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Só a Última

Extensão: 1.889 palavras | Leitura: 10 min

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A Pedreira do Orleans estava gelada à noite.

Devia ser umas três da manhã. Talvez quatro. Ninguém olhava pro relógio ali dentro.

O galpão abandonado parecia uma nave caída do céu: teto alto, paredes de concreto rachado, luzes LED brancas que não piscavam nunca. Dentro, o cheiro era de solda fria, ozônio e café queimado. Ventoinhas zumbindo como enxame.

Jota trabalhava na bancada esquerda, camiseta regata vinho manchada de flux, suor escorrendo na barba. Concentração absoluta. Pinça na mão direita, ferro de solda na esquerda. Geração 7.3. Quase perfeita. Chips tão pequenos que precisavam de microscópio. Dissipação líquida. Clock que fazia o multímetro tremer.

Ao lado dele, quatro pessoas.

Rosquinha, short jeans rasgado, mexendo num cooler com cara de quem queria estar na piscina.

Little Boobs, blusa preta de renda que mal segurava os peitos, soldando com língua de fora de tanta concentração.

Dois genéricos que ninguém lembrava o nome.

Silêncio quebrado só pelo barulho das ventoinhas e do ferro chiando.

A mochila laranja estava aberta no chão, caixas de peças tilintando toda vez que alguém passava perto. O caderno marrom caído ao lado, página rasgada com a chave do sistema rabiscada de caneta vermelha. O ímã de geladeira do Posto Esso, cinza fosco, bordas descascando, preso na capa com fita crepe velha.

Jota não olhava praquilo. Só soldava.

Do outro lado do galpão, Donaro observava.

Biquíni preto por baixo do jaleco aberto, pernas douradas do verão passado, cabelo castanho liso caindo nos ombros. Olhar que curava e queimava ao mesmo tempo. Ela não dizia nada. Só olhava.

O cadarço do tênis surrado de Jota já estava solto, roçando o chão frio.

A geração 7.3 estava quase pronta.

E Jota sabia: só ia levar a última.

O silêncio durou até as portas pneumáticas laterais abrirem com um silvo hidráulico.

Cinco pessoas entraram. Jalecos cinza sem crachá, capuzes puxados, passos rápidos. Foram direto pras bancadas vazias do lado direito. Montaram estações em menos de dois minutos. Começaram a trabalhar na geração 6.9.

Jota viu de canto de olho.

— Eles tão forçando — murmurou Rosquinha, sem tirar os olhos do cooler.

Três minutos depois, a primeira placa queimou. Fumaça preta subiu. Cheiro de silício derretido invadiu o galpão. A segunda placa foi logo em seguida. A terceira explodiu com um estalo seco.

Little Boobs deu risadinha nervosa.

— Eles tão cozinhando os chips.

Donaro se levantou da cadeira onde estava sentada. Atravessou o galpão devagar, salto ecoando no concreto. Parou na frente da bancada de Jota.

Olhar que desarmava qualquer um.

— A nossa geração morreu — disse, voz calma, quase doce. — Precisamos da 7.3. A entrega é amanhã.

Jota nem levantou a cabeça da placa.

— Não.

Donaro se inclinou um pouco. Perfume invadindo, aquele cheiro que ele conhecia de cor.

— Lembra quando eu pedia e tu fazia acontecer?

Rosquinha engasgou com o ar. Little Boobs mordeu o lábio.

Jota parou. Pinça ainda na mão.

O botão vermelho estava ali, na borda da bancada. Pequeno, discreto. Só ele tinha. Todo mundo sabia o que era: o “não” absoluto. Se apertasse, o galpão inteiro travava. Ninguém mexia mais em nada.

Donaro viu o olhar dele pro botão. Sorriu de leve.

— Se a gente não entregar, a casa inteira cai. Todo mundo perde. Tu sabe disso.

Silêncio.

O líder do grupo rival — cara alta, voz rouca, cicatriz fina cruzando a sobrancelha — se aproximou por trás dela.

— Sem a 7.3 não tem sistema amanhã. Se travar agora, ninguém entrega nada. O sistema inteiro cai. Não só nós. Vocês também.

Jota olhou pras bandejas. Dez placas perfeitas. A última geração que ele tinha.

O cadarço do tênis direito soltou mais um pouco, roçando o chão.

Jota respirou fundo.

O isqueiro amarelo “o sobrevivente” girava entre os dedos grossos, quente de tanto apertar.

Donaro continuou parada, perfume misturado com fuligem. Olhar que curava e matava ao mesmo tempo.

— Por favor, Jota — disse, voz baixa. — Só mais essa vez.

Rosquinha olhou pro chão. Little Boobs prendeu a respiração.

Jota olhou pro botão vermelho. Pequeno. Perfeito. Um toque e tudo acabava.

O dedo dele roçou a superfície lisa. Quente. Tentador.

