Capa do Capítulo

Telhado da Casa do João da Netuno

Extensão: 2.054 palavras | Leitura: 11 min

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O Gol Bolinha Cinza Urban estaciona duas casas antes. Motor desliga com um suspiro cansado. Jota fica sentado por uns cinco segundos, mãos no volante de plástico duro, olhando a casa do João da Netuno lá na frente. Não vê ela faz uns anos. Desde que saiu da empresa de informática. Desde que juntou grana suficiente pra dar entrada nesse carro que agora range quando freia e cheira a etanol velho toda manhã de inverno curitibano.

Primeiro emprego de carteira assinada. Primeiro salário que prestou. Primeiro lugar onde se sentiu gente.

E agora tá aqui de novo.

Hesita. Pega a mochila laranja do banco de trás, abre, tira o caderno de capa dura marrom. Abre numa página em branco. A caneta azul na mão. Fica olhando a casa do João da Netuno pela janela embaçada.

Não escreve nada.

Guarda o caderno de volta. Fecha a mochila.

Abre a porta. O metal geme. Fecha. O vento bate forte, empurra pra cima como se quisesse arrancar as telhas do mundo. Jota olha a casa. Porta da frente entreaberta. Movimento lá dentro. Vozes abafadas.

Não quer entrar direto.

Contorna pelo muro baixo de tijolos. Apoia o pé na calha de concreto rachada. Sobe. O brasilit tá quente que nem chapa de fogão. Queima a palma da mão quando apoia todo o peso dos cento e dez quilos. Mas sobe. Fica de pé no telhado, equilibrado entre duas ondas de telha, mochila laranja nas costas balançando de leve.

Tira o caderno de capa dura marrom de dentro da mochila.

Abre numa página em branco.

A caneta azul na mão.

Fica olhando a rua lá embaixo. Tarumã quieto. Árvores balançando.

Não escreve nada.

Guarda o caderno de volta. Fecha a mochila.

Fica ali. No telhado.

Jota olha pra baixo. O buraco no dedão esquerdo mostra a meia furada por dentro. O cadarço direito pende solto, bambo, como sempre faz nos piores momentos. Ele abaixa. Amarra. Demora mais que deveria. E nesse momento, olhando pro próprio pé fodido no telhado quente, vê um carro chegando lá embaixo.

Um cara bate na porta entreaberta. Alguém abre mais. O cara entra carregando uma maleta preta.

Vozes lá dentro. Movimentação de cadeiras sendo arrastadas.

Não devia estar aqui.

Alguém sai para olhar a rua.

Então olha pra cima. Vê ele.

— O Jota chegou! Tá em cima do telhado, caralho!

A voz ecoa até a rua. Risadas nervosas. Alguém repete mais alto, quase gritando:

— NO TELHADO!

Jota respira fundo. Olha pra escada de pintura encostada no canto da casa, aquela de alumínio com propaganda desbotada da Suvinil. Desce devagar. Pés no degrau gelado apesar do sol. A mochila balança nas costas. O tênis amarra firme agora. Firme demais.

Chega no chão. Entra pela cozinha dos fundos.

A cozinha tá vazia. Pia cheia de copo de plástico. Garrafa de refrigerante pela metade na mesa forrada com toalha xadrez velha. Cheiro de café velho misturado com algo mais forte. Álcool. Álcool de hospital.

Jota para na soleira da porta que dá pra sala. Sombra de jaleco branco passa rápida pelo corredor. Silêncio pesado do outro lado.

Atravessa. Entra na sala.

Para no batente.

A sala virou outra coisa.

Cadeiras em círculo. Umas dez, doze pessoas. Jalecos brancos. Alguns de manga curta mostrando tatuagem no antebraço. Outros com estetoscópio pendurado no pescoço. Uma mesa no centro coberta com papel branco, tipo de exame médico. Clima de auditório universitário. Clima de necropsia emocional.

No canto, sentados lado a lado numa cadeira dupla:

Maju Kuzito e o marido.

Ela tá de mãos dadas com ele. Os dedos entrelaçados, apertados, brancos de tanta força. Jota lembra desses dedos em outro lugar. Outro tempo. Outra perda. Ela olha pra frente. Não vê Jota entrar. Ou finge que não vê. O cabelo castanho-escuro cai sobre os ombros. Ela veste blusa preta de manga longa apesar do calor.

Jota fica parado na porta. A mão direita entra no bolso. Sente o ímã no bolso da calça esquentar. Retangular, cinza fosco, logo quase apagado do Posto Esso. O pai colou na geladeira quando Jota era garoto. Jota levou quando saiu de casa. Só um pouco de calor. Discreto. Quase nada. Mas esquenta quando tem família perto.

Um homem de jaleco — barba grisalha, óculos de grau grosso, crachá escrito “Dr. Oliveira” — vira a cabeça e olha direto pra Jota.

— Você é o irmão do Deco, né? — Ele pergunta. Voz grave.

