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Tiro no Escritório

Extensão: 1.726 palavras | Leitura: 9 min

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O escritório é todo madeira escura e carpete grosso que engole som. Mesa enorme de mogno. Cadeira de couro que range. Parede coberta de diplomas falsos e fotos com gente importante que provavelmente nunca esteve ali. Cheiro de charuto caro e perfume mais caro ainda.

Jota está parado na frente da mesa. Mochila laranja no ombro. Camiseta regata vinho debaixo da jaqueta jeans que não combina com o lugar. Tênis surrado fazendo barulho no carpete.

Atrás da mesa: Leandro Costa.

Trumpwin.

O rosto muda quando Jota não está prestando atenção. Trump de um ângulo. Baldwin quando a luz bate diferente. De volta quando pisca.

Jota conhece o Leandro. E Leandro sempre foi estranho assim.

Ele usa terno azul-marinho com gravata vermelha longa demais. Mãos pequenas tamborilando na mesa. Voz que oscila entre grave e aguda, sotaque que some e volta:

— Você sabe por que te chamei aqui?

Jota não responde.

Trumpwin sorri. Ou tenta. O sorriso não alcança os olhos.

— Porque você é perfeito. Perfeito! Nobody does stupid better than you. Trust me. I know stupid. The best stupid.

Ele abre a gaveta da mesa. Tira uma pistola cromada. Coloca em cima do mogno. Empurra na direção de Jota.

— Pega.

Jota olha a arma. Olha pra ele.

— Pra quê?

— Great question. Tremendous question. — Trumpwin se levanta. — Mas você não precisa saber. Apenas pega.

Jota pega.

A pistola é fria. Pesada. Real.

— Põe na mochila. — Trumpwin aponta. — E pega o envelope.

Jota abre a mochila laranja. Pega a camiseta reserva. Enrola a pistola nela. Guarda no fundo. Vê um envelope branco. Tira.

— O que é isso?

— Seu currículo. — Trumpwin sorri. — Trust me. You’ll need it.

Jota olha o envelope. Nem abre. Guarda de volta.

Trumpwin bate palmas. Uma vez. Alto.

— Perfeito! Vamos.

Eles saem do escritório. Corredor vazio. Escadas que descem três andares. Porta dos fundos que dá direto no estacionamento.

O Gol Bolinha Cinza Urban está ali. Sozinho. Duas portas. Vidro embaçado. Cheiro de etanol velho vazando.

Trumpwin para. Olha pro carro. Olha pra Jota.

— Você tá de sacanagem comigo.

— É o que eu tenho.

— Isso é o que você dirige? — Ele aponta com nojo. — Triste! Muito triste! Eu tenho doze carros. Doze! Todos importados. Todos incríveis. E você… você tem isso.

— Cara, tu é maluco. Tu sabe que tenho há anos esse carro. Doze carros? Tu tem um CRV que mal pega.

— Fake News. Em breve meu Tesla chegará.

Jota abre a porta do motorista. Entra.

— Entra ou fica.

Trumpwin resmunga. Entra. O banco do passageiro range sob o peso. Ele olha ao redor. Pro painel rachado. Pro rádio que não funciona. Pro chão sujo.

— Fake car. Tem que ser fake. Ninguém dirige isso de verdade.

Jota liga o motor. O 1.0 16v tosse. Pega. Sai do estacionamento.

Dois quarteirões depois, Trumpwin acende um charuto. Não pede permissão. Só acende. A fumaça grossa enche o carro.

— Você tem fogo?

Jota franze a testa.

— Você acabou de acender.

— Não pra mim, idiota. Pro próximo. Sempre acendo dois. Um agora, outro em cinco minutos. Planejamento. Strategy. Nobody plans better than me.

Jota suspira. Tira a mochila laranja do banco de trás. Abre. Procura.

Caderno de capa dura marrom. Caneta sem tampa. Envelope branco. Camiseta regata vinho reserva dobrada — pesada, com algo dentro. Papéis soltos. Migalhas de alguma coisa.

Nenhum isqueiro.

— Cadê? — Trumpwin pergunta. Impaciente.

— Tô procurando.

— Procurando? Você não sabe onde está? Sad! Very sad!

Jota vira a mochila de cabeça pra baixo. Tudo cai no colo. No chão. No banco.

A camiseta enrolada cai pesada. Jota empurra pro lado antes que Trumpwin veja direito.

Nada de isqueiro.

Jota abre o porta-luvas. Procura entre manuais velhos, documentos do carro, guardanapos de posto.

Nada.

— Esqueci.

Trumpwin bufa. Joga o charuto pela janela.

— Idiota. Eu disse que você era perfeito.

Jota guarda tudo de volta na mochila. Devagar. A camiseta enrolada pro fundo. Empurra o envelope — amassa as bordas. O caderno por cima.

Fecha. Joga no banco de trás.

