Capa do Capítulo

The Second Detail

Extensão: 2.258 palavras | Leitura: 12 min

Faça login para acompanhar.

03h14.

O quarto tá escuro, frio de Curitiba entrando pela janela entreaberta. A única luz é o azul do notebook no colo de Jota.  A barra do torrent marca 87%.

The_Second_Detail_(1978)_Agatha_Christie_1080p.mkv

Jota morde o lábio, não lembra de ter colocado esse filme para download. Mas diz que faz quarenta minutos que começou a baixar. Procurou no Google. Nada. Nem sinopse. Nem pôster.Só um comentário no próprio feed do torrent:

“Se encontrar esse filme, não assista sozinho.”

Óbvio que agora ele ia terminar de baixar e dar uma olhada, sozinho. 

No quarto, a mochila laranja tá jogada no chão. O caderno de anotações de capa dura marrom ao lado, ímã de geladeira cinza fosco preso na capa. Logo do Posto Esso quase apagado. E um isqueiro amarelo jogado em cima da escrivaninha. Pela janela dá para ver na garagem um Gol Bolinha Cinza Urban 2003, com uma luz amarela de um poste da rua refletindo na lataria.

91%.

Pega o copo de guaraná, bebe o resto. Olha pro teto. Respira fundo.

93%.

Sente algo estranho na cueca. Uma pressão. Baixa o olhar. A cueca boxer preta tá… diferente. Ele franze a testa. Coloca o notebook de lado. Levanta um pouco o corpo. Abaixa a cueca. E vê. Dois pênis. A pele esticada no ponto de junção. Veias pulsando dos dois lados. Cor normal. Um normal outro pequeno. Mas são dois. Jota pisca. Olha de novo. Ainda estão lá. Ele solta o ar devagar. 

— Como eu nunca reparei nisso antes?

A pergunta sai baixa. Quase sussurrada. Porque faz sentido. Claro que faz sentido. Ele conhecia seu corpo. Se masturba. Transa. Como nunca reparou?

95%.

O segundo pênis — o da direita — começa a crescer. Devagar no começo. Cinco centímetros. Jota toca. Carne real. Quente. O primeiro continua normal. O segundo cresce mais. Dez centímetros. Quinze. Pesa. Puxa a pele. A dor é surda. Jota respira fundo. Não entra em pânico. Apenas observa.

— Tá crescendo… Por que tá crescendo agora?

Olha pro notebook.

99%.

Quase lá. Ele sobe a cueca de volta. Empurra os dois pra cima como já soubesse como fazer. O segundo não para. Agora deve ter uns vinte centímetros. A cueca marca tudo. Jota pega o isqueiro de novo. Acende. Apaga. Acende. Apaga. Tic nervoso que surge. Jota não fuma. Mas o isqueiro sempre tá aí.

100%.

Download concluído. Jota clica duas vezes no arquivo. O player abre. E o mundo muda. O player abre. Tela preta. Chiado de VHS velho. Créditos em fonte gótica amarela:

THE SECOND DETAIL

Baseado em conto de Agatha Christie. Produção: Reino Unido, 1978. Música de suspense. Piano grave. Violinos arranhando. A imagem surge. Mansão vitoriana.Jardim bem cuidado. Céu cinza. Uma mulher loira entra pela porta da frente. Vestido azul-marinho, cabelo preso, olhos claros que parecem ver através da tela. Ela caminha por um corredor longo. Para diante de uma porta fechada. Bate três vezes. Ninguém responde. Ela abre mesmo assim. Dentro, um homem de terno preto tá sentado numa poltrona de couro. Costas viradas pra porta. A mulher loira entra. Fecha a porta.

— Você escondeu de mim, o tempo todo.

O homem não responde. Ela se ajoelha na frente dele. As mãos vão pro cinto. Corte. Jota franze a testa. O segundo pau dá um pulo dentro da cueca. Como se tivesse ouvido. Jota sente. Olha pra baixo. Pulsou sozinho. Vinte e dois centímetros agora. A ponta aparecendo por cima da cueca. Ele tenta empurrar pra baixo. O tecido não aguenta. O filme continua. 

Flashback.

