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CAPÍTULO 8 — A QUEDA

Extensão: 1.541 palavras | Leitura: 8 min

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Novembro de 2024.

Sinalizador verde subiu às 13h. Geraldo tinha 37 anos. Rodrigues tinha 24. Magrão ficou embaixo — joelho destruído, não subia morro mais.

Os dois subiram juntos.

Quando chegaram, multidão maior que nunca. Seu Zé Catita ainda vivo (oitenta e tantos, ninguém sabia exato), bengala mais manchada que antes.

Lutas paralelas já tinham terminado. Kisuco tinha vencido todas de novo. Agora era hora do palco principal.

Geraldo entrou no círculo. Venceu a primeira luta — adversário jovem, forte, mas Geraldo tinha experiência. Levou um minuto. Saiu sangrando, mas venceu.

Segunda luta: veterano de quarenta anos, corpo marcado de cadeia. Luta dura. Geraldo levou cotovelada nas costelas que fez o mundo girar. Venceu no final, mas custou.

Estava cansado. Velho. Lento.

Seu Zé Catita apontou a bengala.

— Próximo.

Kisuco entrou.

Vinte e oito anos. Magro, nervoso, olhos esbugalhados como sempre. Tatuagem “Deus é fiel” no peito (ironia, porque Deus não tava vendo o que ele fazia). Três lágrimas no rosto. Dente de ouro podre no canto da boca.

Os dois se mediram no centro do círculo.

A multidão ficou muda. Sabiam o que isso significava.

Geraldo — tetracampeão, quatro anos defendendo, trinta e sete anos, BOPE, lenda viva.

Kisuco — jovem, faminto, matador de miliciano, subindo rápido.

Rei velho vs. rei novo.

Seu Zé Catita bateu a bengala.

A luta começou.

Os dois eram monstros.

Geraldo com mais de sete anos de BOPE, quatro títulos do Evento, corpo que ainda lembrava como matar. Kisuco com fome de lobo, três anos subindo nas paralelas, doze milicianos mortos, zero medo.

Circularam devagar. Medindo. Testando.

Kisuco atacou primeiro — jab rápido, direto, gancho. Geraldo bloqueou os três, contra-atacou com cotovelada. Pegou de raspão. Kisuco cuspiu sangue, sorriu.

Geraldo avançou — sequência antiga, treinada mil vezes. Chute baixo, soco no fígado, joelhada. Kisuco bloqueou dois, levou um limpo no fígado. Dobrou, grunhiu, não caiu.

Trocaram por cinco minutos. Soco, chute, cotovelada, joelhada. Sangue dos dois pingando no giz. A multidão entrou no coro:

— Uhhhh… uhhhh…

Geraldo sentiu o corpo cobrando. Joelho travando. Costela que nunca cicatrizou latejando. Respiração pesada. Trinta e sete anos.

Kisuco sentiu também. Braço doendo. Queixo rachado. Mas tinha vinte e oito. Nove anos de diferença.

Os dois recuaram, medindo dano.

Mas havia outra coisa.

Geraldo não estava presente. Mente dividida. Pensando em milícia crescendo. Em mãe pagando extorsão. Em problema que ele ignorou por anos. Conflito interno corroendo concentração.

Kisuco viu. Olhos de predador reconhecem presa distraída.

Kisuco avançou de novo — gancho largo querendo finalizar. Geraldo desviou, encaixou uppercut subindo. Pegou limpo no queixo.

Kisuco voou pra trás, caiu de costas no giz.

A multidão urrou.

Geraldo respirou fundo. Achando que tinha vencido.

Mas Kisuco levantou.

Cambaleando, cuspindo sangue, mas levantou. Olhos vidrados. Três segundos desacordado no chão. Instinto puro.

Geraldo avançou pra finalizar.

Foi quando Kisuco viu.

Geraldo mancando da perna esquerda. Favorecendo o lado direito. Ponto cego. Joelho que não dobrava direito.

Kisuco girou o corpo. Chute lateral vindo da esquerda — no ponto exato que Geraldo não estava protegendo.

Pegou na têmpora. Som de sino rachando.

Geraldo sentiu o mundo virar preto. Pernas viraram água. Caiu de lado.

Fora do círculo de giz.

Apagou.

Seu Zé Catita bateu a bengala três vezes.

— Acabou.

Kisuco ficou de pé, cambaleando, peito arfando. Quase caiu. Mas não caiu.