Dirige em silêncio. Trumpwin reclama o caminho inteiro. Do carro. Do trânsito. Do cheiro. Da vida.

A casa é grande. Subúrbios ricos. Portões altos. Gramado perfeito. Nenhuma luz acesa.

Jota estaciona na frente. Desliga o motor.

Trumpwin tira o celular. Digita algo. Guarda.

— Pronto.

— Pronto o quê?

— Você vai ver. — Sorri. — Great show. The best show.

Jota olha a casa. Portões altos. Gramado perfeito. Luzes apagadas.

— De quem é essa casa?

Trumpwin sorri. Largo.

— I will make America great again. Trust me.

Olha pra Jota. Depois pra casa.

— Você entra primeiro.

— Por quê?

— Porque eu mandei. I’m the boss. Always the boss.

Jota pega a mochila laranja do banco de trás. Abre. Procura no fundo.

A camiseta enrolada. Pesada.

Desenrola.

A pistola. Fria. Pesada.

Tira. Fecha a mochila. Joga no banco.

Sai do carro. Trumpwin atrás.

A porta da frente está destrancada. Jota empurra. Entra.

Sala enorme. Carpete bege. Móveis caros. Silêncio absoluto.

Trumpwin entra atrás. Fecha a porta. Vira pra Jota.

— Agora.

— Agora o quê?

— Atira.

Jota franze a testa.

— Em quem?

Trumpwin abre os braços. Sorri largo.

— Em mim, idiota.

Silêncio.

Jota olha a pistola. Olha pra ele.

— Você tá de sacanagem.

— Nunca estive tão sério. — O sorriso cresce. — Atira. Trust me. Great plan. The best plan. Vai dar certo.

— Dar certo pra quem?

— Pra mim, óbvio. — Trumpwin dá um passo à frente. Bate no peito. — Atira aqui. No coração. Three shots. Faz bonito.

Jota levanta a pistola. Devagar. Mão tremendo.

— Leandro, eu não…

— ATIRA!

Trumpwin avança.

Pega a mão de Jota. A que segura a arma. Aperta.

O dedo de Jota no gatilho. A mão de Trumpwin por cima. Quente. Firme.

E aperta.

PAM.

Jota não sabe se puxou o gatilho ou se foi só Trumpwin.

O som é seco. Abafado pelo carpete.

Mas explode dentro da cabeça de Jota.

Zumbido agudo. As mãos tremem. A arma pesa. Ou não pesa nada. Não sabe. O ar some. Ele piscou? Não lembra. O chão parece mais longe. Ou mais perto.

Atirou no Leandro.

Ou foi o Leandro que…?

Não. Atirou. Ele atirou.

Trumpwin cambaleia. Mãos no peito. Olhos arregalados. Boca aberta. O terno azul-marinho fica vermelho. Ele cai de costas. Devagar. Teatral. Bate no chão com um baque pesado.

Fica parado. Olhos abertos. Fixos no teto.

Jota abaixa a pistola. Mão tremendo.

— Puta merda…

Sirenes.

Longe no começo. Depois mais perto. Rápido demais.

Jota vira a cabeça. Olha pra porta. Olha pro corpo.

E o corpo se mexe.

Trumpwin senta. Devagar. Sorri. Limpa o sangue do paletó com a mão. O vermelho sai fácil demais. Líquido. Falso.

— Fake blood. Hollywood quality. The best fake blood. Nobody fakes better than me.

Trumpwin se levanta. Limpa o sangue falso da mão no paletó. Caminha até Jota. Arranca a pistola dos dedos dele como se fosse brinquedo de criança.

— Você é um idiota. — Pausa. — Mas eu gosto de idiotas. Useful idiots. The best kind.

Ele abre um sorriso largo.

E dança.

Ombros sacudindo fora de ritmo. Cotovelos presos ao corpo. Mãos pequenas apontando pra lugar nenhum. Como se estivesse marcando um compasso que só ele escuta.

A porta explode.

Polícia. Três. Quatro. Seis. Armas apontadas. Gritos de “MÃOS AO ALTO! NO CHÃO! AGORA!”

Trumpwin levanta as duas mãos. A pistola pende entre dois dedos. Como se fosse lixo.

— Calma, calma. Aqui. — Ele entrega a arma pro policial mais próximo. — Prendam logo. Eu tenho rally às sete. Big rally. Huge crowd. They love me.

Os policiais trocam olhares. Um deles avança. Algema Trumpwin.

Ele não resiste. Só continua falando.

— Isso é armação. Fake news. Total fake news. Eu sou vítima aqui. Victim! Nobody’s been more victimized than me. Believe me.

Eles o arrastam pra fora. Trumpwin ainda gritando.

— EU VOLTO! I ALWAYS COME BACK! BIGGER! BETTER! THE BEST COMEBACK!

A porta bate.

Silêncio.

