Novembro de 2025. Um ano depois.
Sinalizador verde subiu às 13h de novo. Mesmo ritual. Mesmo dia. Só o local mudou — dessa vez foi no Jacarezinho, território que Kisuco agora controlava.
Geraldo assistiu de longe.
Não entrou. Ficou três quarteirões abaixo, encostado num muro, garrafa de cachaça na mão. Sem farda. Sem distintivo. Só homem quebrado.
Um ano tinha passado. Um ano no inferno.
—
Os primeiros três meses depois da morte de Rodrigues:
Geraldo pediu licença médica. BOPE concedeu — trinta dias. Virou sessenta. Virou noventa.
Coronel Braga ligou duas vezes. Geraldo não atendeu.
Magrão apareceu na porta do apartamento uma vez. Geraldo não abriu.
Bebia. Sozinho. Todo dia.
Acordava meio-dia. Comprava garrafa. Bebia até apagar. Repetia.
A mulher e o filho já tinham ido pra Portugal fazia meses — antes mesmo do Evento de 2024, quando Geraldo começou a mexer com coisa errada. Ele mandava dinheiro, mas não ligava. Quanto menos contato, mais seguro. Protegia eles ficando longe.
Sozinho no apartamento do Piedade. Duas garrafas por dia. Três nos fins de semana.
Rodrigues morreu no meu lugar.
Pensamento que acordava com ele, dormia com ele, nunca saía.
—
Quatro meses depois:
BOPE mandou notificação. Licença médica vencida. Ou volta ou pede exoneração.
Geraldo pediu exoneração.
Doze anos de caveira. Acabou num papel assinado.
Magrão ligou de novo. Dessa vez Geraldo atendeu.
— Sargento…
— Não sou mais sargento.
— Geraldo. Tu não pode desistir assim.
— Rodrigues morreu no meu lugar, Magrão. Eu caí. Ele entrou. Morreu. Por minha causa.
— Não foi…
— Foi.
Desligou.
Não atendeu mais.
—
Seis meses depois:
Dinheiro acabando. Aluguel atrasado. Geladeira vazia.
Geraldo arrumou bico. Segurança de bar. Turno da noite. Pagava mal, mas pagava.
Ficava na porta, olhando bêbado entrar e sair. Ironia: ele era os dois. Segurança e bêbado.
Um dia, dois caras tentaram assaltar o bar. Geraldo desarmou os dois em dez segundos. Mão na garganta, joelho no chão, instinto.
Patrão ficou impressionado.
— Cara, tu foi polícia?
— Fui.
— BOPE?
— Fui.
— Por que saiu?
Geraldo olhou pra garrafa vazia no balcão.
— Porque eu deixei mais um morrer.
Não explicou mais.
—
Outubro de 2025:
Geraldo ouviu nas ruas: Kisuco tinha unificado.
Rocinha, Alemão, Jacarezinho, Maré. Quatro favelas. Um comando.
Não com guerra. Com respeito do Evento.
Mortes caíram 60%. Milícia expulsa de três territórios. Mototáxi não pagava mais pedágio. Padaria não pagava mais “segurança”.
Kisuco tinha trazido vida.
E Geraldo? Geraldo trabalhava de segurança de boteco. Bebia a folga. Dormia em apartamento sujo.
Rodrigues morto. Kisuco vivo. Mundo virado.
—
Novembro de 2025. Dia 24. 13h.
Sinalizador verde subiu.
Geraldo viu de longe. Três quarteirões abaixo. Garrafa na mão.
Pensou em subir. Não como lutador. Só pra ver.
Não subiu.
Ficou ali, encostado no muro, bebendo.
—
14h. Evento começou.
Geraldo sabia o que tava acontecendo lá em cima. Kisuco ia defender o título.
Imaginava a multidão. O círculo de giz. Seu Zé Catita (se ainda tivesse vivo). O coro. A tradição.
Bebeu mais.
—
16h. Evento terminou.
Notícia chegou rápido. Boca a boca. Moleque gritando na rua:
— Kisuco venceu de novo! Três lutas! Campeão!
Geraldo fechou os olhos.
Kisuco tinha defendido. Consolidado.
Geraldo tinha caído. Afundado.
—
17h.
Geraldo jogou a garrafa vazia no lixo. Caminhou até a pensão onde morava agora — dez metros quadrados, Rocinha, aluguel barato.
Sentou na cama. Pegou o caderno marrom (ainda tinha ele, sempre tinha). Abriu na última página em branco.
Mão tremendo.
Escreveu:
“Rodrigues morreu há um ano. Hoje Kisuco defendeu título. Campeão de novo. Eu assisti de longe. Bêbado. Sozinho. Sem farda. Sem família. Sem nada.
Kisuco trouxe paz. Eu trouxe morte.
Ele venceu. Eu perdi.
E o pior: ele tinha razão. Eu já tava morto. Só não sabia ainda.”
Fechou o caderno.
Pegou o isqueiro amarelo quebrado (ainda guardava, sempre guardava). Tentou acender.
Não pegou. Nunca mais pegou.
Jogou na parede.
Não quebrou mais. Já tava quebrado.
—
Deitou na cama. Janela aberta. Barulho de moto, cachorro, funk, vida.
Vida que ele não fazia mais parte.
Dormiu.
Sonhou com Rodrigues. Com o crânio sendo esmagado. Com Kisuco sorrindo.
Acordou gritando.
3h da madrugada. Suor frio. Mão tremendo.
Foi até a janela. Olhou pra favela.
Luzes acesas. Gente vivendo. Paz.
Kisuco tinha trazido paz.
E Geraldo? Geraldo tinha trazido morte.
Mas algo mudou naquela noite.
Porque três quarteirões pra cima, algo ia acontecer que ia mudar tudo de novo.
Político não gosta de paz.
E quando político não gosta, político age.
