O escritório é todo madeira escura e carpete grosso que engole som. Mesa enorme de mogno. Cadeira de couro que range. Parede coberta de diplomas falsos e fotos com gente importante que provavelmente nunca esteve ali. Cheiro de charuto caro e perfume mais caro ainda.
Jota está parado na frente da mesa. Mochila laranja no ombro. Camiseta regata vinho debaixo da jaqueta jeans que não combina com o lugar. Tênis surrado fazendo barulho no carpete.
Atrás da mesa: Leandro Costa.
Trumpwin.
O rosto muda quando Jota não está prestando atenção. Trump de um ângulo. Baldwin quando a luz bate diferente. De volta quando pisca.
Jota conhece o Leandro. E Leandro sempre foi estranho assim.
Ele usa terno azul-marinho com gravata vermelha longa demais. Mãos pequenas tamborilando na mesa. Voz que oscila entre grave e aguda, sotaque que some e volta:
— Você sabe por que te chamei aqui?
Jota não responde.
Trumpwin sorri. Ou tenta. O sorriso não alcança os olhos.
— Porque você é perfeito. Perfeito! Nobody does stupid better than you. Trust me. I know stupid. The best stupid.
Ele abre a gaveta da mesa. Tira uma pistola cromada. Coloca em cima do mogno. Empurra na direção de Jota.
— Pega.
Jota olha a arma. Olha pra ele.
— Pra quê?
— Great question. Tremendous question. — Trumpwin se levanta. — Mas você não precisa saber. Apenas pega.
Jota pega.
A pistola é fria. Pesada. Real.
— Põe na mochila. — Trumpwin aponta. — E pega o envelope.
Jota abre a mochila laranja. Pega a camiseta reserva. Enrola a pistola nela. Guarda no fundo. Vê um envelope branco. Tira.
— O que é isso?
— Seu currículo. — Trumpwin sorri. — Trust me. You’ll need it.
Jota olha o envelope. Nem abre. Guarda de volta.
Trumpwin bate palmas. Uma vez. Alto.
— Perfeito! Vamos.
Eles saem do escritório. Corredor vazio. Escadas que descem três andares. Porta dos fundos que dá direto no estacionamento.
O Gol Bolinha Cinza Urban está ali. Sozinho. Duas portas. Vidro embaçado. Cheiro de etanol velho vazando.
Trumpwin para. Olha pro carro. Olha pra Jota.
— Você tá de sacanagem comigo.
— É o que eu tenho.
— Isso é o que você dirige? — Ele aponta com nojo. — Triste! Muito triste! Eu tenho doze carros. Doze! Todos importados. Todos incríveis. E você… você tem isso.
— Cara, tu é maluco. Tu sabe que tenho há anos esse carro. Doze carros? Tu tem um CRV que mal pega.
— Fake News. Em breve meu Tesla chegará.
Jota abre a porta do motorista. Entra.
— Entra ou fica.
Trumpwin resmunga. Entra. O banco do passageiro range sob o peso. Ele olha ao redor. Pro painel rachado. Pro rádio que não funciona. Pro chão sujo.
— Fake car. Tem que ser fake. Ninguém dirige isso de verdade.
Jota liga o motor. O 1.0 16v tosse. Pega. Sai do estacionamento.
Dois quarteirões depois, Trumpwin acende um charuto. Não pede permissão. Só acende. A fumaça grossa enche o carro.
— Você tem fogo?
Jota franze a testa.
— Você acabou de acender.
— Não pra mim, idiota. Pro próximo. Sempre acendo dois. Um agora, outro em cinco minutos. Planejamento. Strategy. Nobody plans better than me.
Jota suspira. Tira a mochila laranja do banco de trás. Abre. Procura.
Caderno de capa dura marrom. Caneta sem tampa. Envelope branco. Camiseta regata vinho reserva dobrada — pesada, com algo dentro. Papéis soltos. Migalhas de alguma coisa.
Nenhum isqueiro.
— Cadê? — Trumpwin pergunta. Impaciente.
— Tô procurando.
— Procurando? Você não sabe onde está? Sad! Very sad!
