Capa do Capítulo

Zefrão de Deus

Extensão: 2.105 palavras | Leitura: 11 min

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Jota chegou no Centro Politécnico às sete e cinquenta e cinco da manhã, sol já queimando o asfalto, céu aberto sem uma nuvem.

Quarenta e quatro anos, 1,83 m, 110 kg, barba por fazer, camiseta regata vinho, rasgada nos ombros, que marcava o peito e os braços que a vida tinha engrossado.

Estacionou o Gol bolinha 2003 cinza no canto mais longe do estacionamento, porque o bicho tossia demais quando esquentava e ele não queria chamar atenção.

O cadarço direito soltou.

Ele parou pra amarrar.

Foi quando sentiu o cheiro de enxofre começar.

Desceu.

Fechou a porta com o ombro.

Cheiro de capim cortado e gasolina subindo do asfalto quente.

O campus do Jardim das Américas estava lotado de garotos de dezoito anos carregando mochila, garrafa d’água, ansiedade.

Jota atravessou o gramado largo como quem atravessa um campo minado que já conhece de cor.

Camiseta grudando nas costas de suor.

Marcas antigas nas palmas latejando de leve, como sempre faziam quando algo grande estava pra acontecer.

Tinha se inscrito no vestibular por um motivo idiota:

pra provar pra si mesmo que ainda conseguia fazer algo normal.

Que ainda era gente comum.

Que não era só o cara que carregava peso que ninguém via.

Pavilhão de Educação Física.

Fila. Fiscal. Documento. Adesivo.

Sala 14 – Carteira 237.

Entrou.

Ginásio enorme, cheiro de detergente industrial misturado com suor adolescente, ar condicionado velho chiando como se tivesse bronquite.

Jota achou a carteira no meio da fileira.

Sentou.

A cadeira rangeu sob o peso.

Ao lado, carteira 238, um garoto de uns vinte anos que ele nunca viu na vida.

O guri olhou, acenou rápido, voltou pro caderno de fórmulas.

Dez minutos depois, o coordenador subiu no tablado.

Terno cinza mal cortado, gravata frouxa, óculos grossos, cabelo grisalho penteado pra trás.

Rosto que lembrava Christian Bale em dia ruim.

Queixo quadrado, olhos fundos, verruga pequena perto do maxilar.

— Bom dia. Sou o Professor Miguel, coordenador desta aplicação. Cinco horas. Não saiam antes das duas primeiras. Boa sorte.

Desceu.

Jota abriu o caderno de prova.

Olhou a primeira questão.

Começou pela Trigonometria.

Fez todo o resto.

Terminou.

Fechou.

Ajustou a cadeira.

Conseguiu uma boa posição.

E agora era esperar, pensar na vida

Começou a tentar dormir um pouco.

O garoto ao lado olhou.

Sorriu de canto.

Se ajustou também..

Tentando dormir

Ignorando o mundo.

Trinta minutos depois, o cheiro começou.

Sutil.

Enxofre queimado com fundo de podre.

Como se alguém tivesse aberto uma tampa de esgoto dentro do ginásio.

Jota ergueu a cabeça devagar.

Ninguém mais parecia sentir.

Mas ele sentia.

Conhecia aquele cheiro.

Era o mesmo cheiro de quando um portal se abriu.

Olhou pro tablado.

Professor Miguel estava lá de novo.

Parado.

Olhando direto pra ele.

Não pra sala.

Pra ele.

Sorriso pequeno.

Só no canto da boca.

A verruga pulsou uma vez.

Jota sustentou o olhar.

O Professor acenou com a cabeça.

Lento.

Como quem diz:

“te achei”.

Duas horas depois, o microfone chiou:

— Candidatos da Sala 14, dirijam-se imediatamente ao Bloco C, terceiro andar, para continuação da prova. Levem todos os pertences. Não retornem a este local.

Silêncio confuso.

Depois o rebanho se moveu.

Jota levantou com o resto.

Caderno de prova concluído embaixo do braço.

Saiu pelo corredor lateral, sol batendo forte lá fora, atravessou o gramado em direção ao Bloco C.

