A Rodoferroviária de Curitiba fede a diesel velho, mijo seco e ansiedade pura.
São 23h47 e o ponto 17 parece o último lugar do mundo que ainda tem luz acesa. A mochila laranja de Jota está jogada no chão ao lado da grade, o caderno marrom de capa dura aberto em cima, uma página solta rabiscada com o plano original — rotas alternativas, horários, o nome do contato em Ponta Grossa —, dobrada em quatro como um talismã improvisado.
Jota está encostado na grade enferrujada que separa a plataforma do corredor principal. Camiseta vinho grudada de suor frio, moletom cinza amarrado na cintura, barba cheia coçando de nervoso. Ele anda de um lado pro outro, tênis surrado rangendo no piso molhado, contando cabeças sem parar.
Dezesseis. Dezessete. Dezesseis. Alguém some pro banheiro, volta. Dezessete de novo.
A placa acima da porta está torta, letras brancas quase apagadas: PONTA GROSSA.
Ninguém sabe se ainda tem Ponta Grossa pra ir.
O alto-falante chia o tempo todo, voz metálica anunciando horários que ninguém acredita mais.
“Ônibus das 23h30 para São Paulo… atrasado… indefinidamente.”
“Ônibus das 23h45 para Florianópolis… cancelado.”
O dele ainda não falaram nada. Talvez nem falem.
Lá fora, na rua, sirenes distantes. Luzes vermelhas e azuis refletindo nas vidraças altas. Ninguém olha por muito tempo. Quem olhou demais já não tá mais aqui.
Jota tem na mão uma folha A4 dobrada em quatro, papel de impressora comum, mas dobrado com tanto cuidado que parece bíblia. É o original. O único que tem tudo: rotas alternativas, horários que talvez ainda valham, nome do contato em Ponta Grossa, número do galpão seguro. Tudo escrito com caneta preta e vermelha, letra apertada dele mesmo. Quem mexe com programação sabe escrever pequeno.
Ele levanta a voz pela enésima vez:
— Quem ainda não fez xerox, faz agora. A máquina lá no corredor tá funcionando. Última chance.
Três pessoas correm. Voltam com folhas quentes na mão. Dezessete papéis. Dezessete cópias. O original continua com ele.
Leandro Costa, vulgo Bitman tá encostado na coluna de concreto, garrafa de dois litros de água mineral pendurada no dedo. Olhar perdido. Jota sente o peso da última conversa deles, meses atrás, porta batida, “nunca mais quero te ver, seu gordo irresponsável”. Mas agora é agora.
Jota respira fundo, atravessa os três metros que separam os dois.
— Bitman.
O cara levanta o olho devagar. Reconhece. Não sorri, não xinga. Só espera.
— Divide essa água aí? Preciso rachar pros outros.
Bitman olha pra garrafa, olha pra Jota, entrega sem falar nada.
— Pega. Depois a gente vê.
Jota pega. O peso da garrafa é bom. Dois litros é muito quando não tem mais nada.
Ele distribui em copos plásticos improvisados, garrafinhas cortadas, tampas de refrigerante. Todo mundo bebe um gole. Ninguém reclama da quantidade. Quem reclama nessas horas não dura.
O relógio da rodoviária marca 00h02.
O ônibus ainda não deu sinal.
Mas o silêncio lá fora mudou.
As sirenes pararam.
As luzes na rua apagaram de uma vez.
E o ponto 17 ficou mais escuro do que deveria. Jota enfia a mão no bolso da calça moletom, sente o isqueiro amarelo — “o Sobrevivente”, o apelido que ele deu. Não fuma, mas o isqueiro acende na primeira, uma chama trêmula iluminando o papel original por um segundo, sombras dançando nas letras borradas antes de apagar, como se o fogo soubesse que o plano já estava se desfazendo.
00h14.
O ponto 17 parece uma ilha de luz amarela dentro de um mar preto. As lâmpadas do corredor principal começaram a piscar, uma por uma, como se alguém estivesse desligando a cidade por setores. Dentro da plataforma ainda tem luz, mas já dá pra ouvir o gerador da rodoviária tossindo lá no fundo.
Jota anda de um lado pro outro contando de novo. Dezessete. Sempre dezessete. Ninguém pode sumir.
Uma mulher de uns quarenta e poucos, cabelo curto tingido de loiro, camisa branca amarrotada de quem dormiu vestida há três dias, levanta a mão tímida.
— Posso ver o original só um segundo? Quero conferir o nome do contato em Ponta Grossa. Acho que conheço o cara.
