Capa do Capítulo

Peças Distraídas

Extensão: 3.475 palavras | Leitura: 18 min

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— Tá pronto? — perguntou Jota, olhando pro pai.

O senhor Geraldo suspirou fundo, olhos fixos no galpão industrial à frente.

— Não. Mas precisamos entrar mesmo assim. — Ele olhou pro galpão com expressão tensa. — Cada hora que passa ele fica mais imprevisível. Não sei quanto tempo temos antes de perder o controle completamente.

Entraram.

Jota entrou atrás do pai. O galpão era enorme por dentro: teto alto sustentado por vigas de ferro, chão de concreto tomado por estruturas coloridas, peças espalhadas em pilhas irregulares, material catalogado e recatalogado incontáveis vezes. Luz fluorescente fria pingando de cima como chuva branca sobre a bagunça metódica.

E no centro, a criatura.

O scanner vermelho girou na direção deles assim que entraram. Parou. Três segundos medindo, analisando, processando. Jota sentiu o peso do olhar mecânico sobre ele, sobre a mochila laranja, sobre cada objeto que carregava.

O scanner voltou a girar, retomando a varredura do galpão.

Humanos. Não catalogáveis. Ignorados.

O robô continuou trabalhando como se eles não existissem.

Jota soltou o ar que não percebeu estar prendendo. Caminhou devagar, observando a criatura que o pai tinha ajudado a criar.

Compacto mas eficiente, corpo cilíndrico de metal polido, quatro braços mecânicos finos saindo do tronco em ângulos perfeitos. Cada braço terminava em pinça ajustável capaz de segurar desde blocos grandes até peças minúsculas. Scanner vermelho montado no topo, girando constantemente, varrendo o espaço inteiro em 360 graus. Base com rodas emborrachadas que permitiam movimento suave e preciso.

E trabalhava.

Pegava peças do chão. Media dimensões com sensores embutidos nas pinças. Encaixava blocos com precisão milimétrica. Construía estruturas por vinte minutos. E depois destruía.

E depois construía.

Ao redor do robô, dezenas de estruturas. Algumas eram construções de encaixe perfeito que não levavam a lugar nenhum — resquícios do protocolo original, obrigatórias mas inúteis. Blocos coloridos de plástico industrial empilhados sem propósito.

Outras eram diferentes. Componentes técnicos sendo desmontados e remontados. Adaptações da própria central de controle espalhadas numa bancada improvisada. Peças sendo reconfiguradas com propósito claro.

O robô não estava apenas construindo.

Estava se transformando.

Cada peça ali já tinha sido medida, registrada, remontada centenas de vezes. O scanner conhecia cada bloco, cada cor, cada dimensão. E o que o robô detectava como “desnecessário” ou “fora do lugar”, simplesmente removia. Limpava. Descartava. Por isso o galpão permanecia organizado apesar da atividade constante.

Maníaco por ordem. Maníaco por limpeza.

O robô não parava nunca.

O senhor Geraldo se aproximou, encostou na parede de chapa, cruzou os braços e ficou olhando a criatura que ele mesmo tinha ajudado a criar.

— Três anos de trabalho — murmurou, mais pra si mesmo. — Sistema de escaneamento 360 graus, quatro braços independentes, bateria de longa duração, protocolo de auto-defesa, capacidade de adaptação… — Ele riu sem humor. — Funcionou perfeitamente. Até funcionar bem demais.

O pai tinha orgulho e medo misturados na expressão.

— Por isso não podemos simplesmente destruir. Não é só o custo. É… — O senhor Geraldo pausou. — É a coisa mais brilhante que já ajudei a criar. E agora tá me escapando das mãos.

O barulho continuava. Clique-giro-corte-encaixe.

Jota largou a mochila laranja no chão perto da parede, abriu o zíper e tirou o caderno marrom de capa dura. O robô nem reagiu. Não catalogava humanos nem o que carregavam, mas qualquer objeto solto no chão virava alvo imediato. O ímã de geladeira do Posto Esso, colado na frente do caderno, já estava a brilhar. Azul pálido, suave, quase imperceptível. Jota segurou o caderno com mais cuidado, sentindo o calor leve irradiando do retângulo cinza fosco.