Foi quando a viu.

Do outro lado do gramado, encostada num fusca azul descascado, pernas cruzadas, fumando um cigarro com calma de quem não tem pressa de lugar nenhum.

Maju Kuzito.

1,80 m de altura, pernas intermináveis, sainha rosa mini, jaquetinha jeans curta aberta sobre blusinha branca decotada.

Cabelo castanho-escuro ondulado até os ombros, delineado gatinho afiado, piercing na narina brilhando no sol.

Olhos castanho-claros, quase mel, que te fodem só de olhar.

Ela soltou a fumaça devagar.

Olhou direto pra ele.

Sorriso de canto.

Tipo: “oi, otário, demorou”.

Jota sentiu o estômago dar um nó antigo.

Aquela mulher tinha entrado na vida dele uma única vez, alguns anos atrás, numa festa.

Uma noite.

Depois sumiu três dias, voltou como se nada tivesse acontecido e ainda chamou ele de ciumento quando ele perguntou onde tinha se metido.

E agora estava ali.

Fumando.

Olhando.

Como se soubesse.

O cheiro de enxofre voltou mais forte.

Jota virou as costas.

Continuou andando pro Bloco C.

Dentro, o corredor era um caos.

Duzentas pessoas empurrando, fiscais gritando números de sala, suor, ansiedade, medo.

Jota foi carregado pela corrente.

O cheiro ficava pior a cada metro.

Entrou numa sala pequena, paredes descascando, luz fluorescente piscando.

Uns quinze candidatos.

Alguns fiscais.

Alguns que não eram nem uma coisa nem outra.

E no fundo, encostado na parede, braços cruzados, Professor Miguel.

Olhos fixos nele.

A porta bateu atrás.

Trancou sozinha.

Click.

O círculo começou a fechar devagar.

— Você sentiu desde o começo — disse Miguel.

Voz calma, quase carinhosa.

— O cheiro. A pressão. Você sabe o que somos.

Jota não respondeu.

Olhou em volta.

Sorrisos largos demais.

Pupilas dilatadas.

Movimentos mecânicos.

— Você é problema — Miguel continuou, dando um passo à frente.

A verruga pulsou.

— Nós sabemos o que você carrega. Por isso te isolamos aqui.

Outro passo.

— Você vai calar agora. E nós vamos tomar o que é nosso.

O círculo apertou.

Dois metros.

Um e meio.

Jota sentiu o peso antigo nas costas.

As marcas nas palmas queimando.

No bolso, o isqueiro amarelo – o sobrevivente – o item necessário.

Preparou o isqueiro na mão.

E então ouviu.

Não com os ouvidos.

Com o peito.

Uma voz que não era voz.

Um trovão que era sussurro.

— Diga o nome.

Jota abriu a boca. 

Colocou o isqueiro aceso na frente da boca

E gritou com tudo que tinha:

— ZEFRÃO DE DEUS!

O grito saiu como trovão.

— ZEFRÃO DE DEUS!

O ar rasgou.

Luz branca, pura, cegante, explodiu da boca de Jota, da garganta, do peito.

As marcas nas palmas acenderam como ferro em brasa, linhas brilhando tão forte que iluminaram a sala inteira.

Professor Miguel levou as mãos ao rosto e gritou.

Som animal, desumano.

A verruga estourou.

Fumaça preta jorrou do buraco.

Os olhos viraram brasas vermelhas, depois racharam, luz branca vazando pelas fendas.

— ZEFRÃO DE DEUS! — Jota gritou de novo, voz mais grave, mais antiga, como se não fosse só dele. Guardando o isqueiro no bolso. Pois o isqueiro amarelo era apenas o ativador.

Três candidatos caíram de joelhos, convulsionando.

Dois correram pra janela, quebraram o vidro, se jogaram.

Corpos batendo no pátio lá embaixo com som seco.

Os outros desfizeram.

Fumaça preta saindo pela boca, narinas, olhos.

Casca humana caindo vazia, como roupa largada.

Miguel foi o último.

Tentou avançar, garras saindo dos dedos, boca abrindo além do possível.

