Capa do Capítulo

Velocidade e Fome

Extensão: 1.854 palavras | Leitura: 10 min

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O iate cortava o mar com preguiça de quem não precisa provar nada. Casco branco reluzindo sob o sol das onze, deck de madeira teca quente embaixo dos pés. Jota caminhava pelo convés sentindo o sal grudar no rosto e o estômago reclamando há duas horas. A camiseta regata vinho grudava nas costas, rasgada no ombro esquerdo, manchada de suor seco. A mochila laranja pendurada no ombro direito balançava a cada passo.

Trumpwin comandava o iate lá na frente, de pé atrás do painel de controle, mãos pequenas tamborilando nos botões cromados.

Leandro Costa. Amigo de anos.

Que depois de herdar uma fortuna obscena de um tio que ninguém sabia que existia virou… isso.

Impossível de descrever sem soar louco: metade magnata laranja-neon com topete loiro desafiando a física, metade ator de Saturday Night Live fazendo impressão exagerada, as duas metades brigando pelo mesmo rosto. Gravata vermelha longa demais balançando no vento, terno azul-marinho brilhante que ninguém usa em alto-mar, relógio dourado enorme marcando a hora errada.

Ele gritava ordens pra ninguém, gesticulando como se houvesse câmeras escondidas filmando tudo.

— Beautiful day! Tremendous! Nobody sails better than me, believe me!

Jota só queria comer.

O porto surgiu de repente, pequeno, concreto gasto, cheiro de fritura subindo da rua estreita que subia do cais. Trumpwin jogou a âncora com um gesto teatral, como se estivesse desarmando uma bomba ao vivo na TV. Jota desceu a escada de corda antes que ele mudasse de ideia, pisou no cais quente, e seguiu o cheiro.

Rua estreita. Calçada rachada. Um balcão improvisado servia comida na frente de um boteco sem nome. Não tinha menu. Não tinha placa. Só uma fila de gente segurando prato de plástico, mordendo, gemendo baixinho de prazer.

Pão com bolinho.

Só isso. Pão com bolinho.

Jota parou do outro lado da rua, olhando. O pão era simples, massa branca, macio. Mas o bolinho… o bolinho era minúsculo, uma bola dourada do tamanho de uma noz, crocante, fumegante, que desaparecia em duas mordidas. As pessoas mordiam e fechavam os olhos. Algumas gemiam. Outras lambiam os dedos devagar, como se estivessem cometendo pecado.

Ele atravessou a rua, sentou numa mesa de plástico branco na sombra. A mochila laranja caiu do ombro, bateu no chão. Ele deixou. Olhou a fila. Contou doze pessoas. Viu o bolinho desaparecer na boca de um velho, depois de uma mulher de vestido florido, depois de um cara de boné.

O garçom apareceu suado, avental manchado de óleo, caneta atrás da orelha.

— Quero um pão com bolinho.

O homem riu. Risada genuína, alta, como se Jota tivesse contado a melhor piada do mês.

— Três a seis horas, amigo. Tá todo mundo querendo. O bolinho é pequeno, demora pra fritar.

— Seis horas?

— Às vezes três. Depende. — O garçom encolheu os ombros, tirou um bloquinho do bolso, rabiscou alguma coisa. — Toma. Ticket. Volta daqui a seis horas, tá pronto.

Jota pegou o ticket. Papel fino, amassado, número 47 escrito à mão. Guardou no bolso da calça. Olhou pra fila de novo. Viu mais um bolinho desaparecer.

Ficou ali mais um minuto. Dois. Três.

Depois levantou, pegou a mochila, e voltou pro iate.

O cadarço do tênis direito estava solto. Ele viu, pensou em amarrar, não amarrou.

Trumpwin já estava no comando quando Jota subiu a escada. Ele se virou, sorriso gigante, dentes brancos demais.

— Ready? We’re gonna go FAST. The fastest. You’ll see.

Jota nem respondeu. Sentou num banco acolchoado perto da popa, jogou a mochila no chão, cruzou os braços. O motor roncou. Grave. Profundo. Vibração subindo pelas solas dos tênis surrados.

— Here we go! — Trumpwin gritou, empurrando a alavanca pra frente.

O iate arrancou.

Não foi aceleração. Foi catapulta.

Jota sentiu o corpo colar no encosto do banco, a força empurrando os ombros pra trás. O vento bateu na cara como tapa aberto. O mar virou linha borrada azul-e-branca dos dois lados. O motor berrava, agudo, histérico.

E então o banco começou a se mover.

Jota olhou pra baixo. O assento estava se reclinando sozinho, abaixando, virando mais horizontal, mais aerodinâmico. O encosto virou quase asa, inclinado pra cortar o vento. Ele segurou o corrimão de inox ao lado, sentiu o metal gelado vibrar na palma da mão.

A piscina começou a transbordar.

