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CAPÍTULO 10 — O NOVO MUNDO

Extensão: 1.320 palavras | Leitura: 7 min

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Três semanas depois do Evento de 2025.

Dezembro de 2025.

Kisuco não exigiu tributo. Não ameaçou o BOPE. Fez algo muito pior: ignorou.

Nas semanas seguintes, as favelas mudaram. Kisuco usou o título de Campeão do Evento pra unificar territórios. Não com guerra — com respeito. Facções rivais sentaram na mesma mesa. Tráfico continuou (sempre continua), mas a guerra interna parou.

Mais importante: Kisuco expulsou as milícias.

Milícias eram diferentes de facção. Facção vendia droga, fazia guerra, mas morador comum ficava fora (na maioria das vezes). Milícia era pior de outro jeito: cobrava “taxa de segurança” (extorsão), controlava gás, transporte, água, imóvel. Morador pagava ou morria.

E milícia tinha dono: político.

Kisuco mandou recado simples pras três maiores milícias da Zona Oeste:

“Saiam ou saiam carregados.”

Quinze milicianos fugiram na primeira semana. Três tentaram resistir. Saíram em caixão. Só milicianos. Kisuco não matava morador, trabalhador, criança. Só extorsionário.

Mortes violentas caíram 60% no primeiro mês.

Crianças voltaram a brincar na rua depois das seis.

Parecia progresso.

Mas pra quem?

Palácio do Governo, Laranjeiras.

Sala privada. Porta fechada.

Governador Cláudio Mendes esmurrou a mesa de mogno. Cinco homens ao redor: secretários, deputados, um lobista. Todos com rosto de quem perdeu dinheiro.

Porque perderam.

Deputado Jair Fonseca (dono de três milícias na Zona Oeste, empresário de fachada, fortuna de R$ 40 milhões não declarados) falou primeiro, voz trêmula de raiva:

— Minhas equipes foram expulsas. Expulsas! Perco duzentos mil por mês só de gás. Controle de van, água, imóvel — tudo foi pro caralho.

Secretário de Segurança Durval Costa (ex-major, barriga de chope, Rolex falso no pulso, apartamento em Miami comprado com propina) acrescentou:

— E tem pior. Kisuco tá unificando. Rocinha, Alemão, Jacarezinho, Maré. Se ele consolidar, a gente perde controle do Rio inteiro. Perde voto. Perde influência. Perde dinheiro.

Mendes acendeu charuto cubano (presente de empreiteiro investigado por cartel, três processos na justiça, zero condenação), tragou fundo.

— Mortes caíram. Vocês viram o jornal? Sessenta por cento. Imprensa tá chamando de “pacificação espontânea”. Tá pintando Kisuco como herói.

Silêncio pesado.

Mendes continuou, voz fria:

— E se ele vira herói, o que sobra pra mim? Eu fui eleito prometendo segurança. Não paz. Segurança. Preciso de bandido pra mostrar que tô combatendo. Preciso de corpo no IML pra justificar orçamento. Preciso de guerra pra ganhar eleição.

Vereador Sílvio Ramos (ligado a empreiteiras de cemitério, funerária, hospital particular — fatura R$ 20 milhões por ano com morte) pigarreou:

— Governador, com todo respeito… paz não dá voto. Paz não dá manchete. Paz não justifica dois bilhões pro batalhão.

Mendes olhou pra ele, depois pros outros.

— Então a gente tira a paz de cena.

Lobista no canto da sala — terno cinza, gravata italiana, pasta de couro, conexões em Brasília — se inclinou pra frente.

— Governador, posso falar com franqueza?

Mendes acenou.

O lobista abriu a pasta, tirou relatório.

— O problema não é Kisuco. O problema é quem lucra com a desordem. Vocês acham que tráfico é o topo da pirâmide? Não é.

Colocou papel na mesa.

— No topo: banco. Lava cinquenta bilhões por ano. Offshore, paraíso fiscal, empresa de fachada. Investigação? Zero. Prisão? Zero. Multa? Dois por cento. Acordo de leniência. Processo arquivado.

Apontou pro segundo nível.

— Segundo nível: político. Recebe propina de construtora, de milícia, de traficante. Esconde em offshores. Compra voto. Financia campanha. Investigação? CPI que não vai pra frente. Processo? Foro privilegiado. Condenação? Prescrição.

Terceiro nível:

— Terceiro nível: milícia. Cobra extorsão. Mata quem não paga. Controla gás, água, transporte, imóvel. Braço armado do político. Investigação? Polícia protege (porque metade da milícia É polícia aposentado). Prisão? Rara. Condenação? Rarríssima.

Quarto nível:

— Quarto nível: facção. Vende droga. Mata rival. Mas não tem poder político. Só territorial. E esse é o único nível que a gente combate. Porque facção não financia campanha. Facção não lava bilhão em banco. Facção é visível. É preto. É pobre. É descartável.

Bateu na mesa.

— Problema não tá na favela, senhores. Problema tá na Faria Lima. No Congresso. No banco. Mas ninguém prende banqueiro. Ninguém prende político. Ninguém prende miliciano.

Pausa.

