Capa do Capítulo

Taça Quebrada

Extensão: 1.549 palavras | Leitura: 8 min

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Jota estacionou o Gol bolinha 2003 cinza naquela rua do centro da cidade de Curitiba às sete e trinta e oito.

Céu aberto, calor de rachar mesmo sendo primavera.

Subiu os quatro lances de escada rangente do prédio velho (elevador quebrado de novo), camiseta regata vinho, rasgada nos ombros e grudando nas costas, 44 anos, 1,83 m, 110 kg, barba por fazer, cicatrizes nas palmas latejando de leve como sempre faziam quando algo estava pra dar errado.

O cadarço direito soltou no segundo lance.

Ele parou pra amarrar.

Foi quando sentiu o corte fantasma na boca começar a latejar.

Rosquinha abriu a porta antes dele bater.

Olhos arregalados, camisa branca amarrotada, pés descalços.

— Valeu, Chô. Sério. Tô fodido.

Jota entrou.

Cheiro de fritura de vizinho, carpete gasto, parede descascando.

Apartamento pequeno, organizado demais pra quem trabalha até tarde.

— Cadê as taças? — Rosquinha já perguntava pra si mesmo, andando rápido pra cozinha.

Jota foi atrás.

Rosquinha subiu na pia, abriu o armário acima da geladeira, enfiou a mão no fundo.

— Achei!

Puxou uma caixa de papelão empoeirada.

Abriu na bancada.

Três taças de cristal.

Herdadas da avó.

Hastes finas, bojo elegante.

Pegou a primeira.

— Perfeita.

Segunda.

— Perfeita.

Terceira.

Parou.

Borda lascada.

Pedaço triangular faltando.

Ponta afiada.

— Caralho.

Jota olhou.

— Essa aí não dá.

— Eu sei. — Rosquinha olhou pra taça quebrada como se ela tivesse traído ele pessoalmente. — Mas são três pessoas. E só tenho três taças.

Olhou pra Jota.

— Você usa essa.

— Como assim eu uso essa?

— Enche de água. Finge que é vinho. O Ricardo nem vai reparar.

— Mas tá quebrada. Dá pra ver de longe.

— Vira o lado lascado pra trás. Ninguém nota.

Já estava saindo da cozinha com as duas boas.

— Pega a garrafa na geladeira e vem.

Jota suspirou.

Pegou a taça quebrada.

Encheu com água da torneira.

Gelada.

Gosto de cloro leve.

Pegou a garrafa de vinho chileno.

Rótulo bonito.

Caro.

Voltou pra sala.

Rosquinha já tinha colocado as duas taças perfeitas na mesinha de centro.

Jota colocou a quebrada na frente de si.

A campainha tocou.

Rosquinha congelou, depois abriu a porta como se fosse receber o Papa.

Ricardo Machado entrou como se o apartamento fosse dele.

Cinquenta e poucos, paletó cinza aberto, relógio dourado brilhando, barba feita no talho, perfume caro que ocupou o ambiente inteiro.

Mediu tudo com dois segundos de silêncio, depois sorriu aquele sorriso que cobra resultado antes mesmo de abrir a boca.

— Rosquinha, meu gay preferido!

Abraço rápido, tapa nas costas.

Olhou pra Jota.

— Esse é o famoso Jota?

Rosquinha engoliu seco.

— É, sim.

Ricardo estendeu a mão.

Apertou firme.

— Prazer. Ricardo Machado.

— Jota, mas meu nome é Geraldo, e jota de Junior. E sim, pode me chamar de Jota.

Ricardo soltou, já andando pra mesinha de centro.

Parou na frente das taças.

Duas de vinho.

Uma de água.

— Cadê a minha?

Rosquinha ficou branco.

Ricardo apontou a garrafa.

— Ou eu bebo no gargalo?

— Não! Eu tenho outra! Só— — Rosquinha já corria pra cozinha.

Ricardo sentou no sofá.

Pegou uma das taças de vinho, cheirou, bebeu.

— Chileno. Bom.

Olhou pra Jota.

— Você não bebe?

— Bebo água hoje.

Ricardo riu curto.

— Faz bem.

Rosquinha voltou de mãos vazias, cara de quem perdeu a mãe.