Jota vira a mochila de cabeça pra baixo. Tudo cai no colo. No chão. No banco.
A camiseta enrolada cai pesada. Jota empurra pro lado antes que Trumpwin veja direito.
Nada de isqueiro.
Jota abre o porta-luvas. Procura entre manuais velhos, documentos do carro, guardanapos de posto.
Nada.
— Esqueci.
Trumpwin bufa. Joga o charuto pela janela.
— Idiota. Eu disse que você era perfeito.
Jota guarda tudo de volta na mochila. Devagar. A camiseta enrolada pro fundo. Empurra o envelope — amassa as bordas. O caderno por cima.
Fecha. Joga no banco de trás.
Dirige em silêncio. Trumpwin reclama o caminho inteiro. Do carro. Do trânsito. Do cheiro. Da vida.
A casa é grande. Subúrbios ricos. Portões altos. Gramado perfeito. Nenhuma luz acesa.
Jota estaciona na frente. Desliga o motor.
Trumpwin tira o celular. Digita algo. Guarda.
— Pronto.
— Pronto o quê?
— Você vai ver. — Sorri. — Great show. The best show.
Jota olha a casa. Portões altos. Gramado perfeito. Luzes apagadas.
— De quem é essa casa?
Trumpwin sorri. Largo.
— I will make America great again. Trust me.
Olha pra Jota. Depois pra casa.
— Você entra primeiro.
— Por quê?
— Porque eu mandei. I’m the boss. Always the boss.
Jota pega a mochila laranja do banco de trás. Abre. Procura no fundo.
A camiseta enrolada. Pesada.
Desenrola.
A pistola. Fria. Pesada.
Tira. Fecha a mochila. Joga no banco.
Sai do carro. Trumpwin atrás.
A porta da frente está destrancada. Jota empurra. Entra.
Sala enorme. Carpete bege. Móveis caros. Silêncio absoluto.
Trumpwin entra atrás. Fecha a porta. Vira pra Jota.
— Agora.
— Agora o quê?
— Atira.
Jota franze a testa.
— Em quem?
Trumpwin abre os braços. Sorri largo.
— Em mim, idiota.
Silêncio.
Jota olha a pistola. Olha pra ele.
— Você tá de sacanagem.
— Nunca estive tão sério. — O sorriso cresce. — Atira. Trust me. Great plan. The best plan. Vai dar certo.
— Dar certo pra quem?
— Pra mim, óbvio. — Trumpwin dá um passo à frente. Bate no peito. — Atira aqui. No coração. Three shots. Faz bonito.
Jota levanta a pistola. Devagar. Mão tremendo.
— Leandro, eu não…
— ATIRA!
Trumpwin avança.
Pega a mão de Jota. A que segura a arma. Aperta.
O dedo de Jota no gatilho. A mão de Trumpwin por cima. Quente. Firme.
E aperta.
PAM.
Jota não sabe se puxou o gatilho ou se foi só Trumpwin.
O som é seco. Abafado pelo carpete.
Mas explode dentro da cabeça de Jota.
Zumbido agudo. As mãos tremem. A arma pesa. Ou não pesa nada. Não sabe. O ar some. Ele piscou? Não lembra. O chão parece mais longe. Ou mais perto.
Atirou no Leandro.
Ou foi o Leandro que…?
Não. Atirou. Ele atirou.
Trumpwin cambaleia. Mãos no peito. Olhos arregalados. Boca aberta. O terno azul-marinho fica vermelho. Ele cai de costas. Devagar. Teatral. Bate no chão com um baque pesado.
Fica parado. Olhos abertos. Fixos no teto.
Jota abaixa a pistola. Mão tremendo.
— Puta merda…
Sirenes.
Longe no começo. Depois mais perto. Rápido demais.
Jota vira a cabeça. Olha pra porta. Olha pro corpo.
E o corpo se mexe.
Trumpwin senta. Devagar. Sorri. Limpa o sangue do paletó com a mão. O vermelho sai fácil demais. Líquido. Falso.
— Fake blood. Hollywood quality. The best fake blood. Nobody fakes better than me.
