A água da Pedreira do Orleans é azul petróleo. Linda. Mesmo no meio da semana, com Curitiba derretendo no calor infernal, o lugar tá quase vazio. Jota e um amigo, que já cansou de nadar e tá sentado nas pedras pescando.
Final de semana e feriado a pedreira enche. Hoje não. Hoje é quase só eles dois e silêncio.
Jota mergulha, sobe, respira fundo, mergulha de novo.
Gosta assim. Longe de todo mundo.
Boia de costas. Olha o céu. Nuvens brancas cortando o azul.
Vira de bruços. Vai mergulhar de novo.
E vê.
Algo embaixo. Dois metros da superfície, talvez menos. Brilhando. Leve. Como se a luz ao redor fosse mais clara só naquele ponto.
Jota franze a testa.
Lixo? Garrafa refletindo sol?
Mas não se mexe. Fica ali. Suspenso. Parado demais pra ser lixo.
Ele enche os pulmões. Mergulha.
Desce. A água fica mais fria. Mais escura. Mas o brilho continua visível.
Estende a mão.
Toca.
E o negócio desaparece.
Não afunda. Não flutua. Simplesmente some.
Como se nunca tivesse estado ali.
Jota congela embaixo d’água. Olha a própria mão. Olha ao redor.
Nada.
Sobe. Quebra a superfície. Respira fundo.
E então sente.
Calor. Subindo do estômago pro peito. Não é calor de fora. É de dentro. Como se algo tivesse entrado e estivesse se espalhando pelas veias.
Jota tosse. Segura o peito. Coração acelerado.
Nada até a beirada. Rápido. Irregular.
Sobe nas pedras. Senta. Respira.
O calor continua. Não dói. Mas queima. Diferente.
Ele olha as próprias mãos. Tremendo levemente.
Barulho de água. Alguém nadando. Rápido.
Jota vira a cabeça.
Um cara se aproxima. Cabelo curto molhado, óculos de natação pendurados no pescoço. Roupa de mergulho.
Para na beirada. Olha pra Jota.
— Foi você?
Jota pisca.
— O quê?
O cara estuda ele. Silêncio. Três segundos. Cinco.
Então sorri. Mas não é sorriso amigável.
— Nada. Esquece.
Sobe nas pedras. Pega uma mochila que tava escondida atrás de uma árvore. Tira o celular. Mexe. Guarda.
Procura algo dentro da mochila. Tira um cartão. Estende pra Jota.
— Se quiser um trabalho diferente, manda uma mensagem nesse número.
Jota pega o cartão. Papel grosso. Branco. Só um número de celular impresso. Nada mais.
— Que tipo de trabalho?
O cara sorri. Pega a mochila, joga nas costas.
— Você vai descobrir.
Vira as costas. Começa a subir a trilha.
Jota fica ali sentado. Água escorrendo. Mãos tremendo. Cartão na mão.
— Ei! — grita. — Qual teu nome?
O cara para. Olha pra trás.
— Rand.
E desaparece entre as árvores.
Jota fica sozinho.
Olha pro cartão. Pro lago azul petróleo. Pro ponto onde viu o brilho.
Nada ali agora.
Só água.
E um calor queimando por dentro que não passa.
Guarda o cartão no bolso do shorts.
Levanta. Volta pro amigo que tá pescando, concentrado, nem percebeu nada.
Jota não diz nada sobre o que viu.
Nem tem certeza do que viu.
QUATRO MESES DEPOIS
O Uber para na frente do portão branco. Angra dos Reis. Mansão enorme, três andares, vista pro mar, jardim com palmeiras imperiais. Jota desce, mochila laranja no ombro, agradece o motorista.
O portão abre sozinho. Ele entra.
A casa da Donaro é exatamente como ele imaginava: luxo discreto, bom gosto em cada detalhe, cheiro de vela perfumada cara. Piso de mármore branco, escada com corrimão de vidro, quadros abstratos nas paredes.
Ela aparece no topo da escada.
