Capa do Capítulo

Quando a Lenda Aparece

Extensão: 7.459 palavras | Leitura: 38 min

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A CRISE

— PRECISAMOS DE SUBSTITUTO AGORA!

A voz de Jota ecoou pelo rádio, quebrando o barulho ensurdecedor do festival. Ao redor dele, milhares de super-humanos ocupavam as arquibancadas suspensas por campos de energia, palcos flutuantes se moviam como ilhas voadoras sobre a Pedreira do Orleans, e o céu de Curitiba brilhava com luzes de energia pura que pulsavam no ritmo da multidão. Era o maior festival de super-humanos já organizado na cidade, e estava prestes a ruir.

Jota corria pelos bastidores, mochila laranja batendo nas costas, camiseta regata vinho grudada no corpo todo suado. Dentro da mochila, o caderno marrom com anotações frenéticas do cronograma, o isqueiro amarelo no bolso lateral, e o ímã de geladeira do Posto Esso preso na capa do caderno — cinza fosco, logo quase apagado, beiradas descascando. Tinha começado a brilhar uns anos atrás, sempre que a família tava em perigo. Jota nunca entendeu por quê. Ninguém da família entendia. Mas funcionava.

O tênis surrado com o cadarço direito solto batia no chão de concreto. Jota nem se dava ao trabalho de amarrar direito. Nunca adiantava.

O problema era simples e catastrófico: o lutador principal, um russo que controlava gravidade, tinha sumido. Desaparecido. Sem ele, a luta que todo mundo esperava — o evento que definiria quem teria a chance de absorver o Domínio Absoluto — simplesmente não ia rolar.

E a plateia já vaiava.

SEIS HORAS ANTES

O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 duas portas parou na entrada da Pedreira do Orleans com o motor roncando cansado. Jota desligou, pegou a mochila laranja do banco do passageiro, ajeitou o caderno marrom lá dentro e desceu. O sol ainda tava subindo, mas a Pedreira já fervilhava de movimento.

Palcos flutuantes sendo ajustados por equipes de telecinéticos. Arquibancadas suspensas testando a resistência dos campos de força. Holofotes gigantes sendo calibrados por sua mãe, Dona Tude, que manipulava a luz como se fosse água — dobrando raios, multiplicando brilhos, criando arco-íris artificiais que deixavam todo mundo boquiaberto.

— Jota! — ela gritou lá de cima, flutuando a três metros do chão. — Vem testar essa sequência comigo! Precisa estar perfeita pra entrada dos lutadores!

Jota levitou até ela, subindo devagar. Voo era a parte mais fácil — sempre foi. Desde criança conseguia flutuar, se mover pelo ar, nada espetacular mas funcionava.

— Tá perfeito, mãe. Relaxa.

Dona Tude sorriu, mas os olhos dela brilhavam de ansiedade.

— Esse festival não pode falhar, filho. O Vigilante confiou na gente.

Jota sabia. O Vigilante tinha montado o evento inteiro e chamado as melhores equipes. O pai dele pra barreira de força principal. Dona Tude pra iluminação. Deco pra acessibilidade e segurança dos bastidores. Jota pra coordenação geral. Era questão de honra fazer dar certo.

— Barreira tá sólida! — o pai gritou lá embaixo, punho fechado brilhando com energia azul translúcida. — Nada sai daqui sem a gente querer!

O Vigilante acenou, satisfeito. Ao lado dele, Shell — Leandro Costa — ajustava um dos emissores de campo de força, armadura viva do braço dele se moldando em chave de precisão. Trabalhava com cuidado, quase carinho.

Jota desceu, pousou ao lado deles.

— Leandro, valeu por ajudar.

Shell sorriu, genuíno, guardando a ferramenta improvisada.

— Relaxa, Jota. Vim ver história sendo feita. Quero que dê tudo certo. — Bateu no ombro de Jota. — Seu pai manda bem pra caralho nessas barreiras. Tá impecável.

O Vigilante virou pra Jota.

— Seu irmão tá querendo lutar.

Jota suspirou. Popó. Claro.

Encontrou o irmão mais novo perto do palco principal, socando o ar, aquecendo. Popó era sangue-quente, impulsivo, super-força nível intermediário. Não tinha chance contra os titãs que iam lutar ali.

— Popó, esquece. Você não tá no nível.

— Caralho, Jota, eu posso! Deixa eu entrar só pra abrir, tipo aquecimento!

— Não.

Popó bufou, mas sabia que o irmão tava certo.

Jota voltou pros bastidores, checando o tablet com o cronograma. Precisava confirmar horários, acessos, credenciais—

O tablet escapou da mão dele.

Antes que caísse no chão, a mão direita se moveu — rápida, instintiva — e pegou no ar. Jota nem tinha olhado. Tava de costas quando soltou.

— Caramba. — Uma das coordenadoras de segurança olhou, impressionada. — Você nem viu cair.

Jota piscou, olhando pro tablet na mão.

— Eu… sempre sei onde as coisas tão. — Deu de ombros, desconfortável. — Não é estranho.

A mulher riu.

— É sim. Mas é útil.

Jota guardou o tablet, mas a sensação ficou. Aquela certeza de onde as coisas estavam, mesmo sem ver. Sempre teve isso. Achava que todo mundo tinha.

Passou pelos bastidores e ouviu a voz de Deco explicando pra um grupo de técnicos. O irmão mais velho supervisionava os sistemas de segurança e acessibilidade de uma cadeira de rodas motorizada customizada que flutuava quando precisava. Ele era o responsável por garantir que o festival fosse acessível pra todos — rampas magnéticas, plataformas adaptáveis, sinalização em braile luminoso — e também monitorava os acessos restritos, as salas de controle, os cofres de energia.

— E se alguém incompatível tentar forçar? — um dos técnicos perguntou.

— Nunca ninguém conseguiu. — Deco ajustou os controles. — Desde que o item reapareceu, uns três tentaram. O Domínio simplesmente não responde. É como tentar pegar água com peneira.

— Mas alguém já absorveu antes?

— Uma vez. 1987. Um cara em São Paulo. Virou lenda, depois desapareceu. — Deco deu de ombros. — Ninguém sabe se morreu, se transcendeu ou se simplesmente cansou de tudo. Mas o item voltou. E agora tá aqui.

— E como sabe quem é compatível?

— Não sabe. — Deco sorriu, meio amargo. — O item escolhe. Tem critérios próprios. O único padrão detectado: tem que vencer. Provar algo. Mas o quê? Ninguém entende direito.