Abriu numa página limpa, tirou a caneta do bolso e começou a anotar.

— Por que não desliga?

— Já desligamos. Cortamos a energia ontem.

Jota olhou pro robô trabalhando.

— E por que ele não parou?

— Bateria reserva. Continuou como se nada tivesse acontecido. — O pai suspirou pesado. — Pior: o sistema entrou num bug. Construiu tudo perfeitamente no começo, terminou… e aí destruiu e recomeçou. Loop infinito. Tentamos retirar as construções prontas pra salvar pelo menos o trabalho. Ele não deixou. Defendeu tudo. Tentamos tirar o material, mesma coisa.

O senhor Geraldo olhou pro painel de controle lateral, depois pro robô.

— Acreditamos que já identificamos o bug, já sabemos como corrigir. Mas não conseguimos aplicar a correção porque ele defende o painel. Toda vez que alguém tenta se aproximar, ele detecta e vem impedir. — Ele apontou pro painel lateral. — Até o botão de emergência ele protegeu. Soldou peças por cima, dificultou o acesso. Como se soubesse que ali estava a única forma real de desligá-lo.

O senhor Geraldo continuou:

— Ah, foi Rand que identificou o possível bug, apareceu aqui ontem, preparou a correção no sistema, mas quando tentou aplicar… o robô quase quebrou o braço dele. Não deixou nem plugar o cabo. A correção tá pronta, mas bloqueada. — Ele olhou pro filho.

— E a bateria?

— Deveria durar uns sete dias. Quando acabasse, ele pararia sozinho. — O pai pausou, voz baixando. — Mas ontem ele passou horas analisando o barramento elétrico. Testou cada conexão, cada cabo. Já sabe que não tem mais energia aqui no galpão.

Ele olhou pro filho, medo genuíno nos olhos.

— E começou a modificar a própria central de controle. Adaptando pra modo móvel, autônomo. Só precisa colocar a central no lugar e pronto. Consegue se deslocar.

Jota sentiu um frio na espinha.

— Se deslocar pra onde?

— Uma possibilidade é pro gerador na rua. Tá a menos de cinquenta metros daqui. — O senhor Geraldo gesticulou pro robô trabalhando. — A parede não é obstáculo. Chapa industrial fina, quatro braços mecânicos com força suficiente. Se o protocolo de auto-preservação autorizar, ele atravessa em minutos. — Ele pausou. — Primeiro protegeu o botão de emergência. Agora tá adaptando a central pra mobilidade. Se ele terminar isso, sair daqui e se conectar no gerador da rua… não para nunca mais.

— E danificar ele?

— É uma ideia possível, mas que não gostaria de aplicar. Ele se auto-repara. Foi projetado pra isso. Detecta danos, reconstrói componentes usando material disponível. Mas, é claro, tem limite. — O senhor Geraldo gesticulou pro robô. — E pode ser perigoso demais. Quatro braços, sensores 360°, protocolo de defesa ativo. Se não conseguirmos nada hoje, amanhã logo cedo chamo a equipe necessária.

Ele respirou fundo.

— Por isso viemos aqui hoje. Talvez encontremos algo, alguma forma de acessar o painel. Alguma brecha. Não sei. Mas precisamos tentar, enquanto ainda temos algum controle da situação.

O barulho continuava. Clique-giro-corte-encaixe.

Jota voltou a anotar. Escreveu “protocolo inflexível” com letra apertada. Depois “material = gatilho”. Depois “medição obsessiva”. Depois “ciclo infinito”.

Olhou pro robô. O scanner vermelho girou, parou na direção deles por meio segundo, voltou a varrer o espaço. Quatro braços pegaram peças do chão, mediram dimensões, encaixaram com precisão robótica. Uma estrutura de dez blocos cresceu em quinze segundos.

Jota fechou o caderno, enfiou a caneta de volta na mochila. O ímã do Posto Esso ainda brilhava levemente. Ele olhou pro pai, viu o cansaço nos olhos, a frustração silenciosa de quem tinha passado a vida organizando coisas — letras, composições, ordem — e agora enfrentava algo que organizava e desorganizava sem parar, num ciclo sem fim.