— Sou.

— Pode sentar. Falta pouca gente.

Jota entra. Procura cadeira vazia. Tem uma no canto, perto da porta. Última disponível. Senta. A mochila laranja fica no chão, entre os pés.

Mais dois chegam. Uma mulher de jaleco — cabelo preso em coque apertado, prancheta na mão — e um homem alto, mais novo, com estetoscópio vermelho no pescoço.

— Aorta! — A mulher chama. — Pega mais uma cadeira ali.

O homem alto pega. Arrasta. Senta do outro lado do círculo. Jota reconhece o rosto. Leandro Costa, que tocou o projeto adiante quando Jota saiu. Os olhos se encontram por um segundo. Leandro assente de leve, como se dissesse “obrigado por ter vindo”. Jota retribui.

Faz anos.

A médica de coque bate na prancheta com a caneta.

— Bom. Agora que estamos todos… — Olha ao redor. Conta mentalmente. — Todos aqui deveriam estar?

Silêncio.

Maju solta a mão do marido. Só por um segundo. Depois aperta de novo. Mais forte.

— Sim — ela responde. Voz firme mas fina.

A médica assente. Olha pra mesa no centro.

— Então vamos começar.

No centro da mesa: o protótipo.

Pequeno. Feito de silicone translúcido. Forma vagamente humana. Braços. Pernas. Cabeça desproporcional, grande demais pro corpo. Jota conhece cada detalhe desse modelo. Passou meses desenvolvendo ele. Parece boneco de teste. Parece manequim de ressuscitação.

Tem líquido dentro.

Vermelho.

A médica pega o protótipo com as duas mãos. Levanta. Mostra pra todos como quem mostra evidência.

— Submergiram na água. Pressionaram. — Ela aperta de leve. O líquido vermelho se mexe lá dentro, ondula, mas não sai. — A pressão externa deveria ter forçado o líquido pra fora. Mas não aconteceu.

Ela coloca o protótipo de volta na mesa. Pega uma seringa grossa. Injeta mais líquido. O protótipo incha. Fica tenso. Ela mergulha ele num balde de água transparente ao lado da mesa.

Aperta.

O líquido vermelho jorra. Sai pelos orifícios invisíveis. Tinge a água. Nuvens vermelhas se espalhando devagar, pesadas.

— Agora sim. — A médica tira o protótipo da água. Segura ele pingando sobre a mesa. Gotas vermelhas caem no papel branco. — A questão é: por que na primeira vez não saiu?

Ela olha ao redor. Espera resposta. Os olhos passam pela sala. Param em Jota.

Jota sabe a resposta.

Trabalhou nisso. Calculou as variáveis. Testou as hipóteses.

Levanta a mão. Hesita.

Maju continua olhando.

Jota abaixa a mão.

Um homem de jaleco começa a falar algo técnico sobre viscosidade e temperatura. Jota perde a linha de raciocínio. Quando volta a prestar atenção, o homem já parou de falar.

Maju vira a cabeça. Olha pro marido. Aperta a mão dele. Depois olha pro outro lado.

Pro Deco.

Ele tá sentado três cadeiras à esquerda de Jota. Braços cruzados sobre a barriga. Olhando a médica com atenção dobrada, aquele jeito dele de prestar atenção que todo mundo subestima mas que é mais inteligente que metade da sala.

— Deco — Maju fala. Voz firme agora. Como quem faz uma aposta. — O que você acha?

Deco olha pra ela. Pisca. Demora um segundo organizando a resposta na cabeça.

— Acho que… — Ele coça a barba rala. — Tinha ar dentro. Ar impede o líquido de sair rápido. Precisa tirar o ar antes. Senão fica preso.

A médica assente. Sorriso discreto.

— Exatamente.

Maju sorri também. Um sorriso pequeno, quase invisível, mas real. Aperta a mão do marido. Olha pro Deco de novo com algo que parece orgulho.

— Sabia que você ia acertar, Deco.

Depois olha pra Jota. Por um segundo. O sorriso some.

Jota fica quieto. As mãos no colo. Deco ouviu ele explicar isso dezenas de vezes. Anos atrás. Quando Jota ainda conseguia falar sobre o projeto sem sentir o peito fechar. O irmão guardou tudo. E acabou de salvar Jota de ter que falar. Mas Maju viu. Viu Jota escolher o silêncio. De novo.

O isqueiro amarelo, que estava no outro bolso, aparece entre os dedos sem ele perceber como. Acende. Apaga. Acende. Apaga. Click. Click. Click.

A médica continua. A voz mais baixa agora.

— Fizemos outros testes. Diferentes níveis de pressão. Diferentes volumes. — Ela aponta pra parede onde tem gráficos colados com fita crepe, linhas vermelhas subindo e descendo. — As variáveis são muitas.

Ela para. Respira fundo.

— Mas a conclusão é clara. A falha foi estrutural. Não operacional.