Os técnicos saíram e Jota se aproximou.

— Deco, tá tudo certo?

— Perfeito, mano. A sala do Domínio Absoluto tá trancada, só eu e o Vigilante temos acesso. — Deco sorriu, confiante. — Esse festival vai ser histórico.

Jota desejava ter a mesma confiança.

Jota tava conferindo as credenciais quando virou e travou.

Cavala Fernandez.

Uns 1,70 de altura, corpo impossível — pernas grossas e torneadas que preenchiam a calça preta justa, coxas que se juntavam no topo, bunda redonda e empinada que fazia cada passo virar espetáculo. Cintura fina, abdômen marcado embaixo da blusa branca meio transparente, peitos médios que ficavam perfeitos naquele decote discreto mas letal.

Cabelo castanho ondulado caindo nos ombros com aquele ar de “acabei de acordar assim”, rosto delicado — olhos grandes e expressivos, boca pequena entreaberta, sobrancelhas grossas — misturando inocência com algo perigoso.

Ela sorriu quando viu ele olhando. Aquele sorriso pequenininho, quase tímido.

— Oi, Jota. Faz tempo.

A voz saiu baixinha, doce. Como se fossem velhos conhecidos. Como se ela não soubesse exatamente o efeito que causava.

— Cavala. — Jota engoliu seco. — Não sabia que você tava na equipe.

— Me chamaram de última hora. — Ela deu de ombros, movimento que fez o corpo inteiro balançar de um jeito que deveria ser crime. — Vim ajudar com segurança. Satogos tá coordenando, né?

— Tá.

Cavala se aproximou, tocou o braço dele de leve. Perfume doce, quase enjoativo.

— Qualquer coisa que você precisar… — Os olhos dela brilharam. — É só chamar.

E se afastou, rebolando, deixando Jota parado processando a conversa.

TRÊS HORAS ANTES

Jota procurou Satogos entre as equipes de segurança. Encontrou ela coordenando a verificação de credenciais, macacão preto justo marcando cada curva, cabelo castanho-escuro preso num rabo de cavalo alto, olhos verdes frios como gelo.

Quando ela viu ele se aproximando, arqueou uma sobrancelha.

— Que foi, Jota?

Ele parou na frente dela, coração acelerado, tentando não parecer um adolescente idiota.

— Nada. Só… tá tudo certo por aí?

— Tá. — Ela cruzou os braços. — Mas você tá nervoso.

— Tô. — Não adiantava mentir.

Satogos deu um passo à frente. O perfume dela invadiu o espaço entre eles — algo floral, perigoso, que sempre fazia o raciocínio dele desacelerar uns três segundos.

— Você tá com aquela cara de quem carrega o mundo nas costas. — Ela tocou o peito dele com um dedo, leve. — Sempre faz isso.

— É que dessa vez o mundo tá literalmente suspendido por campos de força. Se eu errar…

— Você nunca erra. — Ela sorriu de canto, aquele sorriso que ele conhecia bem. Metade diabólico, metade carinhoso. — É irritante.

E então puxou ele pela nuca e o beijou.

Foi rápido, urgente, roubado. A boca dela quente, a língua dela firme, o mundo sumindo por três segundos eternos. Quando se afastou, Satogos sorriu de novo.

— Agora volta pro trabalho.

Jota ficou parado, atordoado, enquanto ela se virava e sumia entre as equipes.

Caralho.

UMA HORA ANTES

Jota tava checando os últimos detalhes quando sentiu algo estranho. Um calor no bolso da mochila. Leve, quase imperceptível no meio do caos.

Parou. Abriu a mochila. O ímã do Posto Esso brilhava fraco, pulsando devagar.

Olhou em volta. Pai reforçando barreira. Mãe ajustando luzes finais. Popó alongando. Deco supervisionando acesso. Tudo parecia normal.

Deve ser estresse. O festival inteiro dependendo dele. Fechou a mochila e continuou.

— Shell tá aqui! — alguém avisou pelo rádio.

Jota correu até o camarote VIP. Shell — Leandro — que tinha estado ajudando o pai com as barreiras horas atrás, agora tava sentado numa poltrona de couro, taça de champagne na mão, óculos escuros mesmo de tarde, sorriso largo.

— Leandro, cadê você? Tava precisando de ajuda lá embaixo.

— Relaxa, Jota. Já fiz minha parte. — Shell bebeu o champagne, mas o olhar dele, quando tirou os óculos por um segundo, varreu o espaço com atenção demais. — Agora vim curtir o show. Aliás, o Rand vai lutar? Será que ele é compatível com o Domínio?

Jota franziu a testa. Pergunta estranha.

— Ninguém sabe. Só testando.

— E o Deco que cuida da segurança da sala, né? — Leandro se levantou, ajeitou os óculos. — Trampo foda. Deve ser tenso.

— É. Mas ele dá conta.

Leandro sorriu largo demais.

— Aposto que dá. — Bateu no ombro de Jota. — Boa sorte aí, irmão. Vai ser épico.

Jota saiu, mas a sensação estranha ficou. As perguntas. O jeito dele olhar pro corredor da sala de segurança. Como se estivesse medindo distâncias.

Balançou a cabeça. Paranoia. Tinha coisa demais pra se preocupar.

Saiu correndo.

Foi quando o cadarço do tênis direito soltou de novo.

A DESCOBERTA

Jota tropeçou, quase caiu, segurou no corrimão. Agachou pra amarrar, xingando baixo.

Maldito cadarço. Sempre no pior momento.

Ou no melhor.

Porque quando parou, quando o mundo ficou quieto por três segundos, quando respirou fundo…

Sentiu de novo.

O calor. O ímã.

Mas dessa vez não era vago. Não era estresse. Era preciso. Como se algo tivesse clicado dentro dele.

Fechou os olhos. Deixou a sensação pulsar. E sentiu presença. Não só presença — localização exata. Como se pudesse ver através das paredes, através do espaço.

Uma assinatura de energia. Monstruosa. Perto. Muito perto. Escondida embaixo de uma camada de disfarce, como se alguém tivesse tentado apagar o próprio brilho.

Veio dos bastidores do palco 3.

Jota abriu os olhos. Levantou. Correu.

E lá estava ele.

Rand Oliveira, macacão azul manchado de graxa, chave inglesa na mão, consertando algo numa estrutura metálica. Quando viu Jota, sorriu.