Jota hesita meio segundo. O original é sagrado. Mas ela parece séria, olhos fundos de quem não dorme há dias. Ele entrega.
— Cuidado. É o único.
Ela desdobra com cuidado, segura contra a luz fraca, franze a testa.
— Aqui tá borrado… espera.
Ela vira o papel de lado. Dobra de leve pra ler melhor. Dobra mais. Dobra demais.
Crac.
O som é pequeno, seco, mas corta o ponto 17 como facada.
O papel rasga exatamente no meio. Perfeitamente no meio.
As duas metades caem lentas no chão imundo, flutuando como folhas mortas.
Silêncio absoluto.
Dezessete pessoas pararam de respirar ao mesmo tempo.
Jota sente o sangue sumir da cara. Ajoelha rápido, pega as duas metades. Tenta juntar. Falta um pedacinho de nada bem no centro: o número do galpão, o horário exato do toque de cobertura, o nome completo do contato. Coisas que só estavam no original porque ele escreveu em cima, corrigiu, circulou três vezes de vermelho.
Bitman é o primeiro a falar, voz baixa, sem acusação, só constatação:
— Acabou.
A mulher de cabelo curto cobre a boca com as duas mãos, olhos arregalados.
— Eu… eu só dobrei… eu não queria…
Jota levanta devagar. Os 110 kg parecem 200 agora.
— Alguém tem fita adesiva? Cola? Qualquer porra?
Ninguém tem. Claro que ninguém tem.
Ele olha pras cópias nas mãos das pessoas. Todas incompletas. Faltam as correções à mão, os riscos, os “NÃO CONFIEM NO RÁDIO” em letras garrafais. As cópias são mapas de um mundo que já não existe mais.
Uma adolescente no fundo começa a chorar baixinho.
Um cara de boné começa a andar em círculos, murmurando “a gente tá fudido, a gente tá fudido”.
Bitman se aproxima, fala só pra Jota ouvir:
— Quando o ônibus chegar, a gente sobe do mesmo jeito. Improvisa. Não tem mais plano B, só tem frente.
Jota engole seco. Sente o papel rasgado tremendo entre os dedos grossos.
Guarda as duas metades no bolso da calça moletom como se ainda valesse alguma coisa.
Levanta a voz pro grupo, tentando parecer firme:
— Escutem. O plano mudou. Quando o ônibus encostar, a gente sobe. Sem discussão. Sem parar pra pensar. Ponta Grossa ainda tá de pé. A gente chega lá e resolve.
Ninguém discute.
Todo mundo só olha pra ele.
Porque ele ainda é o cara que tem (ou tinha) o papel.
00h19.
As luzes do ponto 17 apagam de vez.
Escuridão total por três segundos.
Quando voltam, mais fracas, amarelas de emergência, o gerador tossindo alto.
E então ouvem o ronco.
Diesel pesado, lento, vindo do pátio externo.
O ônibus.
Branco, velho, janelas embaçadas, farol torto.
Para exatamente na frente do ponto 17.
A porta pneumática abre com um chiado longo, como suspiro de quem esperou demais.
O motorista não desce. Não fala. Só espera.
Jota é o primeiro a dar um passo, amarra rápido o cadarço do tênis surrado que ameaçava soltar no piso escorregadio.
— Vamos.
E as dezessete pessoas se movem como um só corpo atrás dele.
A porta do ônibus está aberta como boca de bueiro.
Jota é o primeiro a subir os três degraus de ferro. O cheiro dentro é de banco de couro queimado de sol, mofo e diesel velho. O painel está aceso só pela luzinha vermelha do freio de mão. O motorista usa boné escuro, aba baixa, rosto na sombra. Não vira pra ninguém. Só mantém as mãos no volante, esperando.
— Rápido — Jota fala sem olhar pra trás, voz rouca de quem já gritou demais por dentro.
Um por um.
Dezessete corpos se espremem no corredor estreito.
A mulher de cabelo curto sobe chorando baixo, tentando pedir desculpa com os olhos. Jota não olha pra ela.
Bitman sobe em silêncio, garrafa de água ainda na mão, senta na primeira poltrona do lado esquerdo e deixa o lugar do corredor pra Jota.
Um cara de boné sobe falando sozinho.
Uma mãe carrega criança dormindo no colo.
Um velho de bengala sobe devagar, mas sobe.
Jota conta de novo enquanto andam:
— Um, dois, três… dezesseis…
Ele mesmo é o dezessete.