— Eu— eu não achei. Mas eu juro—

Ricardo levantou a mão.

— Rosquinha. Respira. — Empurrou a própria taça pra ele. — Bebe a minha. Eu bebo da garrafa.

Rosquinha pegou a taça com as duas mãos como quem segura ouro.

Ricardo pegou a garrafa, bebeu dois goles longos direto do gargalo, arrotou baixo.

— Agora vamos falar de negócio. Fornecimento exclusivo pro Étoile. Vinte por cento do lucro líquido nos eventos.

Rosquinha engasgou.

— Vinte?

— Vinte.

Jota levantou devagar.

Ninguém reparou.

Atravessou o corredor.

Passou pelo banheiro.

Parou na porta do quarto.

Abriu.

Ela estava lá.

Deitada de lado na cama de Rosquinha, apoiada no cotovelo, olhando direto pra ele.

Satogos Cruel.

Morena alta, corpo de entidade superior às deusas que desceu só pra foder com a cabeça dos mortais.

Cabelo longo, liso, castanho-escuro, caindo sobre o ombro como cortina de seda.

Olhos verdes claros, gélidos, que congelavam o sangue antes de ferver.

Peitos naturais, marcando a blusa preta justa.

Cintura fina, quadril largo, bunda redonda e durinha que parecia esculpida pra humilhar.

Pernas grossas, fortes, cruzadas com calma de quem sabe que manda no tempo.

Tatuagens cobrindo o braço esquerdo inteiro: dragão, flores, símbolos sombrios e lindos.

Uma bem visível no antebraço: um sigilo que parecia pulsar.

Postura de rainha absoluta.

Braço cruzado embaixo dos peitos.

Olhar que já dizia: você perdeu antes de entrar.

Sorriu.

Lento.

Cruel.

— Demorou.

Jota ficou parado na porta.

Boca ainda sangrando de leve do vidro fantasma.

— Como você—

— Você sabe como. — Ela se sentou, puxou os joelhos pro peito. — Você sabe desde aquele beijo no banheiro. Anos atrás. Eu te puxei, te beijei e sumi.

Inclinou a cabeça.

— Você nunca me achou de novo. Mas eu sempre soube onde você tava.

Jota deu um passo pra dentro.

Fechou a porta.

— Por que agora?

Ela se levantou devagar.

A altura do puro perigo.

Andou até ele, parou a meio metro.

Cheiro de perfume caro e sexo.

— Porque cansei de esperar você vir atrás. — Mão no peito dele, dedos deslizando por cima da camiseta. — Porque eu quis.

Olhar verde gélido subindo até o dele.

— Porque você ainda quer.

Jota sentiu o pau endurecer na hora.

Ela sorriu mais.

Mordeu o lábio inferior.

— Deita.

Ele deitou.

Ela subiu em cima.

Joelhos dos dois lados do quadril dele.

Mãos apoiadas no peito dele.

Rosto a centímetros.

No bolso, o isqueiro amarelo – o sobrevivente – roçou a coxa dele e faiscou e as faíscas morreram antes de alguém notar.

— Você lembra do que eu falei depois do beijo?

— Lembro.

— Repete.

Jota engoliu seco.

— Foi só uma vez, relaxa.

Ela riu baixo.

Olhar que fodia.

— Exatamente. — Abaixou a boca até quase encostar na dele. — E agora vai ser de novo.

Respiração quente no rosto dele.

— Mas dessa vez você vai implorar.

Mão dela desceu.

Abriu o botão da calça dele.

Devagar.

Olhando nos olhos.

Jota gemeu baixo.

Ela parou.

— Implora.

— Nunca.

Ela sorriu, desceu mais, cintura fina se arqueando, quadril largo pressionando as coxas dele.

Mordeu o lábio dele.

Leve.

Doía.

— Mais alto.

— Por favor, Satogos—

AU AU AU AU AU AU

Latidos.

Altos.

Urgentes.

Desesperados.

O quarto tremeu.

Satogos parou, olhou pra porta.

— Que porra—

AU AU AU AU AU

Os latidos cresceram.

Tudo ficou escuro.

Jota abriu os olhos no escuro absoluto.

Como tinha chegado ali?

Encontrou um interruptor.