— E aí, Jota. Procurando alguém?

Jota parou. Olhou pro corpo de Rand. Músculos marcados embaixo do macacão. Postura sólida. Presença intensa que fazia o ar vibrar ao redor.

— Rand… você sempre esteve aqui. O tempo todo.

Rand deu risada.

— Gosto de consertar as coisas antes de quebrar de novo.

— Você… você É o plano B. Desde o começo.

— Demorou pra perceber. — Rand largou a chave inglesa. — Mas se precisam de mim agora… tô dentro.

Jota queria abraçar ele. Queria gritar. Mas não teve tempo.

O rádio crepitou.

— Jota! O Vigilante localizou o Homem de Capa! Ele vem buscar o Rand! Dez minutos!

Jota franziu a testa.

— Buscar? Mas você tá aqui…

Rand já tava tirando o macacão, revelando uniforme de combate embaixo.

— Linha Verde. Emergência. — Ele sorriu. — O Capa me pega lá, a gente volta com estilo. Entrada triunfal. Dez minutos. Segura aí.

E antes que Jota pudesse responder, Rand desapareceu num borrão de velocidade.

Jota ficou sozinho nos bastidores, processando.

O cadarço do tênis ainda tava solto. Ele olhou pra baixo, sorriu de canto.

— Valeu, parceiro.

A ENTRADA

Dez minutos depois, o céu escureceu de verdade.

Primeiro foi um trovão sem nuvem. Depois, uma luz vermelha e azul rasgando o horizonte. A multidão inteira se levantou, milhares de vozes gritando ao mesmo tempo.

Ele desceu devagar.

Capa vermelha balançando, S no peito brilhando como farol, rosto sereno, sorriso humilde. E nos braços, carregando como troféu vivo, estava Rand Oliveira — uniforme de combate, sorrindo largo, acenando pra plateia.

O Homem de Capa pousou no centro do palco principal. Largou Rand com cuidado. Olhou pra multidão.

— Desculpa o atraso. Tava resolvendo umas coisas na Linha Verde. — A voz dele ecoou sem microfone, pura e clara. — Mas quando o Vigilante me chamou, eu sabia que não podia faltar. E encontrei esse cara salvando quinze pessoas de um desabamento. — Bateu no ombro de Rand. — Se alguém merece lutar aqui hoje, é ele.

A plateia explodiu.

Todos os olhos no céu. Todos os celulares gravando. Todos os gritos ecoando.

E foi nesse momento exato que tudo desmoronou.

A ARMADILHA

Jota tava checando o rádio, tentando coordenar a entrada, quando sentiu uma mão no ombro.

Virou.

Cavala. De perto. Muito perto.

— Jota… — A voz saiu baixinha, quase um sussurro. — Você tá tão tenso. Deixa eu te ajudar a relaxar.

Ela tocou o peito dele, dedo deslizando devagar. Os olhos grandes fixos nos dele. Boca entreaberta. Perfume doce, quase enjoativo, envolvendo tudo.

— Cavala, eu tô no meio de—

Ela puxou a blusa pra baixo.

Devagar. Calculado. Revelando os peitos — médios, perfeitos, mamilos rosados apontando diretamente pra ele sob a luz dos holofotes.

— Olha pra mim, Jota. — A voz dela saiu ainda mais baixa, quase ronronando. — Só olha.

E Jota olhou.

E o mundo sumiu.

Não foi metáfora. Não foi exagero. Foi literal.

O som da multidão desapareceu. As luzes se apagaram. O festival inteiro deixou de existir. Só tinha ela. A boca dela. O corpo dela. Os peitos dela. A pele quente. O perfume doce.

Como se alguém tivesse colocado antolhos nele. Bloqueado tudo que não fosse ela.

Ela subiu na ponta dos pés e o beijou.

Macio. Doce. Língua devagar, corpo colado, curvas pressionando contra ele. A mão livre dela guiou a mão de Jota até o peito descoberto, fazendo ele tocar, sentir a pele quente, o mamilo enrijecido.

[Dentro da mochila, escondido, invisível pra ele, o ímã do Posto Esso começou a brilhar. Fraco no começo. Depois mais forte. Pulsando vermelho-alaranjado, queimando através do tecido.

Mas Jota não viu. Não sentiu. Tava longe demais. Perdido demais.

Não existia mais nada além dela.]

Por cinco segundos completos, Jota esqueceu o próprio nome.

Foi o som que o trouxe de volta. Um estrondo distante. Destroço caindo. Multidão rugindo mais alto. Realidade batendo como soco.

Jota piscou. O mundo voltou de uma vez. Som explodindo nos ouvidos. Luzes cegando. Caos total.

Afastou ela, empurrando de leve, respiração acelerada, confuso.

— Que porra… Cavala, o que você—

Ela sorriu. Daquele jeito. Doce. Inocente. Ajeitou a blusa de volta, cobrindo os peitos devagar, como se nada tivesse acontecido.

— Desculpa. — Passou a mão no cabelo, ajeitando as ondas castanhas. — Achei que você precisava relaxar um pouquinho. Tá tão estressado…

E se afastou, rebolando, sumindo entre a multidão que gritava olhando pro céu.

Jota ficou parado, processando.

Coração acelerado. Culpa queimando no peito. A sensação da pele dela ainda na palma da mão.

O que ele tinha acabado de fazer?

Ninguém viu Shell se mover.

Ninguém viu ele deslizar pelos bastidores, sombra entre sombras, aproveitando a distração total.

Ninguém viu ele entrar na sala de segurança.

Exceto Deco.

Deco tava monitorando os acessos quando a porta se abriu. Virou a cadeira, rápido.

— Leandro? Você não pode—

A lâmina de energia cortou o ar.

Deco tentou gritar, tentou apertar o alarme, mas a lâmina cortou os controles da cadeira primeiro. Faíscas explodiram. A cadeira tombou pro lado. Deco caiu, bateu a cabeça no chão de metal.

O mundo escureceu.

Shell entrou na sala. A esfera de contenção brilhava no centro, suspensa, pulsando com luz azul intensa.

Ele estendeu a mão. A armadura viva dele pulsou, veias de luz correndo pelas placas metálicas.

Tocou a esfera.

Ela reconheceu. Compatível.

Começou a se dissolver, absorvida, entrando nele como água em esponja. O corpo dele brilhou. A armadura cresceu. Camadas sobre camadas. Poder sobre poder.

