Capa do Capítulo

Rebobinar o Soco

Extensão: 1.541 palavras | Leitura: 8 min

Faça login para acompanhar.

A casa de Rand. Quintal na frente, dois cachorros soltos que ladravam pra qualquer movimento. Dentro: vários sofás, espaço, luz amarela fraca pingando do teto, pelos de cachorros por toda parte, cheiro normal apesar de casa de homem solteiro.

Jota estacionara o Gol Bolinha 2003 cinza na frente, banco do motorista afundado como sempre. A mochila laranja estava jogada no canto da sala, zíper meio aberto, caderno de capa dura marrom aparecendo por cima. A camiseta regata vinho dele grudava no peito de suor. O tênis surrado com o cadarço direito solto de novo, mas ele não tinha amarrado. Não tinha tempo. Rand chamara ele, era sexta-cheira, dia normal de curtição na casa dele.

Agora os dois tavam sentados na sala, risada besta saindo fácil, conversando merda sobre nada. O pó batia forte, limpo, subia rápido. Jota sentia o coração acelerado, mandíbula travando, mas tava feliz. Rand também. Os dois rindo de qualquer coisa, gesticulando demais, falando alto sem perceber.

O isqueiro amarelo — o sobrevivente — tava na mesinha de centro ao lado de um prato e um canudo amassado.

Aí veio o soco.

Do nada. Sem aviso.

A mão de Rand veio lateral, rápida, acertou o queixo de Jota com um estalo seco. O quarto girou. Gosto metálico encheu a boca. Jota caiu de lado, ombro batendo no chão, cabeça quase acertando a quina da mesa.

Rand riu. Um riso doente, paranóico, daqueles que o pó traz quando bate errado.

— Tu tava olhando pra mim torto — ele disse, voz arrastada, olhos arregalados demais.

Jota cuspiu sangue. Sentiu a mandíbula doendo, mas a surpresa deu força. Levantou num movimento único, puxou Rand pelo colarinho da camiseta, girou o corpo e derrubou ele no chão com um golpe seco. A cabeça de Rand bateu no chão com um som oco.

O tênis de Jota rangeu. O cadarço direito desamarrou sozinho, mas ele não viu. Não teve tempo.

Jota subiu em cima, joelho no peito de Rand, mãos segurando os ombros dele contra o chão.

— Eu vou te dar uma chance — Jota disse, voz baixa, controlada, respiração curta.

Rand tentou rir de novo, mas o riso saiu torto, assustado.

— Que chance, caralho? Tu vai me bater?

— Não — Jota respondeu, olhos fixos nele. — Vou te levar de volta. Pro segundo antes. Você vai sentir tudo de novo. E vai escolher.

Rand piscou, confuso, o pó misturando tudo na cabeça dele.

— Como tu vai fazer isso? Tá mais doidão que eu, porra.

Jota não respondeu. Soltou um dos ombros de Rand, colocou a mão direita no ombro esquerdo dele com firmeza. Fechou os olhos.

Rand olhou pro lado, viu o isqueiro amarelo na mesa.

— Tu sempre mexe com esse isqueiro quando tá muito louco — ele disse, voz falhando.

O isqueiro amarelo acendeu sozinho.

Chama azul-pálida, impossível, subindo dois dedos acima do bico. A luz azul se espalhou pela sala, atravessou os dois corpos, entrou pelos poros. O quarto encolheu. As paredes se curvaram pra dentro. O tempo estalou — um som seco, como osso quebrando longe.

Rand sentiu o peito contrair, como se alguém tivesse apertado um botão no centro do esterno. Memória e visão se misturaram. O chão sumiu.

E ele voltou.


Rand estava de pé — ou nunca tinha caído?

Braço leve ao lado do corpo. Punho se fechando devagar. A decisão nascendo na base do crânio, subindo, quente, urgente. Jota sentado no chão, rindo de alguma coisa que ele tinha dito. Inocente. Vulnerável.

O soco ainda não tinha saído.

Mas junto com o presente — como transparência sobre papel, como dois filmes projetados na mesma tela — Rand viu os futuros.

Futuro 1:

Ele dá o soco. Acerta o queixo de Jota. Jota cai. Rand ri. Mas aí Jota levanta. Rápido demais. Puxa Rand, gira, derruba. Sobe em cima. Não para. Soca uma, duas, três vezes até a mandíbula estalar. O som — seco, claro, definitivo. Osso partindo. Dor irradiando do maxilar até a base do crânio. Sangue enchendo a boca. Dentes soltos. Rand gritando, mas o som não sai. Jota continua. Olhos vazios. Mãos automáticas. Soca até Rand desmaiar.