Jota fica parado no meio da sala. Mãos levantadas. Coração na boca. Suor frio escorrendo pelas costas.

Um policial se aproxima. Jovem. Barba curta. Olhar cansado.

— E você?

Jota engole seco.

— Eu?

— É. Você. O que você tá fazendo aqui?

Silêncio de três segundos.

Depois:

— Vim entregar um currículo.

O policial franze a testa.

— Currículo.

— Sim.

— Aqui. Nessa casa. À noite. Com um cara que acabou de levar um tiro.

— Exato.

O policial olha pra ele. Olha pros outros policiais. Balança a cabeça.

— Você tá de sacanagem comigo.

— Não, senhor. — Jota mantém o rosto sério. — Vim entregar meu currículo. Pro… — Hesita. — Pro dono da casa. Ele pediu. Disse que tinha vaga. Cheguei, toquei a campainha, a porta tava aberta, entrei, e… — Faz gesto vago. — Isso.

O policial olha ao redor. Vê a mochila laranja no chão.

— Cadê o currículo?

Jota pega a mochila. Abre. Procura. Tira o envelope branco amassado.

— Aqui.

O policial pega. Abre. Olha. É um currículo de verdade. Nome de Jota. Experiência inventada. Formatação ruim.

Balança a cabeça.

Olha pro envelope. Pros outros policiais. Pra Jota. De volta pro envelope.

Suspira. Como se já tivesse visto isso antes.

Devolve.

Silêncio.

Depois:

— Você é o terceiro esse mês. — Olha pra porta onde Trumpwin foi levado. — Ele sempre encontra idiotas. E sempre se livra.

— Senhor?

— SAI. Antes que eu mude de ideia.

Jota não espera repetir. Abaixa as mãos. Pega a mochila do chão. Caminha rápido até a porta. Passa pelos policiais. Sai.

Lá fora: viatura com Trumpwin dentro. Ele acena pela janela. Sorrindo. Polegar pra cima.

Como se fosse desfile.

Como se estivesse ganhando.

Jota olha. Vira as costas. Vai até o Gol Bolinha.

Entra. Fecha a porta. Apoia a cabeça no volante.

Respira.

Ele enfia a mão no bolso da calça.

E sente.

O isqueiro amarelo.

Estava ali o tempo todo.

Jota tira. Olha. Ri. Sem humor.

— Filho da puta.

Liga o carro. O motor tosse. Pega.

No retrovisor: Trumpwin acenando da viatura. Polegar pra cima. Sorrindo.

Como se estivesse ganhando.

Jota segue.

O Gol Bolinha ronca na noite fria.

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Sinopse Narrativa:

Leandro Costa (Trumpwin - rosto muda Trump/Baldwin) chama Jota ao escritório, dá pistola cromada e envelope com currículo. Vão de Gol Bolinha até casa subúrbios ricos. Trumpwin ordena Jota atirar nele. Jota atira (ou Trumpwin força o dedo dele no gatilho). Sangue falso Hollywood. Polícia chega, prende Trumpwin. Jota diz que veio entregar currículo. Policial libera: "Você é o terceiro esse mês. Ele sempre encontra idiotas". Trumpwin acena da viatura sorrindo, polegar pra cima. Jota descobre isqueiro estava no bolso o tempo todo.

Gênero Crime, Sátira Política, Suspense
Tom Absurdo, Satírico, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Armação criminal, Manipulação
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Absurdo político, Ciclo de impunidade, Manipulação e armação
Locais casa subúrbios, escritório, estacionamento, Sala
Palavras-Chave armação, currículo, isqueiro no bolso, pistola cromada, polícia, sangue falso, sempre se livra, terceiro esse mês, Trumpwin
CRÍTICO: Leandro Costa apelido "Trumpwin" - rosto MUDA quando Jota não está prestando atenção: Trump de um ângulo, Baldwin quando luz bate diferente. Jota CONHECE Leandro: "Jota conhece o Leandro. E Leandro sempre foi estranho assim". Jota questiona mentiras: "Cara, tu é maluco. Tu sabe que tenho há anos esse carro. Doze carros? Tu tem um CRV que mal pega". Trumpwin dá pistola cromada e envelope branco (currículo de Jota com experiência inventada, formatação ruim). Na casa, Trumpwin ordena atirar. Pega mão de Jota e APERTA gatilho junto. PAM. Sangue falso Hollywood. Sirenes. Trumpwin se levanta: "Fake blood. Hollywood quality". DANÇA (ombros fora de ritmo, cotovelos presos, mãos pequenas). Polícia prende Trumpwin. Policial a Jota: "Você é o terceiro esse mês. Ele sempre encontra idiotas. E sempre se livra". Libera Jota. Trumpwin acena da viatura sorrindo, polegar pra cima, como se estivesse ganhando. Isqueiro estava NO BOLSO o tempo todo (não na mochila). Jaqueta jeans.
 

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