Três segundos.

Foi tudo que ele precisou.

Quando saiu da sala, o Domínio Absoluto já não estava mais lá.

E Deco jazia no chão, inconsciente, sangue escorrendo da testa.

A LUTA

Rosquinha subiu no palco com o microfone, cabelo espetado com gel brilhante, camisa rosa pink, sorriso escancarado.

— RAPAZIADA! — a voz dele explodiu nos alto-falantes. — Sejam bem-vindos à LUTA PRINCIPAL do Festival de Super-Humanos de Curitiba! — Ele girou no palco, dramático. — De um lado: RAND OLIVEIRA, o técnico fantasma que ninguém nunca vê mas que SEMPRE TÁ LÁ consertando a porra toda! E que, pelo jeito, também salva gente de desabamento nas horas vagas! Do outro: o TITÃ DESTRUIDOR, aquele que NINGUÉM ESPERAVA mas que TODO MUNDO QUER VER!

O oponente de Rand entrou. Um gigante de três metros, pele rochosa cinza-escura, olhos que brilhavam vermelho-fogo. Cada passo dele fazia o palco tremer. A plateia sentiu o impacto nos ossos.

Rosquinha gritou:

— E o PRÊMIO, meus amores? A CHANCE de absorver o DOMÍNIO ABSOLUTO! O poder misterioso que apareceu décadas atrás e que o ITEM ESCOLHE quem pode absorver! Tem que ser compatível! Tem que VENCER! Tem que PROVAR algo! E quem conseguir essa belezura vai virar LENDA!

O gongo tocou.

O gigante atacou primeiro.

Um soco direto que cortou o ar com som de trovão. Rand se jogou pro lado no último segundo. O punho de pedra acertou o chão. O impacto abriu uma cratera do tamanho de um carro. Pedaços de concreto explodiram em todas as direções.

A barreira de força do pai de Jota brilhou intensamente, segurando os destroços antes que atingissem a plateia.

Rand contra-atacou. Girou baixo, chute preciso na lateral do joelho do gigante. O som foi de pedra rachando. Uma fissura fina apareceu na armadura rochosa.

O gigante rugiu. Girou com velocidade impossível pra algo daquele tamanho. Pegou Rand com as duas mãos, ergueu ele acima da cabeça.

E arremessou.

Rand voou pelo ar, sem controle, girando, direto pra barreira de força.

O impacto foi devastador.

A barreira rachou. Um som agudo de vidro quebrando ecoou pela Pedreira inteira. Fissuras se espalharam como teia de aranha. O pai de Jota gritou, punhos brilhando, despejando mais energia, mas a pressão era demais.

Rand caiu no chão, rolou, tentou se levantar. Sangue escorria da boca. Costela quebrada, talvez duas. Respiração curta, dolorosa.

O gigante avançou, passos pesados fazendo o palco inteiro vibrar. Ergueu o punho de pedra, preparando o golpe que esmagaria Rand de uma vez.

Rand rolou pro lado. O punho acertou o chão onde ele estava meio segundo antes. Outra cratera. Mais destroços.

A barreira rachou mais.

O gigante rugiu, frustrado. Girou, varreu o braço num arco largo. Acertou Rand no peito. O som foi de carne e osso contra rocha. Rand voou de novo, bateu numa estrutura metálica, caiu de joelhos, cuspindo sangue.

A plateia gritou. Metade torcendo, metade horrorizados.

Foi quando um bloco de concreto do tamanho de uma geladeira se desprendeu da estrutura rachada e despencou — direto na direção da primeira fileira.

— CUIDADO! — alguém gritou.

Popó não pensou.

Correu. Saltou. Se jogou embaixo do bloco, braços erguidos.

Segurou.

O peso era impossível. Toneladas de concreto e metal reforçado. Os joelhos dele dobraram. Os braços tremeram. Os músculos gritaram.

O som foi de osso estalando.

Popó gritou. Um grito rasgado, visceral, que cortou o barulho da multidão como lâmina. Mas não soltou.

Segurou até outros chegarem. Até ajudarem. Até a galera evacuar.

Só então deixou o bloco cair no chão vazio.

E caiu de joelhos, braço esquerdo pendurado num ângulo errado, osso saindo pela pele, rosto contorcido de dor, suor e lágrimas misturados, mordendo o lábio até sangrar pra não gritar de novo.

O DESPERTAR

Foi quando o ímã na mochila de Jota começou a brilhar.

Não fraco. Não pulsando devagar.

Forte. Urgente. Queimando.

Jota sentiu o calor atravessar o tecido da mochila. Tirou ela das costas, abriu, pegou o caderno marrom. O ímã do Posto Esso brilhava azul intenso, vibrando.

Família em perigo.

Mas dessa vez, algo diferente aconteceu.

Não foi só o ímã. Foi tudo.

Voo. Telecinese. Localização. Três coisas que sempre achou separadas. Três dons diferentes.

Mas quando o ímã pulsou, quando sentiu a família em perigo, tudo vibrou junto. Como se fossem notas da mesma música. Partes do mesmo todo.

Uma coisa só.

Jota fechou os olhos.

E sentiu.

Não foi ver. Não foi ouvir. Foi sentir o espaço. Cada presença. Cada distância. Cada conexão.

Sentir onde tudo estava. Mover-se até lá. Mover o que precisava ser movido.

Controle espacial.

Não eram três dons. Nunca foram.

E o ímã… o ímã nunca foi objeto mágico.

Era ele. Sempre foi ele. Sentindo a família através do espaço. O ímã só reagia. Como termômetro. Como âncora.

Jota abriu os olhos.

Varreu toda a Pedreira com o dom. Sentiu tudo ao mesmo tempo.

Pai reforçando a barreira, energia se esgotando, suor escorrendo. Mãe concentrando luz cegante nos olhos do gigante, mãos tremendo de esforço. Popó no chão, braço despedaçado, mordendo o próprio punho pra não desmaiar de dor. Rand se levantando devagar, costelas quebradas, corpo todo machucado mas olhos ainda determinados.

E sentiu outra coisa.

Deco. Caído. Sozinho. Sala de segurança. Inconsciente. Sangue.

O coração dele gelou.

O ímã tinha brilhado antes. Quando? Durante… durante o beijo. Durante a Cavala.

E ele não tinha sentido nada.

A ESCOLHA

Jota voou.

Mais rápido do que nunca. O espaço ao redor dele respondia como extensão do próprio corpo. Sentiu cada destroço no caminho. Desviou de todos sem olhar.

