Capa do Capítulo

Rato de Palha

Extensão: 1.634 palavras | Leitura: 9 min

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O galpão abandonado da Pedreira do Orleans cheirava a ferrugem e concreto velho. Paredes de tijolo à vista, teto de zinco furado deixando entrar a luz cinza da tarde, chão de cimento rachado coberto de poeira e folhas secas. Tinha sido depósito de alguma coisa anos atrás, mas agora era só ruína esquecida no fim da estrada de terra.

Rosquinha estava sentado num caixote de madeira virado, mãos nos joelhos, olhando pra baixo. Tinha 45 anos, baixinho, gordinho, bastante cabelo com alguns brancos aparecendo nas laterais, especialmente nas têmporas. Barba cheia com bigode de guidão, braços peludos, camisa xadrez vermelha e branca.

Jota estava encostado na parede do fundo, mochila laranja jogada no chão ao lado, camiseta regata vinho grudada no corpo com o calor da tarde. Tênis surrado, cadarço direito solto arrastando no chão. Não falava nada. Só ficava ali, presença silenciosa, braços cruzados, olhando pro amigo.

Do outro lado do galpão, perto da porta aberta, Leandro Costa terminava de ajustar a peruca loira que descia até os ombros. A drag estava completa: vestido azul justo marcando cada curva fabricada, salto prateado alto, maquiagem pesada com delineado perfeito, batom vermelho sangue. Mas dava pra ver que era ele — o rosto angular, a altura, o jeito de andar. Leandro Costa transformado, mas ainda reconhecível.

Viveu Caiu. O apelido tinha nascido numa festa, anos atrás, quando ele tinha tropeçado no próprio salto, caído de cara no chão, levantado e gritado “VIVEU, CAIU, LEVANTOU!” desde então, grudou.

Ele segurava algo nas mãos. Pequeno, delicado, trançado com capim seco. Um rato de palha. Os olhos eram dois botões pretos costurados com linha grossa. O rabo era um pedaço de barbante desfiado. O corpo inteiro brilhava dourado na luz fraca que entrava pelas frestas do teto.

Viveu Caiu caminhou até Rosquinha, salto batendo no cimento, ecoando pelo galpão vazio. Parou na frente dele, estendeu o rato.

— Fiz pra você — disse, voz grave, sem afetação. Era Leandro falando, não a personagem. — Levei três dias. Aprendi no YouTube.

Rosquinha levantou a cabeça devagar. Olhou pro rato, pros olhos de botão preto, pro capim seco trançado com cuidado. O peito apertou. Não era só um objeto. Era tempo. Era esforço. Era gesto.

— Por quê? — perguntou, voz rouca.

— Porque eu quis. Porque você merece. Porque alguém tinha que fazer.

Rosquinha pegou o rato. A palha era áspera, mas quente do toque de Leandro. Pesava quase nada, mas parecia carregar o mundo inteiro. Sentiu algo subir pela garganta, algo que não tinha nome, mistura de desejo, medo, gratidão e vergonha. Segurou firme, dedos apertando o corpo de capim.

— Obrigado — sussurrou.

Viveu Caiu sorriu, se agachou na frente dele, colocou a mão no joelho de Rosquinha. As unhas eram longas, pintadas de vermelho metálico.

— Você não precisa agradecer. Só não joga fora.

Rosquinha ia responder quando percebeu a mudança.

A silhueta na porta bloqueou a única faixa de luz que vinha de fora. O galpão escureceu, não por nuvem, mas por ocupação.

Jota se mexeu. Puxou o isqueiro amarelo do bolso da calça, acendeu na primeira. A chama subiu pequena, alaranjada, tremelicante. Levantou o braço, iluminando o centro do galpão onde Rosquinha e Viveu Caiu estavam.

E foi nesse momento que El Bigodon entrou, como um gigante.

Mas baixinho, ombros largos, bigode grosso e preto, duas linhas retas descendo até o queixo. Camisa social branca com mangas arregaçadas, calça jeans gasta, botas de couro surradas. Não parecia um pai. Parecia sentença.

A luz do isqueiro bateu no rosto dele. Olhos fundos, escuros, fixos no filho.

Rosquinha congelou. O rato de palha quase caiu das mãos.

El Bigodon entrou devagar, botas batendo no cimento, som pesado, definitivo. Parou a três metros de distância. Olhou pro filho. Olhou pra Viveu Caiu ainda agachado, mão no joelho dele, vestido azul, salto prateado, maquiagem pesada. Olhou pro rato de palha nas mãos de Rosquinha.

O silêncio durou uma eternidade.

Então El Bigodon falou, voz grave, fria, cortante:

— Isso não é coisa de homem.

Rosquinha sentiu a vergonha subir quente pelo pescoço, incendiar as bochechas, descer pelo peito como ácido. As mãos começaram a tremer. O rato de palha tremeu junto. Queria jogar fora. Queria desaparecer. Queria que o chão se abrisse e engolisse tudo.

Viveu Caiu levantou devagar, salto fazendo ele ficar quase o dobro da altura de El Bigodon. Não desviou o olhar. Não abaixou a cabeça.