Donaro Siqueira. A Donaro. Rainha das manhãs. Apresentadora. 49 anos parecendo 25, cabelo castanho-escuro liso na altura dos ombros, pele clara. Roupa casual mas impecável: calça branca, blusa azul clara, descalça.
O sorriso é o mesmo que já encantou milhões de crianças. Mas o olhar não. Nos olhos tem algo que nunca apareceu na TV.
Controle absoluto.
— Querido! — Ela desce a escada, braços abertos, quadril balançando como em um vestido soltinho na praia. — Que bom te ver!
Jota sobe. Eles se abraçam. Ela cheira a perfume francês e poder.
— E aí, Donaro. Vim buscar o briefing.
— Vem, vem. Preparei tudo.
Eles entram numa sala enorme. Sofá branco em L, mesa de centro de vidro, TV de 80 polegadas na parede. Mas o que importa está na mesa: um celular.
Tela acesa. App aberto.
PONTOS DO MUNDO
Jota senta. Pega o celular. A interface é limpa, elegante. No topo, seu nome:
JOTA – 2.450 PONTOS
Embaixo, uma lista de países com checks verdes:
✓ Noruega – Bergen (150 pts)
✓ Inglaterra – Londres (200 pts)
✓ Inglaterra – Liverpool (180 pts)
✓ Portugal – Lisboa (120 pts)
✓ Espanha – Barcelona (200 pts)
…
E mais dez outros.
Donaro senta ao lado dele, pernas cruzadas, copo de água com gás na mão.
— Dois mil e quatrocentos e cinquenta pontos acumulados — ela diz, voz doce mas com autoridade, firme como quem merece respeito. — Bergen, Londres, Liverpool… você realmente foi em tudo, né?
— Fui, gostei, voltei mais forte.
Ela sorri, aquele sorriso raro que desmonta defesas.
— É isso mesmo, querido. Cada viagem te deixa mais forte. Você sente, né?
Jota assente. Sente. Desde que o jogo começou — quatro meses atrás, quando tocou aquela coisa estranha na Pedreira do Orleans, quando Rand apareceu do nada e deu o cartão, quando ele mandou mensagem pro número dias depois e uma voz feminina respondeu explicando as regras, quando ele aceitou porque não tinha nada a perder — ele sente o corpo mudar.
Ombros mais largos. Reflexos mais rápidos. Força bruta que não tinha antes. Como se cada item encontrado deixasse algo nele. Algo roubado. Algo absorvido.
— Como funciona mesmo? — Jota pergunta, mesmo já sabendo. — Eu encontro o item e…
— E absorve o poder que ele carrega — Donaro completa, como quem descreve saque bancário. — Cada item tem uma essência. Força, velocidade, resistência. Você toca, absorve, ganha. — Pausa. — Nós chamamos de transferência de ativos. — Ela inclina a cabeça. — Mas por que você sempre pergunta a mesma coisa, Jota?
— Pra ter certeza. — Jota segura o olhar dela. — Ver se as regras mudaram.
Donaro estuda ele por um segundo.
— Você esconde algo de mim, querido?
— Escondo? — Jota sorri. — Meu placar tá aí. Transparente.
Ela sorri de volta. Mas nos olhos tem dúvida.
Jota olha pra ela. Donaro Siqueira explicando caça a artefatos místicos como se fosse operação financeira, com aquele olhar que atravessa.
Ele ri baixo.
— Isso é loucura.
— É um jogo, amor. E você tá ganhando.
Ela aponta a tela. Uma notificação pisca no canto:
NOVO ITEM DETECTADO EM 6 HORAS
PRAGA, REPÚBLICA TCHECA
ÁREA: CENTRO HISTÓRICO – 800M²
VALOR: 200 PONTOS
— Praga — Donaro inclina a cabeça. — Cidade linda. Mas tem um jogador forte lá. Ele tem quase dois mil pontos. Vai tentar chegar primeiro.
— Tentar — Jota repete, confiante.
Donaro ri. Toca o ombro dele, o toque gentil de um jeito perigoso.
— Adoro essa energia. Mas lembra: é corrida. Quem chega primeiro, pega. E quando alguém absorve, todos recebem notificação. Todo mundo sabe quem ganhou.