Chegou na sala de segurança em segundos.

Deco tava no chão, cadeira tombada, sangue escorrendo da testa, olhos semifechados, respiração fraca.

— DECO! — Jota se ajoelhou, ergueu o irmão com telecinese — cuidado que nunca teve antes, precisão que nunca soube que tinha. Colocou ele de volta na cadeira com delicadeza cirúrgica.

Os controles estavam cortados, faíscas ainda saindo dos fios. Jota sentiu os circuitos, os fios, a energia interrompida. Moveu tudo com a mente, religou, ajeitou.

A cadeira ronronou, voltando à vida.

— Shell… — a voz de Deco saiu rouca, fraca, olhos tentando focar. Apontou pro pedestal vazio com a mão tremendo. — Ele… levou…

Jota olhou.

O Domínio Absoluto tinha sumido.

O peito dele apertou. O mundo desacelerou.

Olhou pro irmão no chão, sangue fresco escorrendo. Olhou pro corredor que levava de volta ao palco, onde ouviu outro grito de Popó, onde a luta desabava, onde a barreira rachava mais.

Tinha que escolher.

Perseguir Shell agora. Tentar impedir. Ou voltar pro palco. Salvar o que ainda podia ser salvo.

O ímã brilhou mais forte. Queimou na palma da mão.

Família.

Jota segurou o rosto de Deco, firme, olhou nos olhos dele.

— Aguenta aí. Eu volto.

E voou de volta pro palco.

Porque Shell já tinha ido.

Mas a família ainda tava ali.

Sangrando.

Precisando.

O PREÇO

Jota chegou no momento em que outro bloco se desprendia. Estendeu a mão, telecinese ativada no máximo, segurou o peso no ar, desviou pra área vazia. O bloco caiu longe, explodindo em pedaços inofensivos.

— PAI! Reforça o setor leste!

O pai virou, viu o filho, assentiu. Concentrou energia naquele ponto. A rachadura parou de crescer.

Jota voou até Popó, agachou ao lado dele.

— POPÓ!

— Tá… tá de boa… — Popó ofegava, voz quebrada de dor, rosto pálido como cera. — Ninguém morreu, né?

Jota olhou pro braço do irmão. Osso exposto. Sangue formando poça no chão. Pele rasgada. Mas Popó sorria. Tentava sorrir.

— Não. Ninguém morreu.

Mas o custo tava ali. Sangrando. Quebrado. Destruído.

— Eu… eu salvei eles. — Popó riu, mas o som saiu molhado, sufocado. — Trinta pessoas. Tinha… tinha uma menininha, mano. Não devia ter nem cinco anos. — A voz falhou, lágrimas escorrendo. — Se eu não tivesse segurado…

— Você segurou. — Jota apertou a mão boa do irmão, voz travada.

— Mas e agora? — Os olhos de Popó encheram de lágrimas de novo, medo puro. — Seis meses sem lutar. Talvez nunca mais como antes. Eu… eu ainda sou herói se não posso mais…?

Jota apertou a mão dele com força, quase dolorosa.

— Você sempre foi herói. O braço não muda isso. Nunca vai mudar.

Paramédicos chegaram correndo. Começaram a imobilizar. Popó mordeu o próprio punho pra não gritar quando mexeram no osso.

Jota se levantou, olhou pro palco.

Dona Tude concentrou toda a luz num feixe cegante, direto nos olhos do gigante. Ele recuou, braços cobrindo o rosto, rugindo.

Rand aproveitou.

Se levantou. Corpo todo machucado. Costelas quebradas. Sangue na boca. Mas nos olhos dele, fogo puro.

— Valeu, família.

Correu. Usando os destroços como trampolim. Saltou de um, ricocheteou em outro, ganhou altura, velocidade, momento.

Girou no ar. Corpo inteiro virando arma.

O chute acertou o gigante bem no peito, exatamente onde a primeira fissura tinha aparecido. Exatamente no ponto fraco.

Rand colocou tudo naquele golpe. Cada grama de força. Cada resquício de energia. Cada segundo de treinamento.

O som foi de montanha desabando.

A armadura rochosa explodiu em fragmentos. O gigante caiu de joelhos, olhos apagando como brasas molhadas, corpo desmoronando em cascalho, se desfazendo como escultura de areia sob chuva.

Silêncio.

Três segundos de puro silêncio absoluto.

Depois, a multidão explodiu em gritos, aplausos, choro, euforia.

Rand caiu de joelhos também, exausto, mãos no chão, respirando fundo, sorrindo.

A VITÓRIA AMARGA

Rosquinha subiu no palco, abraçou Rand, o ergueu (com dificuldade, Rand pesava), girou dramático.

— E O VENCEDOR É… RAND OLIVEIRA! — A plateia rugiu como tsunami. — Mas quem REALMENTE ganhou essa noite? — Rosquinha abriu os braços, sorriso imenso, lágrimas escorrendo sem vergonha. — TODOS NÓS! A FAMÍLIA! O AMOR! A CORAGEM! CURITIBAAAA!

A multidão explodiu de novo. Mais forte. Mais alto. Gritos que faziam a Pedreira inteira vibrar.

Mas Jota não conseguia tirar os olhos de duas cenas:

Popó sendo carregado por paramédicos pra ambulância. Braço imobilizado com hastes metálicas atravessando o gesso. Osso coberto mas ainda visível através da pele rasgada. Rosto ainda pálido, ainda contorcido mesmo com analgésico forte, mesmo tentando sorrir, mesmo acenando pra multidão com a mão boa enquanto lágrimas silenciosas escorriam.

E Deco sendo ajudado por outros paramédicos, sangue limpo da testa mas o corte ainda aberto, cadeira funcionando de novo mas ele não tinha saído da sala, só olhava pro pedestal vazio com olhar distante, vazio, processando a falha, a culpa, o ataque.

O ímã na mochila parou de brilhar.

A família tinha sobrevivido.

Mas não tinha saído inteira.

O Vigilante se aproximou, colocou a mão no ombro de Jota.

— Você fez o certo. Salvou o festival. Salvou vidas.

Jota olhou pra ele. A voz saiu rouca, quebrada, quase sussurro.