Sobe, puxa a porta com força. O pneumático chia e fecha.
O motor ronca mais forte.
O ônibus arranca sem esperar ninguém sentar.
Primeira marcha rangendo, segunda, terceira.
Saem do pátio da rodoferroviária como se estivessem sendo cuspidos.
Pela janela esquerda, Curitiba já não é mais Curitiba.
Postes apagados.
Prédios escuros.
Faróis de carros abandonados piscando no meio da avenida.
Um incêndio longe, na região do Centro Cívico, laranja contra o céu preto.
Sirenes que não são mais de polícia nem de bombeiro, são só uivos perdidos.
O ônibus pega a BR-277 sentido oeste sem reduzir nas curvas.
O motorista não liga farol alto. Só o baixo, cortando a escuridão como faca cega.
Dentro, ninguém fala.
Só o barulho dos pneus no asfalto e o choro abafado da mulher de cabelo curto.
Jota está sentado no banco da frente, do lado do corredor. Bitman ao lado da janela.
Ele tira as duas metades do papel rasgado do bolso, tenta juntar de novo sob a luz fraca do painel.
Bitman olha de canto.
— Ainda tentando colar?
— Não. Só tentando lembrar o que tava escrito no pedaço que sumiu.
Bitman dá um meio sorriso triste.
— Eu lembro de um negócio. O contato em Ponta Grossa… o apelido dele era Corvo, né? Galpão 9, saída 17 da rodoviária de lá. Era isso?
Jota vira o rosto devagar.
— Era. Como tu sabe?
— Porque eu ajudei a escrever esse plano, seu filho da puta. Três meses atrás. Quando tu me chamou pra fazer o backup dos servidores e depois sumiu.
Silêncio pesado entre os dois.
Jota abaixa a cabeça.
— Eu sei. Desculpa.
Bitman suspira, olha pela janela a escuridão passando rápido.
— Agora não adianta mais. Mas pelo menos a gente sabe pra onde ir. Galpão 9. Corvo. Se ainda existir.
O ônibus pega velocidade. 100, 110, 120.
Numa BR-277 que nunca viu um ônibus velho andar tão rápido.
Jota guarda as metades rasgadas no bolso de novo.
Olha pra frente.
O motorista ainda não virou o rosto nenhuma vez.
Nem pra conferir retrovisor.
Nem pra olhar pelo canto do olho.
Só dirige.
E a placa de Ponta Grossa vai ficando mais perto no para-brisa.
00h47.
A BR-277 está vazia demais pra ser verdade.
Nem caminhão, nem carro, nem moto. Só o ônibus branco rasgando a noite a 130 km/h, faróis baixos cortando um túnel de escuridão.
Jota está de pé no corredor, segurando no encosto dos bancos pra não cair. Os 110 kg balançam a cada buraco no asfalto. A camiseta vinho está grudada no peito de suor frio.
Bitman olha fixo pela janela.
— Tá vendo aquilo?
Jota segue o olhar.
Longe, no retrovisor externo, dois pontos de luz.
Faróis.
Vindo rápido.
Muito rápido.
O motorista acelera mais.
O motor ruge como se tivesse acordado com raiva.
Os faróis crescem.
Ficam maiores.
Mais próximos.
Dentro do ônibus, alguém começa a rezar alto.
A criança acorda e chora.
Jota grita pra frente:
— Pisa fundo, cara!
O motorista não responde.
Mas pisa.
O velocímetro treme.
O cadarço direito do tênis surrado solta no balanço. Jota tropeça, se abaixa pra amarrar — e vê no chão uma página do caderno, caída da mochila aberta no banco, um rabisco de caneta preta iluminado pela luz fraca: “não confie nos faróis”.
Os pontos de luz atrás desaparecem de repente.
Como se tivessem sido apagados.
Silêncio.
Só o barulho do motor e da respiração de dezessete pessoas.
Jota volta pro banco, senta pesado.
Bitman fala baixo:
— Não eram faróis normais. Eram… altos demais. Como se fossem de caminhão, mas sem o caminhão.
Jota sente o estômago revirar.
Olha pro rádio do painel.
Está ligado, volume baixo, só estática.
Ele estica o braço, gira o botão devagar.
Entre o chiado, uma voz.
Feminina.
Calma demais.
“…saída 17 não existe mais… repito… saída 17 não existe mais… todos os pontos de coleta foram comprometidos… não sigam para Ponta Grossa… parem no próximo trevo… repito… parem…”
A voz corta.