Jota sabe. Já competiu com outros jogadores. Bergen foi disputa acirrada. Londres também. Sempre chegou primeiro.
— Eu sei me defender.
— Sei que sabe. — Donaro pega o celular dela da bolsa. Não é celular comum. Tela maior. Interface diferente. — Olha só.
Ela vira a tela pra ele.
Jota vê: painel de controle.
Mapa-múndi em tempo real. Pontos vermelhos espalhados pelo Brasil — cada um com nome, placar, localização exata.
JOTA – ANGRA DOS REIS – 2.450 PTS
ANA – RIO DE JANEIRO – 2.100 PTS
MARCOS – SÃO PAULO – 1.890 PTS
…
E mais uns vinte.
— Você gerencia todo mundo? — Jota pergunta.
— Só os brasileiros. — Donaro desliza o dedo, mostra outro mapa. Mundo inteiro. Centenas de pontos. — Cada país tem um game master. Eu sou a do Brasil.
Jota olha os números. China tem 87 jogadores ativos. Alemanha, 38. Brasil, 23.
— E quem gerencia vocês?
Donaro sorri. Tranca a tela.
— Perguntas demais. Foca no teu jogo.
Ela guarda o celular. Volta pro celular dele. Mostra o histórico:
ITENS ENCONTRADOS: 15
PONTOS ACUMULADOS: 2.450
Jota sorri. Cada item vale pontos. Cada corrida vencida adiciona ao placar.
Donaro devolve o celular.
— Descansa aqui. Come alguma coisa. Daqui seis horas o item libera em Praga. Eu já reservei o voo.
Jota guarda o celular na mochila laranja. Tira o caderno de capa dura marrom. Abre numa página cheia de anotações:
Bergen – 150 pts – força bruta
Londres – 200 pts – velocidade
Liverpool – 180 pts – resistência ao cansaço
Ele anota:
Próximo: Praga – 200 pts – rival forte – cuidado
Fecha o caderno. Guarda. Tira o isqueiro amarelo do bolso. Acende a vela perfumada na mesa de centro. A chama dança, reflete no vidro.
Donaro observa.
— Você leva isso a sério, né?
— Se não levar, perco tudo.
— Inteligente. — Ela levanta. — Vou preparar um lanche. Fica à vontade.
Sai da sala. Jota fica sozinho. Olha pela janela de vidro. Mar azul lá embaixo. Iates brancos. Céu limpo.
Quatro meses atrás ele era só Jota. Agora é jogador. Caçador de itens. E carrega um segredo que nem a game master sabe.
E tá ganhando.
FLASHBACK – BERGEN, NORUEGA – DUAS SEMANAS ATRÁS
O avião pousa no aeroporto de Bergen às sete da manhã. Céu cinzento, chuva fina cortando a pele, frio que enterra nos ossos. Jota desce com a mochila laranja nas costas, casaco pesado preto por cima da camiseta regata vinho.
O celular vibra no bolso.
Ele tira. Notificação:
ITEM DETECTADO EM BERGEN
LOCALIZAÇÃO: BRYGGEN – CAIS HISTÓRICO
ÁREA: 500M²
TEMPO ESTIMADO ATÉ PRÓXIMO JOGADOR: 38 MIN
Embaixo, mapa com círculo vermelho marcando área.
Jota pega táxi. Vinte minutos depois, está no cais.
Casas de madeira colorida se espelham na água cinza. Vermelho, amarelo, laranja — cores vivas apodrecendo devagar. Turistas tiram foto mesmo com a chuva encharcando tudo.
Ele abre o app. O círculo vermelho pulsa na tela. Está dentro da área.
Agora é procurar.
Jota caminha devagar. Olhos atentos. O app não mostra localização exata. Só área. Tem que encontrar o item físico antes dos outros.
Passa por loja de souvenirs. Nada.
Passa por restaurante. Nada.
Para na frente das casas históricas.
Sente algo.
Calor no peito. Formigamento nas mãos.