O mesmo homem, mais jovem, na praia. Calça folgada, camisa longa. Evitando tirar a roupa. Amigos chamando pra entrar na água. Ele recusa. “Dor de barriga.”

Outra cena. 

O homem no banheiro. Olhando pro espelho.Dois pênis. Ele toca. Esconde. Veste calça larga. 

Outra cena.

Casamento. Noiva linda. Ele nervoso. A noite de núpcias. Ela quer apagar a luz. Ele quer deixar acesa. Briga. Ela chora. Ele desiste. Apaga a luz.

Corta.

Volta pro presente. A mulher loira tá de pé agora. Olhando pela janela.

— Eu sempre soube — ela diz.

— Só estava esperando você admitir.

O homem levanta da poltrona. Abaixa as calças. Mostra. Dois pênis. A mulher sorri.

— O marido estava under down… e ninguém percebeu o segundo detalhe.

O segundo do homem no filme começa a crescer. Devagar. Dez centímetros. Quinze. Vinte. Exatamente como o do Jota. Jota sente o dele crescer junto. Vinte e cinco centímetros. A cueca rasga na lateral. O segundo pau pula pra fora. Pulsando forte. Quente. Jota tenta segurar. Não consegue.

O filme corta pra mulher loira olhando direto pra câmera. Direto pra ele.

— Você também sempre soube, não soube?

O segundo membro de Jota dá um salto. Como se respondesse “sim”. Jota respira ofegante. O suor escorre. A vergonha queima. Mas o tesão também. Porque é carne dele. Sempre foi.

O filme continua.

A mulher loira se aproxima da câmera. O rosto dela enche a tela inteira. Olhos claros que atravessam a tela, atravessam o quarto, atravessam o Jota.

— Você terminou de baixar. Cem por cento. Completo. Agora você sabe.

Jota tá paralisado. O segundo pau vibrando fora da cueca. Vinte e cinco centímetros. Roxo. Pesado. Quente. A ponta encostando na barriga dele. A mulher sorri.

— Sempre esteve lá. Você só não queria ver.

Ela pisca. A tela fica vermelha. Corta. Créditos finais rolando. Música de suspense diminuindo. A mulher loira aparece uma última vez. Sentada numa cadeira. Sozinha. Olhando direto pra câmera.

— Bem-vindo ao clube dos dois, querido.

A tela apaga. Silêncio. Jota respira ofegante. O segundo pau ainda vibrando. A mão dele desce sem ele mandar. Toca. Carne real. Quente. Pulsando. A mão aperta. 

Uma vez.  Duas. Três. Goza.

Jatos quentes batem no peito, na camiseta vinho, escorrem pela barriga. 

Cinco. Seis. Sete. O segundo goza mais que o primeiro.

Jota geme baixo. Vergonha queimando o rosto. Tesão queimando o corpo. Ele pega a camiseta. Limpa. O cheiro de porra misturado com suor. A mulher do filme ainda tá na cabeça. 

“clube dos dois” 

Jota larga a camiseta no chão. Olha pro segundo pau. Ainda duro. Vinte e cinco centímetros. Não baixa. Não volta. Ele toca de novo. Responde com um espasmo leve. Jota sorri. Cansado. Aceitando.

— Tá bom… clube dos dois então.

Deita na cama. Dois corações batendo na cueca. Um sempre bateu. O outro acabou de acordar. E agora os dois são dele. Pra sempre. O isqueiro amarelo tá na cama. Ele pega. Acende. Olha a chama. Apaga. O quarto fica escuro. O segundo pau ainda pulsando baixo. Jota fecha os olhos. E dorme. E a certeza que amanhã vai ser um dia diferente. Porque o download terminou. O filme acabou. E o segundo detalhe marca presença. E lateja.

08h47.

O sol entra forte pela janela. Jota acorda com o corpo pesado, boca seca, cabeças latejando. Levanta devagar. A cueca boxer preta tá rasgada na lateral. O segundo pau ainda tá lá. Duro. Como se tivesse acabado de acordar pra vida. Ele olha. Toca. Carne real. Quente. Vibrando baixo. Respira fundo. Levanta. Vai até o banheiro. Olha no espelho. Barba cheia. Cabelo bagunçado. Olhos fundos. E o segundo pau balançando entre as pernas. Volta pro quarto. Ele tenta vestir outra cueca. Não cabe. Tenta calça de moletom. O volume marca demais. Tenta camiseta longa por cima. Melhor, mas ainda aparece. 