— Fiz? — Apontou pras ambulâncias com a mão tremendo. — Deco foi atacado e eu não senti o aviso. Eu tava ali. Sendo distraído. E Popó tá com o braço despedaçado. Seis meses sem lutar. Talvez nunca mais com a mesma força. E Shell… — Respirou fundo, voz quebrando completamente. — Shell roubou o Domínio Absoluto enquanto todo mundo olhava pro céu. Enquanto eu… enquanto eu não via mais nada.

O Vigilante apertou o ombro dele, firme, quase doloroso.

— Você escolheu a família. No momento mais importante, quando teve que decidir entre perseguir o vilão ou salvar seus irmãos, você escolheu certo. Isso importa.

Mas Jota não sentiu vitória.

Sentiu o peso do braço despedaçado do Popó. Do sangue na testa do Deco. Da esfera vazia. Do ímã que brilhou e ele não viu. Dos cinco segundos em que o mundo sumiu e só existia ela.

O festival tinha sido salvo.

Mas a que preço?

O QUE FOI DEIXADO PRA TRÁS

O festival terminou. A multidão se dispersou, celebrando, tirando fotos, postando vídeos, vivendo o momento. Mas Jota voltou pros bastidores, usando o dom de novo — agora entendendo, agora consciente, agora sabendo.

Procurou por Shell.

Fechou os olhos. Varreu toda a Pedreira com o controle espacial. Sentiu assinaturas. Milhares delas. Mas procurou uma específica. Armadura viva. Energia distorcida. Poder que não deveria existir.

Encontrou.

Camarote VIP.

Jota subiu as escadas, coração acelerado, dom preparado, pronto pra lutar, pronto pra—

Shell — Leandro Costa — ainda estava lá. Sentado. Mas diferente. Completamente diferente.

Os olhos dele brilhavam com luz que não era natural. Azul intenso, quase branco. A armadura viva pulsava com veias de energia correndo pelas placas metálicas, brilho hipnótico que não existia antes, camadas que cresciam e diminuíam como se respirassem, como se fossem vivas de verdade agora.

E ao lado dele, sentada em outra poltrona, pernas cruzadas, ajeitando o cabelo, olhando pro próprio reflexo no celular—

Cavala.

Jota sentiu a raiva explodir. Pura. Visceral.

— Vocês… vocês estavam juntos o tempo todo.

Cavala olhou pra ele. E pela primeira vez, o rosto dela não tinha aquele sorriso. Tinha confusão. Medo.

— Jota… eu—

— Você me usou. — A voz dele saiu baixa, perigosa. — Me cegou. Fez o mundo sumir. Eu não vi nada, não senti nada, só você, enquanto ele roubava o Domínio, enquanto atacava meu irmão—

— Não! — Cavala se levantou, rápido. — Jota, eu juro, eu não sabia que—

Shell riu. Alto. Cruel. O som ecoou com harmônicos estranhos, múltiplas vozes ao mesmo tempo.

— E você acreditou que era só uma distração inocente. — Ele se levantou, armadura crescendo, camadas sobre camadas brotando. — Obrigado, Cavala. Você foi perfeita. Fez exatamente o que pedi. Distraiu o Jota no momento certo. Cinco segundos. Foi tudo que precisei.

Cavala deu um passo pra trás, olhos arregalados.

— Você… você disse que era só… que o Jota tava estressado demais e você queria evitar confusão. — A voz dela saiu fina, quebrando. — Você disse que era só isso! Me pagou pra fazer o que eu já faria de graça. Eu não sabia que você ia—

— E você acreditou. — Shell deu de ombros, sorriso largo, frio. — Paguei bem. Você fez bem. E não precisava saber pra quê. — Ele olhou pra Jota, olhos brilhando com poder que não existia horas atrás. — Não é culpa dela não entender o jogo.

Cavala olhou pra Jota. Olhos grandes cheios de lágrimas. Culpa, medo e confusão misturados.

— Jota, eu juro por tudo, eu não sabia que ele ia roubar o Domínio. Eu não sabia do Deco. Eu não sabia de nada. Eu achei que era só… só uma brincadeira. Uma distração boba. Pra fazer você relaxar por uns segundos. Eu não… eu nunca…

Shell ergueu a mão. A armadura formou uma lâmina longa, afiada, vibrando com energia pura do Domínio Absoluto.

— Vocês nunca entenderam. — A voz dele ecoava, profunda, múltiplas camadas. — O Domínio Absoluto não era prêmio. Era teste. E eu passei. Eu era compatível. Sempre fui. Sempre soube. Por isso vim. Por isso esperei. Por isso planejei cada segundo.

— Por quê? — A voz de Jota saiu rouca. — Você não precisava. Você já era forte. Você já era—

— Porque forte não basta, Jota. Nunca bastou. — A armadura cresceu mais, preenchendo o espaço. — E agora… agora eu sou mais. Muito mais.

Jota sentiu o espaço ao redor. Preparou o dom. Telecinese pronta pra atacar. Voo pronto pra se mover. Localização sentindo cada movimento.

— Vamos. — Shell puxou Cavala pelo braço.

— Não! — Cavala tentou se soltar. — Leandro, eu não quero—

Jota estendeu a mão, telecinese ativada, tentando puxar ela de volta—

Mas Shell foi mais rápido. A armadura cresceu, envolveu Cavala como casulo.

E os dois simplesmente deixaram de existir ali. Não foi teleporte. Não foi voo. Foi como se tivessem sido apagados da realidade. O ar onde estavam vibrou por três segundos, ondulando, distorcendo, depois voltou ao normal.

Jota tentou localizar. Varreu toda a Pedreira. Toda a cidade. Forçou o dom até doer, até sangrar o nariz.

Nada.

Shell tinha desaparecido completamente. E tinha levado Cavala junto. Contra a vontade dela.

O ímã na mochila brilhou de novo. Fraco. Pulsando devagar.

Mas dessa vez, não era aviso.

Era despedida.

O AMANHECER

Jota foi pro hospital.

Popó tava numa maca, braço engessado do ombro até o pulso, hastes metálicas de titânio atravessando o gesso pra segurar os ossos fragmentados no lugar. Pele ainda pálida. Olhos vermelhos de choro contido, analgésico forte fazendo efeito mas não o suficiente. Cada respiração doía. Cada movimento era agonia.

Mas quando viu Jota, tentou sorrir.

— E aí, mano. Tudo bem?

Jota puxou uma cadeira, sentou ao lado da maca. Segurou a mão boa do irmão. A voz saiu travada, engasgada, quase não saiu.

— Você é um idiota.