— A gente só prende preto e pobre. Porque preto e pobre não tem advogado de R$ 50 mil por hora. Não tem juiz comprado. Não tem senador no telefone.

Olhou pra cada um.

— Kisuco expôs isso sem querer. Ele provou que dá pra ter paz. E se dá pra ter paz, qual a desculpa pra dois bilhões de orçamento? Qual a desculpa pra milícia? Qual a desculpa pra operação que mata seis crianças e chama de “confronto”?

Silêncio absoluto.

— Por isso ele tem que morrer. Não porque é bandido. Porque mostrou quem é o bandido de verdade.

Mendes olhou pros cinco. Depois pro lobista.

— Como?

Durval Costa inclinou pra frente.

— Operação grande. Barulhenta. Com resultado.

— Mas ele não tá atacando ninguém. Tá pacificando.

— Então a gente cria motivo. Denúncia anônima. Confronto armado. Resultado: bandido morto, governador herói, milícia volta pro controle.

Mendes deu risada rouca.

— E o BOPE?

Durval sorriu.

— BOPE perdeu a voz quando Geraldo perdeu o Evento. Magrão pediu exoneração. Quem tá no comando agora obedece ou é substituído.

Mendes olhou pro charuto, tragou, soltou fumaça devagar.

— Tá bom. Monta a operação. Mas quero resultado. Kisuco morto. Mídia controlada. Narrativa: “Estado age contra crime organizado”. Entendido?

Todos assentiram.

— E quero criança morta no meio.

Silêncio.

Deputado Jair franziu a testa:

— Governador?

Mendes olhou pra ele como se fosse idiota.

— Criança morta vende jornal. Comove. Gera comoção. “Bandido usa criança como escudo”. Narrativa pronta. Velho morto? Ninguém liga. Mas criança? Criança dá manchete por semana.

Vereador Sílvio ficou branco.

— Governador… isso é…

— Necessário. Ou vocês querem perder eleição? Querem Kisuco virando deputado daqui cinco anos? Porque é pra onde isso vai se a gente não agir.

Ninguém respondeu.

Mendes apagou o charuto.

— Operação em duas semanas. Kisuco morto. Criança morta. Narrativa pronta. Mídia controlada. Problema resolvido.

Levantou.

— Reunião encerrada.

Base do BOPE, Laranjeiras.

Gabinete do Coronel Braga.

Major Magrão (agora ex-major, exonerado fazia três meses, mas Braga tinha chamado mesmo assim) sentou na frente do Coronel Braga. Os dois sozinhos no gabinete. Porta fechada.

Braga empurrou envelope pardo pela mesa.

— Ordem do governador. Operação no Alemão. Alvo: Kisuco.

Magrão abriu. Leu. Franziu a testa.

— “Denúncia anônima”? Coronel, isso cheira mal.

— Eu sei.

— Informação limpa demais. Endereço exato. Horário. “Arsenal pesado”. Tudo mastigado.

— Eu sei.

Magrão jogou o envelope na mesa.

— É armadilha. Ou pior: é execução encomendada.

Braga acendeu cigarro, olhou pela janela.

— Provavelmente. Mas ordem é ordem. Governador quer operação grande. Barulhenta. Com resultado.

— Resultado é corpo.

— Exato.

Magrão se levantou, mãos na mesa.

— Coronel, a gente perdeu o Geraldo nesse jogo. Rodrigues morreu. Agora tu quer que eu monte operação viciada pra matar um cara que tá diminuindo violência?

Braga olhou nos olhos dele.

— Não quero. Mas vou ter que mandar. Porque se eu não mandar, me tiram e colocam alguém que manda sem questionar.

Silêncio pesado.

Magrão, nao aceitou, saiu batendo porta, Braga teve que assumir.

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Sinopse Narrativa:

Três semanas após o Evento de 2025, políticos e milicianos se reúnem no Palácio do Governo para tratar da ameaça de Kisuco — que expulsou milícias e provou que paz é possível. Governador Mendes decide montar operação para matar Kisuco e inclui deliberadamente a morte de criança na narrativa. Um lobista expõe a pirâmide real do poder: banco → político → milícia → facção. Magrão recusa montar a operação, sai batendo a porta. Braga assume.

Gênero Realismo Social, Thriller Político
Tom Frio, Político, Revelador
Timeline Rio de Janeiro
Versão Jota Ausente, Normal
Categoria Conspiração, Drama político
Temas A pirâmide real do crime organizado, Paz como ameaça ao sistema, Poder que lucra com a morte
Locais Base do BOPE, Laranjeiras, Palácio do Governo, sala privada
Palavras-Chave Braga assume, criança morta, Governador Mendes, lobista, Magrão recusa, milícia, operação encomendada, pirâmide do poder
Personagens políticos nomeados: Governador Cláudio Mendes, Deputado Jair Fonseca (dono de três milícias, R$40mi não declarados), Secretário Durval Costa (ex-major, apartamento em Miami com propina), Vereador Sílvio Ramos (ligado a funerárias, fatura R$20mi/ano com morte). O lobista (sem nome, terno cinza, pasta de couro) é o personagem mais lúcido da cena — expõe o esquema completo. Mendes ordena criança morta deliberadamente para narrativa midiática. Capítulo 10 de série em andamento.
 

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