Futuro 2:

Ele não dá o soco. Recua. A mão cai. O punho abre. Vergonha queima o rosto, sobe pelo pescoço, desce pelas costas. Jota olha pra ele, confuso: “Tá tudo bem?” Rand balbucia algo, levanta, sai cambaleando. Na rua, o ar frio bate na cara. Humilhação. Fraqueza. O gosto amargo de ter recuado. De não ter feito nada. De ser covarde.

Futuro 3:

Ele dá o soco. Jota cai. Rand ri. Jota levanta, coloca a mão no ombro dele. Luz azul. Tempo volta. Rand vê de novo. Dá o soco de novo. Cai de novo. Volta de novo. Loop infinito. Dando o mesmo soco, vendo a mesma consequência, eternamente preso no segundo antes da escolha. Enlouquecendo devagar. Perdendo a noção de quantas vezes já viveu aquilo. Mandíbula quebrando infinitas vezes. Até não sobrar nada.


A mão de Rand tremeu.

O punho vacilou.

O gosto da fratura encheu a boca dele — real, presente, como se já tivesse acontecido. A dor latejava na mandíbula que ainda estava inteira. O som do osso partindo ecoava nos ouvidos. E pior: a sensação do loop, da repetição eterna, da loucura se instalando.

A mão caiu.

O corpo recuou.

Rand piscou — e o mundo explodiu de volta.

Som. Luz. Gravidade. Tudo batendo de uma vez. Joelhos quase cederam. Respiração falhando.

Estava de pé na sala de novo, mas o corpo não sabia. As mãos tremiam. O estômago revirava.

Jota estava do outro lado. De pé. Tranquilo. Sorrindo daquele jeito torto, cruel, satisfeito, como se nada tivesse acontecido.

— Que porra foi essa? — Rand perguntou, voz falhando, tocando o próprio rosto como se procurasse a fratura que não existia.

— Esse pó é do Parola mesmo? — Jota respondeu, pegando a mochila laranja do canto.

Rand olhou pro isqueiro na mesa. A chama tinha apagado. Mas ele tinha visto. Tinha sentido. Ou não? Tudo tava embaralhado. O pó. A luz azul. Os três futuros. A dor.

— Eu… eu ia te bater — ele confessou, voz baixa.

— Eu sei — Jota disse, jogando a mochila no ombro.

Passou pela mesa. Pegou o isqueiro amarelo com dois dedos, guardou no bolso da bermuda sem pressa. Rand viu o movimento. Viu o objeto sendo levado embora. O objeto que tinha acendido sozinho. O objeto que tinha quebrado o tempo.

— Mas não bateu — Jota completou.

— Por que tu fez isso?

Jota abriu a porta, luz da rua entrando amarela e fraca.

— Porque eu podia — ele respondeu. — E porque agora você nunca vai saber se foi real ou se foi a brisa.

Saiu.


Rand ficou sozinho na sala, tremendo, tocando a mandíbula inteira. Sentou no chão. Olhou pro prato na mesa. Tocou o próprio rosto de novo. Ainda inteiro. Ainda móvel. Ainda seu.

Mas o som do osso partindo não saía da cabeça.

E a sensação do loop — preso eternamente no mesmo segundo — grudava na pele como suor frio.

Ele não sabia se tinha sido aviso, ilusão ou misericórdia cruel.

Só sabia que tinha visto o som de um osso partindo.

E tinha preferido o silêncio.

Pegou o prato com a mão tremendo. Olhou pro resto do pó grudado no fundo. Pegou o canudo amassado. Passou o dedo na beirada do prato, juntando os grãos brancos numa linha torta, imperfeita.

Levou o canudo até o nariz.

Encostou.

E sentiu.

Por um microssegundo, talvez menos, talvez uma eternidade, a dor voltou. A mandíbula quebrando. O som seco do osso partindo. O gosto de sangue enchendo a boca. Os dentes soltos. A dor atravessando do maxilar até a base do crânio.

Real.

Física.

Inegável.

Rand largou o prato. A porcelana bateu no chão mas não quebrou. O canudo caiu. Ele se dobrou pra frente, mãos no rosto, respiração falhando.

Vomitou.

Uma, duas, três vezes. Bile, água, nada. Até não sobrar nada no estômago. Até doer o diafragma de tanto contrair.

E aí chorou.

Chorou com a mandíbula inteira, intacta, funcionando perfeitamente. Chorou com o rosto molhado de lágrima e cuspe e ranho. Chorou porque não sabia mais o que era real. Chorou porque o osso que não quebrou ainda doía.

O trauma tinha ficado.

Sem marca física.

Mas tinha ficado.


Minutos depois, na rua, Jota abriu a porta do Gol Bolinha, jogou a mochila laranja no banco do carona — caderno marrom batendo contra o painel. Sentou no banco afundado. O isqueiro amarelo tava no bolso da bermuda, quente como sempre. A camiseta regata vinho grudada nas costas de suor e adrenalina.

