A casa de Rand. Quintal na frente, dois cachorros soltos que ladravam pra qualquer movimento. Dentro: vários sofás, espaço, luz amarela fraca pingando do teto, pelos de cachorros por toda parte, cheiro normal apesar de casa de homem solteiro.
Jota estacionara o Gol Bolinha 2003 cinza na frente, banco do motorista afundado como sempre. A mochila laranja estava jogada no canto da sala, zíper meio aberto, caderno de capa dura marrom aparecendo por cima. A camiseta regata vinho dele grudava no peito de suor. O tênis surrado com o cadarço direito solto de novo, mas ele não tinha amarrado. Não tinha tempo. Rand chamara ele, era sexta-cheira, dia normal de curtição na casa dele.
Agora os dois tavam sentados na sala, risada besta saindo fácil, conversando merda sobre nada. O pó batia forte, limpo, subia rápido. Jota sentia o coração acelerado, mandíbula travando, mas tava feliz. Rand também. Os dois rindo de qualquer coisa, gesticulando demais, falando alto sem perceber.
O isqueiro amarelo — o sobrevivente — tava na mesinha de centro ao lado de um prato e um canudo amassado.
Aí veio o soco.
Do nada. Sem aviso.
A mão de Rand veio lateral, rápida, acertou o queixo de Jota com um estalo seco. O quarto girou. Gosto metálico encheu a boca. Jota caiu de lado, ombro batendo no chão, cabeça quase acertando a quina da mesa.
Rand riu. Um riso doente, paranóico, daqueles que o pó traz quando bate errado.
— Tu tava olhando pra mim torto — ele disse, voz arrastada, olhos arregalados demais.
Jota cuspiu sangue. Sentiu a mandíbula doendo, mas a surpresa deu força. Levantou num movimento único, puxou Rand pelo colarinho da camiseta, girou o corpo e derrubou ele no chão com um golpe seco. A cabeça de Rand bateu no chão com um som oco.
O tênis de Jota rangeu. O cadarço direito desamarrou sozinho, mas ele não viu. Não teve tempo.
Jota subiu em cima, joelho no peito de Rand, mãos segurando os ombros dele contra o chão.
— Eu vou te dar uma chance — Jota disse, voz baixa, controlada, respiração curta.
Rand tentou rir de novo, mas o riso saiu torto, assustado.
— Que chance, caralho? Tu vai me bater?
— Não — Jota respondeu, olhos fixos nele. — Vou te levar de volta. Pro segundo antes. Você vai sentir tudo de novo. E vai escolher.
Rand piscou, confuso, o pó misturando tudo na cabeça dele.
— Como tu vai fazer isso? Tá mais doidão que eu, porra.
Jota não respondeu. Soltou um dos ombros de Rand, colocou a mão direita no ombro esquerdo dele com firmeza. Fechou os olhos.
Rand olhou pro lado, viu o isqueiro amarelo na mesa.
— Tu sempre mexe com esse isqueiro quando tá muito louco — ele disse, voz falhando.
O isqueiro amarelo acendeu sozinho.
Chama azul-pálida, impossível, subindo dois dedos acima do bico. A luz azul se espalhou pela sala, atravessou os dois corpos, entrou pelos poros. O quarto encolheu. As paredes se curvaram pra dentro. O tempo estalou — um som seco, como osso quebrando longe.
Rand sentiu o peito contrair, como se alguém tivesse apertado um botão no centro do esterno. Memória e visão se misturaram. O chão sumiu.
E ele voltou.
Rand estava de pé — ou nunca tinha caído?
Braço leve ao lado do corpo. Punho se fechando devagar. A decisão nascendo na base do crânio, subindo, quente, urgente. Jota sentado no chão, rindo de alguma coisa que ele tinha dito. Inocente. Vulnerável.
O soco ainda não tinha saído.
Mas junto com o presente — como transparência sobre papel, como dois filmes projetados na mesma tela — Rand viu os futuros.
Futuro 1:
Ele dá o soco. Acerta o queixo de Jota. Jota cai. Rand ri. Mas aí Jota levanta. Rápido demais. Puxa Rand, gira, derruba. Sobe em cima. Não para. Soca uma, duas, três vezes até a mandíbula estalar. O som — seco, claro, definitivo. Osso partindo. Dor irradiando do maxilar até a base do crânio. Sangue enchendo a boca. Dentes soltos. Rand gritando, mas o som não sai. Jota continua. Olhos vazios. Mãos automáticas. Soca até Rand desmaiar.
Futuro 2:
Ele não dá o soco. Recua. A mão cai. O punho abre. Vergonha queima o rosto, sobe pelo pescoço, desce pelas costas. Jota olha pra ele, confuso: “Tá tudo bem?” Rand balbucia algo, levanta, sai cambaleando. Na rua, o ar frio bate na cara. Humilhação. Fraqueza. O gosto amargo de ter recuado. De não ter feito nada. De ser covarde.