— Eu sei. — Popó riu, mas o som saiu molhado, quebrado, sufocado por dor. — Mas ninguém morreu. Valeu a pena, né?

O braço dele tinha três fraturas expostas. Osso que atravessou músculo, tendão, pele. Seis meses sem lutar. Talvez mais. Talvez nunca mais com a mesma força. Os médicos tinham dito: “Ele vai recuperar. Mas nunca será como antes.”

E Popó achava que tinha valido a pena. E sim, tinha válido.

Jota apertou a mão dele, mas não conseguiu falar. Porque se falasse, ia desabar ali mesmo. E precisava ser forte. Pelo menos agora. Pelo menos aqui. Pelo menos pra ele.

— O Rand ganhou? — Popó perguntou, voz fraca, sonolenta, remédio fazendo efeito.

— Ganhou.

— Foda. — Popó fechou os olhos, exausto, corpo finalmente relaxando. — Valeu a pena então. Tudo… valeu a pena.

Jota ficou ali. Segurando a mão do irmão. Vendo ele dormir. Vendo o braço despedaçado suspenso por cabos. Sentindo o peso esmagador de cada escolha.

Mais tarde, voltou pra Pedreira.

Deco ainda tava na sala de segurança, cadeira funcionando perfeitamente, corte na testa limpo e enfaixado. Mas ele não tinha saído. Só olhava pro pedestal vazio. Só olhava.

— Deco…

— Eu vi ele. — A voz saiu baixa, distante, mecânica. — Vi o Shell entrar. Tentei apertar o alarme. Minha mão tava a centímetros do botão. — Olhou pra própria mão, tremendo. — Mas ele foi mais rápido. Cortou os controles. E eu caí. Bati a cabeça. Apaguei. E quando acordei… — A voz falhou completamente. — Quando acordei, já tinha ido. E eu não consegui fazer nada. Nada.

Jota se ajoelhou na frente da cadeira do irmão, segurou os ombros dele.

— Não foi culpa sua.

— Eu tava aqui pra isso. — Deco olhou nos olhos dele, lágrimas escorrendo. — Pra proteger. Pra impedir. Era minha responsabilidade. Minha única responsabilidade. E eu falhei.

— O ímã brilhou. — Jota disse, voz baixa, quebrada. — Quando você foi atacado. Eu… eu devia ter sentido. Mas eu tava… tava distraído. Cego. Não vi nada. Não senti nada. O ímã me avisou e eu… — A voz falhou. — Desculpa. Eu deveria ter percebido. Deveria ter vindo. Deveria ter te protegido.

Deco tocou o rosto dele.

— Você tava aprendendo ainda. — A voz saiu fraca mas firme. — Agora você sabe. Agora entende o dom. Entende o ímã. — Limpou as lágrimas do próprio rosto. — E da próxima vez… da próxima vez a gente vai estar pronto.

Mas “próxima vez” não apagava o agora.

Não apagava a esfera vazia.

Não apagava o sangue.

Não apagava os cinco segundos em que o mundo sumiu.

Satogos encontrou Jota nos bastidores vazios, horas depois do amanhecer. Todo mundo tinha ido embora. Só restavam destroços, palcos desmontados pela metade, luzes apagadas, silêncio pesado.

Ela não disse nada no começo. Só segurou a mão dele. Firme. Quente. Presente.

Ficaram ali. Em silêncio. Até que Jota falou, voz rouca, destruída:

— Tem uma coisa que você precisa saber.

Satogos virou, olhou pra ele.

— O quê?

— A Cavala. — Ele não conseguiu olhar nos olhos dela. — Ela me beijou. Mostrou os peitos. E o mundo… o mundo sumiu, Satogos. Literalmente. Eu não ouvi mais nada. Não vi mais nada. Só ela. Por cinco segundos completos. E quando voltei, ela tinha ido. E foi no momento exato que o Shell roubou o Domínio.

Silêncio.

Satogos soltou a mão dele.

Jota sentiu o peito implodir.

— Satogos, eu—

— Ela tava com ele? — A voz saiu fria, controlada, perigosa.

— Tava. Mas… — Jota hesitou, finalmente olhando pra ela. — Acho que ela não sabia. Quando confrontei os dois, ela pareceu… surpresa. Confusa. Assustada. Shell disse que pagou ela pra me distrair. Ela achou que era só brincadeira. Não sabia do roubo. E ele… ele a levou à força. Eu tentei impedir, mas ele foi mais rápido.

Satogos cruzou os braços. Os olhos verdes brilhavam — raiva, decepção, mas também algo mais complexo. Cálculo.

— A Cavala tem um dom. Foco absoluto. — A voz saiu cortante, explicativa. — Quando ela ativa, você só vê ela. Só sente ela. O resto do mundo literalmente desaparece. Como colocar antolhos num cavalo. Por isso o apelido.

Jota sentiu o estômago revirar.

— Então eu… eu não conseguia ver mais nada? Nem sentir?

— Nada. Zero. — Satogos olhou pra ele, firme, implacável. — O ímã pode ter brilhado. Pessoas podem ter gritado. Não importa. Quando ela ativa o dom, só existe ela. Até você perceber que foi manipulado. Aí queima. Nunca mais funciona. Uma vez por pessoa.

Jota fechou os olhos, processando.

— Ela queimou a carta. Em mim.

— Queimou. — Satogos confirmou. — Na próxima vez que você ver ela, pode olhar direto pros peitos que não vai sentir nada. Os antolhos quebraram.

Silêncio pesado.

Satogos ficou quieta por muito tempo. Olhando pra ele. Processando. Pesando. Decidindo.

Finalmente, ela perguntou, voz mais suave mas ainda fria:

— Você cedeu?

— Eu… — Jota abriu os olhos. — Eu olhei. Eu toquei. Por cinco segundos, o mundo sumiu e eu fiquei ali.

— Mas você foi manipulado. Cegado. Literalmente.

— Fui. — Jota assentiu. — Mas… não sei se isso importa. Eu ainda fiquei. Eu ainda…

Satogos soltou o ar devagar, controlando a raiva, a decepção, a complexidade de tudo.

— Vou te falar uma coisa, Jota. — Ela deu um passo mais perto. — Eu sei que ela te manipulou. Sei que o dom dela é poderoso. Sei que você foi enganado. Sei que Shell usou ela, usou você, usou todo mundo. — Apertou os dedos no braço dele, forte, quase doloroso. — Mas isso não apaga o que aconteceu. Você cedeu. Por cinco segundos, você foi de outra pessoa. E agora a gente vai ter que lidar com isso.