— Isso — disse, apontando pro rato — é coisa de quem tem coragem de receber. E ele teve.

El Bigodon deu um passo à frente. Jota, ainda segurando o isqueiro, se afastou da parede, corpo tenso, pronto pra intervir se precisasse. Mas não falou nada. Só ficou ali, presença sólida, âncora silenciosa.

— Meu filho — El Bigodon continuou, ignorando Viveu Caiu, olhos fixos em Rosquinha — não vai virar viadinho por causa de um bonequinho de palha. Não enquanto eu estiver vivo.

Rosquinha abaixou a cabeça. As lágrimas vieram antes que ele pudesse segurar. Quentes, rápidas, molhando a barba cheia, pingando no cimento. Segurou o rato com mais força, dedos afundando no capim seco, quase rasgando.

— Ele já é o que é — Viveu Caiu disse, voz ainda grave, mas agora com peso diferente, algo entre raiva e piedade. — E você não muda isso desprezando ele.

El Bigodon virou a cabeça devagar, olhou pra drag de baixo a cima, expressão de nojo puro.

— E você — cuspiu — não é homem nem mulher. É vergonha.

Viveu Caiu não respondeu. Só sorriu de canto, batom vermelho brilhando na luz do isqueiro. Jota também levantou e caminhou um pouco até próximo a El Bigodon, se preparando para qualquer coisa.

El Bigodon se virou, caminhou até a porta, parou antes de sair. Olhou pra trás uma última vez.

— Você tem até amanhã pra sair da minha casa — disse pra Rosquinha, sem olhar de verdade. — Depois disso, não me procura mais.

Saiu. As botas bateram no cascalho lá fora, som sumindo aos poucos na distância.

Rosquinha se levantou de um pulo. O rato de palha quase caiu das mãos. Deu dois passos rápidos em direção à porta, corpo movido por instinto, pela necessidade desesperada de correr atrás, de implorar, de fazer o pai voltar atrás.

Jota ia sair da frente quando o pé prendeu em algo.

O cadarço solto do tênis de Jota.

Jota tropeçou e isso fez Rosquinha tropeçar também. Os corpos foram juntos pro chão, braços se abrindo tentando buscar equilíbrio. Caíram de joelhos no cimento, mãos batendo, dor subindo pelas palmas. O rato de palha rolou, parou a poucos centímetros.

Jota levantou e Rosquinha ficou ali. De joelhos. Olhando pra porta vazia.

O som das botas do pai já tinha sumido completamente.

Rosquinha olhou pra baixo. Viu o cadarço do tênis surrado de Jota, solto, esticado no chão como armadilha invisível. Depois olhou pra porta de novo. Entendeu.

Não adiantava correr atrás de quem já tinha expulsado ele.

O tropeço tinha salvado da humilhação maior.

Jota se agachou, pegou o rato de palha do chão, limpou a poeira com a manga da camiseta regata vinho, estendeu de volta pro amigo. Rosquinha pegou com as duas mãos, segurou firme.

O galpão ficou em silêncio. Só a chama do isqueiro estalando baixinho, iluminando os três.

Rosquinha chorava. Não tentava esconder mais. Só deixava as lágrimas caírem, corpo tremendo, ainda de joelhos no cimento.

Jota ajudou Rosquinha a levantar, mão firme no braço dele, depois no ombro. Não falou nada. Só ficou ali, presença sólida.

Viveu Caiu limpou uma lágrima do rosto de Rosquinha com o polegar, cuidado pra não borrar a própria maquiagem.

— Você tem lugar pra ficar? — perguntou, voz baixa.

Rosquinha balançou a cabeça.

— Não sei. Não pensei nisso ainda.

Jota olhou pra porta do galpão. Lá fora, encostado no Gol Bolinha Cinza Urban 2003 duas portas, Rand Oliveira esperava. Macacão azul, braços cruzados, caixa de ferramentas no chão ao lado. Quando percebeu que estavam olhando, acenou com a cabeça. Puxou algo do bolso. Uma chave. Levantou no ar, mostrou, depois guardou de volta.

— O Rand tem um quarto. Vamos.

Rosquinha olhou pela porta, viu Rand encostado no carro, viu a chave sumindo no bolso do macacão. Guardou o rato de palha na calça, com cuidado, certificando que não ia amassar.

Levantou devagar. Jota pegou a mochila laranja do chão, jogou nas costas. Viveu Caiu ajeitou a peruca, limpou uma mancha de batom no canto da boca.

Saíram os três juntos. Viveu Caiu no meio, salto batendo no cascalho, vestido azul balançando. Rosquinha do lado esquerdo, mão no bolso tocando o rato de palha. Jota do lado direito, mochila laranja nas costas, camiseta regata vinho grudada de suor.

Rand se afastou do Gol Bolinha quando eles se aproximaram, pegou a caixa de ferramentas do chão, abriu a porta traseira do carro, jogou dentro. Olhou pra Rosquinha, deu um aceno leve com a cabeça. Não falou nada. Não precisava.

A Pedreira do Orleans ficou pra trás. O galpão abandonado ficou pra trás. El Bigodon ficou pra trás.