Silêncio pesado cai sobre a sala como cobertor molhado.

Maju solta a mão do marido. Devagar. Cruza os braços sobre o peito. O corpo inteiro endurece. Ela não olha mais pro Deco. Olha pra frente. Pro vazio.

A médica respira fundo. Fecha a prancheta.

— Todos aqui deveriam estar? — Ela pergunta de novo. A voz mais dura agora. Quase acusatória.

Ninguém responde.

Jota continua acendendo o isqueiro. Click. Click. Click. A chama dança amarela, pequena, viva.

Alguém do outro lado da sala, uma mulher de jaleco com piercing no nariz:

— Dá pra parar com isso?

Jota olha. Para. As mãos voltam pro colo. Fica imóvel.

Maju se levanta. Devagar. Como se cada movimento doesse. Olha pra médica. O rosto dela não expressa nada. Nem raiva. Nem tristeza. Nada.

— Acho que… — Ela hesita. Engole seco. — Acho que nem todos precisam continuar aqui.

A médica franze a testa.

— Como assim?

Maju não responde com palavras. Só olha.

Olha direto pra Jota. Como se dissesse: você teve a chance de estar presente. Escolheu não estar. De novo. Então vai embora. De novo.

O silêncio fica mais pesado ainda. Cada segundo dura uma hora. Jota sente todos os olhos virando na direção dele. Sente o telhado ainda queimando nos joelhos. Sente o ímã esquentando mais forte no bolso.

Levanta.

Devagar.

Pega a mochila laranja. Coloca nas costas. O peso familiar. O peso de sempre.

— Desculpa — ele murmura.

Ninguém responde.

Ninguém olha.

Ele atravessa a sala. Passa pela cozinha. O cheiro de álcool ainda no ar. Sai pela porta dos fundos.

O vento continua soprando forte. Quente. Empurrando pra cima.

Mas Jota não sobe mais.

Só caminha até o Gol Bolinha. Abre a porta. O metal range de novo. Senta no banco do motorista. O estofado afundado marca as costas dele como sempre marca.

Fica ali.

Mãos no volante.

Olhando a casa do João da Netuno.

A casa onde conseguiu o primeiro emprego.

A casa onde juntou grana pro carro.

A casa que agora acabou de expulsá-lo sem dizer uma palavra.

Jota tira o caderno de capa dura marrom da mochila. Abre. A caneta azul aparece. Escreve rápido, letra torta:

“Deco acertou. Com palavras que aprendeu me ouvindo falar anos atrás. Eu sabia a resposta. Maju me olhou. Me deu a chance. Escolhi ficar calado. Deco me salvou. Mas Maju viu. Broxei. Não só hoje. Segunda vez que não consigo estar presente quando ela mais precisa. Casa do João da Netuno não é mais minha.”

Fecha o caderno. Guarda. Respira fundo. Liga o carro.

O motor tosse. Tosse de novo. Pega no terceiro giro de chave.

Jota dá ré.

Sai da rua.

No retrovisor, a casa vai sumindo.

O ímã no bolso esfria. Fica só peso morto.

Jota segue dirigindo. O Gol Bolinha corta Curitiba no fim da tarde.

Inútil.

Como tudo que ele trouxe pra essa reunião.

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Sinopse Narrativa:

Jota retorna à casa do João da Netuno — onde teve seu primeiro emprego — para uma reunião de jalecos brancos em torno de um protótipo médico com líquido vermelho. No círculo estão Maju Kuzito com o marido, Deco (irmão de Jota) e Leandro Costa. A médica demonstra uma falha estrutural do protótipo. Jota sabe a resposta mas se cala, Deco a diz com palavras aprendidas ouvindo o próprio Jota. Maju vê o silêncio de Jota e o dispensa com o olhar. Ele sai, escreve no caderno o que não conseguiu dizer e parte com o ímã esfriando no bolso.

Gênero Drama Psicológico, Slice of Life
Tom Contido, Melancólico, Sufocante
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Ausência, Fracasso Emocional, Luto
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Irmão como espelho e salvação involuntária, Presença ausente e culpa, Silêncio como fracasso
Locais casa do João da Netuno, Gol, Tarumã, telhado
Palavras-Chave ausência, Deco, falha estrutural, ímã esfriando, Maju, primeiro emprego, protótipo, silêncio, telhado
O ímã do Posto Esso tem comportamento explícito neste conto: esquenta discretamente quando há família por perto e esfria quando Jota se afasta delas. O isqueiro aparece entre os dedos "sem ele perceber como" — comportamento autônomo. Jota sobe ao telhado antes de entrar — detalhe que a reunião depois ressoa como metáfora de estar presente mas fora do lugar. Leandro Costa (Barney do conto 071) aparece aqui num papel completamente diferente, como médico que tocou o projeto adiante. A nota escrita no caderno é a única fala real de Jota no conto — tudo que não disse, dito depois.
 

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