Pega o caderno da mochila. O ímã frio na capa. Abre. Caneta quase sem tinta. Anota:

“03h14 – Filme baixado. The Second Detail (Agatha Christie, 1978). Mulher loira. Dois pênis. Sempre tive. Nunca vi. Agora vejo. 25cm. Clube dos dois.”

Fecha o caderno. Guarda. Pega o notebook. Abre o torrent. O arquivo ainda tá lá.

The_Second_Detail_1978_Agatha_Christie_1080p.mkv

Clique duplo. O player abre. Tela preta. A mulher loira aparece de novo. Olhando direto pra câmera.

— Bom dia, querido. Já se acostumou?

Jota fecha o notebook rápido. O segundo pau dá um pulo. Como se tivesse ouvido. Ele ri. Sem graça.

— Caralho…

Veste a camiseta regata vinho (a mesma de ontem, ainda com cheiro de porra seca). O short de moletom cinza. Tênis surrado, cadarço direito solto. Desce pra cozinha. Abre a geladeira. Guaraná. Bebe no gargalo. Senta na mesa. Olha pela janela. O Gol Bolinha na garagem. E agora o segundo pau vibrando embaixo da mesa. Ele toca de novo. A sensação é… diferente. Mais sensível. Mais vivo. Ele aperta de leve. Responde imediato. Jota sorri.

— Tá bom… vou ter que aprender a viver com isso.

Levanta. Pega a chave do Gol. Vai até o Gol Bolinha. O Fiel. Ele entra. Senta. O banco afunda. O segundo pau encosta no volante. Ele ri sozinho.

— Eita porra…

Liga o motor. O 1.0 tosse. Pega. Engata a primeira. E sai. Sem destino. Só pra sentir. O vento no rosto. O segundo pau pulsando no short. O mundo parecendo… maior. Porque agora ele tem dois. E o segundo acabou de acordar. 

11h32.

Jota tá no banheiro do sobrado. Box pequeno, azulejo branco rachado, chuveiro que pinga mesmo fechado. Cueca no chão. Short de moletom no chão. Camiseta vinho pendurada na maçaneta. Ele olha pra baixo. Dois pênis. Um normal. O segundo ainda vinte e cinco centímetros. Vibrando levinho, como se tivesse vida própria. A água cai quente. Jota pega o sabonete. Passa no peito. Desce. Toca o primeiro. Normal. Toca o segundo.

A sensação é diferente.

Mais intensa. Ele fecha os olhos. A mão desce sozinha. Segura o segundo. Aperta. Responde com força. Pulsa mais forte. Jota geme baixo. A outra mão desce pro primeiro. Dois paus. Duas mãos. Ele bate. Devagar no começo. Depois mais rápido. A água cai no rosto. No peito. Nos dois. Ele goza duas vezes. Primeiro o segundo. Jatos fortes, longos. Depois o primeiro. Menos. Mas goza. Jota apoia a testa no azulejo frio. Respira ofegante. A água lava tudo. Ele ri.

— Caralho…

Sai do banho. Enrola a toalha na cintura. O volume ainda marca. Impossível esconder. Veste o short de moletom mais folgado que tem. Ainda marca. Veste camiseta longa por cima. Melhor. Mas quem olhar vai ver. E vai. Jota pega a chave do Gol. Sai.

Mercado. Precisa de guaraná. Precisa de normalidade. Entra no estacionamento. Desce. O short marca. Ele anda rápido. Cabeça baixa. Entra no mercado. Pega o carrinho. Vai pro corredor de refrigerante. Uma mulher de uns 30 anos passa do lado. Olha. Olha pra baixo. Olha pra cima. Sorri de canto. Jota sente o rosto queimar. O segundo pau… murcha um pouco. Dezoito centímetros. A vergonha pesando mais que o tesão. Pega seis garrafas de guaraná. Também passa pelo setor de cuecas e procura por umas maiores. Encontra umas tamanhos GG. Vai pro caixa. A moça do caixa olha. Olha pra baixo. Olha pra cima. Sorri aberto.

— Tá calor hoje, né?

— Tá.

