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CAPÍTULO 5 — O SUBSTITUTO

Extensão: 1.087 palavras | Leitura: 6 min

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Geraldo pisou no giz com o coração explodindo no peito. Boca seca. Mãos tremendo. Olhou pras próprias botas — surradas, cadarço direito solto como sempre. Respirou fundo. Cheiro de sangue, suor, pólvora velha.

Sete anos de BOPE e nenhum treinou pra isso.

Do outro lado do círculo, o quarto lutador entrou. Magro, alto, cheio de cicatriz. Tatuagem de santa no peito, lágrimas no rosto. Olhos injetados, mão tremendo — usuário pesado. Apelido: Rato. Dezesseis anos de rua. Matou seis. Três foram na cadeia, com as próprias mãos.

Rato sorriu mostrando dentes podres.

— Caveira novinho. Vamo ver se tu aguenta.

Geraldo não respondeu. Abriu a guarda, joelhos flexionados, mente calculando. Deixa ele gastar energia. Espera o erro. Não tenta trocar soco com doido.

Seu Zé Catita bateu a bengala.

Rato avançou como se tivesse mola nas pernas — rápido, descontrolado, chute baixo querendo estourar canela. Geraldo levantou o joelho, bloqueou, sentiu o impacto subir até o quadril. Contra-atacou com soco curto no plexo solar. O magro dobrou. Geraldo não esperou — joelhada subindo, pegou no meio do rosto. Nariz explodiu em vermelho vivo, sangue espirrando nas botas de quem tava na frente.

Rato caiu de joelhos, cuspiando dente.

Geraldo recuou dois passos, respirando fundo. Um.

A multidão começou o coro:

— Uhhhh… uhhhh…

Rato se levantou cambaleando, rosto coberto de sangue, sorrindo feito louco.

— Bate forte, porra. Gostei.

Avançou de novo — dessa vez sem técnica, só fúria. Sequência de socos largos, sem defesa. Geraldo bloqueou dois, levou um de raspão na têmpora. Mundo girou, ouvido apitando. Devolveu com cotovelada descendente na nuca. Som de carne rasgando madeira. Rato desabou de cara no chão.

Não levantou.

Seu Zé Catita bateu a bengala três vezes.

— Acabou.

Dois caras arrastaram Rato pra fora. Ele tremia, convulsionando, sangue escorrendo da boca.

Um cara na multidão deu passo à frente, mão indo pra faca na cintura. Olhava pro Rato caído com ódio.

Seu Zé Catita bateu a bengala uma vez. Forte.

— Ninguém toca no perdedor. Quem toca vira o próximo no círculo.

O cara parou. Mão saiu da faca. Recuou.

A regra era absoluta. Perdedor saía protegido. Vingança fora do Evento era permitida — mas só depois. Nunca imediatamente.

Geraldo ficou no centro do círculo, peito subindo e descendo rápido. Olhou pros próprios punhos — inchados, cortados. Doía. Doía bem.

Seu Zé Catita apontou a bengala pro quinto lutador.

— Entra.

Era montanha de músculo. 150 kg de puro ódio, pescoço de touro, barriga coberta de tatuagem. Apelido: Tanque. Ex-presidiário. Vinte anos de Bangu 1. Saiu do Evento de 2019 carregando dois adversários ao mesmo tempo, um em cada braço.

Tanque entrou no círculo devagar, confiante. Bateu no peito com as duas mãos, som oco de tambor.

— Vem, caveirinha.

Geraldo respirou fundo. Não vai ganhar no braço. Cansaço mata mais que soco.

Seu Zé Catita bateu a bengala.

Tanque avançou como caminhão sem freio — braços abertos querendo esmagar. Geraldo desviou por dentro no último segundo, chute na coxa do grandão. Som de madeira quebrando. Outro chute. Mais um. Tanque rosnou, virou pesado, tentou agarrar. Geraldo circulou, cotovelada nas costelas flutuantes. Som de osso rangendo.

Cinco minutos. Tanque respirava como fole furado, perna mancando. Geraldo ainda de pé, cansado mas controlando.

Agora.

Chute baixo na perna machucada. Tanque caiu de joelhos. Geraldo finalizou com joelhada na têmpora. O grandão desabou como prédio implodido.

A multidão urrou.

Geraldo recuou, pernas bambas. Dois.

Seu Zé Catita bateu a bengala. Olhou pro último lutador.

— Entra.

O sexto era Satanás. O mesmo que tinha destruído Magrão. Mão enfaixada com camisa rasgada, rosto inchado, mas olhos frios. Ainda estava de pé. Ainda queria sangue.