— Eu sei.

— Mas… — Ela respirou fundo. — A Cavala parece que foi idiota. Burra. Inconsequente. Aceitou grana pra usar um dom poderoso sem perguntar por quê. Mas parece que não foi vilã de propósito. Shell usou ela também. Usou todo mundo. Deco. Você. Ela. O festival inteiro. Ele é o inimigo.

Jota assentiu, garganta apertada demais pra falar.

Satogos segurou a mão dele de novo. Mas o toque era diferente. Mais firme. Mais distante. Com peso.

— E quando a gente encontrar Shell de novo… — Os olhos verdes brilharam, perigosos, prometendo violência. — A gente vai fazer ele pagar. Não só pelo roubo. Mas por usar as pessoas como peças de xadrez. Por transformar todo mundo em ferramenta.

Jota apertou a mão dela de volta.

— E a Cavala?

Satogos ficou quieta por um momento.

— Se ela voltar arrependida, livre dele, a gente conversa. Sobre responsabilidade. Sobre consequências. Sobre não usar dons sem pensar. — Os olhos verdes escureceram. — Mas se ela voltar do lado dele, por escolha…

Não precisou terminar.

— Juntos? — Jota perguntou, voz fraca.

Satogos demorou cinco segundos pra responder. Cinco segundos longos, pesados, eternos.

Mas finalmente assentiu.

— Juntos. — Pausa. — Mas você me deve uma. Grande. Gigante.

— Eu sei.

E ficaram ali. Mãos entrelaçadas. Silêncio pesado. Sol nascendo sobre a Pedreira destruída.

Jota guardou o ímã de volta no caderno, fechou a mochila laranja, jogou nas costas. Sentiu o peso. De tudo. Do que salvou. Do que perdeu. Do que fez. Do que permitiu. Dos cinco segundos em que não existiu mais nada.

Olhou pro Gol Bolinha Cinza Urban estacionado ali, fiel, esperando. Pro tênis surrado com o cadarço finalmente amarrado — aquele maldito cadarço que tinha salvado tudo ao soltar na hora certa. Pro isqueiro amarelo no bolso que nunca acendeu cigarro nenhum mas continuava ali, âncora, lembrança, promessa.

O sol nasceu completamente sobre a Pedreira do Orleans, tingindo os palcos flutuantes desmontados de dourado e laranja.

O festival tinha acabado.

A família tinha sobrevivido.

Mas o preço tinha sido brutal.

Em sangue. Em osso. Em culpa. Em escolhas impossíveis. Em cinco segundos de cegueira total.

Algo maior, algo perigoso, algo inevitável tinha começado.

O Domínio Absoluto estava solto no mundo.

E Leandro Costa, Shell, tinha se tornado outra coisa. Algo que nem mesmo as lendas sabiam como parar. Algo que podia apagar pessoas da realidade. Algo que usava todos como peças.

Mas Jota tinha descoberto algo também.

Seus dons nunca foram três coisas separadas. Eram um só. Controle espacial. Sentir, mover, atravessar o espaço. Conectar-se com quem ama através da distância.

E o ímã nunca foi mágico. Era só ele aprendendo a ser quem sempre foi.

E agora sabia: o dom de Cavala não funcionava mais nele. Os antolhos tinham quebrado. Ela tinha queimado a carta. Uma vez por pessoa. Nunca mais.

Na próxima vez que encontrasse Shell, ia estar pronto.

Ou pelo menos mais pronto do que hoje.

Porque hoje… hoje ele tinha escolhido.

E mesmo doendo, mesmo custando tudo, mesmo deixando cicatrizes que nunca iam fechar completamente—

Tinha sido a escolha certa.

Família. Sempre família.

Satogos apertou a mão dele com mais força.

— A gente vai encontrar ele. E quando encontrar…

— Ele vai pagar. — Jota completou.

E enquanto tivesse família, página em branco no caderno marrom, estrada pra percorrer no Gol Bolinha Cinza, espaço pra atravessar, e alguém pra lutar ao lado…

A história continuava.

Mesmo machucada.

Mesmo quebrada.

Mesmo sangrando.

Mesmo carregando o peso de cinco segundos em que o mundo sumiu.

Continuava.

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Sinopse Narrativa:

Maior festival de super-humanos na Pedreira do Orleans. Lutador principal russo sumiu, Rand Oliveira (disfarçado de técnico) era plano B. Durante entrada triunfal com Homem de Capa, Cavala distrai Jota com beijo e seios expostos (dom "foco absoluto" - faz mundo desaparecer por 5 segundos). Shell/Leandro rouba Domínio Absoluto, ataca Deco. Rand vence gigante em luta brutal. Popó quebra braço salvando 30 pessoas. Jota descobre que seus três dons (voo, telecinese, localização) são um só: controle espacial. Ímã não é mágico, é reação ao dom dele sentindo família. Shell revela ter planejado tudo, leva Cavala à força. Satogos perdoa Jota mas ele "deve uma".

Gênero Ficção Científica, Super-heróis
Tom Épico, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Despertar de Poderes, Normal, Poderes
Categoria Eventos Místicos, Festival, Traição
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Descoberta de poder verdadeiro, Sacrifício familiar, Traição planejada
Locais Curitiba, hospital, Linha Verde, Pedreira do Orleans
Palavras-Chave Cavala distrai, controle espacial, Deco atacado, Domínio Absoluto roubado, festival super-humanos, Popó braço quebrado, Shell/Leandro, traição planejada
Festival tinha milhares de super-humanos, arquibancadas suspensas por campos de energia, palcos flutuantes, prêmio: chance de absorver Domínio Absoluto (item que escolhe quem pode absorver, tem que ser compatível, tem que vencer, tem que provar algo), Domínio Absoluto absorvido uma vez em 1987 em São Paulo, cara virou lenda e desapareceu, item voltou, Jota tem controle espacial (voo + telecinese + localização = um dom só de sentir/mover/atravessar espaço), dom de Cavala "foco absoluto" faz mundo desaparecer, só funciona uma vez por pessoa, depois queima, Shell pode apagar pessoas da realidade, Popó: 3 fraturas expostas, osso atravessou músculo/tendão/pele, 6 meses sem lutar, talvez nunca mais com mesma força, tablet mencionado, Jota sempre soube onde as coisas estão mesmo sem ver
 

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