— ZEFRÃO DE DEUS!

O nome bateu nele como martelo.

O corpo do Professor explodiu em luz.

Três segundos de claridade absoluta.

Quando apagou, só sobrou um invólucro cinza no chão.

Olhos ocos.

Morto ou expulso, tanto faz.

Silêncio.

Jota ficou parado, peito arfando, sangue escorrendo do nariz, pingando na camiseta regata vinho.

Mãos tremendo.

Marcas ainda brilhando fraco, como brasas morrendo.

A porta explodiu.

Chute violento de fora.

Maju Kuzito entrou com a faca já na mão.

Cruz de prata balançando no decote.

Parou no meio da sala.

Olhou os corpos vazios.

A fumaça preta subindo pro teto e sumindo.

Olhou pra Jota.

E sorriu.

Lento.

Debochado.

— Caralho, Jota. Eu sabia que você era gostoso, mas gritando nome de anjo assim? Isso foi foda.

Guardou a faca na cintura.

— Quantos eram?

— Não sei. Uns quinze.

— E sobrou algum?

Jota olhou ao redor.

— Acho que não.

Maju deu um passo, ficou perto.

Altura quase igual à dele.

— Você falou o nome sem eu te ensinar nada. Isso não acontece todo dia.

— Tenho umas informações — ele disse, voz rouca. — Dentro da cabeça.

Jota não mencionou o isqueiro.

— Ouviu o Serafim.

Ela mordeu o lábio inferior, olhou pra ele de cima a baixo.

— Você é problema, Geraldo. Mas é o meu tipo de problema.

Chutou a porta trancada do outro lado.

Madeira voou.

Corredor vazio.

— Eles fugiram quando você gritou. Metade da cidade sentiu. A guerra começou mais cedo.

Jota limpou o sangue do nariz com as costas da mão.

— E agora?

Ela virou, já andando.

— Agora a gente limpa o resto. E eu te ensino a fazer isso sem sangrar.

Parou na porta, olhou pra trás.

— Vem, grandão. Tem demônio sobrando em Curitiba inteira e eu tô com tesão de ver você gritando de novo.

Eles saíram do Bloco C como se nada tivesse acontecido.

Gramado cheio de garotos saindo do ginásio, reclamando da prova, checando gabarito no celular, rindo alto.

Ninguém olhava pro terceiro andar.

Ninguém via o vidro quebrado, a fumaça fina subindo pro céu azul.

Maju caminhava na frente, pernas marcando o passo, sainha rosa balançando, coturnos batendo firme no asfalto quente.

Jota atrás, camiseta regata vinho manchada de sangue seco, marcas nas mãos ainda quentes.

Pararam no estacionamento.

O fusca estava lá, sozinho no canto, para-choque torto, adesivo velho desbotado no vidro traseiro.

— Você dirige — ela disse.

— Sempre dirijo.

Jota abriu a porta do motorista.

Entrou.

Maju entrou do lado do passageiro, jogou a mochila no banco de trás.

A mochila laranja de Jota tombou com o impacto, escapou o caderno marrom – página rasgada marcando “Zefrão de Deus” em letra tremida, ímã do pai preso na capa com fita adesiva velha, frio como sempre.

Ele girou a chave.

O fusca pegou no terceiro giro.

— Pra onde?

— Viaduto do Alto da XV. Minha casa é ali perto, tenho um arsenal e umas coisinhas que vão te interessar.

Jota pisou fundo.

E fusca saiu cantando pneu, motor gritando na saída do Politécnico.

Saíram pela BR-277, fizeram o retorno, pegaram a Linha Verde depois Victor Ferreira e então chegaram no Viaduto do Alto da XV.

Jota desligou o motor.

Lá conseguiam ver a cidade.

Fumaça preta fina subindo de três, quatro pontos da cidade.

Não era churrasco.

Era o que sobrou.

— Eles tão marcando território — Maju disse. — Hoje foi só teste. Amanhã vem mais.

— E a gente?

— A gente vai caçar.

Ela olhou pra ele de lado.

