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CAPÍTULO 13 — O PROTETOR

Extensão: 1.219 palavras | Leitura: 7 min

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Geraldo subiu o Alemão sozinho. Calça jeans, camisa preta, mochila laranja nas costas. Tênis surrado, cadarço direito solto como sempre.

Era meio-dia. Sol queimando. Cheiro de comida, esgoto, vida.

Olhares de laje, de porta, de esquina. Todo mundo reconheceu.

Cara Fechada. Ex-campeão do Evento.

Ninguém atirou. Respeito ainda valia.

Subiu devagar. Vielas abrindo. Crianças parando de brincar pra olhar. Velhos tirando boné. Mães segurando filhos.

Chegou numa casa azul, última laje. Dois caras armados na porta. Um perguntou:

— Tu tá perdido, velho?

— Vim falar com Kisuco.

Os dois se olharam. Um entrou, voltou dois minutos depois.

— Pode subir.

Kisuco estava deitado num colchão no chão. Peito enfaixado, braço em tipoia, respiração rouca. Tinha passado por uma cirurgia clandestina — bala no ombro extraída, duas no abdômen ainda alojadas (médico não conseguiu tirar sem matar). Rosto mais magro, olhos menos loucos. Dor faz isso — acalma.

Olhou pra Geraldo. Mão foi pro revólver na cintura.

— Veio me matar?

Geraldo sentou no chão, pernas cruzadas.

— Vim pagar uma dívida.

Kisuco riu, cuspiu sangue num balde do lado.

— Que dívida, caralho?

— Rodrigues morreu no meu lugar. Tu venceu no lugar dele. Vinte e três morreram por tua causa. Eu participei do Evento — não quero mais dizer que venci. Venci o quê? Venci e ferrei tudo. Agora eu conserto.

Kisuco baixou a arma, apoiou na barriga.

— Como?

Geraldo olhou nos olhos dele.

— Eu ainda tenho respeito. Ex-campeão. Tu tem respeito. Campeão atual. A gente junto? A gente protege quem não tem como se proteger.

Kisuco ficou olhando pra ele por tempo longo. Depois deu risada rouca.

— Tu sabe que político vai mandar mais operação, né? Vão tentar de novo.

— Eu sei.

— E tu sabe que se tu ficar aqui, teu batalhão vai te caçar.

— Eu sei.

— E mesmo assim tu quer ficar?

— Eu preciso.

Silêncio.

Kisuco estendeu a mão esquerda (a direita tava enfaixada).

— Bem-vindo ao lado certo, campeão.

Geraldo apertou.

Três meses depois.

Março de 2026.

Geraldo não morava mais no Piedade, há tempos. Antes mesmo de subir o Alemão pela primeira vez, mandou mulher e filho pro exterior — casa de parente em Portugal. Não esperou ameaça. Sabia que ia mexer com gente errada. Mandava dinheiro toda semana, mas não ligava. Quanto menos contato, mais seguro.

Ele alugou um quarto numa pensão na Rocinha. Dez metros quadrados, cama, cadeira, janela pequena.

Mas não ficava muito lá.

Passava o dia na favela. Andando, conversando, ouvindo. Sem farda, sem arma. Só presença.

Primeira semana:

Acompanhou mãe de cinco filhos até delegacia pra registrar queixa de miliciano que cobrava “segurança”. Nome: Cláudio “Gordo”, ex-PM, controlava três ruas, extorquia dez comerciantes.

Delegado registrou queixa. Arquivou no dia seguinte (Gordo pagava propina).

Dois dias depois:

Geraldo achou o miliciano numa viela. Sozinho. Sem testemunha.

Sem farda. Sem fuzil. Sem distintivo.

Só mãos.

Em menos de um minuto Gordo tentou sacar arma. Geraldo desarmou, quebrou pulso, encaixou mão na garganta. Apertou. Pescoço quebrado.

Corpo jogado no rio.

Ninguém perguntou. Ninguém investigou. Miliciano era problema, não vítima.

Segunda semana:

Conversou com três moleques de 14 anos que iam ser recrutados pela boca. Arrumou vaga em escola técnica em Botafogo. Dois aceitaram. Um não.

Geraldo respeitou a escolha.

— Se mudar de ideia, me procura.

O moleque assentiu, foi embora.

Três meses depois, o mesmo moleque voltou. Disse que queria sair. Geraldo arrumou a vaga. Salvou um.

Terceira semana:

Escoltou professora até quadra da escola (área de conflito) pra dar aula de reforço. Ninguém mexeu. Respeito do Evento valia mais que guerra.

Quarto mês:

Impediu execução. Moleque de 16 tinha roubado ponto. Pena: morte. Geraldo chegou antes, conversou com liderança. Acordaram: moleque ia pagar dívida trabalhando. Três meses. Depois tava quite.

Moleque chorou, abraçou Geraldo.

— Obrigado, tio. Juro que eu não roubo mais.

Geraldo não disse nada. Só assentiu.

Sexto mês.

Setembro de 2026.

Geraldo sentado na laje com Kisuco (que já andava, mancando, duas balas ainda alojadas mas cicatrizadas). Sol se pondo. Papagaio colorido voando longe.

