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Quatro Cachorros e uma Fuga

Extensão: 1.836 palavras | Leitura: 10 min

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A casa que Popó alugou pra virar centro de treinamento parecia grande demais para a quantidade de móveis e pequena demais para quatro cachorros circulando entre as pernas da gente. Paredes brancas descascando, cheiro de ração misturado com madeira úmida, pelo molhado de cachorro que tomou banho e secou mal. Ar parado de lugar que não abre janela há dias. Suor velho grudado nas paredes.

Jota estava encostado no batente da porta da cozinha, mochila jogada no chão ao lado, caderno aberto na mão esquerda. Tinha acabado de anotar algo quando fechou o caderno com um estalo seco e enfiou de volta na mochila.

No bolso da calça pegou o isqueiro amarelo e girou entre os dedos. Acende. Apaga. Acende. Apaga. O tic atacou de repente — involuntário, físico, estranho. Jota franziu a testa. Nunca tinha sentido aquilo antes. Como se o corpo soubesse de algo que a cabeça ainda não tinha percebido.

Popó estava no centro da sala, agachado, voz baixa e firme como professor de ioga que acabou de descobrir o segredo da existência. Os cachorros obedeciam cada gesto dele como se fosse lei divina. Senta. Deita. Fica. Um dogue alemão preto, puro músculo e sombra, grudava os olhos nele com devoção absoluta. Os outros três — um schnauzer grisalho de barba dura, um golden retriever dourado de pelagem brilhante e um vira-lata caramelo — circulavam perto, atentos, esperando a vez.

Jota observava de longe, braços cruzados, camiseta colada no corpo de suor. Popó deu o último comando:

— Agora relaxem. Deitem. Quietos.

Os quatro cachorros obedeceram. O dogue alemão deitou ao lado de Popó, focado. Os outros três se espalharam pela sala, farejando o chão com aquele barulho molhado de focinho colado na madeira.

E então Popó fechou os olhos.

Respiração lenta. Profunda. Ritmada. Como se tivesse desligado do mundo. Entrou num estado diferente — zen total, ausente, imerso em algo que Jota não conseguia nomear. Raro pra ele, irmão mais novo que sempre foi o apressado. Mas ali, de olhos fechados entre os cachorros, parecia em transe completo.

Jota, normalmente o paciente dos dois, o que esperava as coisas acontecerem, sentia algo diferente. Uma urgência estranha. Quase física.

E a necessidade de sair dali naquele momento, mais do que nunca, aumentava a cada segundo.

Não sabia bem por quê. Só sabia. Como se a casa não fosse só uma casa mas um lugar do qual ele precisava escapar antes que algo acontecesse. Ou antes que nada acontecesse, o que às vezes era pior.

Respirou fundo, soltou o isqueiro no bolso e deu um passo à frente.

Os três cachorros menores — vira-lata, schnauzer e golden — estavam soltos, ociosos, farejando o chão. O dogue alemão continuava ao lado de Popó, imóvel.

— Aqui.

A voz saiu mais cortante do que pretendia. O vira-lata caramelo olhou pra ele. O schnauzer continuou farejando a quina da parede. O golden retriever olhou pra Popó, depois pra Jota, indeciso.

— Aqui. Senta.

Dois obedeceram. O golden hesitou, orelhas pra trás, rabo meio solto, claramente pensando “esse aí não convence ninguém”. Jota estralou os dedos, repetiu o comando com mais firmeza. O bicho sentou. Meia obediência já servia.

Ele acelerou. Fica. Deita. Vem. Os três respondiam com atraso, mas respondiam. Popó continuava de olhos fechados, imerso no próprio mundo, respiração profunda e ritmada. Jota aproveitou.

Deu um passo pra trás. Outro. Virou e correu.

O corredor era mais longo do que parecia. Seus tênis surrados batiam no piso frio com som abafado — tum-tum-tum-tum — cadarço direito solto balançando a cada passada. Dedão esquerdo aparecendo pelo buraco gasto, frio entrando direto na pele como agulha. A mochila pulava nas costas, batendo nas omoplatas.

O primeiro latido veio imediato.