Dois caras entraram, pegaram Geraldo pelos braços, arrastaram pra fora. Ele respirava, mas desacordado. Sangue no rosto, olho fechado.

A multidão ficou em silêncio.

Não foi domínio. Foi sorte. Ponto cego. Nove anos de diferença.

Mas no Evento, sorte conta.

Rodrigues na beira do círculo, vendo Geraldo cair.

Coração explodindo. Geraldo era herói dele. Mentor. Não podia perder assim.

Kisuco no centro, peito arfando, olhando pros outros desafiantes que esperavam.

Seu Zé Catita apontou a bengala pro próximo.

Rodrigues deu passo à frente.

— Eu entro!

A multidão murmurou. Substituto pode entrar se campeão cair. Tradição permitia.

Seu Zé Catita olhou pra ele. Reconheceu — o soldado novo, o que sempre vinha com Geraldo.

— Substituto pode entrar.

Bateu a bengala. Permitido.

Rodrigues entrou correndo, peito estufado, punhos cerrados. 24 anos. Acreditava em tudo. Acreditava em heróis.

Kisuco sorriu mostrando dente de ouro podre.

— Vem, playboyzinho.

A luta foi rápida. Brutal.

Kisuco não lutava pra vencer. Lutava pra destruir.

Quebrou o braço de Rodrigues no primeiro minuto. Som de galho seco. Rodrigues gritou, mas não desistiu. Continuou.

Kisuco quebrou o joelho dele. Rodrigues caiu.

Devia ter acabado ali.

Seu Zé Catita levantou a bengala.

Mas Kisuco não parou.

Pisou na cabeça de Rodrigues contra o giz. Uma vez.

Torres gritou da beira:

— PARA!

Lima segurou ele.

Duas pisadas.

Sangue espirrando.

Três pisadas.

Osso rangendo.

Quatro.

O crânio cedeu.

Do lado de fora do círculo, Geraldo começou a voltar.

Primeiro veio o som — murmúrio baixo, coro da multidão. Depois a dor — cabeça explodindo, costelas latejando, gosto de sangue na boca.

Forçou os olhos a abrirem.

Viu Kisuco no centro do círculo. Em cima de um corpo.

Demorou três segundos pra reconhecer.

Rodrigues.

Braço quebrado. Joelho arrebentado. Cabeça… cabeça esmagada.

— NÃO!

Geraldo tentou levantar. Torres segurou ele, voz baixa:

— Não, sargento. Acabou. Ele entrou no teu lugar. Tu caiu fora do círculo. Não pode voltar.

Geraldo empurrou Torres, tentou ir pro círculo. Baiano e Lima seguraram também.

— ELE ENTROU PORQUE EU CAÍ! DEIXA EU…

Seu Zé Catita bateu a bengala no chão. Uma vez. Seca.

Olhou pra Geraldo. Voz que cortou o ar:

— Campeão caiu fora do círculo. Substituto lutou. Perdeu. Campeão não volta.

A multidão ficou muda. Até pra eles, aquilo foi demais.

Seu Zé Catita bateu a bengala cinco vezes — violação. Kisuco tinha matado quando não precisava.

Mas era tarde.

Rodrigues estava morto.

Geraldo parou de lutar. Caiu de joelhos, aconteceu a ultima coisa necessária para quebrar o psicológico dele.

Olhou pro corpo de Rodrigues sendo arrastado pra fora.

24 anos. Filho de três meses. Nome: Lindosmar.

Morto no lugar dele.

Kisuco cuspiu sangue no chão. Olhou pros outros desafiantes que esperavam.

Seu Zé Catita apontou a bengala pro terceiro.

— Entra.

Era veterano. Quarentão, corpo marcado de cadeia, tatuagem de cemitério no peito. Apelido: Crocodilo. Matou onze. Saiu de Bangu 1 fazia dois meses. Ex-campeão de 2019. Tinha perdido pra Magrão em 2020 e desde então voltava todo ano tentando reconquistar o título. Nunca conseguiu — perdia nas primeiras lutas ou no meio do caminho. Crocodilo entrou devagar, confiante.  Olhou pro corpo de Rodrigues sendo carregado. Depois pra Kisuco.

— Tu é louco, moleque. Mas é forte. Vamo ver se aguenta mais um.

Kisuco não respondeu. Só abriu a guarda.