O segundo pau volta. Vinte e cinco centímetros de novo. Só pelo sorriso dela.Jota sente crescer dentro do short. Paga rápido. Sai. No carro, respira fundo. O segundo pau tá duro de novo. Só de lembrar do olhar das duas. Ele ri sozinho.

— Porra…

Liga o motor. O 1.0 tosse. Pega. Engata a primeira. E vai pra casa. Porque agora o mundo é diferente. E o segundo pau tá gostando. 

22h47.

O quarto tá escuro de novo. Jota deitado na cama, só de cueca boxer larga. O segundo pau tá quieto agora. Vinte e cinco centímetros. Pulsando baixo, como coração secundário. A camiseta regata vinho tá jogada na cadeira. Cheiro de guaraná e suor. O isqueiro amarelo na mesa de cabeceira. O notebook fechado. O filme, bem ele está lá ainda. O caderno ao lado, ímã frio na capa. Jota olha pro teto. Pensa no dia. No banho. No mercado. Nos olhares. Na moça do caixa que sorriu. Na mulher do corredor que olhou duas vezes. Pensa na mulher loira do filme.

“bem-vindo ao clube dos dois, querido”

Ele ri baixo. Toca o segundo pau. Parte dele. Sempre foi. O primeiro reage também. Os dois endurecem juntos. Jota pega cada um com uma mão. Bate. Devagar. Curtindo. Sem vergonha agora. Goza duas vezes. Forte. Longe. A cueca vira bagunça. Ele ri. Tira a cueca. Joga no chão. Deita pelado.

Dois paus.

Dois corações.

Um homem.

Aceitação total.

O segundo detalhe sempre esteve lá. Ele só precisava de um filme pirata de Agatha Christie às 3h da manhã pra finalmente ver. Jota pega o caderno. Abre. Anota embaixo da entrada anterior:

“22h47 – Dia completo. Banho. Mercado. Olhares. Moça sorriu. Segundo pau murchou (vergonha), depois voltou (sorriso). Aprendi: ele reage. Ele sente. Ele é meu. Clube dos dois = casa agora.”

Fecha o caderno. Ímã frio na capa. Guarda. Fecha os olhos. Dorme. Sonha com a mulher loira. Ela sorri.

— Boa noite, membro do clube.

E ele sorri de volta. Porque agora o clube dos dois é casa. E ele nunca mais vai ser o mesmo.

Mas vai ser inteiro.

Faça login para acompanhar.

Sinopse Narrativa:

Às 3h14, Jota baixa um torrent de um filme inexistente atribuído a Agatha Christie — The Second Detail (1978). Ao terminar o download, descobre que possui dois pênis, convencendo-se de que sempre foi assim e simplesmente nunca havia notado. O filme parece espelhar e reagir à sua situação em tempo real, culminando em uma personagem feminina que o interpela diretamente pela tela. Ao longo do dia seguinte, Jota transita entre vergonha e aceitação, documentando tudo no caderno. Ao final, conclui que o "segundo detalhe" sempre esteve lá — e o aceita integralmente.

Gênero Body Horror Suave, Realismo Mágico
Tom Aceitação, Erótico, Introspectivo, Surreal
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Aceitação Corporal, Descoberta
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Aceitação corporal, identidade, Realidade que espelha o íntimo, Vergonha e desejo
Locais banheiro, Curitiba, estacionamento, Mercado, Quarto, ruas de Curitiba, sobrado
Palavras-Chave aceitação, Agatha Christie, clube dos dois, corpo, dualidade, filme inexistente, segundo detalhe, torrent
O filme The Second Detail não existe no mundo real — nenhum resultado no Google, sem pôster ou sinopse. A personagem feminina do filme quebra a quarta parede e interage diretamente com Jota. O segundo pênis reage a estímulos externos (crescimento durante o filme, murcha com vergonha, retorna com estímulo social). Jota documenta os eventos no caderno em dois momentos distintos (03h14 e 22h47). Fenômeno corporal de origem não explicada, tratado com naturalização progressiva pelo protagonista.
 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PRIVACIDADE E COOKIES

Para que sua jornada por estes contos seja completa, usamos cookies para entender como você navega por aqui. Podemos seguir com a leitura?

Saiba mais.