Futuro 3:
Ele dá o soco. Jota cai. Rand ri. Jota levanta, coloca a mão no ombro dele. Luz azul. Tempo volta. Rand vê de novo. Dá o soco de novo. Cai de novo. Volta de novo. Loop infinito. Dando o mesmo soco, vendo a mesma consequência, eternamente preso no segundo antes da escolha. Enlouquecendo devagar. Perdendo a noção de quantas vezes já viveu aquilo. Mandíbula quebrando infinitas vezes. Até não sobrar nada.
A mão de Rand tremeu.
O punho vacilou.
O gosto da fratura encheu a boca dele — real, presente, como se já tivesse acontecido. A dor latejava na mandíbula que ainda estava inteira. O som do osso partindo ecoava nos ouvidos. E pior: a sensação do loop, da repetição eterna, da loucura se instalando.
A mão caiu.
O corpo recuou.
Rand piscou — e o mundo explodiu de volta.
Som. Luz. Gravidade. Tudo batendo de uma vez. Joelhos quase cederam. Respiração falhando.
Estava de pé na sala de novo, mas o corpo não sabia. As mãos tremiam. O estômago revirava.
Jota estava do outro lado. De pé. Tranquilo. Sorrindo daquele jeito torto, cruel, satisfeito, como se nada tivesse acontecido.
— Que porra foi essa? — Rand perguntou, voz falhando, tocando o próprio rosto como se procurasse a fratura que não existia.
— Esse pó é do Parola mesmo? — Jota respondeu, pegando a mochila laranja do canto.
Rand olhou pro isqueiro na mesa. A chama tinha apagado. Mas ele tinha visto. Tinha sentido. Ou não? Tudo tava embaralhado. O pó. A luz azul. Os três futuros. A dor.
— Eu… eu ia te bater — ele confessou, voz baixa.
— Eu sei — Jota disse, jogando a mochila no ombro.
Passou pela mesa. Pegou o isqueiro amarelo com dois dedos, guardou no bolso da bermuda sem pressa. Rand viu o movimento. Viu o objeto sendo levado embora. O objeto que tinha acendido sozinho. O objeto que tinha quebrado o tempo.
— Mas não bateu — Jota completou.
— Por que tu fez isso?
Jota abriu a porta, luz da rua entrando amarela e fraca.
— Porque eu podia — ele respondeu. — E porque agora você nunca vai saber se foi real ou se foi a brisa.
Saiu.
Rand ficou sozinho na sala, tremendo, tocando a mandíbula inteira. Sentou no chão. Olhou pro prato na mesa. Tocou o próprio rosto de novo. Ainda inteiro. Ainda móvel. Ainda seu.
Mas o som do osso partindo não saía da cabeça.
E a sensação do loop — preso eternamente no mesmo segundo — grudava na pele como suor frio.
Ele não sabia se tinha sido aviso, ilusão ou misericórdia cruel.
Só sabia que tinha visto o som de um osso partindo.
E tinha preferido o silêncio.
Pegou o prato com a mão tremendo. Olhou pro resto do pó grudado no fundo. Pegou o canudo amassado. Passou o dedo na beirada do prato, juntando os grãos brancos numa linha torta, imperfeita.
Levou o canudo até o nariz.
Encostou.
E sentiu.
Por um microssegundo, talvez menos, talvez uma eternidade, a dor voltou. A mandíbula quebrando. O som seco do osso partindo. O gosto de sangue enchendo a boca. Os dentes soltos. A dor atravessando do maxilar até a base do crânio.
Real.
Física.
Inegável.
Rand largou o prato. A porcelana bateu no chão mas não quebrou. O canudo caiu. Ele se dobrou pra frente, mãos no rosto, respiração falhando.
Vomitou.
Uma, duas, três vezes. Bile, água, nada. Até não sobrar nada no estômago. Até doer o diafragma de tanto contrair.
E aí chorou.
Chorou com a mandíbula inteira, intacta, funcionando perfeitamente. Chorou com o rosto molhado de lágrima e cuspe e ranho. Chorou porque não sabia mais o que era real. Chorou porque o osso que não quebrou ainda doía.
O trauma tinha ficado.
Sem marca física.
Mas tinha ficado.
Minutos depois, na rua, Jota abriu a porta do Gol Bolinha, jogou a mochila laranja no banco do carona — caderno marrom batendo contra o painel. Sentou no banco afundado. O isqueiro amarelo tava no bolso da bermuda, quente como sempre. A camiseta regata vinho grudada nas costas de suor e adrenalina.
Olhou no retrovisor. Rand não tinha saído.
Jota ficou triste.
Ligou o motor.
O tempo se acomodara de novo.
A marca ficou.
