Uma semana depois da chacina.
Dezembro de 2025.
—
Geraldo pegou ônibus até Niterói. Endereço anotado no papel amassado. Apartamento pequeno, segundo andar, vista pro mar de longe.
Bateu na porta.
Magrão abriu. Olheiras fundas, barba por fazer, cheiro de cachaça. Não disse nada. Só abriu espaço.
Entraram. Sala pequena. Sofá velho, TV desligada, garrafa de Ypióca na mesinha.
Sentaram na varanda. Magrão acendeu cigarro, ofereceu um. Geraldo aceitou (não fumava há cinco anos, mas hoje fumou).
Ficaram em silêncio por cinco minutos. Só o som de onda batendo longe e criança gritando na rua.
Geraldo falou primeiro:
— Vinte e três mortos. Seis crianças. Pra quê?
Magrão tragou fundo, soltou fumaça devagar.
— Pra tirar Kisuco. Não conseguiram.
— Por que ele é tão importante? É só mais um traficante.
Magrão riu sem humor. Olhou pro mar.
— Não é. Ele unificou. Expulsou milícia. E milícia é braço armado de político.
Geraldo franziu a testa.
— Milícia?
Magrão se virou, olhou nos olhos dele.
— A gente sempre foi ferramenta, sargento. Não de segurança. De poder.
Bebeu da garrafa, continuou:
— BOPE mantinha equilíbrio. Facção brigava com facção, milícia controlava periferia, político ficava no meio ganhando dos dois lados. A gente era o árbitro. Quando necessário, a gente entrava, prendia uns, matava outros, mas sempre mantendo o jogo girando.
Pausa.
— Porque violência dá lucro. Pra político, pra empreiteira, pra funerária, pra mídia. Paz? Paz não dá porra nenhuma.
Geraldo sentiu o estômago revirar.
— Mas… e o tráfico? A droga? O dinheiro?
Magrão deu risada amarga. Bebeu da garrafa.
— Tu acha que moleque de 16 anos com R$ 200 no bolso é o problema? Tu acha que Kisuco, gerenciando boca, é o chefão?
Apontou pro mar. Pro horizonte. Pra onde ficava o centro.
— O dinheiro não fica na favela, Geraldo. O dinheiro vai pra Faria Lima. Pro banco. Bilhões lavados todo ano. Conta em paraíso fiscal. CNPJ de fachada. Auditoria que não audita nada.
Pausa.
— A gente mata preto e pobre. Moleque com pó na mochila? Tiro na cara. Adolescente com baseado? Quinze anos de cadeia. Mas banqueiro que lava bilhão? Multa de 2%. Processo arquivado. Acordo de leniência.
Magrão acendeu outro cigarro, mão tremendo.
— Tu sabe quantos adolescentes pretos foram mortos pela polícia nos últimos dez anos? Só no Rio. Quinze, dezesseis, dezessete anos. Moleques.
Geraldo balançou a cabeça.
— Mil e oitocentos. Documentados. Tem mais que some na estatística. “Confronto”. “Resistência seguida de morte”. “Auto de resistência”.
Silêncio pesado.
— Tu sabe quantos banqueiros foram presos por lavagem de dinheiro do tráfico no mesmo período?
Geraldo já sabia.
— Zero. Nem um. Multa? Sim. Acordo? Sim. Processo? Arquivado. Prisão? Zero.
Magrão cuspiu no chão.
— Isso não é guerra ao tráfico, sargento. É genocídio com farda. A gente não combate crime organizado. A gente protege crime organizado. O de cima. Enquanto extermina o de baixo.
Olhou nos olhos de Geraldo.
— Kisuco expôs isso sem querer. Ele provou que dá pra ter paz na favela. Provou que o problema não é o preto pobre. O problema é quem lucra com a morte do preto pobre.
Pausa pesada.
— Por isso ele tinha que morrer. Não porque era bandido. Porque mostrou quem é o bandido de verdade.
—
Geraldo ficou olhando o mar. Barco passando longe. Gente pescando.
— O arsenal era plantado.
— Óbvio. Não tinha arsenal. A gente não encontrou nada. Zero arma. Mas governador já tinha divulgado “operação bem-sucedida, arsenal apreendido”. Fotos foram entregues depois. De outra operação.
— E as seis crianças?
Magrão fechou os olhos.
— Proposital. Governador queria. “Criança morta vende jornal. Comove. Gera comoção.” Narrativa pronta: “Bandido usa criança como escudo”.
Silêncio.
— Mas quem colocou criança em perigo foi a gente. Não Kisuco.
Geraldo sentiu náusea.
— Como você sabe disso?
— Porque eu tava na reunião. Braga me chamou. Me pediu pra montar a operação. Disse que se eu não montasse, iam colocar outro que ia fazer pior.
Pausa.
— Me recusei e colocaram um pior. Salvei porra nenhuma. Vinte e três mortos. Seis crianças.
Magrão bebeu da garrafa. Metade de uma vez.
— E tem mais. Sabe como acharam Kisuco?
Geraldo olhou pra ele.
— Foguete entregou. O moleque que ele derrotou no Evento do ano passado. Vendeu localização por cinquenta mil e proteção de milícia. Traição.
Geraldo lembrou. Foguete. Jovem, vinte e poucos anos, olhos famintos. Kisuco tinha vencido ele. Agora tinha entregado.
— Vingança ou dinheiro?
— Os dois. Perdeu no Evento. Perdeu respeito. Ficou sem boca. Milícia ofereceu dinheiro e proteção. Ele aceitou.
Pausa.
— Kisuco sobreviveu porque morador ajudou. Dez pessoas arrastaram ele pros becos enquanto a BOPE tava entrando. Se não fosse isso, ele tava morto.
—
Silêncio longo.
Geraldo perguntou:
— E agora?
Magrão encheu outro copo, bebeu metade.
— Agora eu tô aposentado. Pedi exoneração. Não vou ser ferramenta de massacre. Tu ainda tem o respeito do Evento. Dois ex-campeões vivos: tu e Kisuco. Usa pra algo que preste.
Olhou nos olhos de Geraldo.
— Porque eu já tô velho demais pra consertar essa merda. Mas tu não.
—
Geraldo voltou pra casa de ônibus. Duas horas de viagem. Pensando.
Chegou de noite. Pensão na Rocinha. Dez metros quadrados.
Foi pro quarto. Pegou a mochila laranja. Jogou roupa, caderno, isqueiro quebrado (guardou mesmo assim).
Voltou pra rua.
Pegou o Gol Bolinha cinza (o mesmo de sempre, surrado, barulhento).
Dirigiu até a favela.
Sem farda. Sem arma. Sem distintivo.
Só homem.
