Jota estava voltando pra casa quando aconteceu.
Seis e sete da tarde, terça-feira gelada, céu já roxo no fundo, laranja só na borda das nuvens.
Tinha descido no terminal do Capão da Imbuia e resolveu visitar o Bosque do Museu Natural que há muito não ia.
Caminharia um pouco mais, faria bem para a saúde.
Plano simples, quase automático.
A trilha estava vazia.
Normal.
Inverno em Curitiba espanta até cachorro vira-lata.
Só o barulho do cascalho sob o tênis surrado – o cadarço direito solto como sempre, o buraco no dedão deixando o frio entrar direto na alma – o cheiro forte de eucalipto e pinhão podre subindo da terra molhada.
A camiseta regata vinho, grudava no peito com o suor do dia que ainda não tinha ido embora.
Pensava em nada importante.
Conta de luz para pagar, passar no Parolin na sexta-feira, se valia a pena enviar uma mensagem para a Larissa ou se era melhor deixar morrer quieto.
De vez em quando o som distante de um carro descendo a Nivaldo Braga, lá embaixo, abafado pelas araucárias centenárias.
Foi quando o som parou.
Não diminuiu.
Parou.
De uma vez.
Como se alguém tivesse puxado o plugue do mundo.
Jota congelou no meio da trilha.
Olhou pra trás: nada.
Olhou pra frente: nada.
Mas o silêncio era errado.
Pesado.
Não tinha vento nas folhas, não tinha passarinho, não tinha nem o ronco da Nivaldo Braga.
Até o próprio coração parecia fazer menos barulho.
Deu três passos lentos.
A luz mudou.
O laranja do entardecer virou azul frio, pálido, subaquático.
As araucárias continuavam lá, mas alongadas, galhos esticando pro céu que agora era um vazio uniforme, sem nuvens, sem sol.
Olhou pra baixo.
O cascalho tinha sumido.
No lugar, uma plataforma lisa de metal prateado, sem emenda, refletindo o céu de cima.
O reflexo tremia levemente, como se o chão fosse água parada.
— Que porra…
A voz saiu abafada, como se ele estivesse falando dentro de uma caixa de isopor.
À frente, onde a trilha deveria continuar, não tinha mais mata.
Só um campo aberto, infinito, chão de metal até o horizonte que não curvava.
E tinha gente.
Dez, quinze pessoas espalhadas, paradas, olhando na mesma direção.
Mas o tamanho estava errado.
Alguns eram gigantes, três, quatro metros, ombros de caminhão.
Outros eram minúsculos, meio metro no máximo, mas com cara de quem já viveu demais.
Uma mulher no meio parecia normal, só que flutuava vinte centímetros acima do chão, vestido branco esvoaçando sem vento.
Jota deu um passo pra trás.
Foi quando percebeu que ele também tinha mudado.
Olhou pros braços: mais finos, leves.
Perderá peso de repente, como se o lugar tivesse decidido que hoje ele ocuparia menos espaço.
Ergueu a mão na frente do rosto: dedos iguais, mas menores, proporcionais a um corpo que agora parecia flutuar um centímetro acima do metal.
Tentou voltar.
Olho em volta para compreender o ambiente.
Não tinha mais bosque.
Atrás dele, o mesmo campo aberto.
O mesmo céu sem fim.
O mesmo silêncio que pesava nos ouvidos.
— Caralho.
Um som agudo, finíssimo, como unha arranhando taça de cristal.
Veio de cima.
Ergueu a cabeça.
Peixes.
Dezenas deles, nadando pelo ar como se o céu fosse água profunda.
Corpos longos, prateados, escamas refletindo um verde estranho.
Nadadeiras movendo lentas, desenhando espirais perfeitas.
Passavam tão perto que dava pra sentir o deslocamento de ar, um vento gelado que cheirava a ozônio e diesel distante.
No bolso do moletom, o isqueiro amarelo – o sobrevivente – faiscou rápido.
E isso chamou a atenção de um deles.
Que desceu mais baixo.
Dois metros da cabeça de Jota.
O olho preto, redondo, fixou nele por um segundo que durou demais.
Depois seguiu, deixou um rastro luminoso que demorou pra se desfazer.
Uma voz grave cortou o silêncio.
