Três dias depois, Geraldo foi chamado no gabinete do Coronel Braga. Sala com ar-condicionado velho, cheiro de café requentado, foto do governador na parede.
Braga estava sentado atrás da mesa de fórmica, barriga de cerveja apertada no uniforme. Magrão estava em pé do lado, rosto ainda inchado mas já melhor. Olho abriu, lábios cicatrizando.
— Senta, sargento.
Geraldo sentou. Braga tamborilou os dedos na mesa, olhou pra ele por tempo longo. Depois suspirou.
— Eu devia te dar suspensão de trinta dias. Operação não autorizada. Abandono de equipamento. Enfrentamento desnecessário.
Pausa.
— Mas não vou fazer isso.
Abriu gaveta, tirou envelope pardo. Jogou na mesa.
— Nos últimos três dias, a gente recebeu quinze ligações. Cinco de liderança comunitária. Seis de facção. Quatro de vereador. Todos querendo falar com “o campeão do Evento”.
Braga se recostou na cadeira, que rangeu.
— Dois conflitos que iam virar guerra foram resolvidos com telefonema. Telefonema, Geraldo. Ninguém morreu. Vocês entenderam o que fizeram?
Geraldo e Magrão trocaram olhar.
— Entenderam que agora a gente tem voz. De verdade. Não é respeito à farda. É respeito ao Evento. E isso vale mais que qualquer operação.
Braga acendeu cigarro (proibido ali dentro), tragou fundo.
— Comando geral tá puto. Querem investigação. Querem saber como vocês subiram sem autorização. Eu empurrei com barriga. Falei que foi “inteligência tática”. Eles engoliram. Por enquanto.
Olhou direto pra Geraldo.
— Tu é campeão agora. Isso tem peso político. Nos próximos meses, tu vai ser chamado pra negociar. Pra mediar. Pra evitar guerra. Não é teu trabalho oficial, mas é o trabalho mais importante que tu vai fazer.
Magrão falou baixo:
— E ano que vem tem Evento de novo. Se o Geraldo não defender título, a gente perde tudo.
Braga assentiu.
— Por isso eu quero vocês dois em dupla. Magrão coordena, Geraldo executa. Operações selecionadas. Prioridade: evitar sangue.
Geraldo finalmente falou:
— E se der merda?
Braga sorriu sem humor.
— Aí vocês viram bode expiatório e eu finjo que nunca autorizei nada.
—
Seis meses depois.
—
Geraldo sentado no Caveirão, esperando. Magrão do lado, fumando. Rádio crepitando baixo.
Estavam na divisa entre Rocinha e São Conrado. Conflito entre duas facções — disputa de ponto. Já tinha três mortos na semana. Tendência era escalada: dez, vinte, cinquenta.
Antigamente, BOPE entrava atirando. Prendia quem sobrava. Corpos iam pro IML, estatística subia, governador prometia “tolerância zero”, nada mudava.
Hoje era diferente.
Magrão pegou o rádio, ligou na frequência aberta (que todo mundo ouvia).
— Aqui é o Major Magrão. Cara Fechada tá comigo. A gente quer conversa. Meia hora. Local neutro. Ou a gente sobe e ninguém negocia nada.
Silêncio de dois minutos. Depois voz distorcida:
— Quadra da escola. Quinze minutos.
Desligou.
Magrão olhou pra Geraldo.
— Vamo lá.
Foram à paisana. Sem colete, sem fuzil. Só pistola escondida (por garantia). Entraram na quadra. Dois caras de cada lado, armados, tensos. No meio: representante de cada facção.
Geraldo reconheceu um deles. Chico Nó, veterano, trinta anos de tráfico. O outro era novo, uns 25, tatuagem de relógio parado no antebraço.
Chico Nó olhou pra Geraldo, sorriu mostrando ouro.
— Cara Fechada. Lenda viva.
Geraldo não sorriu.
— Vim pra evitar massacre. Vocês vão sentar e resolver ou a gente fecha tudo aqui por um mês no mínimo. Sem ponto, sem lucro, só prejuízo.
Chico Nó olhou pro outro, que cuspiu no chão.
— Esse moleque matou meu primo.
Geraldo olhou pra ele.
— E tu matou o irmão dele. Fica empatado. Ou vocês param ou eu paro vocês. Escolhe.
Silêncio tenso. Mãos foram pras armas.
Geraldo não se mexeu. Só olhou.
Depois de dez segundos, Chico Nó riu.