Água subindo pela borda, derramando no deck, lambendo os tornozelos de Jota. Fria. Gelada. A água batia, voltava, batia de novo, formando uma camada fina que escorria pra trás conforme o iate acelerava.

Trumpwin ria.

Risada alta, estridente, de quem acabou de ganhar eleição ou fechar negócio bilionário. Ele gesticulava com uma mão, a outra segurando o leme, topete loiro tremendo no vento.

— NOBODY DOES SPEED LIKE THIS! NOBODY!

O iate inclinou.

A proa levantou. O casco inteiro saiu da água por um segundo eterno, motor gritando no vácuo, e depois bateu de volta com um impacto que fez os dentes de Jota tremerem. O estômago dele ficou suspenso no ar, flutuando dentro do corpo, demorando pra voltar pro lugar.

— HOLY SHIT! — Jota gritou, sem querer, segurando o corrimão com as duas mãos.

Trumpwin olhou pra trás, sorriso ainda maior.

— BEAUTIFUL, RIGHT? THE BEST!

Eles subiram pro deque superior num pulo só. Jota nem viu escada. O iate deu outro salto, uma onda gigante bateu de lado, e quando ele abriu os olhos estava em cima, vento batendo mais forte, barulho do motor ainda mais alto.

Jota gritou por cima do rugido:

— A GENTE PRECISA COMPRAR DOIS DESSES!

Trumpwin virou a cabeça, topete chicoteando.

— WHAT?

— DOIS IATES IGUAIS! — Jota gesticulou, abrindo os braços. — UM PRA CORRER E OUTRO PRA FICAR VENDO DE FORA! VAI SER MUITO MAIS EMOCIONANTE!

Os olhos de Trumpwin brilharam. Ele assentiu, empolgado, como se aquela fosse a melhor ideia que já tinha ouvido na vida.

— GENIUS! TREMENDOUS IDEA!

Ele apertou um botão no painel.

Uma tela gigante desceu do teto. LED, brilhante, som embutido ligando sozinho.

E começou um filme pornô.

Sem aviso. Sem contexto. Sem nada.

Gemidos altos misturados com o rugido do motor. Corpos se mexendo na tela em close absurdo. Volume no máximo.

Trumpwin piscou. Desviou o olhar. Olhou pra tela de novo. Fez uma expressão estudada, meio constrangida, meio divertida, como se estivesse ensaiando reação pra imprensa invisível. Ele abriu a boca, fechou, abriu de novo.

— This wasn’t… I didn’t… — Ele parou, olhou pra Jota, sorriu de canto. — Tremendous content, though. The best.

Jota arregalou os olhos. Olhou pra tela. Olhou pro Trumpwin. Começou a rir. Risada alta, incontrolável, que doía no estômago vazio.

Trumpwin riu junto, acenando com a mão como se estivesse dispensando crítica de jornal.

— Fake news! Total setup!

O sol já estava baixo no horizonte. Laranja virando roxo. Quantos saltos tinham dado? Quantas voltas? Trumpwin continuava gritando slogans, acelerando, freando, fazendo o iate dançar.

Jota continuou rindo, segurando a barriga, e então olhou pra baixo.

O cadarço ainda estava solto.

Totalmente desatado agora. Arrastando no chão molhado. O buraco no dedão deixando o frio entrar.

Ele se abaixou pra amarrar.

A mochila laranja escorregou do ombro.

Caiu no chão.

O zíper, que não estava fechado direito, abriu.

Caderno de capa dura marrom bateu no deck com um thud seco. Isqueiro amarelo rolou, bateu no pé de uma cadeira, parou. Caneta. Papel amassado. E então, flutuando devagar, caindo em câmera lenta como se o vento tivesse decidido fazer suspense…

O ticket.

Papel fino. Número 47 escrito à mão.

Jota pegou o ticket no ar antes que voasse.

Olhou.

E lembrou.

Pão com bolinho. Três a seis horas.

Ele congelou. Esqueceu do cadarço. Esqueceu do pornô na tela. Esqueceu de Trumpwin rindo e gritando slogans pro vento.

— Puta merda — Jota sussurrou, segurando o ticket como se fosse cheque milionário. — O bolinho.

Ele levantou num pulo, virou pra Trumpwin.

— A GENTE TEM QUE VOLTAR!

Trumpwin parou de rir. Olhou pra Jota. Olhou pro ticket na mão dele. Entendeu tudo sem precisar de explicação.

Ele virou o leme com força.

O iate inclinou violento, água da piscina derramando inteira pro lado esquerdo, motor berrando de esforço. Trumpwin empurrou a alavanca até o fim, rosto sério agora, concentrado, queixo quadrado projetado pra frente.

— WE’RE GOING BACK! THE BEST RETURN EVER!

O iate cortou o mar na direção oposta, velocidade máxima, proa levantando de novo, vento cortando a pele. Jota segurou o corrimão, ticket apertado na mão, olhando o horizonte tentando avistar o porto.