— Vem.
Um dos gigantes olhava direto pra ele.
Três metros e meio fácil, barba grisalha, olhos fundos que pareciam poços sem fundo.
Usava um manto pesado, tecido que não mexia.
— Vem — repetiu.
Não era ordem.
Era constatação.
Jota andou.
As pernas obedeceram antes do cérebro.
Quando chegou perto, o gigante acenou com a cabeça pro centro do campo.
Lá, no meio de todos, o objeto.
Grande.
Envolto em tecido translúcido que brilhava de dentro pra fora, pulsando lento, cor que não era azul, não era vidro, não era água.
Era algo que doía tentar nomear.
Os peixes voadores faziam círculos largos acima dele, descendo e subindo, atraídos como ferro por ímã.
— Segura — disse o gigante.
— O quê?
— Segura. Não solta. Leva até lá.
O gigante apontou o horizonte vazio.
Não tinha nada lá.
Só mais campo, mais céu.
A mulher que flutuava aproximou-se.
O homem pequeno, corpo de criança, rosto de sessenta e poucos, veio logo depois.
Outros vieram.
Formaram um círculo apertado.
Jota se encaixou onde havia espaço.
Não sabia o que fazer.
Ninguém explicava.
Só esperavam.
Um homem magro de macacão azul desbotado apareceu do nada ao lado do objeto, como se sempre tivesse estado ali mas ninguém tivesse reparado.
Cabelo desgrenhado, ferramentas penduradas no cinto.
Bateu no tecido translúcido com os nós dos dedos, ouvindo o som oco.
— Ressonância tá alta — murmurou, mais pra si mesmo que pros outros. — Peixes vão fundir rápido demais se não segurarem firme.
Jota piscou. Parecia alguém conhecido.
— Quem é você?
O homem olhou pra ele como se a pergunta fosse idiota.
— Rand. Técnico. Alguém tem que manter isso funcionando.
Deu dois passos pro lado, sumiu.
Literalmente.
Como se tivesse virado fumaça.
Jota olhou em volta.
Ninguém parecia achar estranho.
O gigante bateu o pé uma vez no metal.
O som ecoou como trovão abafado.
— Agora.
Todos se abaixaram.
Jota imitou.
Havia alças de tecido translúcido nas laterais do objeto.
Pareciam sólidas e líquidas ao mesmo tempo.
Ele fechou a mão em volta de uma.
Calor.
Subiu pelo braço, ombro, peito.
Não queimava, mas era intenso.
E com o calor veio o peso.
Não físico.
Peso de verdade.
Como se todas as coisas que ele já carregou na vida tivessem sido jogadas de volta em cima dele de uma vez só, mas a memória de Daslu e suas tentativas de ela não escolher ele se sobressaíram.
Os outros sentiram também.
A mulher que flutuava fechou os olhos com força.
O homem pequeno tremeu inteiro.
Mas ninguém soltou.
— Ergue.
Ergueram juntos.
O objeto subiu trinta centímetros do chão.
Leve e insuportável ao mesmo tempo.
Os peixes voadores desceram todos de uma vez, nadando em volta do grupo, tão perto que Jota sentiu o vento gelado das nadadeiras invisíveis.
Um roçou seu ombro.
A escama fria deixou um rastro elétrico na pele.
Quando o peixe se afastou, parte da luz dele ficou grudada no tecido do objeto.
Foi sugada pra dentro como água em esponja seca.
O objeto pulsou mais forte.
— Anda — disse o gigante.
E começaram a andar.
O grupo avançava devagar pelo campo de metal.
Passos sincronizados sem ninguém combinar, como se uma música inaudível ditasse o ritmo.
Jota segurava a alça com as duas mãos agora, braços esticados, cotovelos travados.
O objeto balançava levemente entre eles, trinta centímetros acima do chão.
A cada passo, o peso aumentava.
Não nos músculos.
Na alma.
Cada metro acrescentava uma camada fina de lembrança ruim, de palavra engolida, de porta batida cedo demais.
Os peixes voadores acompanhavam, formando um corredor vivo acima das cabeças.
Nadavam mais baixo agora, quase roçando o objeto.
De vez em quando um deles mergulhava, tocava o tecido translúcido e se fundia.