Empate não era derrota completa. Satanás tinha caído, mas não tinha sido nocauteado. Por isso podia voltar. Igual Magrão teria podido voltar se quisesse.

Mas diferente de Magrão, Satanás queria.

Satanás entrou no círculo devagar. Cuspiu sangue no chão. Olhou pra Geraldo.

— Magrão era velho. Tu é novo. Vai ser mais divertido.

Geraldo sentiu o cansaço pesando. Costelas doendo, punhos cortados, perna tremendo. Mas não recuou.

— Vem.

Seu Zé Catita bateu a bengala.

Satanás avançou — não com pressa, com certeza. Chute lateral que pegou na coxa de Geraldo. Dor explodiu como bomba. Geraldo mancou, bloqueou o segundo chute com o antebraço. Sentiu o osso quase quebrando.

Contra-atacou com sequência rápida — jab, direto, gancho. Satanás bloqueou os três, sorriu.

— Fraco.

Devolveu com gancho no fígado. Geraldo dobrou, mundo virando preto, gosto de bile na boca. Satanás encaixou joelhada subindo. Geraldo desviou por pouco, sentiu o vento passar.

Os dois recuaram, medindo dano.

A multidão calou. Até o coro parou. Tensão absoluta.

Geraldo olhou nos olhos de Satanás. Viu algo que reconheceu: cansaço. O homem tinha lutado com Magrão antes. Estava quebrado por dentro, só não mostrava.

Ele tá segurando dor. Usa isso.

Geraldo avançou — não com força, com velocidade. Chute baixo na perna, outro, outro. Satanás bloqueou, mas cada bloqueio doía. Geraldo mudou de nível — soco no fígado, onde Magrão tinha acertado antes. Satanás grunhiu, recuou.

Geraldo não parou. Sequência completa — jab, direto, gancho, joelhada, cotovelada. Pegou três limpos. Satanás cambaleou, cuspiu sangue.

Tentou um último gancho desesperado. Geraldo abaixou, deixou passar, encaixou uppercut que pegou no queixo. Satanás voou pra trás, caiu de costas no giz.

Não levantou.

Silêncio absoluto.

Geraldo ficou de pé no centro do círculo, peito arfando, sangue escorrendo pelos punhos. Olhou pra multidão. Ninguém se mexeu.

Mais três oportunistas apareceram, pensando que Geraldo estava quebrado. Geraldo os destruiu em segundos. Não eram dignos. A multidão nem aplaudiu. A superioridade era absoluta. Nenhum oferecia resistência real.

Finalmente, Seu Zé Catita levantou devagar da cadeira. Caminhou até o círculo. Parou na borda. Olhou pra Geraldo por um tempo longo.

Bateu a bengala três vezes no chão.

— O Evento tem novo campeão.

A multidão não gritou. Não aplaudiu.

Só abriu alas em silêncio.

Porque respeito, às vezes, é mais barulhento que qualquer urro.

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Sinopse Narrativa:

Geraldo enfrenta e vence cinco adversários em sequência: Rato (usuário frenético), Tanque (ex-presidiário de 150kg), Satanás (revanço do que destruiu Magrão) e mais três oportunistas sem relevância. Ao fim, Seu Zé Catita o declara novo campeão do Evento com o apelido "Cara Fechada" — por não ter sorrido nem ao vencer. A multidão responde em silêncio respeitoso.

Gênero Realismo Social, Thriller
Tom Catártico, Épico, Tenso
Timeline Curitiba, Rio de Janeiro
Versão Jota Comandante, Sargento
Categoria Ação, Clímax, Luta
Itens Essenciais Tênis surrado
Temas Novo nome e nova identidade, Respeito conquistado pela luta, Superação do limite físico
Locais Favela, Morro, Rua, Vielas
Palavras-Chave campeão, Cara Fechada, cinco lutas, Rato, Satanás revanço, Seu Zé Catita, Tanque
Único capítulo em que o tênis surrado com cadarço direito solto é explicitamente mencionado. Geraldo recebe o apelido "Cara Fechada" de Seu Zé Catita. Rato: 16 anos de rua, matou seis (três na cadeia com as mãos), usuário pesado, dentes podres. Tanque: 150kg, ex-presidiário, Bangu 1, carregou dois adversários ao mesmo tempo no Evento de 2019. A multidão não grita nem aplaude — responde em silêncio, que é descrito como "mais barulhento que qualquer urro." Capítulo 5 de série em andamento.
 

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