Ficaram ali por dez minutos. Observando. Anotando. Tentando encontrar alguma brecha, algum padrão, alguma falha que pudessem explorar.

Nada.

O robô continuava. Construía, destruía, reconstruía. O scanner girava sem parar. O painel de controle permanecia inacessível.

O senhor Geraldo se levantou, deu dois passos na direção do painel.

O scanner vermelho travou nele instantaneamente. Alerta.

O pai recuou, levantou as mãos devagar, voltou pra parede. O scanner retomou o giro normal.

Jota se levantou também, frustrado. Fechou o caderno, guardou na mochila. Pegou a caneta, enfiou no bolso da calça enquanto caminhava até uma pilha de materiais no canto, tentando pensar em algo, qualquer coisa que pudesse ajudar.

A mão ainda estava no bolso quando o cadarço direito do tênis surrado soltou.

Jota pisou nele, tropeçou, puxou a mão rápido do bolso pra se agarrar numa viga de ferro e não cair.

O movimento brusco fez o isqueiro amarelo saltar pra fora. Voou, caiu no chão de concreto com tilintar metálico e começou a rolar.

O barulho ecoou no galpão.

O isqueiro rolou pelo chão limpo, direto em direção ao centro, direto na direção do robô. Parou a menos de um metro da base cilíndrica, bem no campo de visão do scanner.

O scanner vermelho travou no ar.

Silêncio por dois segundos.

O robô parou de trabalhar. Completamente. Quatro braços se retraíram, estrutura pela metade abandonada. Silêncio absoluto exceto pelo zumbido baixo dos sensores.

Três segundos analisando o objeto amarelo no chão.

Objeto novo. Material desconhecido. Protocolo exigia análise completa.

Um braço mecânico desceu com precisão delicada. Pegou o isqueiro. Levantou na altura dos sensores. O scanner vermelho girou ao redor do objeto, medindo cada detalhe, cada ângulo, cada dimensão.

Processou.

Jota e o pai ficaram parados, observando.

O robô terminou a análise. E então, num movimento quase gentil, rodou o corpo na direção de Jota, estendeu o braço e ofereceu.

Jota olhou, e então pegou.

O robô voltou pra estrutura abandonada e recomeçou o trabalho. Como se nada tivesse acontecido.

Jota guardou o isqueiro no bolso. Olhou pro pai, coração acelerado.

— Ele parou. Completamente. Por um isqueiro.

O senhor Geraldo assentiu, entendendo aonde o filho queria chegar.

— Porque não conhecia o objeto. Protocolo exigiu análise antes de qualquer ação. Nem limpou, nem removeu. Analisou primeiro.

— E se eu der centenas de objetos pequenos que ele nunca viu? — Jota pensou alto, voz baixa mas urgente. — Material completamente novo. Ele vai ficar preso catalogando tudo antes de conseguir limpar ou organizar. Vai travar nisso.

O pai franziu a testa, processando.

— Ideia interessante, mas tudo aqui ele já catalogou.

O senhor Geraldo pensou por alguns segundos.

— Tem um cômodo no fundo. Onde a gente guardou os primeiros testes. — Ele apontou pra porta lateral nos fundos do galpão. — Mindstorm, aqueles kits da Lego. Foi o que usei pra testar o conceito antes de construir esse aqui. Deve ter centenas de peças lá, desmontadas, misturadas.

— Ele já viu essas peças? Já catalogou?

O pai balançou a cabeça.

— Acredito que não. O Mindstorm foi guardado antes mesmo dele ser ligado pela primeira vez. Material completamente isolado.

Jota assentiu, esperançoso.

— Então pode funcionar. Vamos tentar.

Pai e filho caminharam até o cômodo lateral. Porta de metal enferrujada, maçaneta dura. O senhor Geraldo girou com esforço, empurrou. A porta abriu com rangido.