Volta a estática.
Dentro do ônibus, o silêncio vira gelo.
A mulher de cabelo curto levanta a mão trêmula.
— Era… era pro galpão 9, né? Saída 17 de lá?
Bitman confirma com a cabeça.
— Era.
O cara de boné se levanta, voz trêmula mas decidida:
— Tem que parar esse ônibus. A mulher no rádio falou. A gente desce no próximo trevo.
Jota sente o papel rasgado queimar no bolso como brasa.
Olha pro rádio. Olha pro motorista. Lembra dos faróis que sumiram quando o caderno mandou não confiar. Lembra da voz calma demais, limpa demais, no meio de uma cidade que já apagou.
Ele se levanta, vai até a cabine. O cara de boné vai atrás, outros dois se levantam.
— Motorista — Jota fala, voz firme agora. — Para no próximo trevo.
O motorista não vira.
Não responde.
Mas desvia o volante meio grau pra esquerda, e o ônibus passa a centímetros de algo atravessado na pista que ninguém tinha visto.
Jota congela.
Aquilo era um carro. Portas abertas, faróis acesos apontando pro céu. Se o motorista não tivesse desviado…
O cara de boné bate no vidro separador.
— PARA ESSA PORRA! A gente quer descer!
Nada.
O ônibus passa direto pelo trevo de Campo Largo. O cara de boné tenta forçar a porta. Não cede. Volta pro banco, xingando.
Jota fica de pé no corredor, olhando o motorista.
As mãos dele no volante se movem mínimas, precisas. Desviam de buracos que ninguém vê. Aceleram antes das curvas como se soubesse o que vem depois.
Jota volta pro banco devagar.
Bitman sussurra:
— Ele não vai parar.
— Não — Jota responde baixo. — Ele não vai. Mas ele desviou do carro.
Bitman olha pra ele.
— E daí?
— A voz no rádio mandou parar. Os faróis apareceram quando a gente tava mais devagar. Quando a gente acelerou, sumiram. Agora a voz quer que a gente desça no trevo. Mas ele não para.
Bitman processa.
— Tu tá dizendo que ele tá ajudando?
Jota olha pra frente. O motorista continua dirigindo, rosto na sombra, boné baixo. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Mas cada curva feita no momento certo.
— Tô dizendo que ele sabe o caminho.
Bitman engole seco.
— Isso é o que me preocupa.
As placas vão ficando pra trás, apagadas, algumas arrancadas, outras pintadas com algo que parece sangue seco.
A placa seguinte está torta, balançando com o vento.
PONTA GROSSA – 47 km
Mas alguém riscou com tinta preta grossa por cima.
NÃO ENTRE
A tinta ainda pinga.
01h29.
O ônibus entra em Ponta Grossa sem reduzir.
As ruas estão escuras, mas não vazias.
Carros abandonados atravessados nas pistas, portas abertas, faróis acesos apontando pro nada.
Alguns postes ainda acesos, balançando fios cortados.
Cheiro de fumaça que entra pelas frestas das janelas.
Ninguém fala dentro do ônibus.
Nem choro mais.
Só respiração pesada de dezessete pessoas que já entenderam.
O motorista segue direto.
Passa pelo centro, passa pelos bairros, pega a avenida que leva à rodoviária.
A rodoviária de Ponta Grossa está iluminada.
Luz branca forte, quase ofensiva depois de tanta escuridão.
Portas abertas.
Nenhum segurança, nenhum guichê aberto.
Só silêncio e luz.
O ônibus entra no pátio, faz a curva larga, para exatamente no ponto que tem a placa torta:
SAÍDA 17
O motor morre.
Porta pneumática abre sozinha.
O motorista finalmente vira o rosto.
Não tem rosto.
É uma superfície lisa, sem olhos, sem boca, só pele esticada e pálida.
No lugar do rosto, um papel A4 colado com fita crepe.
O original.
Inteiro.
Sem rasgo.
Com todas as correções, todos os círculos vermelhos, todos os horários.
Mas o texto está diferente.
Agora diz, em letras grandes de caneta vermelha:
VOCÊS JÁ CHEGARAM
BEM-VINDOS AO GALPÃO 9
A SAÍDA 17 É AQUI
O papel está pregado com quatro tiras de fita crepe em forma de cruz.
Jota é o primeiro a entender.
Ele se levanta devagar, pernas tremendo.
Bitman segura o braço dele.
— Não desce, Jota.
Jota olha pra trás.
