O galpão abandonado da Pedreira do Orleans cheirava a ferrugem e concreto velho. Paredes de tijolo à vista, teto de zinco furado deixando entrar a luz cinza da tarde, chão de cimento rachado coberto de poeira e folhas secas. Tinha sido depósito de alguma coisa anos atrás, mas agora era só ruína esquecida no fim da estrada de terra.
Rosquinha estava sentado num caixote de madeira virado, mãos nos joelhos, olhando pra baixo. Tinha 45 anos, baixinho, gordinho, bastante cabelo com alguns brancos aparecendo nas laterais, especialmente nas têmporas. Barba cheia com bigode de guidão, braços peludos, camisa xadrez vermelha e branca.
Jota estava encostado na parede do fundo, mochila laranja jogada no chão ao lado, camiseta regata vinho grudada no corpo com o calor da tarde. Tênis surrado, cadarço direito solto arrastando no chão. Não falava nada. Só ficava ali, presença silenciosa, braços cruzados, olhando pro amigo.
Do outro lado do galpão, perto da porta aberta, Leandro Costa terminava de ajustar a peruca loira que descia até os ombros. A drag estava completa: vestido azul justo marcando cada curva fabricada, salto prateado alto, maquiagem pesada com delineado perfeito, batom vermelho sangue. Mas dava pra ver que era ele — o rosto angular, a altura, o jeito de andar. Leandro Costa transformado, mas ainda reconhecível.
Viveu Caiu. O apelido tinha nascido numa festa, anos atrás, quando ele tinha tropeçado no próprio salto, caído de cara no chão, levantado e gritado “VIVEU, CAIU, LEVANTOU!” desde então, grudou.
Ele segurava algo nas mãos. Pequeno, delicado, trançado com capim seco. Um rato de palha. Os olhos eram dois botões pretos costurados com linha grossa. O rabo era um pedaço de barbante desfiado. O corpo inteiro brilhava dourado na luz fraca que entrava pelas frestas do teto.
Viveu Caiu caminhou até Rosquinha, salto batendo no cimento, ecoando pelo galpão vazio. Parou na frente dele, estendeu o rato.
— Fiz pra você — disse, voz grave, sem afetação. Era Leandro falando, não a personagem. — Levei três dias. Aprendi no YouTube.
Rosquinha levantou a cabeça devagar. Olhou pro rato, pros olhos de botão preto, pro capim seco trançado com cuidado. O peito apertou. Não era só um objeto. Era tempo. Era esforço. Era gesto.
— Por quê? — perguntou, voz rouca.
— Porque eu quis. Porque você merece. Porque alguém tinha que fazer.
Rosquinha pegou o rato. A palha era áspera, mas quente do toque de Leandro. Pesava quase nada, mas parecia carregar o mundo inteiro. Sentiu algo subir pela garganta, algo que não tinha nome, mistura de desejo, medo, gratidão e vergonha. Segurou firme, dedos apertando o corpo de capim.
— Obrigado — sussurrou.
Viveu Caiu sorriu, se agachou na frente dele, colocou a mão no joelho de Rosquinha. As unhas eram longas, pintadas de vermelho metálico.
— Você não precisa agradecer. Só não joga fora.
Rosquinha ia responder quando percebeu a mudança.
A silhueta na porta bloqueou a única faixa de luz que vinha de fora. O galpão escureceu, não por nuvem, mas por ocupação.
Jota se mexeu. Puxou o isqueiro amarelo do bolso da calça, acendeu na primeira. A chama subiu pequena, alaranjada, tremelicante. Levantou o braço, iluminando o centro do galpão onde Rosquinha e Viveu Caiu estavam.
E foi nesse momento que El Bigodon entrou, como um gigante.
Mas baixinho, ombros largos, bigode grosso e preto, duas linhas retas descendo até o queixo. Camisa social branca com mangas arregaçadas, calça jeans gasta, botas de couro surradas. Não parecia um pai. Parecia sentença.
A luz do isqueiro bateu no rosto dele. Olhos fundos, escuros, fixos no filho.
Rosquinha congelou. O rato de palha quase caiu das mãos.
El Bigodon entrou devagar, botas batendo no cimento, som pesado, definitivo. Parou a três metros de distância. Olhou pro filho. Olhou pra Viveu Caiu ainda agachado, mão no joelho dele, vestido azul, salto prateado, maquiagem pesada. Olhou pro rato de palha nas mãos de Rosquinha.
O silêncio durou uma eternidade.
Então El Bigodon falou, voz grave, fria, cortante:
— Isso não é coisa de homem.
Rosquinha sentiu a vergonha subir quente pelo pescoço, incendiar as bochechas, descer pelo peito como ácido. As mãos começaram a tremer. O rato de palha tremeu junto. Queria jogar fora. Queria desaparecer. Queria que o chão se abrisse e engolisse tudo.
Viveu Caiu levantou devagar, salto fazendo ele ficar quase o dobro da altura de El Bigodon. Não desviou o olhar. Não abaixou a cabeça.
— Isso — disse, apontando pro rato — é coisa de quem tem coragem de receber. E ele teve.