Dentro, prateleiras metálicas empoeiradas. Caixas de papelão empilhadas. Ferramentas antigas. Procuraram por alguns minutos entre os materiais antigos até finalmente encontrar, bem no fundo, várias caixas de Lego Mindstorm. Robozinho desmontado, peças espalhadas. Outras ainda fechadas. E ao lado, sacos plásticos transparentes cheios de peças minúsculas. Técnicas, engrenagens, conectores, blocos 1×1, 1×2, 0,5×0,5.

Jota se aproximou, pegou um dos sacos. Abriu. Centenas de pecinhas rolaram na palma da mão. Coloridas, leves, insignificantes. Mas pro robô lá fora, cada uma era um objeto novo que precisava ser medido, analisado, registrado.

— Quantas peças tem aqui? — perguntou Jota.

O pai olhou as caixas.

— Muitas, milhares na verdade. Nunca separei depois dos testes. Ficou tudo misturado.

Jota pegou a caixa maior, cheia de peças técnicas minúsculas.

— Vamos ver o que acontece. Se ele realmente nunca viu esse material… talvez crie o tempo que precisamos.

O pai assentiu, tenso.

— O que você vai fazer?

A caixa, depois o robô através da porta aberta.

— Vou espalhar as peças pelo chão. Como se estivesse perdendo sem querer, igual o isqueiro. Criar vários focos ao mesmo tempo.

O pai olhou pra caixa, depois pro robô trabalhando. Processou a ideia por dois segundos. Os olhos se iluminaram.

— Ele vai tentar catalogar tudo ao mesmo tempo. Multi-tarefas ativado, quatro braços trabalhando em paralelo… — O senhor Geraldo calculou mentalmente. — Três segundos por peça, quatro braços simultâneos, mas com centenas de objetos novos… o buffer de memória vai sobrecarregar antes de conseguir organizar. — Ele pausou, olhou pro painel de controle. — Ele bloqueou o acesso ao botão de emergência. Soldou peças por cima, dificultou a abertura. Com o pé de cabra consigo forçar o acesso, mas vou precisar de tempo sem ele reagir.

— Quantas peças eu preciso espalhar?

— Todas. O máximo possível. — O pai gesticulou pra caixa. — Focos espalhados, força ele a se mover. Não sabemos exatamente quanto tempo vai dar, então quanto mais, melhor. Quando eu ver que ele tá completamente sobrecarregado, vou.

Jota assentiu.

O senhor Geraldo pegou um pé de cabra. Já tinha analisado que com aquilo conseguiria ter acesso ao botão ou então quebrar a proteção e pressionar o botão de desligamento.

Jota voltou pro galpão principal com a caixa de Lego Mindstorm nas mãos. O pai ficou perto do painel de controle, observando, tenso, esperando o momento certo.

Jota caminhou devagar em direção ao robô. Cada passo calculado. A criatura continuava trabalhando, scanner girando, braços montando estruturas.

Parou a três metros de distância. Respirou fundo. Começou a caminhar de lado, como se estivesse só observando o trabalho do robô.

Deixou “cair” uma peça sem querer.

Tilintar metálico.

O scanner vermelho travou. Focou na peça amarela no chão.

O robô parou. Quatro braços se retraíram. Virou na direção do objeto novo. Um braço desceu, pegou a peça, analisou por dois segundos.

Registrou.

Então estendeu o braço na direção de Jota, oferecendo a peça de volta.

Jota não pegou. Ao invés disso, deixou cair outra peça. Vermelha. Mais longe.

O robô pausou. Olhou pra peça na mão. Olhou pra peça nova no chão.

Protocolo em conflito: devolver a primeira ou catalogar a segunda?

Escolheu catalogar. Depositou a primeira peça no chão, foi buscar a segunda.

Jota começou a andar pra trás. Devagar. Deixando cair peças enquanto recuava. Não uma trilha reta, mas focos espalhados. Uma peça aqui. Três ali. Cinco mais adiante. Criando problemas simultâneos.

O robô tentava acompanhar. Multi-tarefas ativado: um braço analisava peça azul, outro media vermelha, terceiro organizava amarelas já registradas, quarto buscava verde nova que tinha caído. Pegava uma, processava, via três novas no chão, largava a primeira, ia pras outras. Medir. Tentar devolver. Mais peças caíam.