Reconheceu o quarto no Capão da Imbuia.

AU AU AU AU AU AU

Belinha e Mel latindo na sala como se o mundo estivesse acabando.

O céu da boca queimava.

Gosto metálico.

Sangue.

Ele sentou rápido demais.

A cabeça rodou.

Passou a língua no corte fundo que não estava lá antes de dormir.

Estava agora.

Levantou.

Cambaleou até a porta.

Abriu.

As cachorras vieram correndo.

Pulando.

Língua pra fora.

Olhos arregalados.

Jota foi até a cozinha.

Acendeu a luz.

Pote d’água vazio.

Encheu na torneira.

Mãos tremendo.

As cachorras beberam desesperadas.

Língua batendo na água.

Barulho alto no silêncio das quatro e dezoito da manhã.

Jota encostou na pia.

Cuspiu no ralo.

Sangue vermelho vivo.

Olhou no reflexo do micro-ondas desligado.

Boca inchada.

Corte fundo no céu da boca.

Como se tivesse mordido vidro de verdade.

Passou a língua de novo.

Doía.

Sangrava.

Belinha encostou o focinho na perna dele.

Mel deitou no chão, olhando pra cima.

Jota ficou ali.

Olhando a água no pote.

Olhando o sangue no ralo.

Pensou em Rosquinha servindo vinho com mãos trêmulas.

Em Ricardo bebendo do gargalo como rei.

Em Satogos subindo em cima dele, olhos verdes gélidos, tatuagens brilhando, boca a milímetros da dele dizendo “implora” antes de sumir.

O pau duro debaixo do short.

O corte ainda sangrando.

O gosto de vidro ainda na boca.

E ela nunca ficou.

O que era aquilo?

Sonho?

Estava tudo confuso.

A mochila laranja, jogada no chão do quarto, tinha derramado o caderno marrom – ele chutou de lado, rabiscou ‘taça quebrada, implora’ na margem rasgada e deitou.

Jota apagou a luz da cozinha.

Voltou pra cama.

Deitou de roupa.

As cachorras vieram atrás.

Belinha deitou no pé da cama.

Mel no chão, ao lado.

Silêncio.

O corte latejava.

O ímã do pai, na caixinha da cabeceira, estava frio.

Jota não abriu a caixa.

Não precisava.

Sabia o que tinha dentro.

Sabia o que nunca ia ter.

Fechou os olhos.

Lá fora, um biarticulado desceu a Afonso Camargo, buzina longa, motor roncando.

Curitiba seguia.

E ele ficou ali, 44 anos, boca sangrando, pau duro, sozinho, com o gosto de vidro que nunca mais ia sair e a incerteza.

Satogos Cruel é passado?

Ou existirá num futuro?

Quando virará um presente?

A vida é uma caixinha de surpresas.

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Sinopse Narrativa:

Jota vai ao apartamento de Rosquinha ajudá-lo a receber Ricardo Machado, dono do Étoile, para negociação. No apartamento, encontra Satogos Cruel no quarto — ela o seduz e está prestes a transar com ele quando latidos desesperados das cachorras o arrancam abruptamente para seu quarto no Capão da Imbuia. Jota acorda com um corte real e sangrando no céu da boca, sem saber se o que viveu foi sonho ou algo mais. O conto termina com a pergunta aberta sobre o lugar de Satogos no tempo de Jota.

Gênero Realismo Mágico, Slice of Life
Tom Erótico, Melancólico, Onírico, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Amor, Solidão, Sonho
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas desejo e incerteza, Fronteira entre sonho e realidade, solidão
Locais Afonso Camargo, Apartamento, Capão da Imbuia, centro, Curitiba, Quarto
Palavras-Chave cachorras, corte fantasma, implora, liminar, Satogos, solidão, sonho lúcido, Taça Quebrada
O corte no céu da boca de Jota é físico e real ao acordar — ferimento que atravessa a barreira sonho/realidade. O ímã é chamado de "ímã do pai" pela primeira vez, reforçando sua origem. Belinha e Mel (cachorras) são as responsáveis por "salvar" Jota da cena com Satogos. Jota acorda às 4h18. O conto termina com três perguntas abertas sobre Satogos: passado, futuro ou presente?
 

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