El Bigodon deu um passo à frente. Jota, ainda segurando o isqueiro, se afastou da parede, corpo tenso, pronto pra intervir se precisasse. Mas não falou nada. Só ficou ali, presença sólida, âncora silenciosa.
— Meu filho — El Bigodon continuou, ignorando Viveu Caiu, olhos fixos em Rosquinha — não vai virar viadinho por causa de um bonequinho de palha. Não enquanto eu estiver vivo.
Rosquinha abaixou a cabeça. As lágrimas vieram antes que ele pudesse segurar. Quentes, rápidas, molhando a barba cheia, pingando no cimento. Segurou o rato com mais força, dedos afundando no capim seco, quase rasgando.
— Ele já é o que é — Viveu Caiu disse, voz ainda grave, mas agora com peso diferente, algo entre raiva e piedade. — E você não muda isso desprezando ele.
El Bigodon virou a cabeça devagar, olhou pra drag de baixo a cima, expressão de nojo puro.
— E você — cuspiu — não é homem nem mulher. É vergonha.
Viveu Caiu não respondeu. Só sorriu de canto, batom vermelho brilhando na luz do isqueiro. Jota também levantou e caminhou um pouco até próximo a El Bigodon, se preparando para qualquer coisa.
El Bigodon se virou, caminhou até a porta, parou antes de sair. Olhou pra trás uma última vez.
— Você tem até amanhã pra sair da minha casa — disse pra Rosquinha, sem olhar de verdade. — Depois disso, não me procura mais.
Saiu. As botas bateram no cascalho lá fora, som sumindo aos poucos na distância.
Rosquinha se levantou de um pulo. O rato de palha quase caiu das mãos. Deu dois passos rápidos em direção à porta, corpo movido por instinto, pela necessidade desesperada de correr atrás, de implorar, de fazer o pai voltar atrás.
Jota ia sair da frente quando o pé prendeu em algo.
O cadarço solto do tênis de Jota.
Jota tropeçou e isso fez Rosquinha tropeçar também. Os corpos foram juntos pro chão, braços se abrindo tentando buscar equilíbrio. Caíram de joelhos no cimento, mãos batendo, dor subindo pelas palmas. O rato de palha rolou, parou a poucos centímetros.
Jota levantou e Rosquinha ficou ali. De joelhos. Olhando pra porta vazia.
O som das botas do pai já tinha sumido completamente.
Rosquinha olhou pra baixo. Viu o cadarço do tênis surrado de Jota, solto, esticado no chão como armadilha invisível. Depois olhou pra porta de novo. Entendeu.
Não adiantava correr atrás de quem já tinha expulsado ele.
O tropeço tinha salvado da humilhação maior.
Jota se agachou, pegou o rato de palha do chão, limpou a poeira com a manga da camiseta regata vinho, estendeu de volta pro amigo. Rosquinha pegou com as duas mãos, segurou firme.
O galpão ficou em silêncio. Só a chama do isqueiro estalando baixinho, iluminando os três.
Rosquinha chorava. Não tentava esconder mais. Só deixava as lágrimas caírem, corpo tremendo, ainda de joelhos no cimento.
Jota ajudou Rosquinha a levantar, mão firme no braço dele, depois no ombro. Não falou nada. Só ficou ali, presença sólida.
Viveu Caiu limpou uma lágrima do rosto de Rosquinha com o polegar, cuidado pra não borrar a própria maquiagem.
— Você tem lugar pra ficar? — perguntou, voz baixa.
Rosquinha balançou a cabeça.
— Não sei. Não pensei nisso ainda.
Jota olhou pra porta do galpão. Lá fora, encostado no Gol Bolinha Cinza Urban 2003 duas portas, Rand Oliveira esperava. Macacão azul, braços cruzados, caixa de ferramentas no chão ao lado. Quando percebeu que estavam olhando, acenou com a cabeça. Puxou algo do bolso. Uma chave. Levantou no ar, mostrou, depois guardou de volta.
— O Rand tem um quarto. Vamos.
Rosquinha olhou pela porta, viu Rand encostado no carro, viu a chave sumindo no bolso do macacão. Guardou o rato de palha na calça, com cuidado, certificando que não ia amassar.
Levantou devagar. Jota pegou a mochila laranja do chão, jogou nas costas. Viveu Caiu ajeitou a peruca, limpou uma mancha de batom no canto da boca.
Saíram os três juntos. Viveu Caiu no meio, salto batendo no cascalho, vestido azul balançando. Rosquinha do lado esquerdo, mão no bolso tocando o rato de palha. Jota do lado direito, mochila laranja nas costas, camiseta regata vinho grudada de suor.
Rand se afastou do Gol Bolinha quando eles se aproximaram, pegou a caixa de ferramentas do chão, abriu a porta traseira do carro, jogou dentro. Olhou pra Rosquinha, deu um aceno leve com a cabeça. Não falou nada. Não precisava.
A Pedreira do Orleans ficou pra trás. O galpão abandonado ficou pra trás. El Bigodon ficou pra trás.
Rosquinha seguiu em frente.
O rato de palha ia junto.