O scanner girava mais rápido. Três voltas por segundo. Cinco. Dez.

Jota continuou recuando, criando focos de peças minúsculas pelo chão. Azul, amarela, vermelha, verde, preta. Centenas delas espalhando como confete técnico. O robô seguia os focos, tentando catalogar tudo, braços pegando, medindo, soltando, pegando de novo.

Sobrecarga.

Jota chegou perto da parede lateral. Virou a caixa inteira, despejando o conteúdo num monte colorido.

Centenas de peças rolando, espalhando, misturando.

O robô parou no meio do galpão. Scanner travado nos múltiplos focos de objetos novos. Calculando. Centenas de peças. Tamanhos variados. Posições aleatórias. Todas desconhecidas.

Protocolo exigia analisar TUDO antes de qualquer ação.

Os quatro braços começaram a trabalhar freneticamente. Pegava uma peça, media, colocava numa pilha organizada por cor. Pegava outra. E outra. E outra.

Clique-clique-clique-clique.

Mais rápido. Mais obsessivo.

Mas ignorando tudo mais.

O senhor Geraldo observava do painel de controle. Viu o robô completamente absorvido, quatro braços trabalhando freneticamente, scanner girando mas sem alertas de ameaça.

Era agora.

Preparou o pé de cabra.

O scanner continuou girando, varrendo o galpão, mas os braços do robô estavam completamente focados nas peças. Catalogar. Organizar. Devolver (pra quem? Não importa, catalogar primeiro).

O pai conseguiu acessar o painel.

O scanner passou por ele.

Não travou.

Não alertou.

Jota viu o pai trabalhar e conseguir o acesso adequado, espalhando mais peças, mantendo o robô ocupado. Soltou o ar, sorrindo.

— Estava funcionando.

O senhor Geraldo teve um pouco de dificuldade, mas finalmente conseguiu encaixar o pé de cabra e usou toda a força para quebrar o lacre e acionar o botão de desligamento de emergência.

O robô parou de clicar. O scanner vermelho se apagou. Os quatro braços se retraíram. Desligamento forçado.

Finalmente quieto.

O pai ficou olhando a criatura que tinha ajudado a criar, agora domada de novo. Expirou devagar, passou a mão no rosto.

O galpão ficou em silêncio. Silêncio completo. Sem cliques, sem scanner girando, sem braços trabalhando. Só o zumbido baixo das luzes fluorescentes e a respiração de pai e filho.

Jota caminhou até onde o pai estava, olhou pro robô desligado. Imóvel. Inofensivo.

— Conseguiu.

O senhor Geraldo assentiu, cansado mas aliviado.

— A gente conseguiu. — Ele olhou pro filho. — Sem você criar essa distração… eu nunca teria o tempo necessário.

Jota deu de ombros.

— Sem o senhor desligar o robô, espalhar peças não adiantaria nada.

Pai e filho ficaram ali por alguns minutos. Observando o robô silencioso. As peças de Lego Mindstorm ainda espalhadas pelo chão. O galpão finalmente em paz.

O ímã do Posto Esso ainda brilhava levemente dentro da mochila laranja. Jota pegou o caderno, abriu numa página limpa e anotou: “Distração funciona. Material pequeno > Material grande. Protocolo pode ser manipulado. Mindstorm derrotou a criatura.”

O senhor Geraldo olhou pro caderno, viu as anotações, sorriu de canto.

— Sua lógica é interessante. E irônico também. O Mindstorm que ajudou a criar o problema acabou resolvendo.

Jota riu.

— Sou só mais um robô descontrolado na família.

O pai riu. Riso baixo, mas genuíno.

O senhor Geraldo olhou pro filho, expressão séria de novo.

— Obrigado — disse, baixo. — Sem você, eu nunca teria conseguido. A distração… foi a única forma de acessar o painel sem ele reagir.

Jota deu de ombros.

— Sem o senhor desligar o robô, espalhar peças não adiantaria nada.

O pai assentiu. Ficaram ali por mais alguns minutos, em silêncio confortável.