O app vibra: PRÓXIMO
Jota olha ao redor. Uma mulher velha tá sentada num banco. Cinco metros de distância. Alimentando pombos.
Ele se aproxima das casas. O formigamento aumenta.
Olha nas janelas. Nada.
Olha nas paredes de madeira.
E vê.
Entre duas tábuas, encaixado. Pequeno. Quase invisível.
Um fragmento de pedra. Cinza-escuro. Com um leve brilho. Símbolos gravados.
Igual o da Pedreira. Diferente, mas igual.
Jota olha ao redor. Ninguém viu.
Estende a mão. Toca.
A pedra some.
E então acontece.
Choque elétrico subindo pela coluna. Os músculos das costas, dos ombros, dos braços se contraem todos de uma vez. Jota arqueia, prende a respiração, sente algo entrar.
Poder.
Força bruta.
Como se tivesse acabado de roubar dez anos de academia de alguém.
E junto com isso…
Algo saindo de alguém próximo.
Jota vira a cabeça. Vê a velha no banco.
Ela tropeça. Levanta. Olha as próprias mãos. Confusa. Como se tivessem sumido por um segundo.
Balança a cabeça. Senta de novo. Mais devagar.
Jota sente tontura passar. Fraqueza momentânea. Não dele. Dela.
Ele absorveu do item.
Mas também drenou dela.
Dura cinco segundos.
Depois passa.
Jota respira fundo. Olha as próprias mãos. Fecha os punhos. Sente a diferença. Mais forte. Muito mais forte.
O celular vibra:
ITEM ABSORVIDO!
+150 PONTOS
PODER: FORÇA BRUTA +20%
TOTAL: 1.200 PONTOS
E simultaneamente, outra notificação. Essa diferente:
ALERTA GLOBAL
JOTA (BRASIL) ABSORVEU ITEM EM BERGEN
+150 PONTOS
Todos os jogadores do mundo acabaram de receber isso.
Todos sabem que ele ganhou.
Jota guarda o celular.
Olha pra velha. Ela ainda tá no banco. Confusa. Mais fraca.
Fui eu.
O pensamento vem rápido, corta.
Tirei isso dela.
O app registrou +150 pontos.
Mas Jota sente que levou mais.
Algo além do que o sistema contabilizou. Algo que entrou direto, sem passar pelo app. Força que não aparece na tela mas queima nas veias.
Ele olha pro celular. Depois pras próprias mãos.
Não vai contar pra Donaro.
Ainda não.
Ele guarda as mãos nos bolsos. Vira as costas. Começa a andar.
Não olha pra trás.
Três quarteirões depois, Jota para num café. Pede chocolate quente. O clássico norueguês. Cheiro forte, vapor subindo.
Toma o primeiro gole.
Não sente nada.
Estranha. Toma mais um gole. O líquido desce quente, mas sem sabor. Como se as papilas gustativas tivessem adormecido.
Jota olha pra xícara. Pro celular. 1.200 pontos brilhando na tela.
Empurra a xícara. Deixa metade.
Primeiro o sabor some.
Jota olha pras mãos. Pro celular. 1.200 pontos brilhando.
O que mais vai embora?
Dois quarteirões depois, Rand Oliveira tá encostado num poste. Macacão azul. Fumando cigarro. Olhando pro nada.
Jota para. Pisca. Olha de novo.
Continua sendo Rand.
O mesmo cara da Pedreira do Orleans.
— Rand? — Ele se aproxima. — Que porra tu tá fazendo na Noruega?
Rand tira o cigarro da boca. Solta fumaça devagar.
— Passando. Estou em outro jogo, outras regras.
— Outro jogo? — Jota franze a testa. — Na Noruega?
Rand dá de ombros.
— Cuidado com o que você pega, Jota.
— Como assim?
— Nem tudo que brilha é ouro. E nem todo poder vem de graça.
Joga o cigarro no chão. Pisa.
— Até mais, Jota.
Vira a esquina. Desaparece.
Jota fica ali parado. Olha pra esquina vazia. Volta. Rand sumiu.