Quanto tempo fazia? Duas horas? Três? Quatro?

O bolinho esperava. Tinha que esperar.

Trumpwin gritava frases motivacionais pro nada:

— NOBODY GOES BACK FASTER! THIS IS HISTORY!

O porto surgiu pequeno no horizonte. Concreto gasto. Rua estreita subindo. Cheiro de… nada.

Jota sentiu o estômago afundar antes mesmo de o iate encostar no cais.

Eles ancoraram. Jota desceu a escada de corda quase pulando, pisou no concreto quente.

Correu.

O cheiro fantasma do bolinho guiando o nariz.

Mas o pé direito prendeu no esquerdo. O cadarço. Aquele maldito cadarço.

Jota foi ao chão. As palmas da mão rasparam no asfalto quente. O joelho bateu seco.

Ele nem sentiu a dor. Levantou num pulo, mancando, ignorando o sangue no jeans, e correu os últimos metros.

O balcão estava fechado.

Cadeiras empilhadas. Toldo recolhido. Porta de metal trancada. Rua vazia. Silêncio absoluto.

Jota parou na frente. Olhou pro ticket na mão. Número 47. Papel fino, amassado, inútil.

Trumpwin apareceu atrás dele, mãos nos bolsos, topete imóvel agora que não tinha vento.

— Sad — ele disse, voz baixa, quase respeitosa. — Very sad.

Jota não respondeu. Ficou ali parado, olhando a porta fechada, sentindo o cheiro fantasma de fritura — ou talvez só o sal do mar enganando o cérebro.

Trumpwin pôs a mão no ombro dele.

— We’ll come back — ele disse, voz grave, solene, como se estivesse prometendo reabrir cassino falido. — The best comeback ever. Believe me.

Jota guardou o ticket no bolso. Virou de costas pro balcão fechado. A mochila laranja pendurada no ombro. A camiseta regata vinho grudada de sal e suor. O cadarço do tênis direito ainda solto, arrastando no chão.

Não ia amarrar.

Não agora.

Ele começou a caminhar de volta pro iate.

Trumpwin seguiu ao lado.

— I am the best chef in the world. Farei steak bem passado com ketchup esta noite. Nobody cooks better, believe me!

Jota não respondeu.

Sabia que a comida dele era uma bosta.

Mas agora era aquilo ou nada.

O bolinho tinha ficado pra trás.

Três horas. Talvez seis.

Ou talvez nunca tivesse existido.

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Sinopse Narrativa:

Jota está com Trumpwin (Leandro Costa que herdou fortuna e virou híbrido Trump/Baldwin) num iate. Param em porto. Jota quer "pão com bolinho", recebe ticket #47, precisa esperar 3-6h. Volta pro iate. Trumpwin acelera loucamente (iate salta, piscina transborda, tela desce tocando pornô sem querer). Jota sugere comprar dois iates iguais. Cadarço solto, mochila cai, ticket voa. Jota lembra do bolinho, Trumpwin volta em velocidade máxima. Chegam tarde, balcão fechado. Cadarço faz Jota tropeçar e cair (palmas raspam, joelho sangra). Trumpwin promete fazer steak com ketchup (Jota sabe que é ruim).

Gênero Comédia Absurda, Slice of Life
Tom Absurdo, Humorístico, Melancólico
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Aventura absurda, Oportunidade perdida
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Absurdo e excesso, Fome literal e metafórica, Oportunidade perdida
Locais balcão, boteco, deque superior, Iate, piscina, porto pequeno, rua estreita
Palavras-Chave balcão fechado, cadarço faz tropeçar, iate alta velocidade, oportunidade perdida, pão com bolinho, steak com ketchup, ticket 47, Trumpwin
CRÍTICO: Leandro Costa "amigo de anos" de Jota. Herdou "fortuna obscena de tio que ninguém sabia que existia" e virou "Trumpwin": "metade magnata laranja-neon com topete loiro desafiando a física, metade ator de Saturday Night Live fazendo impressão exagerada, as duas metades brigando pelo mesmo rosto". Iate em velocidade absurda: banco se reclina sozinho virando aerodinâmico, piscina transborda água gelada no deck, iate salta (proa levanta, casco sai da água), sobem pro deque superior "num pulo só". Tela gigante desce tocando PORNÔ sem querer (gemidos, volume máximo). Jota sugere: "DOIS IATES IGUAIS! UM PRA CORRER E OUTRO PRA FICAR VENDO DE FORA!". Trumpwin: "GENIUS!". Cadarço solto faz Jota tropeçar indo buscar bolinho: cai no asfalto, palmas raspam, joelho bate (sangue no jeans). Balcão fechado. Trumpwin promete fazer "steak bem passado com ketchup". Jota: "Sabia que a comida dele era uma bosta".
 

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