Olhou no retrovisor. Rand não tinha saído.

Jota ficou triste.

Ligou o motor.

O tempo se acomodara de novo.

A marca ficou.

Faça login para acompanhar.

Sinopse Narrativa:

Sexta-feira, casa de Rand. Jota e Rand cheirando pó, rindo. Rand dá soco em Jota do nada ("olhando torto"). Jota derruba Rand, sobe em cima, oferece "chance": vai levá-lo de volta pro segundo antes. Isqueiro amarelo acende sozinho com chama azul. Tempo volta. Rand vê três futuros: (1) dá soco, Jota quebra sua mandíbula, (2) não dá soco, sente vergonha/fraqueza, (3) loop infinito quebrando mandíbula eternamente. Mão de Rand cai, não dá soco. Tempo explode de volta. Jota sai tranquilo. Rand fica sozinho tremendo, vomita, chora. Trauma ficou sem marca física.

Gênero Ficção Científica Psicológica, Terror Psicológico
Tom Cruel, Paranóico, Sombrio
Timeline Curitiba
Versão Jota Poderes
Categoria Ficção Científica, Vingança
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Consequências vistas antes de acontecer, Manipulação temporal como punição, Trauma sem marca física
Locais casa, Casa de Rand, espaço, mesinha de centro, quintal na frente, rua na frente, Sala, sofá
Palavras-Chave Casa de Rand, chama azul, isqueiro acende sozinho, loop infinito, mandíbula quebrada, pó, rebobinar tempo, soco, trauma sem marca física, três futuros, vômito
Sexta-feira, dia normal de curtição. Pó: batia forte/limpo, sobe rápido, coração acelerado, mandíbula travando, rindo de qualquer coisa, gesticulando demais, falando alto sem perceber. Prato e canudo amassado na mesinha. Soco de Rand: lateral rápido, acertou queixo com estalo seco, gosto metálico, Jota caiu de lado ombro batendo chão cabeça quase acerta quina mesa, Rand ri doente/paranóico. Jota derruba Rand (cabeça bate chão som oco), sobe em cima joelho no peito. Isqueiro acende sozinho: chama azul-pálida impossível, luz azul espalha pela sala atravessa corpos entra pelos poros, quarto encolhe, paredes curvam pra dentro, tempo estala (som seco como osso quebrando longe), peito de Rand contrai, memória e visão misturam, chão some. TRÊS FUTUROS: (1) Soca, Jota levanta rápido derruba sobe em cima soca 1-2-3 vezes até mandíbula estalar (som seco claro definitivo), osso partindo, dor até base crânio, sangue na boca, dentes soltos, Rand grita sem som, Jota continua olhos vazios mãos automáticas até Rand desmaiar. (2) Não soca, mão cai punho abre, vergonha queima rosto/pescoço/costas, Jota confuso "tá tudo bem?", Rand balbucia levanta sai cambaleando, rua ar frio, humilhação fraqueza gosto amargo de recuar ser covarde. (3) Loop infinito: soca, cai, volta, soca, cai, volta, eternamente preso, enlouquece devagar, mandíbula quebra infinitas vezes até não sobrar nada. Mão de Rand treme, punho vacila, gosto da fratura enche boca (real presente como se já tivesse acontecido), dor lateja, som ecoa, sensação do loop, mão cai corpo recua. Mundo explode de volta: som luz gravidade batendo de uma vez, joelhos quase cedem. Jota tranquilo sorrindo torto cruel satisfeito. Rand toca rosto procurando fratura que não existe, voz falha, confessa "eu ia te bater", Jota "eu sei", pega isqueiro e sai. Rand sozinho tremendo, senta, toca mandíbula inteira mas som do osso partindo não sai da cabeça, sensação do loop gruda como suor frio. Pega prato canudo, passa dedo juntando grãos linha torta, leva canudo ao nariz, DOR VOLTA por microssegundo (mandíbula quebrando, som seco, sangue, dentes soltos, dor até base crânio) - real física inegável. Larga prato (não quebra), canudo cai, dobra pra frente mãos no rosto, vomita 1-2-3 vezes (bile água nada, dói diafragma), chora (mandíbula inteira intacta funcionando, rosto molhado lágrima cuspe ranho, não sabe mais o que é real, osso que não quebrou ainda dói). Trauma ficou sem marca física. Jota no Gol triste. Pó é do Parola (mencionado).
 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PRIVACIDADE E COOKIES

Para que sua jornada por estes contos seja completa, usamos cookies para entender como você navega por aqui. Podemos seguir com a leitura?

Saiba mais.