Geraldo abriu os olhos e não havia céu.
Só um vazio azulado, pulsando como veias sob pele fina. O ar tinha cheiro de plástico quente e açúcar queimado, aquele cheiro de brinquedo novo que ficou muito tempo no sol. Não havia chão firme; o que existia era uma membrana translúcida que cedia levemente a cada passo, como pisar em gelatina viva.
Ele sabia que estava dentro de alguém.
Não era a primeira vez que entrava numa mente — já tinha feito isso por acidente, em sonhos lúcidos alheios, em viagens ruins, em noites que não acabavam. Mas nunca tinha ficado tanto tempo. Nunca tinha sido convidado sem saber.
A camiseta regata vinho que vestia no mundo real ainda parecia grudar na pele, fantasma de sensação. Os tênis surrados (cadarço direito sempre solto) tinham sumido na travessia.
À frente, sentada de pernas cruzadas, uma menina de uns dez anos segurava um tablet quebrado. A tela rachada soltava fiapos de luz que subiam como fumaça. Os dedos dela estavam sujos de azul e rosa neon. Ela não olhava para ele. Olhava através dele, como se Geraldo fosse só mais um borrão mal renderizado.
— Oi… — ele tentou, voz baixa, quase carinhosa. — Onde eu tô?
A menina franziu a testa. O horizonte inteiro tremeu, como se alguém tivesse dado um tapa na água. Ela apertou o tablet contra o peito. O ar ficou mais pesado.
Geraldo sorriu de canto. Já sabia o nome dela antes dela dizer.
Lira.
Sabia também que aquele lugar inteiro — as ruas que só apareciam quando alguém pisava, as árvores que cresciam tortas porque ela não lembrava direito como eram as de verdade, o sol que mudava de cor conforme o humor — era dela. Tudo aquilo era Lira sonhando acordada, com a mente ligada no 220, processando o dia inteiro sem desligar nunca.
Ele deu um passo. O chão rangeu como plástico bolha.
— Eu me perdi — disse, fingindo confusão. — Você sabe o caminho pra casa?
Lira olhou finalmente. Os olhos eram grandes, castanhos, cansados demais para uma criança. Tinha olheira roxa que parecia tinta permanente.
— Não tem casa — ela respondeu, voz fina mas firme. — Aqui é tudo.
Geraldo sentou-se devagar, a uma distância segura.
— Tudo o quê?
— Tudo que eu penso vira. Tudo que eu esqueço some. Tudo que eu tenho medo vira monstro. Tudo que eu gosto fica pra sempre.
Ela falou como quem recita regra de jogo que já cansou de jogar.
Geraldo assentiu, como se entendesse perfeitamente.
— E você… tá gostando de jogar sozinha?
Lira deu de ombros. O horizonte deu um estalo. Um prédio inteiro nasceu torto à esquerda, feito de Lego derretido.
— Não tem ninguém pra jogar comigo.
— Agora tem eu.
Ela olhou o tablet rachado. A tela piscou uma foto antiga — um homem de barba sorrindo, uma mulher segurando um bebê. A imagem tremia, como sinal ruim.
— Você vai embora — ela disse. — Todo mundo vai.
Geraldo sentiu o primeiro aperto real no peito. Não era medo. Era oportunidade.
Porque ele sabia o segredo que ninguém ali sabia ainda: se Lira acordasse de verdade, aquele mundo inteiro desmoronava. Inclusive quem estivesse dentro.
E ele não pretendia desmoronar.
— Eu não vou embora — ele disse, voz calma, quase paternal. — Eu sei ficar.
Lira ergueu uma sobrancelha.
— Como?
— Me ensina as regras. Eu aprendo rápido.
Ela hesitou. O tablet apagou de vez. A luz dos dedos dela diminuiu um tom.
— Regra um — sussurrou. — Não pode acordar.
— Entendi.
— Regra dois. Não pode mentir.
Geraldo sorriu mais largo.
— Eu nunca minto. Só simplifico.
Lira olhou para ele um tempo longo. O mundo inteiro pareceu prender a respiração.
Então ela estendeu a mão suja de luz.
— Tá. Pode ficar.
Geraldo segurou a mão dela. Estava quente. Pulsante. Infinita.
E naquele exato segundo, o horizonte parou de tremer.
O mundo tinha dono novo. Só que Lira ainda não sabia.
