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CAPÍTULO 4 — MAGRÃO SANGRA

Extensão: 932 palavras | Leitura: 5 min

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Magrão ficou no centro, peito subindo e descendo rápido, suor misturado com sangue. Duas lutas. Duas vitórias. Mas custou.

Olhou pros outros dois que esperavam.

Não sabia se aguentava mais uma.

Seu Zé Catita apontou a bengala pro terceiro.

— Entra.

LUTA 3: MAGRÃO vs. SATANÁS

Era diferente. Quarentão, corpo pesado, tatuagem de cemitério no peito inteiro — caveiras, cruzes, nome “Satanás” em letra gótica. Mãos grandes como pás. Matador conhecido. Dezessete homicídios (que se sabia). Olhos mortos. Nenhum brilho.

Vice-campeão de 2019. Tinha perdido pro Crocodilo no ano passado. Agora voltava.

Satanás entrou no círculo devagar, confiante. Parou no centro. Olhou pra Magrão como quem olha pra cadáver que ainda não sabe que morreu.

— Magrão. Tu venceu o campeão. Venceu Cavalo. Mas agora? Eu te respeito. Por isso vou fazer rápido.

Magrão cuspiu sangue no chão, limpou a boca.

— Vem então.

Seu Zé Catita bateu a bengala.

E o Evento virou outra coisa.

Satanás não avançou. Ficou parado no centro do círculo, braços soltos ao lado do corpo, esperando. Tática de lutador experiente — deixa o adversário gastar energia primeiro.

Magrão conhecia o jogo. Circulou devagar, testando distância. A multidão continuava o coro baixo:

— Uhhhh… uhhhh…

Magrão atacou com jab rápido, testando reflexo. Satanás nem bloqueou — deixou passar de raspão, sorriu. Contra-atacou com chute lateral que pegou na coxa de Magrão. O som foi de taco batendo em carne. Magrão mancou, mas não recuou.

Satanás avançou. Não era rápido como Cavalo. Era pesado. Cada movimento calculado pra destruir, não pra marcar ponto.

Gancho no fígado — Magrão bloqueou com cotovelo, sentiu o braço inteiro tremer. Outro gancho, outro bloqueio. Terceiro pegou limpo. Magrão dobrou, mundo girando, gosto de ferro na boca.

Satanás não esperou. Joelhada subindo — Magrão desviou por pouco, sentiu o vento passar pela cara. Contra-atacou com cotovelada no queixo. Pegou de raspão, mas foi o suficiente. Satanás cuspiu sangue e dente.

A multidão urrou.

Os dois recuaram, medindo dano. Magrão sangrava da boca e da sobrancelha. Satanás tinha o queixo rachado, sangue escorrendo pelo pescoço.

Respiravam pesado. Suor pingando no giz.

Satanás falou baixo, só pra Magrão ouvir:

— Tu tá velho, capitão. Devia ter ficado na base.

Magrão sorriu mostrando sangue nos dentes.

— E tu devia ter me matado quando teve chance.

Avançou com tudo — sequência que aprendeu nos anos 90, quando BOPE ainda treinava boxe tailandês todo dia. Jab, direto, gancho, joelhada, cotovelada. Satanás bloqueou três, levou dois limpos. O gancho abriu supercílio, sangue espirrando na primeira fila.

Mas não caiu.

Agarrou Magrão pela cintura, levantou e jogou no chão com força que rachou a laje. Magrão sentiu costela trincando, ar fugindo, mundo virando preto nas bordas.

Satanás subiu em cima. Posição de montada. Soco atrás de soco na cara. Um, dois, três, quatro. Nariz de Magrão explodiu. Sangue voando em gota grossa.

A multidão calou. Até o coro parou.

Geraldo deu passo à frente. Torres segurou o braço dele.

— Não. Regra é regra.

Magrão tentou virar, encaixar as pernas no quadril, inverter a posição. Mas o corpo não obedeceu. Cansaço, idade, dor — três lutas cobrando conta ao mesmo tempo.

Satanás ergueu o punho pra finalizar. Golpe que ia quebrar mandíbula.

Magrão olhou nos olhos dele. Não tinha medo. Só cansaço de quem viveu demais.

O punho desceu.

Mas Magrão girou a cabeça no último segundo. O soco pegou no chão, Satanás gritou, mão explodindo em sangue e osso quebrado.

Magrão usou os últimos segundos de consciência pra encaixar joelhada no saco. Satanás urrou, rolou pro lado.

Os dois ficaram no chão, tentando respirar.

Seu Zé Catita levantou da cadeira. Olhou pros dois. Bateu a bengala cinco vezes — sinal raro. Empate técnico. Ninguém andando, mas ninguém carregado.

Dois homens entraram no círculo, pegaram Satanás pelos braços, arrastaram. Ele cuspia sangue, mão quebrada pendurada torta.

Outros dois pegaram Magrão. Levantaram com cuidado. O capitão mal ficava de pé. Rosto desfigurado, olho fechado, costelas quebradas.

Carregaram pra fora do círculo. Geraldo correu, segurou Magrão antes que caísse.

— Capitão…

Magrão cuspiu sangue, tentou sorrir com a boca inchada.

— Empate… é vitória… pra velho.

Sentaram ele na beira da laje, encostado no muro. Respiração rouca, difícil. Cada movimento doía.

Seu Zé Catita voltou pra cadeira. Bateu a bengala três vezes. Olhou pra multidão.

— Quem mais?

Silêncio absoluto.

O velho olhou para os dois lutadores  que restavam na beira do círculo. Depois pros quatro policiais sem farda.

Apontou a bengala pra Geraldo.

— Ele. O que não piscou quando o capitão sangrou.

A multidão virou. Todos os olhos em Geraldo.

Magrão agarrou o pulso dele com a mão trêmula, voz fraca:

— Tu não precisa…

Geraldo olhou pro capitão. Três lutas. Venceu campeão. Venceu jovem. Empatou com veterano.

Magrão tinha provado.

Agora era a vez dele.

Tirou a camisa. Jogou no chão.

— Hoje eu preciso.

Entrou no círculo.

E o Evento ganhou novo rei.

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Sinopse Narrativa:

Magrão enfrenta Satanás — vice-campeão de 2019 — e sofre sua luta mais dura: é derrubado, montado, soco atrás de soco no rosto. Apenas um giro de cabeça no último segundo salva o capitão de ter a mandíbula quebrada. Empate técnico decretado por Seu Zé Catita. Geraldo, que quase interveio, é convocado pelo velho para entrar no círculo como substituto. Tira a camisa e entra.

Gênero Realismo Social, Thriller
Tom Brutal, Dramático, Tenso
Timeline Curitiba, Rio de Janeiro
Versão Jota Comandante, Sargento
Categoria Ação, Luta, Virada narrativa
Temas Lealdade e substituição, Limite do corpo, Sacrifício escolhido
Locais Favela, Laje, Morro, Rua, Vielas
Palavras-Chave bengala cinco vezes, empate técnico, Geraldo entra, Magrão quebrado, Satanás, substituto
Satanás: dezessete homicídios (que se sabia), vice-campeão de 2019, mão enfaixada após luta com Magrão. Empate técnico sinalizado com cinco batidas de bengala — sinal descrito como raro. Satanás pode voltar por não ter sido nocauteado. Magrão é carregado para fora do círculo com rosto desfigurado, olho fechado, costelas quebradas. Capítulo 4 de série em andamento.
 

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