Capa do Capítulo

Quando o Cadarço Solta

Extensão: 1.492 palavras | Leitura: 8 min

Faça login para acompanhar.

Geraldo, o Jota, estacionou o Gol Bolinha Cinza Urban 2003 quase em cima da placa torta da Padre Germano Mayer, uns vinte metros do 745. Quinta-feira, Curitiba derretendo, céu roxo de chuva grossa prometendo desastre. Ele desceu, travou a porta com a chave, jogou a mochila laranja no ombro e entrou na Energy: 2.500 metros, 20×100 descendo de 1’40 pra 1’25. Treino filho da puta, daqueles que deixam o pulmão pegando fogo e o braço parecendo chumbo.

Saiu duas horas, cabelo pingando, camiseta regata vinho grudada no peito de nadador, mochila nas costas pesando com o caderno de capa dura marrom encharcado de anotações e o isqueiro amarelo “o sobrevivente” no fundo.

A chuva desabava.

Grossa, barulhenta, virando a Germano Mayer numa cachoeira de asfalto. Jota saiu correndo, tênis surrado batendo no chão molhado, dedão do pé esquerdo sentindo o frio entrar pelo buraco, mochila chacoalhando nas costas. Teve que parar no ponto de ônibus em frente ao PL, pois a chuva estava descontrolada.

Foi quando reparou no cadarço direito solto.

Agachou, xingando baixo, amarrando o cadarço pela terceira vez no dia. E foi ali, de cócoras na entrada do PL, que ele viu.

Little Boobs.

Sozinha embaixo da marquise do PL, alguns metros à frente. Baixinha, um e cinquenta e cinco de pura destruição: cabelo ruivo longo e liso caindo até a cintura, blusinha preta de renda transparente que mal segurava os peitos grandes desafiando a gravidade, short jeans desfiado mostrando as coxas grossas tatuadas. Ela olhava pro celular com aquela cara de quem espera alguém que nunca aparece.

Três meses de vácuo pesado. Três meses de “viu” sem resposta, de stories dela no shopping e ele curtindo, de “oi, tudo bem?” ignorado como se fosse spam.

Jota terminou de amarrar o cadarço, levantou devagar, respirou fundo e enfrentou a chuva até a marquise.

— Little?

Ela levantou o rosto. Olhos grandes, sobrancelha arqueada, aquele sorriso de canto que derrubava qualquer um.

— Jota… nossa, é mesmo? Tu nada aqui perto?

— Sim, acabei o treino. E tu?

Ela guardou o celular no bolso traseiro do short, mordeu o lábio inferior.

— Esperando o Rosquinha. Ele jurou de pé junto que vinha me encontrar pra almoçar e ainda não apareceu. Combinou aqui no PL. E tô aqui plantada feito idiota.

Jota olhou em volta. Rua vazia, chuva castigando, nenhum sinal do Rosquinha. Armação nível Rosquinha.

— Deve ser a chuva. Vamos entrar no PL? Pelo menos tá seco.

Ela hesitou, mas a chuva apertou mais ainda. Entraram juntos.

O PL estava no clima perfeito: música raiz no som, cheiro de conhaque barato e pastel frito, sinuca rolando no canto, uns caras gritando “tira a mão da branca, porra!”. Só o dono no balcão, bigode branco, camisa do Coxa 85, servindo dose em copo americano.

Jota pediu Coca gelada. Little pediu uma dose de cachaça.

— Caramba, Little! Tá que tá?

— Pois é. Dia estranho. Agora estou sendo esquecida em um bar por um gay.

Ela deu o trago de uma vez, limpou a boca com as costas da mão, riu sozinha. Jota encostou no balcão do lado dela, sentindo o perfume doce dela misturado com chuva.

A galera da sinuca começou a sair. A chuva não parecia que ia embora. Trovão explodiu lá fora. Em quinze minutos o bar esvaziou: só uma música qualquer, a chuva no telhado de zinco e eles dois.

Voltaram para a marquise. Little procurou um cigarro. Puxou o maço do short, colocou na boca, tateou o corpo atrás de um isqueiro e não achou.

— Caralho, esqueci o isqueiro em casa.