Ele ri. Balança a cabeça.
— Claro. Claro que o Rand tá na Noruega.
Guarda as mãos nos bolsos. Continua andando. A chuva cai mais forte. Mas ele não sente frio.
Os 150 pontos queimam no peito como fogo vivo.
A velha ainda tá na cabeça dele.
Mãos vazias. Confusa.
Jota aperta o passo.
DE VOLTA A ANGRA – SEIS HORAS DEPOIS
Donaro bate na porta da sala.
— Querido, teu voo é em uma hora. Uber já tá vindo.
Jota levanta do sofá. Pega a mochila laranja. Confere:
✓ Caderno de anotações
✓ Isqueiro amarelo
✓ Camiseta regata vinho extra
✓ Carregador
✓ Passaporte
E olha pros pés: tênis surrado. Buraco no dedão esquerdo. Cadarço direito meio solto.
Ele sabe. O tênis já salvou a vida dele várias vezes. Sempre no momento certo. Sempre quando o cadarço solta.
Não vai trocar.
Donaro aparece na porta, bolsa de grife na mão.
— Toma. — Ela estende um envelope grosso. — Mil dólares. Pra gastos em Praga.
— Não precisa…
— Pega. Você trabalha pra mim agora. Eu cuido dos meus jogadores.
Jota pega. Guarda na mochila.
— Valeu, Donaro.
Ela sorri. Abraça ele.
— Boa sorte, Jota. E cuidado. O rival em Praga é rápido.
— Eu também sou.
Saem juntos. O Uber preto espera no portão. Jota entra. Acena pela janela. Donaro acena de volta, sorriso calculado, mas nos olhos tem algo mais.
Poder. Controle. Jogo.
O carro sai.
Jota olha o celular.
PRÓXIMO ITEM: PRAGA
VOO: 22H35 – GIG → PRG
VALOR: 200 PONTOS
AVISO: RIVAL DETECTADO NA ÁREA
Ele tranca a tela. Guarda.
Encosta a cabeça no vidro. Olha a estrada.
Quatro meses atrás, vida normal. Agora, viajante internacional caçando itens místicos pra ganhar pontos num jogo comandado pela Donaro Siqueira.
E faz todo sentido.
A velha de Bergen volta na cabeça.
Mãos vazias. Confusa.
Jota fecha os olhos.
Não pensa mais nisso.
AEROPORTO DO GALEÃO – RETORNO DE PRAGA – TRÊS DIAS DEPOIS
Jota desembarca cansado. Voo de doze horas. Praga foi sucesso: item encontrado no Relógio Astronômico (engrenagem antiga com brilho fraco, escondida na base), 200 pontos ganhos, rival chegou três minutos atrasado, agilidade mental absorvida (+15%).
Placar atual: 2.850 pontos.
Ele atravessa o saguão do aeroporto, mochila laranja nas costas, camiseta regata vinho suada, tênis surrado arrastando no chão.
E então vê.
Três caras esperando perto da saída.
Não são jogadores principais. São capangas.
Jota reconhece um deles: o alto. Tatuagem tribal no pescoço. Mancando — joelho que Jota quebrou semana passada quando tentaram impedir ele de embarcar pra Liverpool.
Os três se aproximam. Formam semicírculo. Bloqueiam a saída.
O alto fala:
— E aí, Jota. Nosso patrão manda um recado: fica no Brasil uns dias. Deixa o proximo destino quieto.
Jota para.
— Quem é seu patrão?
— Não interessa. Interessa que você não vai pegar o próximo item.
O segundo cara, baixo, careca, sorri:
— Nada pessoal, cara. Só trampo.
O terceiro avança. Forte, barba ruiva, mãos grandes. Olhos cansados, mas determinados.
— Olha, eu tenho filha doente. Preciso desse trampo. Me desculpa, mas vai ter que apanhar.
Jota para. Olha nos olhos do de barba ruiva.
Desespero real. Não é blefe.
Capanga. Mas com motivo real.
— Lamento pela tua filha. Mas eu vou continuar com meus pontos.
O ruivo fecha os punhos.