Rosquinha prendeu a respiração.

Little Boobs parou de soldar, olhos arregalados.

Donaro não desviou o olhar.

Mas a casa inteira cairia.

Ele empurrou as bandejas com a geração 7.3.

— Peguem.

Donaro sorriu. Pequeno. Quase grata.

O grupo rival pegou as bandejas como se fossem ouro. Correram de volta pras bancadas.

O cadarço do tênis direito se soltou sozinho naquele exato segundo. Quando Jota deu um passo pra trás, o cadarço enroscou no pé dele como se tivesse vontade própria. Tropeçou. A última placa boa que ainda estava na bancada dele escorregou, girou no ar.

Jota mergulhou.

Pegou a placa a centímetros do chão de concreto, coração explodindo no peito.

Rosquinha riu nervoso.

— Porra, Chô…

Donaro passou por ele, ombro roçando no braço de Jota, cheiro de perfume e fuligem misturados.

— Obrigada — sussurrou, quase no ouvido.

Jota sentou na cadeira, mão ainda tremendo na pinça. Bancada quase vazia. Só peças soltas. Protótipos. Uma geração 7.4 que nem existia ainda.

Rand Oliveira apareceu do nada — literalmente, como se tivesse atravessado a parede de concreto — macacão azul sujo de graxa antiga, chave de fenda Phillips na mão.

— Eles vão queimar tudo em dez minutos — falou seco, olhos de quem já viu tudo isso antes.

Depois sumiu do mesmo jeito que apareceu.

Jota abriu o caderno marrom. Página rasgada. Começou a desenhar do zero.

O cadarço ainda estava no chão, enrolado como cobra satisfeita.

Oito minutos depois, a fumaça preta subiu do lado direito do galpão.

Cheiro de silício queimado, plástico derretido, derrota.

Três placas da 7.3 já eram cinzas. A quarta explodiu com estalo seco. A quinta pegou fogo de verdade.

Rosquinha caiu na gargalhada.

— Eu avisei, Chô!

Little Boobs tapou a boca, olhos arregalados, corpo tremendo de tanto rir.

Donaro voltou andando devagar, biquíni preto agora manchado de fuligem. Parou na frente da bancada vazia de Jota.

— A 7.3 queimou — disse, voz calma.

Ela passou a mão lenta pelo corpo, do quadril até a costela, ajeitando o biquíni numa lentidão calculada. Os dedos roçaram a borda do decote.

Jota sentiu a temperatura subir.

— Precisamos da 7.4 — continuou ela, se inclinando na bancada. O elástico do biquíni esticou um pouco. — Tu consegue. Sempre conseguiu.

Silêncio.

Jota olhou pra bancada. Peças soltas. Um núcleo ainda cru. 7.4 nem existia.

Rosquinha engoliu seco, olhando a cena.

— 7.4? Nem começou, porra!

Donaro nem piscou. Continuou inclinada, olhos fixos em Jota.

Jota olhou pro botão vermelho. Intacto. Ainda ali.

Little Boobs se aproximou, voz doce:

— Jota… eles vão queimar o galpão inteiro se não der algo.

Jota engoliu seco. Pegou uma placa virgem. Olhou pra Donaro.

— A próxima é minha — disse. — Só a última.

Donaro assentiu. Voltou à postura normal, o jaleco caindo no lugar.

Negócio fechado.

— Eu sei.

O líder do grupo rival gritou do fundo:

— A entrega é em duas horas!

Jota sentou. Abriu o caderno marrom. Começou do zero.

O cadarço ainda estava no chão, enrolado, esperando a próxima salvação.

O galpão inteiro cheirava a derrota e silício morto.

Donaro ficou parada mais um segundo, olhando Jota começar a 7.4 do zero. Peça por peça. Solda por solda. Silêncio absoluto, só o ferro chiando.

O líder rival gritava no fundo:

— Duas horas! Só duas horas!

Donaro deu meia-volta. Jaleco balançando, sumindo na fumaça.

Jota não olhou pra trás.

Mão firme. Pinça. Ferro. Respiração lenta.

Rosquinha sentou do lado, ainda rindo baixo.

— Tu é foda, Chô.

Little Boobs encostou na bancada, ombro quase tocando a placa.

— Quando terminar, me avisa. Quero ser a primeira a testar.

Jota não respondeu. Só soldou.

Quarenta minutos depois, a placa deu um estalo seco.

Rosquinha congelou.

— Chô…?

Jota parou. Olhou o multímetro. Voltagem errada. Um chip invertido.

Respirou fundo.

Retirou o chip com a pinça, inverteu, soldou de novo.

A luz voltou. Verde. Estável.

— Caralho — murmurou Rosquinha.

Jota continuou soldando.

Uma hora e cinquenta e sete minutos depois, a 7.4 nasceu.

Jota conectou a placa na estação de testes.

Apertou o botão de ignição.

