Geraldo ficou ali agachado, o fuzil encostado na coxa, olhando o verde do sinalizador se dissolver no céu como veneno entrando na veia da favela inteira. O rádio ficou mudo. Nem o comando central ousava chiar agora.
Passaram-se trinta e cinco minutos que pareceram trezentos e cinquenta.
Um Uno branco sem placa subiu o morro devagar, motor roncando baixo. Parou dois quarteirões abaixo do ponto de Geraldo. A porta abriu. Magrão saiu.
Sem farda. Sem colete. Calça jeans desbotada, camisa preta lisa, bota de couro gasta. Cabelo grisalho grudado na testa. Cicatriz exposta — aquela que ia do ombro até o umbigo, presente de uma faca em 2009, Complexo da Maré.
Magrão olhou pra cima, localizou Geraldo no ponto alto, acenou uma vez. Geraldo desceu devagar, fuzil nas costas.
Quando chegou perto, Magrão já tinha acendido um cigarro com isqueiro Zippo enferrujado. A chama iluminou o rosto marcado: olho esquerdo ligeiramente mais baixo que o direito depois de uma coronhada em 2008, dente de ouro no canto da boca que brilhava quando ele sorria.
— Quantos anos tu tem de caveira, sargento?
— Sete anos e quatro meses, capitão.
— E quantos Eventos tu viu?
— Nenhum.
Magrão tragou fundo, soltou a fumaça devagar.
— Eu vi o primeiro em 2003. Entrei achando que ia prender todo mundo. Saímos carregando três. Dois mortos, um que nunca mais andou. Desde então a regra é clara: quem usa farda não pisa no círculo. Quem pisa vira alvo de todas as facções ao mesmo tempo.
Ele cuspiu no chão, limpou a boca com o dorso da mão.
— Mas hoje a gente vai fazer diferente. Hoje, cheguei a tempo!
Geraldo engoliu seco.
— Como assim, capitão?
Magrão abriu o porta-malas do Uno. Dentro, havia um mapa amassado da cidade, com círculos vermelhos marcados à caneta.
— Rocinha, Alemão, Jacarezinho, Cidade de Deus, Manguinhos, Pavão-Pavãozinho, Complexo do Lins. Sete zonas. Sete equipes. Uma ia dar certo.
Geraldo olhou o mapa. Entendeu tudo.
— O senhor posicionou a gente estrategicamente.
— O Evento sempre acontece no dia 24 de novembro, duas da tarde. Mas o local muda. Sinalizador verde sobe às 13h, mostra onde vai ser. A equipe mais perto vem correndo, mas normalmente eles preparam entraves. Tu deu sorte. Ou azar. Depende do ponto de vista.
Magrão fechou o porta-malas, olhou pra cima, pro morro que subia em degraus de concreto.
— Chama teus homens. Torres, Lima, Baiano, Moreira. Manda tirarem tudo. Colete, fuzil, rádio, farda. Tudo fica aqui. A gente sobe à paisana.
— À paisana?
— Hoje a gente não é caveira. Hoje a gente é gente.
Geraldo hesitou. Magrão olhou nos olhos dele.
— Quem vence o Evento tem voz, sargento. Voz política sem voto, sem eleição. Só respeito. E respeito salva mais vida que fuzil. Tu vai entender quando chegar lá.
Geraldo pegou o rádio, apertou o botão.
— Torres, Lima, Baiano, Moreira. Desçam pro ponto alfa. Ordem do capitão.
Cinco minutos depois, os cinco estavam ali. Moreira branco como papel, mão tremendo. Torres e Lima trocaram olhares. Baiano cuspiu no chão.
Magrão falou baixo, mas firme:
— Tirem tudo. Colete, arma, rádio. Deixem no carro. A gente sobe como homem, não como símbolo.
Moreira abriu a boca:
— Capitão, sem arma a gente tá…
— Respeitado. A gente tá respeitado. Confia em mim.
Um por um, foram tirando. Coletes caíram no chão como pele velha. Fuzis empilhados no banco de trás. Rádios desligados. Ficaram só de calça preta e camisa, botas pesadas.
Magrão olhou pra Moreira.
— Tu volta pra base com o equipamento. Quando eu ligar, volta com um carro maior. A gente vai precisar de espaço. Fica de prontidão. Se a gente não ligar em ate o começo da noite, manda reforço.
Moreira assentiu, aliviado e envergonhado ao mesmo tempo. Entrou no Uno, deu ré devagar, desceu o morro.
Os outros quatro seguiram Magrão morro acima.
—
Subiam devagar. Cada passo ecoava. As vielas iam abrindo sem ninguém mandar. Olhares de janela, de laje, de porta. Ninguém apontava celular, ninguém gritava “ó o caveira”. Só olhavam.
No meio do caminho, um traficante de uns 22 anos apareceu na esquina. Fuzil no ombro, dedo no gatilho. Bloqueou a passagem.
Magrão parou a três metros. Não correu, não recuou. Só levantou as duas mãos na altura do peito. Mãos vazias. Abertas.
— Sem farda. Sem fuzil. Lei da porta aberta.
O traficante olhou pras mãos vazias. Depois pro rosto de Magrão. Reconheceu.
— Magrão.
— É.
— Tu sabe onde tá indo?
— Sei.
O jovem olhou pros outros quatro atrás. Também desarmados. Mãos vazias.
Baixou o fuzil devagar.
— Lei da porta aberta. Pode subir.
Saiu da frente.
Geraldo passou por ele, coração martelando. O traficante não desviou o olhar, mas também não ameaçou.
Porque quem sobe com Magrão sem farda no dia do Evento não é polícia comum.
É outra coisa.
—
No meio do caminho, um moleque de uns 10 anos, pés descalços, bola de meia na mão, parou na frente deles. Olhou pro capitão, reconheceu.
— Tio Magrão… trouxe os homens pra ver o Evento?
Magrão bagunçou o cabelo do menino.
— Só pra ver, Lucas. Hoje não é dia de brincar de polícia e ladrão.
O menino riu e saiu correndo, gritando pra alguém lá em cima:
— Ô, vó! O Magrão subiu!
Quando chegaram na laje maior, o silêncio já era absoluto. Nem funk, nem criança chorando, nem moto acelerando. Centenas de pessoas formando um círculo natural. No centro, o giz branco já desenhado no chão. Seis metros de diâmetro. Traço grosso, firme.
Sentado numa cadeira de plástico branca, esperando: Seu Zé Catita.
Todo mundo conhecia. Oitenta e poucos anos, bengala de jacarandá com cabo de prata encardida, ponta manchada de sangue seco. Diziam que ele tinha visto o primeiro Evento em 1961. Outros juravam que tinha sido antes. Ninguém perguntava. Perguntar era desrespeito.
Magrão parou a cinco metros da borda. Geraldo e os outros do lado.
A multidão abriu espaço. Olhares pesados. Ninguém falava.
Seu Zé Catita levantou a cabeça devagar. Olhos leitosos, mas que enxergavam tudo.
Olhou pra Magrão. Reconheceu.
Bateu a bengala no chão. Uma vez. Seca.
O Evento podia começar.