Kisuco acendeu cigarro, ofereceu um. Geraldo aceitou.

Ficaram em silêncio por um tempo.

— Tu acha que isso vai dar certo? — Geraldo perguntou.

Kisuco deu risada rouca.

— Não. Mas é melhor que o que tinha antes.

— Político ainda quer tua cabeça.

— E eu ainda tô vivo. Por enquanto é isso.

Geraldo olhou pro céu. Estrela começando a aparecer.

— Magrão disse que eu salvei mais vida usando voz do que fuzil.

— E salvou?

— Salvei. Por quatro anos. Depois Rodrigues morreu e tudo virou merda.

Kisuco cuspiu no chão.

— Rodrigues morreu porque tu tava velho e eu tava louco. Mas agora a gente tá diferente. Tu não luta mais. Eu não mato à toa. A gente virou outra coisa.

— O quê?

— Ponte.

Geraldo pensou nisso. Gostou da palavra.

— Ponte.

Kisuco sorriu.

— Ano que vem tem Evento de novo. Tu vai?

Geraldo balançou a cabeça.

— Não. Meu tempo passou. Se alguém te desafiar, tu defende sozinho.

— E se eu perder?

— Aí tudo muda de novo. Mas pelo menos a gente tentou.

Geraldo olhou pro horizonte. Favela acendendo luzes.

Pensou no que Magrão tinha falado: “Mil e oitocentos adolescentes pretos mortos. Zero banqueiros presos.”

Pensou nas seis crianças do massacre.

Pensou em Rodrigues.

Bala só desce. Nunca sobe.

Mas aqui, nessa laje, com Kisuco do lado, protegendo quem não tinha como se proteger?

Aqui a bala parava.

Um ano depois.

Novembro de 2027.

Geraldo em casa (pensão na Rocinha). Madrugada. Caderno marrom no colo. Última página.

Escreveu:

“Faz um ano que vim pra cá. Protegi dezessete pessoas. Impedi cinco execuções. Arrumei escola pra oito crianças. Matei dois milicianos (Gordo e Beto). Não é redenção. Não apaga Rodrigues. Não apaga vinte e três do Alemão. Mas é um começo.”

Parou. Pensou. Continuou:

“Kisuco me perguntou se isso vai dar certo. Eu disse que não sei. Mas sei que é melhor do que antes. Porque antes eu servia político. Agora eu sirvo gente. E isso tem que valer alguma coisa.”

Última linha:

“Venci o Evento pra ser ferramenta. Perdi o Evento e virei homem. Não sei o que é melhor. Mas sei o que é certo.”

Fechou o caderno.

Pegou o isqueiro amarelo quebrado. Guardava ele mesmo sem funcionar. Porque sobrevivente não se joga fora, mesmo quebrado.

Colocou na mochila laranja.

Deitou na cama. Janela aberta. Brisa fria entrando.

Dormiu.

Sonhou com o círculo de giz.

Mas dessa vez ele não tava dentro.

Tava do lado de fora. Protegendo quem não podia entrar.

FIM

“O EVENTO”

Uma história sobre respeito, tradição, sangue e redenção.

Por onde passa a linha entre justiça e vingança?

Entre lei e tirania?

Entre proteger e destruir?

Geraldo descobriu: a linha é fina.

E às vezes, atravessar ela é a única coisa certa a fazer.

Mesmo custando tudo.

FIM DEFINITIVO

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Sinopse Narrativa:

Geraldo sobe o Alemão sozinho, encontra Kisuco ferido e propõe aliança: usar o respeito dos dois ex-campeões para proteger quem não pode se proteger. Kisuco aceita. Ao longo de dois anos Geraldo protege dezessete pessoas, impede cinco execuções, arruma escola para oito crianças e mata dois milicianos. Numa laje ao pôr do sol, Geraldo e Kisuco conversam sobre o futuro — Kisuco chama o que construíram de "ponte." Em novembro de 2027, Geraldo escreve a última entrada do caderno e dorme sonhando com o círculo de giz — mas desta vez do lado de fora, protegendo quem não pode entrar.

Gênero Drama de Redenção, Realismo Social, Thriller
Tom Conclusivo, Esperançoso, Melancólico
Timeline Rio de Janeiro
Versão Jota Ex-Sargento, Normal
Categoria Encerramento de arco, Redenção
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Derrota como início da consciência, Redenção pelo serviço, Respeito como proteção
Locais Casa azul, Complexo do Alemão, Favela, Morro, Pensão, Rocinha
Palavras-Chave caderno, círculo de giz, duas balas alojadas, isqueiro quebrado, Kisuco, lado de fora, Novembro 2027, ponte, protetor, redenção
O isqueiro amarelo recebe sua definição mais explícita: "sobrevivente não se joga fora, mesmo quebrado." Kisuco ainda tem duas balas alojadas no abdômen (médico clandestino não conseguiu extrair). A frase final do caderno: "Venci o Evento e perdi tudo. Perdi o Evento e virei homem." O sonho final — Geraldo do lado de fora do círculo protegendo quem não pode entrar — inverte a imagem central de toda a série. Encerramento definitivo de "O Evento."
 
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