— Você gritou o nome de um Serafim sem ninguém te ensinar. Isso não é sorte, Jota. Isso é vocação.

Silêncio dentro do carro.

Só o barulho do motor lutando e o vento entrando pela janela entreaberta.

Ficou ali parado, mãos no volante, olhando Curitiba lá embaixo.

Luzes da cidade.

Fumaça preta subindo lenta em vários pontos.

O silêncio pesava.

Maju virou pra ele, joelho no banco.

— Olha pra mim.

Jota olhou.

— Você não é mais o cara que só carrega peso.

— Eu sei.

— É o cara que queima demônio com o nome de anjo.

— Isso eu ainda tô descobrindo.

Ela sorriu, lento, perigoso, mordendo o lábio inferior.

— Então descobre rápido.

Inclinou o corpo, chegou perto, cheiro de cigarro e perfume doce invadindo tudo.

— Porque eu não perco tempo com fracote.

Jota segurou o rosto dela com as duas mãos marcadas.

Beijou.

Beijo que não pedia licença.

Que sabia exatamente o estrago que causava.

Quando separaram, Maju riu baixo, olho brilhando.

— Foi só uma vez, relaxa — disse, já se afastando.

Jota riu também.

Primeira vez em muito tempo.

— Sempre é só uma vez contigo.

— Exatamente.

Ela bateu no painel.

— Liga esse carro. A gente tem trabalho.

Jota girou a chave.

Saíram do Viaduto, motor gritando.

Foram para casa de Maju e pegaram alguns itens.

Sairam quando a noite que começava a cair.

Curitiba pegava fogo lá embaixo.

Fumaça preta subindo em mais pontos agora.

Cinco.

Seis.

Sete.

Maju apontou.

— Tá vendo? Eles não vão parar.

— E a gente?

Ela olhou pra ele, sorriso de canto.

— A gente também não.

Jota apertou o acelerador.

O fusca desceu a XV de Novembro cortando o vento, camiseta vinho manchada de sangue seco, marcas nas mãos ainda quentes, gosto de ferro na boca.

E pela primeira vez na vida,

Jota não estava só carregando.

Estava começando a revidar.

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Sinopse Narrativa:

Jota faz um vestibular no Centro Politécnico como forma de provar a si mesmo que ainda é gente comum, mas desde a chegada sente cheiro de enxofre e percebe que o coordenador Professor Miguel o observa. Transferido para sala isolada no Bloco C, é cercado por entidades em forma humana. Com o isqueiro amarelo como ativador, grita o nome "Zefrão de Deus" e destrói todas as entidades com luz que emana de seu corpo. Maju Kuzito entra logo depois e os dois partem juntos para caçar os demônios que já marcam território em múltiplos pontos de Curitiba.

Gênero Ação Urbana, Terror Sobrenatural
Tom com Alívio Cômico ao Final, Épico, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Despertar, Normal
Categoria Exorcismo, Guerra Espiritual
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Despertar de vocação sobrenatural, Guerra espiritual urbana, Identidade além do peso carregado
Locais Bloco C, BR-277, Campus, casa, Centro Politécnico, estacionamento do Politécnico, Jardim das Américas, Linha Verde, o Alto da XV), Rua, terceiro andar, UFPR, Viaduto, Viaduto do Alto da XV, Victor Ferreira do Amaral, XV de Novembro
Palavras-Chave demônios, exorcismo, isqueiro ativador, Maju Kuzito, nome de anjo, vestibular, vocação, Zefrão de Deus
Primeira vez que o isqueiro amarelo é explicitamente descrito como "ativador" de poder sobrenatural — não a fonte, apenas o gatilho. O caderno marrom aparece com o ímã do Posto Esso preso na capa com fita adesiva — detalhe novo de armazenamento do item. As marcas nas palmas de Jota acendem como ferro em brasa durante o exorcismo. Jota dirige o fusca azul de Maju (não o Gol). O nome "Geraldo" é usado por Maju — único momento do conto em que aparece. Fumaça preta sobe em sete pontos de Curitiba ao final, indicando escala da invasão demoníaca.
 

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