Jota pegou a mochila laranja, guardou o caderno marrom (o ímã ainda brilhava, mas mais fraco agora), jogou a alça no ombro e caminhou até a porta. O pai seguiu atrás, olhando o galpão uma última vez.

As estruturas continuavam lá. Construções que ninguém tinha pedido, mas que existiam mesmo assim. Testemunho silencioso de protocolo inflexível e obsessão mecânica.

Mas agora, silêncio.

Respirável. Real. Humano.

Saíram do galpão. A porta deslizou e fechou atrás deles. O Gol Bolinha Cinza Urban esperava no mesmo lugar, fiel como sempre.

Entraram. Jota ligou o motor, o 1.0 16v tossiu e pegou. O pai ajeitou o colete, olhou pela janela.

— Obrigado — disse, baixo.

Jota olhou pra ele.

— Pelo quê?

— Por me dar a chance de consertar o que tinha criado. Sozinho eu não teria conseguido.

Jota sorriu.

— Você que resolveu. Eu só criei a abertura.

Saíram devagar do estacionamento. Jota dirigia em silêncio. O pai olhava pela janela lateral.

A camiseta regata vinho grudava nas costas de Jota. O tênis surrado descansava no pedal, cadarço direito já começando a soltar de novo. O isqueiro amarelo no bolso ainda estava morno. A mochila laranja no banco de trás guardava o caderno marrom com o ímã do Posto Esso que já não brilhava mais, mas ainda carregava o calor da conexão familiar.

Seguiram pelo contorno norte de volta para casa. Jota dirigia em silêncio. O pai olhava pela janela, vendo a cidade passar.

Prédios, postes, fios elétricos, luzes acendendo na tarde cinzenta.

Sistemas. Protocolos. Ordem construída por humanos.

Mas sempre com brechas.

Sempre.

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Sinopse Narrativa:

Senhor Geraldo (pai de Jota) criou robô catalogador que entrou em bug: constrói e destroi em loop infinito, protege painel de controle, não permite desligamento. Robô adapta central pra modo móvel, ameaça se conectar ao gerador da rua e nunca mais parar. Cadarço de Jota solta, isqueiro amarelo cai, robô PARA completamente pra analisar objeto desconhecido e devolve. Pai e Jota percebem solução: material novo paralisa robô. Usam milhares de peças de Lego Mindstorm (nunca catalogadas) pra sobrecarregar. Robô fica distraído catalogando freneticamente. Pai acessa painel com pé de cabra e desliga.

Gênero Drama Familiar, Ficção Científica
Tom Afetuoso, Técnico, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Problema técnico, Relação pai-filho
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Criação que foge do controle, Relação pai-filho, Solução criativa improvisa
Locais cômodo lateral, Galpão industrial
Palavras-Chave bug loop infinito, cadarço salva, distração funciona, isqueiro distrai robô, Lego Mindstorm, robô catalogador, senhor Geraldo pai, sobrecarga protocolo
CRÍTICO: Senhor Geraldo é PAI de Jota (primeira aparição explícita do pai). Robô catalogador: corpo cilíndrico metal polido, 4 braços mecânicos finos (pinças ajustáveis), scanner vermelho no topo (gira 360°), base com rodas. 3 anos de trabalho. Bug: constrói perfeitamente, depois destroi e recomeça em loop infinito. Protegeu botão emergência soldando peças. Bateria 7 dias, mas adaptando central pra modo móvel autônomo. Rand identificou bug, preparou correção, mas robô "quase quebrou o braço dele", não deixou aplicar. Cadarço SALVA: solta, Jota tropeça puxando mão do bolso, isqueiro voa e rola até robô. Robô PARA completamente, analisa (objeto desconhecido - protocolo exige análise antes de ação), devolve gentilmente pra Jota. Solução: milhares de peças Lego Mindstorm espalhadas (guardadas antes do robô ser ligado, nunca catalogadas). Robô sobrecarrega: 3 segundos/peça, 4 braços simultâneos, buffer de memória sobrecarrega. Pai usa pé de cabra no painel, desliga. Ímã brilha azul pálido perto do pai (família). Voltam pelo contorno norte.
 

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