão mudou. Ficou séria.
— Vi tudo de onde tava preso — disse. — Aquele espaço… não era um lugar. Era um intervalo. Entre aqui e outro lugar. Como se fosse… uma dobra. Dava pra ver tudo acontecendo aqui, mas eu não conseguia voltar. Não conseguia sair. E o tempo… o tempo funcionava diferente lá.
Fez uma pausa.
— A pata me mandou pra lá quando tentei usar meu poder no Babu. Ela sentiu. E me removeu.
Olhou pra pata — ou pro espaço vazio onde ela tinha estado.
— Ela não rouba poder, Jota. Ela coleciona. Cataloga. E quando alguém tenta interferir… ela tira do caminho.
Fez uma pausa.
— E transmite tudo pra alguém.
Jota sentiu o estômago gelar.
— Transmite pra quem?
Rand abriu a boca pra responder.
Leandro levantou a mão, cortando.
— Depois, Rand.
Leandro se soltou do apoio. Ficou de pé sozinho, tremendo, mas de pé. Olhou pra Jota. O olhar cansado, pesado, decepcionado.
— Vamos embora. Agora.
Jota não discutiu. Não tinha o que dizer.
Abaixou. Pegou a mochila laranja do chão. Abriu. Tirou o caderno marrom. Abriu na última página.
Olhou pro desenho do cristal. Pras instruções: “Não toca em nada. Só observa.”
Embaixo, com letra tremida, escreveu:
“Ela levou tudo. Babu foi dominado tentando me parar. Rand foi removido quando tentou ajudar. Não escutei os avisos. A pata não rouba — espera você oferecer. Coleciona. Cataloga. Remove quem interfere. E agora alguém, em algum lugar, tem tudo gravado. Cada movimento. Cada poder. Cada erro.”
Fechou o caderno. Guardou na mochila.
Olhou pro chão. O cadarço do tênis estava solto de novo. Balançando leve com a brisa.
Abaixou. Pegou. Dessa vez, amarrou.
Bem firme.
Levantou. Pegou a mochila. Colocou nas costas.
Mama e Popó se levantaram devagar. Rosquinha ajudou os dois. Ninguém falou nada.
Leandro virou e começou a andar de volta pela trilha. Rand foi logo atrás, ainda meio instável.
Jota olhou pra clareira vazia uma última vez. Pro céu onde a pata tinha desaparecido. Pro espaço onde o balão tinha flutuado. Pro ar distorcido onde Rand tinha sido puxado — a distorção já estava sumindo, se fechando, voltando ao normal.
Começou a andar.
Atrás dele, Mama, Popó e Rosquinha seguiram em silêncio.
Ninguém falou no caminho de volta.
Só o som dos passos na terra úmida. O farfalhar das folhas. A respiração pesada de quem carrega peso que não é físico.
Jota olhou pro próprio tênis enquanto andava. O cadarço estava firme agora. Bem amarrado.
Mas sabia que ia voltar.
Porque a pata ainda tinha o cristal.
E dentro dele, gravado em luz pulsante, estava tudo que tinha acontecido ali. Cada movimento. Cada poder. Cada erro.
Os segredos não eram da pata.
Eram sobre ele.
E alguém, em algum lugar, ia querer assistir.