Trumpwin se levanta. Limpa o sangue falso da mão no paletó. Caminha até Jota. Arranca a pistola dos dedos dele como se fosse brinquedo de criança.
— Você é um idiota. — Pausa. — Mas eu gosto de idiotas. Useful idiots. The best kind.
Ele abre um sorriso largo.
E dança.
Ombros sacudindo fora de ritmo. Cotovelos presos ao corpo. Mãos pequenas apontando pra lugar nenhum. Como se estivesse marcando um compasso que só ele escuta.
A porta explode.
Polícia. Três. Quatro. Seis. Armas apontadas. Gritos de “MÃOS AO ALTO! NO CHÃO! AGORA!”
Trumpwin levanta as duas mãos. A pistola pende entre dois dedos. Como se fosse lixo.
— Calma, calma. Aqui. — Ele entrega a arma pro policial mais próximo. — Prendam logo. Eu tenho rally às sete. Big rally. Huge crowd. They love me.
Os policiais trocam olhares. Um deles avança. Algema Trumpwin.
Ele não resiste. Só continua falando.
— Isso é armação. Fake news. Total fake news. Eu sou vítima aqui. Victim! Nobody’s been more victimized than me. Believe me.
Eles o arrastam pra fora. Trumpwin ainda gritando.
— EU VOLTO! I ALWAYS COME BACK! BIGGER! BETTER! THE BEST COMEBACK!
A porta bate.
Silêncio.
Jota fica parado no meio da sala. Mãos levantadas. Coração na boca. Suor frio escorrendo pelas costas.
Um policial se aproxima. Jovem. Barba curta. Olhar cansado.
— E você?
Jota engole seco.
— Eu?
— É. Você. O que você tá fazendo aqui?
Silêncio de três segundos.
Depois:
— Vim entregar um currículo.
O policial franze a testa.
— Currículo.
— Sim.
— Aqui. Nessa casa. À noite. Com um cara que acabou de levar um tiro.
— Exato.
O policial olha pra ele. Olha pros outros policiais. Balança a cabeça.
— Você tá de sacanagem comigo.
— Não, senhor. — Jota mantém o rosto sério. — Vim entregar meu currículo. Pro… — Hesita. — Pro dono da casa. Ele pediu. Disse que tinha vaga. Cheguei, toquei a campainha, a porta tava aberta, entrei, e… — Faz gesto vago. — Isso.
O policial olha ao redor. Vê a mochila laranja no chão.
— Cadê o currículo?
Jota pega a mochila. Abre. Procura. Tira o envelope branco amassado.
— Aqui.
O policial pega. Abre. Olha. É um currículo de verdade. Nome de Jota. Experiência inventada. Formatação ruim.
Balança a cabeça.
Olha pro envelope. Pros outros policiais. Pra Jota. De volta pro envelope.
Suspira. Como se já tivesse visto isso antes.
Devolve.
Silêncio.
Depois:
— Você é o terceiro esse mês. — Olha pra porta onde Trumpwin foi levado. — Ele sempre encontra idiotas. E sempre se livra.
— Senhor?
— SAI. Antes que eu mude de ideia.
Jota não espera repetir. Abaixa as mãos. Pega a mochila do chão. Caminha rápido até a porta. Passa pelos policiais. Sai.
Lá fora: viatura com Trumpwin dentro. Ele acena pela janela. Sorrindo. Polegar pra cima.
Como se fosse desfile.
Como se estivesse ganhando.
Jota olha. Vira as costas. Vai até o Gol Bolinha.
Entra. Fecha a porta. Apoia a cabeça no volante.
Respira.
Ele enfia a mão no bolso da calça.
E sente.
O isqueiro amarelo.
Estava ali o tempo todo.
Jota tira. Olha. Ri. Sem humor.
— Filho da puta.
Liga o carro. O motor tosse. Pega.
No retrovisor: Trumpwin acenando da viatura. Polegar pra cima. Sorrindo.
Como se estivesse ganhando.
Jota segue.
O Gol Bolinha ronca na noite fria.