— Então a gente vai ter que te parar.
Jota solta a mochila no chão. Devagar. Respira fundo.
O corpo responde.
Força bruta de Bergen. Velocidade de Londres. Resistência de Liverpool. Agilidade mental de Praga.
Tudo ativado ao mesmo tempo.
O de barba ruiva avança primeiro. Soco direto no rosto.
Jota desvia. Contra-ataque no fígado. O ruivo dobra, geme, cai de joelhos.
E Jota sente.
Algo saindo dele. Entrando em Jota.
Drenagem. Involuntária. Automática.
Recuperação. Resistência física. Algo.
O ruivo fica mais pálido. Tonto. Fraco.
O careca vem pela esquerda. Chute alto.
Jota bloqueia com antebraço — resistência de Liverpool absorve o impacto — segura a perna, torce. O careca grita. Jota empurra, ele cai de costas.
O alto fica sozinho. Mancando. Recua.
— Porra, Jota… tu tá diferente…
— Tô mais forte. — Jota dá um passo à frente. — Vai embora.
Mas então o ruivo levanta. Corre até uma coluna. Arranca o extintor da parede.
— MINHA FILHA PRECISA! — Ele grita, voltando.
Swing horizontal. Rápido. Forte. Direto na cabeça de Jota.
E nesse exato momento…
O cadarço direito do tênis de Jota se solta.
Sozinho.
Místico.
Jota olha pra baixo. Vê o cadarço arrastando. Fica alerta e sente que tem que se agachar, tipo um sensor aranha. Jota se agacha.
O extintor passa raspando por cima da cabeça dele.
Corta o ar com assobio metálico.
Erra por cinco centímetros.
Se Jota não tivesse abaixado, o extintor acertava. Matava.
Ele amarra rápido o cadarço. Levanta.
O ruivo tá desequilibrado, foi intensa a tentativa, prendeu em algo.
Jota não pensa.
Soca o estômago dele. Força de Bergen. O ruivo voa pra trás, bate na parede, desliza.
Mas antes de cair, o extintor solta da mão, gira no ar, acerta Jota no ombro esquerdo. A ponta do bico perfura.
Dor.
Aguda. Real.
Jota grunhe. Segura o ombro. Sangue escorre entre os dedos. Não é profundo, mas dói pra caralho.
Silêncio.
Os três capangas no chão. Gemendo. Derrotados.
Jota olha pro de barba ruiva. O homem segura o estômago, respiração irregular, olhos molhados. Lágrimas descendo. Mais pálido que antes. Mais fraco.
Filha doente.
E Jota drenou dele. Sem querer. Mas drenou.
Jota abre a boca. Dá um passo pra trás. Quase volta. Quase diz “desculpa”.
A mão já vai pro bolso pegar o celular pra… pra quê? Transferir pontos? Dar dinheiro?
Mas então percebe.
Não tem como devolver o que ele tirou.
O que foi, foi.
Jota fecha a mão vazia.
Vira as costas.
Pega a mochila com a mão boa. Olha pros três.
— Próxima vez, escolham outro patrão.
Sai com o ombro sangrando.
O celular vibra no bolso.
Ele tira.
Nenhuma notificação de pontos, somente uma notificação normal.
Capangas não dão pontos oficiais.
Mas Jota sente.
Absorveu recuperação avançada do ruivo. Algo que não aparece no app mas queima nas veias.
Guarda o celular sem contar pra ninguém.
Jota para na saída do aeroporto. Olha pra trás.
Três caras no chão. Derrotados.
Deveria sentir algo. Culpa. Pena. Medo.
Não sente nada.
Só vazio.
Jota sorri. Olha pro tênis surrado.
— Valeu, parceiro.
Sai do aeroporto. Sol batendo forte. Rio de Janeiro quentíssimo.
Ombro já parando de doer, mas sangrou e agora parece que quase não teve problemas. Cadarço amarrado. Colocar um moletom para cobrir o sangue.
Pega Uber. Primeiro vai passa numa farmácia, fingir demorar um pouco, pedir outro Uber e voltar pra Angra.