A placa acendeu. Luzes azuis pulsando em sequência perfeita. O multímetro disparou: clock absurdo, temperatura estável, consumo mínimo. Os dados começaram a fluir nas telas ao redor da bancada, processando cálculos que as gerações anteriores levavam minutos em frações de segundo.

Zero defeito.

Zero latência.

Perfeita.

O galpão inteiro parou pra ver.

Rosquinha se levantou devagar, boca aberta.

— Caralho, Chô… tu fez mesmo.

Little Boobs largou o ferro de solda, olhos brilhando.

— Isso é… isso é lindo.

Os dois genéricos se aproximaram. O grupo rival inteiro virou a cabeça. Até Donaro voltou andando, olhos arregalados pela primeira vez na noite.

— Tu… fez?

Jota assistiu os dados fluírem mais alguns segundos. Números dançando nas telas. A placa brilhando azul, viva, perfeita. Depois desligou. O brilho azul apagou devagar, como se resistisse a morrer.

Desconectou os cabos com calma. Um por um.

Guardou a 7.4 na mochila laranja. Fechou o zíper.

Rosquinha veio até ele, mão no ombro.

— Eu sempre soube, Chô. Desde o começo.

— Fiz.

O líder rival correu até ele, mão estendida, voz desesperada.

— Me dá! A entrega… nós vimos funcionar! Nós vimos!

O grupo inteiro atrás dele, olhos fixos na mochila laranja.

— Jota, por favor! Ela tava funcionando! Nós todos vimos!

Jota olhou pro botão vermelho. Ainda ali. Intacto.

Olhou pro líder. Pro grupo rival inteiro olhando ele com desespero.

— Não.

Silêncio absoluto.

Donaro sorriu. Pequeno. Quase orgulhosa.

— Eu sabia.

Jota jogou a mochila no ombro. O cadarço do tênis direito arrastou no chão, enrolado, satisfeito.

Passou por ela sem tocar.

A porta de aço abriu com rangido longo.

Do lado de fora, a Pedreira do Orleans estava escura e fria.

O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 esperava exatamente onde ele deixou, vidro embaçado, banco do motorista afundado com o formato perfeito dos seus 110 kg.

Entrou. Fechou a porta.

Girou o isqueiro amarelo “o sobrevivente” entre os dedos uma vez.

O ímã de geladeira do Posto Esso pesava no bolso da calça.

Ligou o etanol.

O motor 1.0 16v gritou feliz, aquele ronco familiar de sempre, cheiro de combustível barato invadindo a cabine.

Jota olhou pelo retrovisor.

Donaro ainda na porta do galpão, jaleco aberto, uma mão no quadril, olhando ele ir embora. Os olhos dela brilhavam. Não de lágrima. De orgulho.

Jota sorriu de leve.

A próxima era dele.

Só a última.

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Sinopse Narrativa:

Madrugada no galpão abandonado na Pedreira do Orleans. Jota e equipe (Rosquinha, Little Boobs, dois genéricos) trabalham em geração 7.3 de placas eletrônicas. Grupo rival entra, queima placas da geração 6.9. Donaro (ex de Jota, biquíni preto sob jaleco) pede as placas 7.3 senão "casa inteira cai". Jota entrega. Cadarço enrosca salvando última placa de cair. Grupo rival queima tudo. Donaro seduz pedindo geração 7.4 (que nem existe). Jota cria do zero em 1h57min. Placa perfeita. Grupo rival implora. Jota recusa, guarda na mochila: "A próxima é minha. Só a última."

Gênero Ficção Científica, Thriller Tecnológico
Tom Competitivo, Sedutor, Tenso
Timeline Tech
Versão Jota Normal
Categoria Competição tecnológica, Manipulação
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Autonomia e limites, Competição tecnológica, Manipulação feminina
Locais Galpão abandonado, Pedreira do Orleans
Palavras-Chave botão vermelho, cadarço salva placa, Donaro sedução, galpão tech, geração 7.3, geração 7.4, placas eletrônicas, só a última
Jota pesa 110 kg. Trabalha em placas eletrônicas avançadas (geração 7.3, depois 7.4 do zero). Botão vermelho na bancada: "não absoluto", se apertar "galpão inteiro trava". Cadarço SALVA placa: "enroscou no pé dele como se tivesse vontade própria", Jota tropeça, placa escorrega, ele pega a centímetros do chão. Donaro seduz: passa mão do quadril à costela, inclina na bancada, elástico do biquíni estica. Grupo rival: 5 pessoas, jalecos cinza sem crachá, queimam todas as placas 7.3 em 8 minutos. Jota cria 7.4 em 1h57min: "Zero defeito. Zero latência. Perfeita." Recusa dar pro grupo rival. Frase final: "A próxima era dele. Só a última." 3h-4h da manhã. Cheiro: solda fria, ozônio, café queimado.
 

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