O dogue alemão. Claro. O primeiro treinado, o melhor, o mais leal. O transe de Popó quebrou com o som — Jota ouviu a respiração do irmão falhar, confusa, como quem acorda assustado. Patas pesadas esmagaram o chão — TAC-TAC-TAC-TAC — unhas arranhando o piso de madeira. Jota não olhou pra trás. Atravessou a sala, empurrou a porta dos fundos com o ombro e disparou pro quintal.

O ar gelado de Curitiba entrou queimando nos pulmões. Gosto de ferro na boca. O quintal era grande, cercado por muro alto coberto de hera, portão de ferro trancado do outro lado. Pilhas de caixas velhas encostadas na parede, um tanque de água enferrujado no canto, três metros acima do chão, sustentado por estrutura de ferro que parecia ter sobrevivido a duas guerras mundiais.

Jota correu direto pra lá.

Subiu nas caixas — madeira podre cedendo embaixo do peso — agarrou a borda do tanque, puxou o corpo com força. 110 quilos não sobem fácil, mas adrenalina ajuda. Conseguiu. Ficou ali em cima, ofegante, suado, regata encharcada grudando na pele como segunda camada, alças da mochila torcidas nas costas.

Embaixo, o dogue alemão parou. Latiu uma vez, seco, preciso. Logo os outros três aparecem: o vira-lata caramelo chega correndo como se tivesse acabado de lembrar que tinha trabalho a fazer, o schnauzer vem trotando com barba tremendo, e o golden retriever chega por último, língua de fora, quase desculpando-se por existir.

Cercam o tanque. Rosnados baixos. Bafo quente de cachorro subindo até Jota, cheiro de ração e saliva.

Jota fica ali em cima, tentando pensar no próximo movimento.

E então um gato cinza atravessa o quintal.

Os quatro cachorros viram ao mesmo tempo, como se fossem um só organismo. Instinto sobrepõe treinamento. O dogue alemão dispara primeiro, seguido pelos outros três. Latidos se misturam com miados desesperados. O gato sobe na cerca do vizinho em dois pulos e desaparece. Os cachorros ficam embaixo, latindo pro nada, frustrados, esquecidos de Jota.

Ele desce rápido pelo lado oposto do tanque enquanto os quatro ainda latem pra cerca do vizinho. Pés no chão silencioso. A mochila quase escapa do ombro, ele ajusta. Olha pro portão de ferro. Trancado. Mas tem uma brecha na cerca, do lado esquerdo, onde a madeira apodreceu e deixou espaço suficiente pra um corpo grande passar se tiver vontade.

Jota tem vontade.

Corre. Quinze metros. Dez. Cinco metros.

O dogue alemão percebe. Late. Os outros viram. Vêm atrás dele.

Jota enfia o corpo na brecha da cerca. Madeira podre arranhando a regata vinho, farpas entrando na pele — dor fina, aguda. A mochila prende na tábua torta.

Ele puxa.

Não sai.

Puxa de novo. O zíper range. Prende. Não abre.

Jota olha pra mochila. Pra cerca. Pro dogue alemão a cinco metros, vindo.

Hesita.

Um segundo.

Dois.

Mochila. Isqueiro. Caderno.

Vida.

Escolhe.

Solta a alça. Se joga pro outro lado.

A madeira podre cede com o impulso. Tábuas quebram, desmoronam — CRAC — fechando a brecha atrás dele. Pó de madeira sobe no ar.

Cai na calçada. Joelhos no cimento — dor explodindo nas rótulas. Levanta. Corre.

A rua está vazia. O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 está estacionado ali perto, duas portas, sem ar, sem direção hidráulica, sem som, mas é dele e está ali esperando como sempre esperou.

Jota corre. Pés batendo no asfalto. Os cachorros latem do outro lado da cerca agora fechada, tentando achar outra saída, frustrados e confusos.

Dez metros pro carro.

Oito.

Cinco metros.

E então o cadarço direito do tênis surrado solta.

Não desata. Solta. Como se uma mão invisível tivesse puxado. O tênis afrouxa no pé direito, Jota sente, perde o equilíbrio, tropeça, cai de joelhos de novo, mãos no chão.

E nesse exato segundo, o portão de ferro da casa se abre sozinho.

Um clique metálico. Rangido. A fechadura cede como se algo invisível tivesse forçado.