Rosquinha seguiu em frente.

O rato de palha ia junto.

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Sinopse Narrativa:

Galpão abandonado Pedreira Orleans. Rosquinha (45 anos, gay, gordinho) sentado em caixote. Jota encostado na parede silencioso. Viveu Caiu (Leandro Costa em drag) dá presente pra Rosquinha: rato de palha que levou 3 dias pra fazer. Momento delicado entre eles. El Bigodon (pai de Rosquinha) entra como gigante: "isso não é coisa de homem". Humilha filho e Viveu Caiu. Expulsa Rosquinha de casa (tem até amanhã). Rosquinha vai correr atrás mas tropeça no cadarço solto de Jota - salvo de humilhação maior. Entende que não adianta correr atrás. Rand espera com chave de quarto. Rosquinha sai com amigos, rato de palha vai junto.

Gênero Drama Social, Realismo
Tom Comovente, Doloroso, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Drama, Rejeição
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Amizade como família escolhida, Gesto de afeto vs rejeição, Homofobia paterna
Locais Galpão abandonado, Pedreira Orleans
Palavras-Chave cadarço enroscado, drag, El Bigodon, expulsão, galpão abandonado, homofobia paterna, humilhação evitada, Leandro Costa, Pedreira Orleans, Rand (quarto), rato de palha, Rosquinha, Viveu Caiu
Tarde, luz cinza, calor. Rato de palha: pequeno delicado trançado com capim seco, olhos dois botões pretos costurados linha grossa, rabo pedaço barbante desfiado, corpo brilha dourado na luz, levou 3 dias pra fazer (Viveu Caiu aprendeu no YouTube), palha áspera mas quente do toque, pesa quase nada mas parece carregar mundo inteiro. Rosquinha: segurou firme dedos apertando, algo subiu pela garganta (mistura desejo medo gratidão vergonha), peito apertou (não era só objeto, era tempo esforço gesto), quase caiu das mãos quando El Bigodon entrou, tremeu junto quando mãos tremeram, dedos afundando no capim quase rasgando, rolou e parou a poucos centímetros quando caiu, Jota limpou poeira e devolveu, Rosquinha pegou com duas mãos segurou firme, guardou na calça com cuidado (certificando não amassar), mão no bolso tocando no final. El Bigodon: entrou como gigante bloqueando luz (galpão escureceu por ocupação), som pesado definitivo das botas, parou 3 metros, olhou filho/Viveu Caiu/rato, silêncio durou eternidade, voz grave fria cortante, deu passo à frente, virou cabeça devagar olhou drag de baixo a cima expressão nojo puro, caminhou até porta parou antes de sair olhou pra trás última vez sem olhar de verdade, saiu som das botas sumindo aos poucos. Rosquinha: vergonha subiu quente pelo pescoço incendiou bochechas desceu pelo peito como ácido, mãos tremeram, queria jogar fora/desaparecer/que chão se abrisse, abaixou cabeça, lágrimas vieram antes de segurar (quentes rápidas molhando barba pingando no cimento), levantou de pulo quase derrubou rato deu dois passos rápidos (corpo movido por instinto necessidade desesperada de correr atrás implorar fazer pai voltar), tropeçou no cadarço de Jota, caiu de joelhos com Jota (mãos batendo dor subindo palmas), ficou de joelhos olhando porta vazia, olhou cadarço depois porta ENTENDEU (não adiantava correr atrás de quem já tinha expulsado, tropeço salvou de humilhação maior), chorava não tentava esconder (corpo tremendo ainda de joelhos), Jota ajudou levantar (mão firme braço depois ombro), não sabe onde ficar, guarda rato na calça com cuidado, levanta devagar, sai com amigos mão no bolso tocando rato. Viveu Caiu: agachou colocou mão no joelho de Rosquinha (unhas longas pintadas vermelho metálico), sorriu, levantou devagar salto quase dobro altura El Bigodon não desviou olhar não abaixou cabeça, voz grave mas com peso diferente (algo entre raiva e piedade), não respondeu só sorriu de canto batom vermelho brilhando, limpou lágrima de Rosquinha com polegar (cuidado pra não borrar própria maquiagem), ajeitou peruca limpou mancha batom canto boca, sai no meio salto batendo cascalho vestido azul balançando. Jota: presença silenciosa braços cruzados olhando amigo, se mexeu quando El Bigodon entrou, acendeu isqueiro, afastou da parede corpo tenso pronto pra intervir, caminhou até próximo El Bigodon preparando pra qualquer coisa, ia sair da frente quando pé prendeu no próprio cadarço, tropeçou e fez Rosquinha tropeçar, levantou, agachou pegou rato limpou poeira estendeu de volta, ajudou Rosquinha levantar mão firme, olhou porta viu Rand, pegou mochila jogou nas costas. Rand: lá fora encostado no Gol braços cruzados caixa ferramentas no chão ao lado, acenou com cabeça quando percebeu que olhavam, puxou chave do bolso levantou no ar mostrou guardou de volta, afastou do Gol pegou caixa abriu porta traseira jogou dentro, olhou pra Rosquinha aceno leve com cabeça não falou nada não precisava.
 

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