A cada fusão, o pulso ficava mais forte, a luz mais intensa.
Jota percebeu o padrão.
— Eles fazem parte disso — murmurou.
A mulher que flutuava virou o rosto sem parar de andar.
— Sempre fizeram — respondeu ela, voz cansada. — São as coisas que a gente não conseguiu soltar. Elas voltam na forma que conseguem.
Ela apertou a alça.
Jota viu que os dedos dela tremiam.
O silêncio voltou.
Só o som dos passos no metal.
Só a respiração pesada.
Só o chiado agudo dos peixes cortando o ar.
Primeira memória veio sem aviso.
Daslu no apartamento alugado do Centro, três e meia da manhã, luz do abajur acesa.
Ela sentada na beira da cama, olhos inchados de chorar.
— Eu não aguento mais sentir que sou o problema. As drogas não estão mais fazendo o efeito desejado para aguentar a vida.
Jota pensava que estar presente bastava, mas não bastou.
Ele ali parado na porta do quarto, sem saber o que dizer.
Naquela noite ele, como em todas que estava com ela, segurou, tentou reparar problemas que não eram dele.
Fazia de tudo para ela não se sentir sozinha, mas ela sempre escolhia outra coisa, não ele.
A alça queimava na palma.
Jota apertou mais forte.
Um peixe desceu rápido, roçou o ombro da mulher que flutuava.
Ela cambaleou, quase perdeu o equilíbrio.
— Eu deixei meu filho ir embora com o pai dele — disse ela, voz baixa. — Tinha visita marcada todo final de semana. Parei de buscar. Achei que era melhor pra ele. Todo dia eu penso se foi mesmo.
Um fio de lágrima escorreu, mas não caiu.
Ficou suspenso na bochecha, brilhando como gota de mercúrio.
O peixe que a tocou se fundiu no objeto.
Continuaram.
O homem pequeno, corpo de criança, rosto de sessenta e poucos, começou a respirar curto.
Suor escorrendo pela testa grande demais pro corpo miúdo.
Outro peixe desceu, tocou o peito dele.
Ele falou sem olhar pra ninguém:
— Eu era o grandão da família. Um e noventa e cinco, cento e vinte quilos. Meu pai morreu, minha mãe ficou doente, eu carreguei tudo. Casa, conta, remédio, caixão. Quando ela foi embora também, eu desabei. Parei de comer. Parei de levantar. Hoje eu sou isso aqui. Tamanho que eu mereço.
A voz saiu infantil e velha ao mesmo tempo.
Ele segurava a alça com as duas mãozinhas, nós dos dedos brancos.
Um peixe maior passou rente ao rosto do gigante.
O grandão nem piscou, mas falou pela primeira vez algo que não era ordem:
— É a décima quarta vez que eu carrego. Sempre volta. Sempre tem mais alguém que precisa aprender a não soltar.
Segunda memória atingiu Jota como tijolo.
Rodoferroviária, Daslu com a mala de rodinha, mas uma vez Jota ajudando e ela indo embora, deixando ele. E Jota sempre querendo que ela ficasse, mas a decisão de ficar era dela, sempre foi.
Com os olhos âmbar:
— Vou tentar a vida novamente.
Ele ali parado, mãos nos bolsos, sem resposta.
Não queria ser a obrigação, queria que ela o escolhesse.
Viu ela virar as costas, desaparecer no portão de embarque.
Naquele dia ele soltou.
Um peixe voador desceu direto pro peito dele.
Rápido demais.
Não desviou.
Entrou.
Frio absoluto explodiu dentro do peito, congelou pulmão, coração, pensamento.
Jota quis gritar.
Não saiu som.
E viu.
Outros grupos, outros tempos.
Um homem de túnica no deserto, areia até o horizonte.
Uma mulher de armadura numa ponte de pedra sobre o abismo.
Velhos, crianças, gente comum.
Todos carregando o mesmo objeto disfarçado de formas diferentes.
Todos com o mesmo olhar cansado e teimoso.
Não eram heróis.
Eram só os que estavam ali na hora.
E carregaram porque alguém tinha que carregar.
A visão sumiu.
O peixe saiu do peito e voltou pro cardume.
Jota cambaleou.
Os joelhos cederam meio centímetro.