Jota enfiou a mão na mochila laranja, revirou o caderno de capa dura marrom, os papéis soltos, até achar o isqueiro amarelo no fundo. O sobrevivente. Sempre ali, sempre funcionando, mesmo Jota não fumando nunca.

Ele acendeu na primeira. Chama firme, quente. Little puxou a fumaça, soprou de lado, olhou pra ele com aqueles olhos que faziam o mundo de Jota parar.

— Valeu, nadador.

— De nada, pequena.

Ela deu mais um trago, apoiou o cotovelo na parede, virou de frente pra ele.

— Jota, por que tu insiste? Sério. Três meses de “oi”, de “bom dia”, de curtida em story. Eu ignoro, tu volta. Eu sumo, tu aparece. Por quê?

Ele respirou fundo, largou a Coca no chão, olhou direto nos olhos dela.

— Bem, hoje foi coincidência e pensei que por que não, quando te vi. Mas a verdade é que eu gosto de você pra caralho, Little. E mesmo não respondendo, dando um certo ar que está fugindo de mim. Eu vejo teu story de cabelo solto, vejo teu close no espelho, vejo quando tu posta música triste de madrugada. Sim, fico te stalkeando. Mesmo você correndo de mim.

Ela ficou quieta. Mordeu o canto da boca, deu mais um trago, apagou o cigarro no chão.

— Eu corro porque eu sei que não dará certo, Jota.

— Por quê?

— Porque tu é diferente demais, braço grosso, gordo, mostra interesse, não tem tatuagem, me respeita. E eu sou… baixinha. Tatuagem demais. Peito demais. Tu vai acabar trocando por uma dessas por aí. E eu prefiro nem começar.

Jota deu um passo à frente. Tão perto que ela teve que levantar o rosto pra olhar pra ele.

— Tu é a mulher mais gostosa que eu já vi na vida, Little. Não é papo. Não é tática. É verdade. Teu cabelo ruivo, teu corpo, teus olhos, tua boca e suas tatuagens. Eu não trocaria. Nunca trocaria. Para de fugir.

Ela ficou quieta, mordendo o canto da boca. Depois pegou a bolsa que tava pendurada no ombro.

— Tá bom, Jota. Belo discurso. Mas o Rosquinha não vem e eu tenho mais o que fazer.

Ela começou a sair, mas Jota deu um passo à frente, bloqueando a passagem sem encostar nela.

— Little, espera. Eu não tô falando do teu corpo. Bem, não só do seu corpo. Tô falando que eu sinto tua falta até quando tô nadando e não consigo respirar direito. Três meses te evitando na rua, mas te stalkeando. Três meses curtindo stories e fotos e mentindo para mim mesmo. E agora tu tá aqui, na minha frente, e eu não vou deixar você sair sem pelo menos dizer que tentei.

Ela parou. Largou a bolsa de volta no ombro. Respirou fundo, puxou ele pela camiseta regata vinho suada.

— Tu tá não está fedendo a cloro hoje, nadador.

— E teu cheiro é sempre gostoso, pequena.

Ela subiu na ponta dos pés, mão no peito dele, e meteu a boca. Beijo quente, lento, língua, gosto de cachaça e cigarro misturados, mão dela no cabelo dele, mão dele na cintura dela. O música sumiu, a chuva sumiu, o PL inteiro sumiu.

Quando separaram, ela riu contra a boca dele.

— Me leva embora?

— Gol Bolinha tá ali.

— Então anda logo antes que o Rosquinha apareça e estrague tudo.

Jota pagou as bebidas, jogou a mochila laranja no ombro, pegou a mão dela e saíram na chuva fina que já dava trégua.

O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 tava lá, fiel, banco do motorista afundado pelos cento e dez quilos, sem ar-condicionado, sem direção hidráulica, sem som, mas com cheiro de etanol velho e história.

Ele abriu a porta pra ela, Little entrou e sentou no banco do carona que nunca tinha recebido tanta benção. Jota entrou do outro lado, ligou o carro na primeira (mesmo com o motor frio e a chuva), ajeitou o cinto de segurança e olhou pra ela.