Seu Zé Catita bateu a bengala.

A luta foi longa. Sete minutos. Crocodilo era experiente — bloqueava, contra-atacava, economizava energia. Mas Kisuco era fome. Não parava. Não cansava.

Gancho no fígado. Crocodilo dobrou. Joelhada subindo. Pegou no queixo. O veterano caiu de costas.

Não levantou.

Seu Zé Catita bateu a bengala três vezes.

— Acabou.

Três.

Kisuco ficou no centro, peito arfando, sangue escorrendo pelos punhos. Olhou pro último desafiante.

Era jovem. Vinte e poucos anos. Magro, rápido, olhos famintos. Apelido: Foguete. Subia rápido no Jacarezinho. Queria nome.

Foguete entrou correndo, sem esperar bengala. Avançou com tudo — sequência de socos rápidos, chutes baixos, joelhadas.

Kisuco bloqueou dois, levou três. Mas não recuou.

Devolveu com cotovelada na têmpora. Foguete cambaleou. Kisuco finalizou com uppercut que pegou limpo. O jovem voou pra trás, caiu no giz.

Tentou levantar. Não conseguiu.

Seu Zé Catita bateu a bengala três vezes.

— Acabou.

Quatro.

O velho levantou da cadeira. Caminhou até o círculo. Olhou pra Kisuco — ensanguentado, peito arfando, mas de pé.

Bateu a bengala no chão.

— O Evento tem novo campeão.

A multidão não gritou. Não aplaudiu.

Só abriu alas em silêncio.

Kisuco saiu do círculo cambaleando. Passou por Geraldo, que ainda estava de joelhos, olhando o corpo de Rodrigues.

Parou. Olhou pra baixo.

Geraldo olhou pra cima.

Por que não me matou quando eu caí?

Kisuco leu a pergunta no rosto dele. Sorriu mostrando sangue nos dentes.

— Tu caiu fora do círculo, velho. Não posso matar fora do giz. Regra é regra.

Cuspiu sangue no chão.

— E eu quero que tu viva. Quero que tu veja o que eu vou construir. Quero que tu saiba que caveira não serve pra nada.

Pausa.

— Tu não vale a pena. Tu já tá morto. Só não sabe ainda.

Virou as costas. Saiu.

A multidão carregou ele nos ombros.

Geraldo ficou ali.

Vendo o corpo de Rodrigues ser carregado.

Vendo Kisuco ser levantado como rei.

Kisuco tinha razão.

Ele já estava morto.

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Sinopse Narrativa:

Novembro de 2024. Geraldo, 37 anos, sobe com Rodrigues (Magrão ficou embaixo com joelho destruído). Vence duas lutas antes de enfrentar Kisuco. A luta é equilibrada até Kisuco explorar o joelho comprometido de Geraldo — chute na têmpora derruba o tetracampeão fora do círculo. Rodrigues entra como substituto por lealdade e é morto por Kisuco com pisadas no crânio. Geraldo recupera a consciência e vê o corpo do soldado sendo carregado. Kisuco vence mais dois adversários e é declarado novo campeão. Ao passar por Geraldo de joelhos, afirma que o deixou viver de propósito — para que testemunhe o que está por vir.

Gênero Realismo Social, Thriller
Tom Brutal, Trágico
Timeline Curitiba, Rio de Janeiro
Versão Jota Comandante, Sargento
Categoria Ação, Queda do herói
Temas Morte do inocente como consequência do mito, Poder que passa de geração, Queda do herói por conflito interno
Locais Favela, Laje, Morro, Rua, Vielas
Palavras-Chave 2024, joelho, Kisuco, morte, ponto cego, queda, Rodrigues, substituto, tetracampeão
Rodrigues tinha 24 anos, filho de três meses, nome Lindosmar. Magrão não sobe por joelho destruído — ausência crucial. Kisuco viola a tradição ao continuar pisando após a queda de Rodrigues — Seu Zé Catita decreta violação com cinco batidas, mas tarde demais. Crocodilo retorna (ex-campeão 2019, perdeu para Magrão em 2020, voltava todo ano sem vencer) e perde para Kisuco em sete minutos. Foguete (Jacarezinho, vinte e poucos anos) é o quarto adversário de Kisuco — derrotado rapidamente. Kisuco poupa Geraldo conscientemente: "quero que tu veja o que eu vou construir." Capítulo 8 — série em andamento.
 

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