A madrugada em Curitiba era fria como sempre. O ventilador de teto girava devagar, zumbido baixo preenchendo o silêncio do quarto. Jota estava sentado na cama, camiseta regata vinho grudada no corpo de suor frio, pés descalços no chão gelado. O coração ainda batia rápido, como se tivesse corrido todas as noites de uma vez só.
Ele olhou pro tênis surrado largado ao lado da cama. Cadarço direito solto, como sempre. Dedão aparecendo pelo buraco. Sola quase solta, mas nunca caindo de vez.
Levantou devagar, foi até a mochila laranja encostada na parede. Abriu o zíper. Dentro: a camiseta regata vinho reserva, o isqueiro amarelo “o sobrevivente” no bolso lateral, e o caderno de capa dura marrom.
Pegou o caderno com as duas mãos. O ímã cinza fosco do Posto Esso estava preso na capa, beiradas descascando, logo quase apagado.
Voltou pra cama. Sentou. Abriu o caderno.
No começo tinha sido só um. Um sonho anotado numa madrugada qualquer, só pra não esquecer. Depois virou costume. Dois, três, dez. Passou de cinquenta sem perceber. Quando olhou de novo, eram mais de trezentos. E não paravam.
Toda noite tinha mais um esperando.
Jota deixou o caderno abrir sozinho. A página caiu em algum lugar do meio. Ele leu.
Rosquinha no volante, drogado, rindo daquele jeito dele que fazia todo mundo rir junto até perceber que o carro tava acelerando demais na curva. Purpurina gay explodindo no ar como confete de funeral. Anjo da guarda quebrado no banco de trás, asas tortas. Rand observando tudo do retrovisor, sempre observando, como se já soubesse o final antes do começo. Morte à espreita.
Escolha errada no volante da vida. Decisão que mata devagar.
Deixou as páginas correrem sob o polegar. Parou.
Flutuando sobre Curitiba de madrugada, pés descalços cortando o ar gelado. A cidade lá embaixo, luzes amarelas, silêncio. Satogos Cruel na margem do lago, olhos verdes fixos nele, sem dizer sim nem não, só esperando como sempre esperava. Little Boobs do lado dela, sorriso que prometia tudo e nada ao mesmo tempo.
Naquela, liberdade pura. Poder sem peso. Voar e não precisar voltar.
Recuou no tempo do caderno. Parou em outra.
Lagartas metálicas. Multiplicando. Entrando nele. Colmeia interna zumbindo nos ossos.
Horror que não sai mais.
Avançou rápido.
Deserto vermelho. Duas Taurus. Dez tiros cada. Billy The Kid no horizonte, figura sem rosto, só chapéu e poeira. Isqueiro amarelo destravando a arma travada.
Ali era vingança. O momento de virar pra enfrentar.
O caderno escolheu outra página.
Ceia de Natal. Seu Binho autoritário na cabeceira, voz grossa enchendo a sala há décadas. Fazer alguém passar por louco, coletivo. E então, finalmente, todo mundo falando. Gritando. Chorando. O velho derrotado em silêncio.
O dia em que ninguém mais engoliu.
Voltou sem pensar.
Casa invadida de madrugada. Tapete persa da mãe roubado. Corrida descalça no asfalto frio. Solas sangrando.
Proteção do sagrado. Pequenas vitórias suadas.
A página seguinte.
Fortaleza gelada. Heróis hibernando. O Homem que Voa corrompido. Parasita dentro da capa. Isqueiro queimando o tecido vivo que gritava sem voz.
Mostrando que até os deuses apodrecem.
Pulou para trás. Última página que leu naquela madrugada.
Inventário do pai no fórum. Juiz chorando ao assinar, lembrando da dívida antiga. Carta não enviada sobre o Maninho entregue finalmente. Cura. Fechamento.
O perdão que demora décadas. Mas chega.
Jota fechou o caderno devagar.
Ficou olhando pra capa. Pro ímã velho do Posto Esso. Pras beiradas descascando.
Naquelas páginas, naquele momento, ele tinha visto algo.
Cada história tentando passar uma coisa diferente. Liberdade. Vingança. Redenção. Horror. Cura. Traição. Perda.
Mas no fundo, todas tentavam passar a mesma coisa:
Alguém precisava ficar de pé.
E esse alguém sempre era ele.
Jota respirou fundo. O ar entrou gelado, queimando a garganta.
Guardou o caderno de volta na mochila laranja. Fechou o zíper. Sentiu o peso do isqueiro amarelo no bolso da calça, mas não tirou.
Levantou. Foi até a janela. Abriu.
Curitiba lá embaixo, madrugada silenciosa, luzes amarelas dos postes iluminando a rua vazia. O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava estacionado ali, duas portas, vidro dianteiro embaçado de frio. Banco do motorista afundado.
Ele olhou pro carro por um tempo longo.
Depois fechou a janela.
Voltou pra cama. Deitou de lado, olhando pro teto, ventilador girando, zumbido constante.
Não dormiu.
Não tentou.
Só ficou ali, olhos abertos, respiração lenta, coração voltando ao ritmo normal.
Esperando.
A próxima história já estava batendo na porta.