A mulher que flutuava e o homem pequeno olharam pra ele ao mesmo tempo.
Olhar de quem entendeu tudo.
Ninguém falou.
O gigante apenas repetiu, mais baixo:
— Continua.
E continuaram.
O horizonte, que nunca mudava, mudou.
Primeiro foi só um risco vertical, fino como fio de cabelo, brilhando mais forte que o resto do céu.
Depois cresceu, tremendo, abrindo e fechando como pálpebra cansada.
Uma fenda no ar.
As bordas chiavam baixinho, um som de eletricidade esticada.
— Lá — disse o gigante, sem apontar.
Não precisava mais.
A fenda ficava mais nítida a cada passo.
Não era luz nem escuridão do outro lado; era as duas coisas brigando, trocando de lugar a cada segundo.
O metal sob os pés começou a vibrar, leve, quase imperceptível.
Os peixes voadores enlouqueceram.
O cardume inteiro apertou o cerco, círculos cada vez mais fechados, mais rápidos.
Um por um, mergulhavam de bico no objeto.
Não tocavam mais; atravessavam o tecido translúcido e sumiam dentro dele.
A cada peixe que entrava, o objeto ficava mais transparente, mais leve no peso físico e mais pesado no outro.
A luz agora era tão forte que doía olhar direto.
Jota sentia os braços mortos.
Ombros queimando.
As marcas das alças já tinham aberto sulcos na palma, sangue escorrendo fino pelos pulsos, pingando no metal e sumindo sem manchar.
Sete passos para a fenda.
A mulher que flutuava começou a descer devagar, centímetro por centímetro, até os pés tocarem o chão pela primeira vez.
Ela olhou pra baixo, surpresa.
— Chegamos — sussurrou.
Cinco passos.
O homem pequeno chorava aberto agora, soluços curtos, corpo tremendo inteiro.
Mas as mãos miúdas seguravam firme.
Três passos.
O objeto estava quase vazio de tecido.
Só luz agora, uma coluna de luz prateada, pulsando tão rápido que parecia parada.
Dentro dela, os peixes ainda nadavam, visíveis como sombras líquidas.
Um passo.
O gigante parou.
Todos pararam.
A fenda se abriu de uma vez, rasgão perfeito do chão até o infinito, largura de um corpo.
O som parou.
Até os peixes pararam.
O silêncio era absoluto.
— Coloca — disse o gigante, voz baixa, quase carinhosa.
Abaixaram juntos, lentos, sincronizados.
Quando o objeto (agora só luz pura) tocou o metal, a fenda engoliu tudo num estalo seco.
Luz explodiu, branca, absoluta, queimando retina mesmo com os olhos fechados.
Jota levantou o braço na frente do rosto por instinto.
Quando a luz baixou, o objeto tinha sumido.
No lugar, uma árvore.
Pequena.
Tronco fino, retorcido como araucária jovem apanhada pelo vento.
Folhas prateadas, finas como escamas, balançando sem vento.
Raízes cravando no metal como se o chão tivesse nascido pra ela.
E nos galhos, pendurados como frutos ainda não maduros, os casulos.
Um pra cada peixe.
Brilhavam suave, pulsando no mesmo ritmo de um coração que não era de ninguém e era de todos.
Jota olhou pras mãos.
Marcas.
Linhas fundas, vermelhas, perfeitas.
Cruzavam as palmas em padrão de nadadeiras entrelaçadas.
Subiam pelos dedos, contornavam os pulsos.
Não sangravam mais.
Não doíam.
Mas latejavam vivas, quentes, permanentes.
A mulher que flutuava tocou as próprias marcas, surpresa, quase sorrindo.
O homem pequeno olhou pras dele, depois pra árvore, depois pro céu.
Riu baixo, riso de criança misturado com soluço de adulto.
O gigante foi o último.
As marcas dele eram antigas, cicatrizes brancas sobre cicatrizes brancas.
Ele só acenou com a cabeça, lento, cansado, satisfeito.
Olhou pra todos, um por um.
Parou em Jota por mais tempo.
— Podem ir.
A fenda se fechou atrás deles com um som de tecido rasgando ao contrário.
O azul do céu começou a desbotar, voltando ao laranja sujo do inverno curitibano.
