O sol de novembro queimava as lajes como se quisesse derreter a favela inteira. Eram uma da tarde, horário em que até cachorro procura sombra. Geraldo, sargento do BOPE, agachava atrás de um muro caindo aos pedaços no alto do morro. O colete de 12 kg parecia de chumbo quente. Suor escorria em rio pelo pescoço, entrava pela gola, descia até a cueca. O fuzil HK encostado no ombro estava tão quente que queimava a pele através da luva.
No rádio, só chiado baixo e vozes preguiçosas:
— Alfa Três, posição?
— Mantida. Sem movimento no alvo bravo.
— Cópia. Rotina.
Rotina, uma ova.
Geraldo limpou o suor dos olhos com a manga da farda preta. Do ponto de tocaia, lá do alto, via as vielas descendo como veias abertas. A favela inteira parecia prender a respiração. Ele não sabia explicar, mas sentia no ar. Não era o cheiro normal — maconha queimada, frango frito, esgoto fervendo. Era outra coisa. Mais antigo. Pólvora velha misturada com respeito.
Falavam desse cheiro. Todo policial com mais de cinco anos de rua já tinha ouvido. Aparecia sempre no mesmo mês, sempre perto do dia 24 de novembro, quando o Evento acontecia. O cheiro da tradição mais antiga que qualquer lei escrita.
Geraldo tinha ouvido falar pela primeira vez em 2016, ainda soldado raso. Veteranos contavam no vestiário, voz baixa como quem conta segredo de família:
— Todo ano acontece. Dia 24 de novembro, duas da tarde. As facções param de se matar por um dia. Escolhem os campeões. Montam o ringue sem corda. Quem entra sai andando ou sai carregado. E polícia não entra. Quem entra vira alvo de todo mundo.
Ele nunca tinha visto. Só ouvido. Lenda urbana, alguns diziam. Tradição real, outros juravam. Magrão, o capitão, nunca confirmava nem negava. Só sorria de canto quando alguém perguntava.
Foi quando veio o sinal.
Um moleque de bicicleta, camisa do Flamengo rasgada, uns 12 anos no máximo, parou no meio da rua principal lá embaixo. Tirou do bolso um sinalizador verde daqueles de navio. Acendeu. O troço subiu chiando, subiu, subiu, até explodir no céu num verde veneno que tingiu as nuvens.
A favela inteira viu.
Geraldo sentiu o coração dar um soco no peito. Três quarteirões abaixo da posição dele. Exatamente onde ficava o depósito de arma que eles estavam vigiando há duas semanas.
O sinalizador significava uma coisa: o Evento ia começar em uma hora. Naquele local. Quem estava perto e sabia da tradição tinha tempo de chegar. Quem não sabia… não era pra estar lá.
Ele apertou o botão do rádio com tanta força que quase quebrou.
— Capitão, aqui é Geraldo. Sinalizador verde confirmado. Três quarteirões abaixo da minha posição.
Silêncio de três segundos. Depois a voz rouca que ele conhecia melhor que a voz do próprio pai:
— Não mexe um músculo. Já tô indo.
Geraldo soltou o rádio devagar. Olhou de novo pro céu que ainda fumegava verde. Sentiu um frio na espinha que não sentia desde a primeira entrada no complexo.
Porque o Evento não avisava com antecedência. Não tinha convite, não tinha lista. Só aquele sinalizador verde subindo às 13h, e uma hora depois começava. Quem precisava saber, sabia. Quem não precisava, ficava longe.
E quando acontecia, até o BOPE abaixava a cabeça.
Ele respirou fundo, sentiu o gosto de pólvora velha na boca, e pela primeira vez em sete anos de caveira preta pensou:
— Hoje pode ser diferente.
Lá embaixo, o silêncio já tomava conta de tudo. Nem funk, nem grito de mãe, nem tiro perdido. Só o vento batendo nas antenas e o coração dele martelando no ouvido.
O Evento tinha começado.
E ele estava no lugar errado.
Ou, quem sabe, no lugar certo.

Respostas de 3
COmentário teste.
Respondendo
Comentário 2, para novo teste.