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CAPÍTULO 11 — A OPERAÇÃO

Extensão: 831 palavras | Leitura: 5 min

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Terça-feira logo de manhã. 7h.

Dezembro de 2025.

Sete Caveirões subiram o Alemão com sirene ligadas, farol alto. Entraram atirando.

O massacre durou oito minutos.

Primeiro disparo: sabe se lá de qual lado. 

Homem de 34 anos, pedreiro, voltando do trabalho. Levou tiro na cabeça. Caiu na frente da filha de nove.

Depois foi rápido. Rajada de fuzil. Granadas de efeito moral. Gás lacrimogêneo.

Vinte e três mortos.

Detalhe dos mortos:

– Menina de 7 anos. Brincando na porta. Levou bala perdida no peito.

– Menino de 5 anos. No colo da mãe. Bala atravessou os dois.

– Bebê de 1 ano. Berço perto da janela. Estilhaço de granada.

– Menina de 12 anos. Correndo. Bala nas costas.

– Menino de 9 anos. Escondido atrás da mãe. Rajada pegou os dois.

– Adolescente de 16. Voltando da padaria com pão. Bala na cabeça.

Total: seis crianças. Duas grávidas. Três velhos. Doze adultos.

Zero traficantes. 

Kisuco levou três tiros — um no ombro, dois no abdômen. Caiu na laje, sangrando.

Mas dez moradores arrastaram ele pelos becos antes do BOPE chegar.

Sumiu.

Braga entrou na casa amarela depois. Encontrou o “arsenal”:

Nada.

Dois colchões. Panela velha. Roupa suja. Zero arma.

Braga virou pro Torres:

— Cadê o arsenal?

Torres olhou ao redor, branco como papel.

— Não tem nada, major.

Braga pegou o rádio.

— Comando, aqui é Braga. Entramos na residência. Não há arsenal. Repito: não há arsenal.

Silêncio de cinco segundos.

Voz do governador:

— Continua a busca.

Braga desligou o rádio. Olhou pros soldados.

— Revirem tudo.

Reviraram. Nada.

Torres apareceu na porta, rosto branco.

— Coronel… tem uma criança lá fora. Sete anos. Levou bala perdida.

Braga não respondeu. Saiu da casa.

Viu o corpo. Menina de 7 anos. Vestido rosa. Boneca na mão.

Sentou no chão ao lado. Olhou pra ela por tempo longo.

Vinte e três mortos. Seis crianças. Zero arsenal.

Massacre.

Amanhecer.

Palácio do Governo.

Governador Cláudio Mendes deu entrevista coletiva na porta do Palácio. Terno azul, gravata vermelha, sorriso largo.

Câmeras, repórteres, microfones.

— Hoje o Estado mostrou que não negocia com criminosos. Kisuco, apontado como líder do tráfico no Complexo do Alemão, foi neutralizado em confronto. As famílias cariocas podem dormir tranquilas.

Repórter da Globo:

— Governador, há relatos de vinte e três mortos, incluindo seis crianças…

Mendes cortou, voz firme:

— Lamento profundamente qualquer perda de vida inocente. Mas quem coloca criança perto de criminoso armado? A culpa é de quem usa população como escudo. Bandido não tem escrúpulo.

Outro repórter:

— E o arsenal? Foi apreendido?

Mendes olhou pro Secretário Durval, que deu passo à frente.

— Arsenal foi parcialmente apreendido. Fotos serão divulgadas em breve.

Mentira. Não tinha foto. Não tinha arsenal.

Duas horas depois.

Sala privada do Palácio.

Durval entregou envelope pro Coronel Braga.

— Fotos do arsenal.

Braga abriu. Viu fotos de fuzis, granadas, coletes.

— De onde veio isso?

Durval sorriu.

— Apreensão de seis meses atrás. Operação no Jacarezinho. A gente só vai dizer que foi apreendido ontem.

Braga olhou pras fotos.

— Isso é falsificação de prova.

— Isso é política. Ninguém vai questionar. Mídia publica, público acredita, governador ganha manchete. Problema resolvido.

Braga jogou as fotos na mesa.

— E as seis crianças?

Durval deu de ombros.

— Dano colateral. Estatística. Mês que vem ninguém lembra.

Braga ficou olhando pras fotos.

Fotos falsas. Crianças mortas. Kisuco vivo.

Mentira completa.

Nenhum repórter perguntou:

Cadê o corpo de Kisuco?

De onde veio o arsenal?

Por que a denúncia foi tão precisa?

Por que seis crianças?

Mendes apertou mãos, sorriu pra foto. Reeleição garantida.

Casa de Geraldo, pensão na Rocinha.

Madrugada.

Geraldo acordou com TV ligada. Não lembrava de ter dormido.

Tela: helicóptero sobrevoando o Alemão. Fumaça. Corpos cobertos com lençol branco manchado de vermelho.

Repórter:

— A operação que resultou em vinte e três mortes, incluindo seis crianças…

Geraldo desligou.

Sentou na cama. Caderno marrom no criado-mudo. Pegou. Abriu na última página em branco.

Mãos tremendo.

Escreveu:

“Vinte e três mortos. Seis crianças. Pra matar Kisuco. Não conseguiram. Ele sumiu. Mas mataram todo mundo ao redor.

Rodrigues morreu no Evento. Essas vinte e três morreram fora dele.

Eu venci o Evento. E o Evento venceu o Rio.

Não. Eu venci o Evento. E perdi tudo.”

Fechou o caderno.

Olhou pra janela. Sol nascendo. Dia bonito. Crianças iam brincar, mães iam trabalhar, vida ia continuar.

Mas vinte e três famílias iam enterrar corpo.

Seis crianças. Vestidos rosa. Bonecas na mão.

E Kisuco ainda estava vivo.

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Sinopse Narrativa:

Sete Caveirões sobem o Alemão às 7h. O massacre dura oito minutos: 23 mortos — seis crianças, duas grávidas, três velhos, doze adultos, zero traficantes. Kisuco leva três tiros mas é arrastado pelos moradores pelos becos. O arsenal prometido não existe. Braga encontra dois colchões e panela velha. O governador dá coletiva comemorativa, Durval entrega fotos falsas de arsenal de outra operação. Geraldo assiste pela TV na pensão e escreve no caderno.

Gênero Drama, Realismo Social, Thriller Político
Tom Brutal, Chocante
Timeline Rio de Janeiro
Versão Jota Ex-Sargento, Normal
Categoria Crítica política, Massacre
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura
Temas Massacre de Estado como política, Mentira institucional, Narrativa midiática sobre realidade
Locais Complexo do Alemão, Palácio do Governo, Pensão, Rocinha
Palavras-Chave 23 mortos, arsenal falso, Braga, caderno, coletiva, fotos falsas, Kisuco sobrevive, Mendes, seis crianças
As seis crianças mortas têm idades detalhadas: 7, 5, 1, 12, 9 anos e adolescente de 16. Dois bebês (menino de 5 no colo da mãe, bebê de 1 no berço) morrem junto com adultos. O arsenal é falsificado com fotos de apreensão de seis meses antes no Jacarezinho. Torres aparece como o soldado que informa Braga sobre a criança morta. Kisuco é salvo por dez moradores que o arrastam pelos becos. Capítulo 11 de série em andamento.
 

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