— Tá bom, campeão. Respeito vale mais que bala. A gente senta.
Conversaram por quarenta minutos. Dividiram território. Acertaram preço. Ninguém feliz, mas ninguém morto.
Quando Geraldo e Magrão saíram, Chico Nó chamou:
— Ô, Cara Fechada! Em breve tu defende o título, né?
Geraldo virou.
— Defendo.
— Então eu vou assistir. Quero ver se tu é bom mesmo ou se foi sorte.
Geraldo sorriu pela primeira vez.
— Vai ver.
—
Doze meses depois — 2021
—
Nos últimos meses, Magrão tinha colocado um soldado novo pra acompanhar Geraldo nas negociações. Rodrigues, 20 anos, recém-formado na academia. Olhava pro sargento como se fosse lenda viva. Geraldo achava irritante, mas o moleque era competente.
Geraldo defendeu o título em 2021. Treze lutas, a mais difícil com o adversário: Tatu, veterano de 35 anos, corpo marcado de cadeia. Levou dois minutos pra derrubar. Geraldo voltou com três costelas trincadas, mas venceu.
Segundo título.
—
2022
—
Geraldo defendeu de novo. Oito infelizes, o mais forte adversário: Cobra, lutador do Jacarezinho, vinte e poucos anos, rápido como cobra mesmo. Um minuto e meio — levou joelhada que quebrou costela, cuspiu sangue no giz. Mas virou no final, gancho limpo que desligou o cara.
Terceiro título.
Mas algo estava mudando.
Geraldo começou a perceber. Mortes de facção caíram. Mortes de milícia subiram.
Nas negociações, ele via: padaria pagando “segurança”. Mototáxi pagando pedágio. Gás controlado. Água controlada. Milícia crescendo.
Magrão avisou três vezes:
— Tá vendo a extorsão aumentar? Padaria pagando “segurança”? Mototáxi pagando pedágio? Isso é milícia crescendo.
Geraldo sabia. Mas achava que não era problema dele. Problema dele era facção. Milícia? Responsabilidade de outra equipe. Milícia era “polícia aposentada”, tecnicamente legal. Não era traficante. Era… complicado.
Até não ser.
—
2023
—
Geraldo defendeu título pela terceira vez. Três, tentaram, sem chance, desanimou outros. O principal adversário era fraco, veterano cansado que não deveria ter entrado. Geraldo venceu em um minuto.
Quarto título. Tetracampeão.
Mas nesse ano, algo mudou.
Na multidão, Geraldo viu um cara novo observando. Magro, nervoso, olhos esbugalhados. Ficou parado na segunda fila, assistindo tudo sem piscar. Alguém sussurrou o nome: Kisuco.
Geraldo guardou na memória.
—
Porque nas lutas paralelas — aquelas da manhã, onde jovens provavam valor — um nome começou a crescer nos últimos anos: Kisuco.
Ninguém sabia de onde veio. Apareceu do nada em 2021, magro, sujo, tatuagem mal-feita. Lutou nas paralelas. Venceu. Voltou em 2022. Venceu de novo. Em 2023, venceu todas as lutas paralelas, estava obtendo respeito.
Não tinha técnica refinada, mas tinha fome. Lutava sujo. Mordia, arranhava, cuspia. Ganhava.
E fora do Evento? Matava miliciano.
Não morador. Não trabalhador. Só miliciano.
Extorsionário que cobrava pedágio? Kisuco matou. Miliciano que controlava gás? Kisuco matou. Cabo aposentado que tocava boca de fumo pra político? Kisuco matou.
Doze mortos em dois anos. Todos milicianos.
E o nome dele crescia. Respeito vinha junto.
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Cada ano mais difícil pra Geraldo, não pelos adversários. O corpo começou a cobrar: joelho inchado, costela que nunca cicatrizou direito, dor no ombro que não passava.
E pior: conflito interno.
Geraldo negociava com traficante, evitava guerra entre facções. Mas não mexia com milícia. Achava que não era problema dele.
Mas via. Via mãe pagando “taxa de segurança” senão filho apanhava. Via dono de bar pagando pra não ter loja queimada. Via mototáxi pagando pedágio todo dia.
Milícia crescia nas costas dele enquanto ele negociava com facção.
E isso corroía.
Começou a dormir mal. Beber mais. Treinar menos. Questionar tudo.
Em 2024, quando subiu pro quinto título, sabia quem ia enfrentar.
Kisuco.
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