— Pra onde?

— Qualquer lugar. Só dirige.

Ele engatou a primeira, soltou a embreagem, e o Gol Bolinha saiu devagar pela Germano Mayer.

Foi quando o celular dela apitou.

Mensagem do Rosquinha no grupo:

“Missão cumprida, seus otários. Devem-me conhaque e pastel até 2030. O resto é com eles.”

Little leu, riu alto, mostrou a tela pro Jota.

— Filho da puta genial.

— Sempre foi.

Ela jogou o celular no porta-luvas, encostou a cabeça no vidro, olhou pro Jota de canto.

— E agora?

— Agora a gente vai na sua casa. Depois a gente vê.

— Ver o quê?

— Se tu vai continuar fugindo ou se vai parar de ser teimosa.

Ela riu, esticou a mão, pegou a mão dele no câmbio.

— Acho que vou parar.

O Gol Bolinha seguiu pela Germano Mayer, chuva parando, sol tentando furar as nuvens, vidro elétrico dianteiro descendo devagar. Jota de camiseta regata vinho, braço pra fora, Little do lado com o cabelo ruivo voando, sorriso no rosto.

O Gol Bolinha virou à esquerda, sumiu na curva.

E o isqueiro amarelo “o sobrevivente”, jogado no fundo da mochila laranja, continuou vivo.

Porque ele sempre sobrevive.

Sempre.

Faça login para acompanhar.

Sinopse Narrativa:

Quinta-feira em Curitiba, céu roxo de chuva. Jota nada na Energy (2.500m, 20x100). Sai encharcado, chuva desaba. Para no ponto pra amarrar cadarço direito solto. Vê Little Boobs sozinha esperando Rosquinha que não aparece. Três meses de vácuo. Conversam, entram no PL. Bar esvazia. Voltam pra marquise. Jota acende cigarro dela com isqueiro amarelo. Ela pergunta por que ele insiste. Ele declara que gosta dela pra caralho. Ela diz que foge porque sabe que não dá certo. Ele diz que ela é mulher mais gostosa que já viu. Ela puxa ele e beijam. Vão pro Gol. Mensagem de Rosquinha revela armação genial. Vão pra casa dela.

Gênero Romance, Slice of Life
Tom Esperançoso, Romântico
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Conquista, Romance
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Armação de amigo, Persistência recompensada, Vulnerabilidade mútua
Locais academia de natação, balcão, casa da Little, Energy, marquise, Padre Germano Mayer, pagode raiz, PL. bar, ponto de ônibus, Rua, sinuca, telhado zinco
Palavras-Chave beijo, cachaça, cadarço solto, cloro, Energy (natação), isqueiro amarelo, Little Boobs, Padre Germano Mayer, pagode raiz, PL (bar), Rosquinha (armação), três meses de vácuo
Quinta-feira, Curitiba derretendo, céu roxo de chuva grossa. Treino: 2.500m, 20x100 descendo de 1'40 pra 1'25. Jota: 110kg, cabelo pingando, peito de nadador. Três meses de vácuo pesado: "viu" sem resposta, stories curtidos, "oi tudo bem?" ignorado como spam. PL: pagode raiz, cheiro conhaque barato e pastel frito, sinuca, caras gritando "tira mão da branca porra", dono com bigode branco camisa Coxa 85 servindo dose em copo americano. Jota pede Coca gelada, Little pede dose de cachaça. Bar esvazia em 15 minutos após trovão: chuva no telhado zinco e eles dois. Little: maço de cigarro do short, procura isqueiro e não acha. Jota não fuma nunca mas isqueiro sempre ali sempre funcionando. Beijo: quente lento língua, gosto cachaça e cigarro misturados, mão dela no cabelo dele, dele na cintura dela, pagode/chuva/PL somem. Rosquinha: armação genial, mensagem no grupo "Missão cumprida seus otários. Devem-me conhaque e pastel até 2030. O resto é com eles." Little joga celular no porta-luvas.
 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PRIVACIDADE E COOKIES

Para que sua jornada por estes contos seja completa, usamos cookies para entender como você navega por aqui. Podemos seguir com a leitura?

Saiba mais.