Os outros dezesseis já estão de pé, caminhando pro corredor como sonâmbulos.
A mulher de cabelo curto sorri aliviada.
A mãe pega a criança no colo, feliz.
O velho de bengala desce primeiro, cantarolando uma música antiga.
Um por um, vão descendo.
Ninguém olha pra trás.
Ninguém hesita.
Bitman tenta segurar Jota mais forte.
— Isso não tá certo, porra!
Jota não responde. Tira do bolso as duas metades rasgadas. Olha pra elas. Olha pro motorista sem rosto, pro papel inteiro colado ali, pro plano que nunca falhou de verdade.
Tenta rasgar as metades de vez. Acabar com aquilo. Puxa com força.
O papel não cede. Liso, quente, inteiro nas mãos. As duas partes já se colaram sozinhas sem que ele percebesse. Puxa de novo. Torce. Nada. O papel se recusa.
Jota sente as pernas andarem.
Não decidiu descer. Os pés se movem sozinhos. O cadarço do tênis direito solta de novo, mas ele não para pra amarrar, não dessa vez, os pés continuam descendo o degrau como se o corpo soubesse o que a cabeça ainda recusava.
— Jota! — Bitman grita atrás dele.
Jota quer virar. Quer voltar. Sente o ar frio de Ponta Grossa na cara, o cheiro de fumaça e silêncio, e as pernas continuam andando.
Ele olha pra baixo. O papel está inteiro na mão. Dobrado em quatro. Perfeito. Como se nunca tivesse rasgado.
— A gente consertou, Bitman — ele fala, e a voz sai calma, quase carinhosa, e isso o assusta mais do que qualquer coisa que aconteceu na viagem inteira.
Bitman fica sozinho no ônibus gritando JOTA, JOTA, JOTA até a voz quebrar.
Mas Jota já não ouve.
A porta se fecha.
O ônibus arranca vazio, pegando a BR de volta pra Curitiba.
No banco do motorista, agora tem um novo papel colado no painel.
A4.
Inteiro.
Com uma única frase escrita em vermelho:
PRÓXIMA VIAGEM: 05H30
17 LUGARES DISPONÍVEIS
O ponto 17 de Curitiba ainda está esperando.
05h12.
A rodoferroviária de Curitiba acordou com cheiro de café requentado e desinfetante barato.
As luzes voltaram.
O gerador parou de tossir.
Os alto-falantes anunciam horários normais, como se nada tivesse acontecido.
O ponto 17 está limpo.
Piso seco, placas retas, ninguém esperando.
O ônibus branco entra devagar no pátio, motor tranquilo, janelas limpas.
Para exatamente na faixa amarela.
Porta pneumática abre.
O motorista desce o primeiro degrau, boné baixo, camisa polo branca impecável.
Rosto normal.
Dois olhos castanhos cansados, barba cheia, cabelo ondulado grisalho nas laterais.
110 kg que ocupam o espaço como se fossem donos do mundo.
Jota desce, olha ao redor, respira fundo o ar frio da madrugada curitibana.
Tira o boné, passa a mão no cabelo.
Guarda na mochila uma folha A4 dobrada em quatro, cheia de anotações novas, círculos vermelhos frescos, o caderno marrom agora fechado ao lado, capa dura sem nenhuma marca.
No painel do ônibus, um papelzinho colado com fita crepe:
17 LUGARES DISPONÍVEIS
DESTINO: PONTA GROSSA
EMBARQUE IMEDIATO
As primeiras pessoas começam a chegar.
Algumas conhecidas.
Algumas não.
Uma mulher de cabelo curto tingido de loiro se aproxima, hesitante.
— Esse é o ônibus seguro?
Jota sorri, voz calma, quase carinhosa.
— É o único que sobrou.
Ele entrega uma cópia xerocada pra ela.
— Guarda bem. Não rasga o original.
A mulher assente, segura o papel como se fosse ouro.
Bitman não aparece.
Nunca mais vai aparecer.
Jota sobe de volta, senta no banco do motorista.
Coloca o boné.
Engata a marcha.
O ônibus sai suave do ponto 17, pega a BR-277 sentido oeste.
No retrovisor, ele vê a rodoferroviária ficando pequena.
Vê também, por um segundo só, alguém sentado no último banco. Ombros largos, garrafa de água na mão. Quando olha de novo, sumiu.
Jota vira pro para-brisa.
Dois olhos castanhos no reflexo.
Por enquanto.
A placa de Ponta Grossa já está lá na frente.
E o ciclo recomeça.