Donaro vai querer saber de tudo.
CASA DA DONARO – DUAS HORAS DEPOIS
Ela abre a porta antes dele bater.
— QUERIDO! — olha direto para o machucado. Ela sabia? Ela vê o ombro e alguns vestígios de sangue. — O que aconteceu?!
— Tive uns problemas no aeroporto.
— Vi. — Ela puxa ele pra dentro com cuidado. — Três capangas. Mas… você tá machucado.
— Extintor, me pegou no ombro.
Donaro franze a testa. Séria pela primeira vez.
— Você precisa ser mais cuidadoso.
Sentam na mesma sala. Mesma mesa de vidro. Donaro pega kit de primeiros socorros, mas Jota diz que já limpou e está tudo bem, não queria mostrar para ela que já tinha cicatrizado.
— Dois mil e oitocentos e cinquenta pontos — ela diz enquanto trabalha. — Seu placar subiu bem.
Pega o celular dela. O painel de controle. Mostra:
RANKING GLOBAL: #3
Jota arregalha os olhos.
— Terceiro lugar?
— No mundo, Jota. Só tem dois jogadores na frente de você. Um na China, outro na Alemanha.
Ela mostra:
#1 – CHEN – CHINA – 4.200 PONTOS
#2 – KLAUS – ALEMANHA – 3.800 PONTOS
#3 – JOTA – BRASIL – 2.850 PONTOS
Jota solta o ar devagar.
— Caralho.
Donaro guarda o kit. Franze a testa.
— Você tá subindo rápido demais, Jota. Mais que o normal.
— Treinei bem e estou usando esses poderes — Jota responde, calmo.
— Será? — Ela estuda ele. — Ou tem algo que você não me contou?
Jota não desvia o olhar.
— Tá tudo no meu placar. Transparente.
Silêncio.
Ela sorri. Mas o sorriso não chega nos olhos.
— Você entendeu o jogo. Melhor que qualquer um. Continua assim e em dois meses você é número um.
— E aí?
— Aí você descobre o que vem depois.
— Que prêmio é esse?
Donaro sorri. Misteriosa.
— O prêmio não é o que você acha que é.
Ela levanta. Pega uma garrafa de champanhe na geladeira de vinho embutida. Abre. Serve duas taças.
Estende uma pra Jota.
— Ao primeiro.
Jota pega. Brinda.
— Ao primeiro.
Bebem.
Donaro senta de novo. Cruza as pernas. Sorri. Mas não é o sorriso da TV. É outro.
— Próximo item libera amanhã de manhã. Tóquio. Trezentos pontos.
Jota toca o ombro enfaixado. Dói.
— Vou estar pronto.
— Descansa. Se cuida. — Ela toca a mão dele. — Machucado não ganha corrida.
Jota termina a champanhe. Pega a mochila laranja. Tira o caderno. Abre. Escreve:
Praga – 200 pts – item no Relógio Astronômico – rival atrasado – agilidade mental +15%
Aeroporto GIG – três capangas – levei extintor no ombro – drenei o ruivo sem querer
Ranking: #3 mundial
Próximo: Tóquio – 300 pts
Embaixo, acrescenta:
Velha em Bergen. Mãos vazias. Confusa.
Ruivo no Galeão. Filha doente. Drenei dele também.
Chocolate sem gosto.
Quanto custa cada ponto?
Fecha. Guarda.
Olha pra Donaro.
— Quando eu voltar de Tóquio, ninguém me alcança.
Ela sorri. Mas não responde.
Jota sai da mansão. Uber esperando. Sol se pondo no mar.
Ele entra no carro. Olha o celular.
2.850 PONTOS
PRÓXIMO: TÓQUIO
O cadarço direito do tênis está solto de novo.
Ele sentiu o momento que desamarrou mas deixou acontecer.
Amarra novamente, vai precisar.
Toca o ombro, ruivo no aeroporto.
Lembra da velha de Bergen.
Jota encosta a cabeça no vidro.
Fecha os olhos.
E mesmo assim, não consegue parar de jogar.