O metal do chão tremeu uma vez e virou cascalho de novo.
Jota piscou.
Estava de volta na trilha do bosque do Capão da Imbuia.
Araucárias altas, cheiro de terra molhada e eucalipto, barulho de cascalho sob o tênis.
O céu agora era roxo-escuro, laranja só na linha do horizonte.
O relógio do celular marcava 18:41.
Olhou em volta.
Ninguém.
Nada.
Tudo escuro.
Usou o isqueiro para iluminar o caminho, lembrou que o celular tinha opção da lanterna.
Olhos para mãos.
As marcas estavam lá.
Linhas vermelhas profundas, perfeitas, desenhando nadadeiras entrelaçadas nas palmas, subindo pelos dedos, contornando os pulsos.
Virou as mãos devagar.
Do outro lado também.
Latejavam quentes, vivas, como se ainda carregassem um pedaço do objeto.
Respirou fundo.
O ar entrou frio, normal, cortante como toda noite em Curitiba.
Sem peso.
Sem azul.
Sem peixes.
A mochila laranja, que ele nem lembrava de ter carregado, estava caída no chão da trilha – o caderno marrom tinha rolado pra fora, página rasgada onde ele rabiscou “não soltar” em letra tremida, ímã do posto Esso preso na capa com fita adesiva velha, frio como sempre.
Guardou o celular no bolso, continuou andando.
Teve que pular o portão do local que já estava fechado, caminho até em casa.
Olhou pras mãos.
As marcas brilhavam levemente quando a luz dos postes batia nelas.
Escondeu-as nos bolsos.
Chegou no sobrado do Capão da Imbuia.
Chave tremendo um tiquinho na fechadura.
Luz acesa na sala (tinha esquecido acesa de manhã).
Trancou a porta.
Silêncio total.
Jogou a mochila no sofá, foi direto pro banheiro.
Acendeu a luz fria.
Tirou a camiseta, olhou no espelho.
As marcas pareciam tatuagens recém-feitas, pele levantada, vermelhas, perfeitas.
Abriu a torneira quente, pegou a bucha vegetal, sabão líquido.
Esfregou.
Forte.
Até arder.
Não saiu nada.
Nem uma linha apagou.
Esfregou mais.
A pele ao redor ficou vermelha, mas as marcas continuavam intocadas, brilhando quase felizes.
— Porra…
Deixou a água correr.
Ficou ali, testa encostada no azulejo frio, vapor subindo.
Tomou banho demorado.
Saiu, enrolou a toalha, foi pra cozinha.
Abriu a geladeira: resto de lasanha de dois dias, refrigerante.
Jogou a lasanha no micro-ondas, sentou na mesa da cozinha olhando pras mãos em cima da toalha.
Pegou um copo e colocou o refrigerante.
O celular vibrou na sala.
Foi pegar.
Conversa com Daslu parada há três meses e quatro dias.
Última mensagem era de Jota:
“Feliz ano novo! Esse texto fiz para ti”
Junto um PDF.
Ela visualizou, mas nunca respondeu.
Abriu o teclado.
Cursor piscando.
Digitou devagar, apagou, digitou de novo.
“oi.. espero que vocês estejam bem.”
Leu quatro vezes.
Dedo em cima do enviar.
Mas não enviou.
Jota olhou pras marcas.
Passou o polegar sobre as linhas.
Ainda quentes.
Jota sentiu o peito apertar de um jeito diferente.
Não era peso.
Era outra coisa.
Jogou o celular no sofá, apagou a luz da sala.
Deitou na cama ainda com a toalha, quarto escuro, só o brilho fraco das marcas iluminando as palmas.
Pareciam peixes pequenos nadando em círculos lentos na pele.
Olhou pro teto.
Pela primeira vez em meses, tudo parecia diferente.
Fechou os olhos.
Dormiu direto, profundo.
Teve um sonho maravilhoso.
Lá fora, no céu pesado de Curitiba, um brilho prateado cruzou rápido entre as nuvens e sumiu.
Peixe voador.
Ou avião.
Ou nada.
Mas as marcas continuavam ali, quentes, lembrando que ele tinha carregado, que tinha segurado, e que, pela primeira vez, isso tinha sido suficiente.