O dogue alemão sai primeiro, olhos fixos à frente, pupilas dilatadas — vidradas em algo que Jota não consegue ver. Passa reto por ele, a menos de dois metros, sem farejar, sem rosnar, como se Jota não existisse. Os outros três vêm atrás, mesma expressão vazia, mesma corrida cega. Seguem rua abaixo, perseguindo um fantasma que só eles veem.

Jota fica ali, de joelhos no asfalto, coração disparado, olhando os quatro cachorros desaparecerem na curva da rua.

O cadarço direito pende solto. Dedão esquerdo aparecendo pelo buraco do tênis. Regata vinho rasgada na lateral, sangue seco nas farpas. Joelhos ralados. Sem mochila, sem caderno, só o isqueiro amarelo no bolso.

Ele levanta devagar. Caminha até o Gol Bolinha. Abre a porta com a chave. Senta no banco do motorista, afundado pelos 110 quilos de sempre. O cheiro de etanol velho e estofado gasto recebe ele como abraço de casa.

Olha pelo retrovisor.

Popó aparece na porta da casa, mãos nos quadris, olhando pra rua vazia onde os cachorros sumiram. Balança a cabeça devagar, confuso, ainda tentando entender o que aconteceu. Vira e corre de volta pra dentro — buscar as chaves do carro, provavelmente.

Jota olha pro banco de trás.

Vazio.

Sem mochila. Sem caderno marrom. Sem nada que prove que ele esteve ali.

A ausência pesa mais que o peso.

Ele espera. Três minutos. Cinco.

Popó não volta ainda.

Jota desce do Gol. Atravessa a rua. Devagar. Coração ainda batendo errado. De olho na porta da casa.

A cerca ainda tem a brecha. A mochila laranja ainda tá presa na madeira torta, pendurada como bandeira de rendição.

Jota enfia o braço. Pega a alça. Puxa devagar, com cuidado. Madeira range, mas cede. A mochila sai.

Ele abre.

Caderno marrom lá dentro, amassado, página dobrada. Camiseta regata vinho extra, limpa, dobrada, sem rasgo.

Tudo ali. Intacto. Como se nunca tivesse ficado presa. Como se a que ele veste, rasgada e suja de sangue, não existisse.

Jota fica parado, segurando a mochila aberta, olhando pro caderno que deveria ter caído, pra camiseta que não deveria estar inteira. O isqueiro amarelo pesa no bolso da calça, quente contra a perna, lembrando que sempre esteve ali.

Fecha a mochila devagar. Coloca no ombro.

Peso familiar. Peso necessário.

Volta pro Gol. Entra. Mochila no banco de trás, onde sempre fica.

Liga o carro.

Popó sai correndo de dentro de casa, chaves na mão, desesperado, olhando pra todos os lados.

Jota toca a buzina duas vezes — bi-bi — seca, precisa. Popó vira. Jota aponta vigorosamente pro final da rua, onde os cachorros sumiram.

Popó entende. Acena rápido, corre na direção indicada.

Jota engata a primeira. O volante duro resiste, mas ele força. O Gol Bolinha sai devagar, direção oposta.

Ele respira fundo.

Às vezes, fugir é a única forma de sair do lugar.

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Sinopse Narrativa:

Jota está em casa alugada por Popó para centro de treinamento de cachorros. Enquanto Popó entra em transe meditativo profundo, Jota sente urgência inexplicável de fugir. Escapa sendo perseguido pelos quatro cachorros, perde a mochila presa na cerca. O portão se abre sozinho, os cães o ignoram e perseguem algo invisível. Ao recuperar a mochila, encontra camiseta intacta quando a que veste está rasgada.

Gênero Realismo Mágico
Tom Onírico, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Eventos Místicos, Fuga
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Duplicação de objetos, Eventos místicos, Urgência inexplicável
Locais Casa alugada, centro de treinamento, quintal, rua em Curitiba
Palavras-Chave família em perigo, fuga urgente, ímã brilhante, mochila presa, pai desaparece, Popó, portal místico, treinamento de cães
Tic novo e involuntário (acender/apagar isqueiro), portão de ferro abre sozinho, cachorros perseguem algo invisível ignorando Jota, paradoxo da camiseta (rasgada no corpo vs intacta na mochila), cadarço solta "como se mão invisível tivesse puxado", 110 quilos de Jota mencionado
 

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